17 de março de 2017

A Cabeça do Santo (Socorro Acioli)

Nada mais justo do que voltar a postar no blog escrevendo um texto sobre um maluco que escuta vozes dentro da cabeça de um santo, não é verdade? Se você perdeu o fôlego logo na primeira frase deste texto, eu não respondo por mim. Faz tempo que não faço isso, blogar, então é provável que não me preocupe com vírgulas até porque isso só atrapalha e ninguém sabe como usá-las mesmo, então foda-se, vamos ao que interessa.

A mãe de Samuel morreu. Mariinha era uma santa aos olhos de seu filho, penou muito na vida e foi abandonada pelo pai da criança, o Manoel, quando ainda estava grávida. Manoel tinha um trabalho a fazer em outra cidade e nunca mais voltou nem deu sinal de vida. Grávida e solteira, Mariinha trança chapéus para sustentar Samuel. O menino cresce, a revolta se estabelece e essa rima foi involuntária, eu juro.

Pois bem, Mariinha (é com dois i mesmo) morre, não sem antes fazer três pedidos ao filho Samuel: acenda uma vela aos pés das imagens de Santo Antônio, São Francisco e de Padre Cícero (na verdade, eu me esqueci do nome do terceiro santo, mas acho que era Padim Ciço mesmo). Além de tudo isso, ele também deveria sair de Juazeiro do Norte e ir até Candeia para conhecer o pai, Manoel, e sua avó, Niceia – a velha que você mais respeitará na literatura nacional.

É aí que o livro começa: Samuel, maltrapilho, desnutrido, descalça, caminhando por dezesseis dias para chegar à Candeia e cumprir a promessa que fez para sua mãe no leito de morte. É aos poucos, página por página, que vamos entrando na vida e na raiva de Samuel. Ele quer conhecer o pai e depois matá-lo para vingar a vida triste que sua mãe levou.

O problema é que, chegando em Candeia, Niceia não o recebe de braços abertos, muito menos lhe dá um copo d'água. Samuel mais parece um vira-lata sarnento, mas não conquista a piedade da avó, que o manda carpir em outro terreno. A velha manda o pobre homem dormir em uma gruta, ali na casa dela ele não fica, e Samuel vai – se protege da tempestade que se inicia de repente, adormece na gruta e ao amanhecer descobre que estava dentro da cabeça de um santo!

O corpo do santo? Logo mais acima, decapitado. A cabeça, “degolada”, abandonada aos pés do morro. E mais: Samuel ouve as orações das mocinhas solteiras dentro da cabeça do santo, que é o Antônio, Toninho, nosso casamenteiro mais cobiçado, o coitado, que vive dentro d'água, no congelador, amarrado, de ponta-cabeça. Um santo sofrido, né.

A regionalidade da história foi o que me fez ler o livro. Eu amo histórias que envolvam o nordeste do país, o único Brasil verdadeiro, se é que você pediu minha opinião. Socorro Acioli é uma escritora da qual nunca ouvi falar, mas sua história me cativou logo na primeira página e pode ter certeza de que vou acompanhar seus próximas trabalhos (por favor, Socorro, nos tire desse círculo vicioso das grandes cidades do sudeste e traga o nordeste para mais perto de nós).

A história, em si, é original e tem a nossa cara. Há falhas no enredo e pontas sem nó, mas nada que comprometa a essência de uma história típica do nosso país, cheia de crenças, humor e jeitinho brasileiro. Basta uma pesquisa rápida na internet para compreender que Socorro se inspirou muito na literatura de Gabriel García Márquez. Bom, vocês sabem, Gabo (argh) não é lá a melhor pessoa do mundo para mim. Talvez o livro fosse um pouco melhor se Socorro não tivesse tentado tanto se encaixar no realismo fantástico dele. Fica a dica: crie seu próprio realismo fantástico.

São menos de 200 páginas, li em apenas uma noite (tudo bem que fui dormir às quatro da manhã) e fiquei querendo ler mais, muito mais. É uma história que tem potencial (tem necessidade, eu diria) de 300 páginas! As personagens secundárias – dr. Adriano, Madeinusa, Helenice, Franciso – ajudam, mas também atrapalham. Às vezes, ficam sem rumo, n'outras são peças importantes. Samuel é um protagonista bruto, genuíno, fácil de se apegar. Caso a história tivesse cem, duzentas páginas a mais, sem esforços, eu coloco minha mão no fogo: seria um novo clássico da nossa literatura. A Cabeça do Santo é uma história de raiva e tristeza, desencontros e injustiças, que nos mostra o que a vida brasileira é: única e fantástica de se viver.