30 de junho de 2015

Like a gay French king*

O meu primeiro celular foi um Butterfly, da LG. Não sei há quantos anos atrás isso aconteceu, mas me sinto livre para confessar que foi o meu aparelho favorito. Não fosse um outro modelo da LG que ganhei uns meses atrás, eu preferia ter ficado com o primeiro do que com os outros três que comprei ao longo dos anos. Não que eu seja garota propaganda da marca. Ali, na hora de escolher um novo celular, não sei o que me acontece que sempre descambo para um LG. Enquanto uns tiveram mais de dez modelos diferentes desde que os telemóveis se tornaram acessíveis, eu estou no meu quinto e contente com isso.

Finalmente, meu atual celular conseguiu fazer com que eu me desapegasse do primeiro fóssil que usei na vida. Até pouco tempo atrás eu ainda chorava pitangas por ter perdido meu Butterfly adorado (era mequetrefe, não tinha absolutamente nada, gráficos primários, nenhum pouco smart, no entanto muito querido). Isso porque, descobri recentemente, os meus celulares anteriores eram tão básicos quanto o primeiro. O penúltimo – inaugurando minha era smartphone – já estava ultrapassado na época em que comprei. É lógico que só descobri isso na hora de usá-lo, pois não sou (nem faço questão de ser) antenada. Na época eu estava a fim de brincar de Instagram e poder ver meus emails sem precisar levantar da cama logo cedo para ligar o desktop. Para tanto, o smartphone basicão dava, e ainda sobrava.

Até que um dia, todo mundo cansado de me ver com o meu tijolinho, ganhei um novo. Eu juro que não entendia a malquerança dos outros para com o meu aparelho. Ele me dava o que eu pedia, ora bolas. “Você não sabe o que quer”, respondiam, e hoje eu acho que eles estão certos. De certa forma, pelo menos, porque no fim das contas, ao me darem um novo celular, acordaram o monstro que me habita.


Percebi que a coisa estava séria quando comecei a procurar por aplicativos, veja bem, para viciados em celular – quão sem sentido é isso? De emails na parte da manhã antes de levantar, passei a checar também o Instagram, o Twitter, a jogar duas ou três partidas de Candy Crush Soda, comentar aqui, comentar ali, verificar mais outros aplicativos e quando vejo: uma hora se passou. São sessenta minutos em que eu poderia ter levantado, praticado yoga, tomado café conversando com meus cachorros e, enfim, ter aproveitado para melhorar minha qualidade de vida. Só para variar. Ao contrário, fiquei lendo piadas sem graça no Twitter, rindo no Youtube de cachorros com a cabeça presa em embalagens, ou dos The Try Guys do Buzzfeed, e procurando mais aplicativos de fotografia no Google Play como se eu já não tivesse o suficiente.

Ainda não me inscrevi num grupo anônimo porque não alcancei o estágio de ignorar pessoas, ficar cutucando os outros no Facebook mesmo tendo muita companhia numa reunião offline qualquer, ou deixar alguém no vácuo porque estou jogando conversa fora no Whatsapp. Minha boa educação permaneceu, então talvez não seja um caso sério. Continuo me revoltando com pessoas que andam na rua olhando para o celular ao invés de prestarem atenção no caminho; com amigos e familiares que se juntam numa mesa para cada um se isolar no seu próprio aparelho; com mães que postam foto de coco de bebê na timeline; com qualquer retardado, afinal, que estica o smartphone na minha frente me privando de curtir um show ao vivo.

Ou seja, eu tenho salvação, por isso não surtei nem trancafiei meu aparelho num cofre. Porém, estou alerta. A coisa, quando estou em casa sem socializar com alguém, está ficando cada vez mais séria. Às vezes estou com um olho no notebook e o outro no celular, como se não pudesse perder uma atualização sequer, seja do que for. Comecei a tomar medidas paliativas e ficar mais consciente das minhas atitudes – o perigo é deixar que isso se torne hábito. Antes, eu achava que não havia problema em viver agarrada no celular dentro de casa. Hoje, penso diferente. É um costume que pode se estender facilmente, pois enquanto em casa posso querer “dar uma conferida antes de sair” (como já aconteceu), e dessa conferida despretensiosa passo pelo quintal, fecho o portão, caminho pela rua. O ônibus demora, tiro o celular da bolsa, começo a jogar, a atualizar, o ônibus chega e eu continuo. Então, a praga se espalhou e terei de ser sacrificada.

Sim, o meu celular me ajuda bastante. É com ele que programo meu tempo de meditação, ouço meu Guru Gita antes de dormir, tem ASMR de chuva se não consigo dormir, tem calendário menstrual e uma infinidade de aplicativos que me ajudam e me deixam mais produtiva. O problema está em dar atenção para os outros 90% que são pura distração. Portanto, impus a mim mesma um desafio que consiste em manter o celular desligado por uma semana (ligando apenas quando sair de casa para eventuais contratempos do dia porque não está fácil para ninguém). Vai dar certo? Não faço a mínima ideia, e continuarei não sabendo se não tentar. Afinal, eu sou uma criança dos anos 90, uma adolescente dos anos 2000 e cresci muito bem, obrigada, sem celulares e computadores. Sou testemunha de que a vida existe e é possível de acontecer sem ter a tecnologia na palma da mão.

*a frase deste post foi retirada do stand up de Jerry Seinfeld apresentado no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon (vídeo acima). Apesar de algumas pessoas terem achado a piada ofensiva, obrigando o comediante a se retratar, para mim não passou de algo engraçado, pois não há nada de errado em ser gay, ou em ser um rei francês, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

26 de junho de 2015

Trupes circenses que na verdade são bandas

Eu procuro arte circense em tudo, é mais forte do que eu, desde referências ocultas até porcelanas trincadas com trapezistas pintados à mão. Todavia, não tenho pierrots espalhados pelo quarto (como uma vez me perguntaram por email), não ando de tutu na rua e meus sapatos são do tamanho 38. Para a decepção de muitos, eu sou até que bem normal.

Não é diferente com a música. Fico alegre quando alguma banda lança um álbum temático, um clipe ou uma única música (Britney Spears não inclusa porque me dou ao respeito). E daí eu fiz o quê? Reuni as bandas com pegada circense que já encontrei por aí!

Só não vou escrever a respeito de cada uma porque acho que este é o caso de ouvir. Sabe como é, banda circense (ou trupe, que seja), não quer dizer obrigatoriamente “música de circo”, com letras contando histórias de bailarinas e palhaços apaixonados, ilusionistas, leões e o escambal. Estou falando de uma leve essência, ou mesmo de referências. Apesar de algumas pessoas insistirem na mistura inusitada com o steampunk, há projetos que deram certo. Afinal, como gosto de afirmar: qualquer coisa que você vá fazer com arte circense exige bom senso. No mais, é uma chance para quem gosta de viver expandindo o conhecimento musical.

1. Circus Contraption



2. Babylon Circus



3. Triciclo Circus Band



4. Vagabond Opera


21 de junho de 2015

Sete coisas

A Thay, uma blogueira lindíssima que seria minha melhor amiga na vida real se eu tivesse uma vida fora da internet, me indicou para essa tag e salvou vocês de mais um texto sem sentido. Quero que todo mundo vá visitar o blog dela e deixe um comentário agradecendo a graça alcançada. É possível que eu já tenha respondido essa tag por aqui mas, se for o caso, já faz tanto tempo que vale a pena brincar de novo.

07 coisas para fazer antes de morrer:
Eu acabei de publicar um texto com cinco coisas para fazer antes de morrer, que inclui: 1) visitar uma praia naturalista; 2) fazer um retiro budista; 3) cultivar um bonsai; 4) fazer minha mãe feliz e; 5) participar de um Happy Holi (na Índia). Como a vida é curta demais para inventar mais sete peripécias, vou apenas adicionar as duas restantes: 6) parar de tomar ansiolíticos e antidepressivos e; 7) aprender a nadar e praticar natação regularmente porque é ridículo não saber nadar e ainda por cima amar estar dentro d'água.

07 coisas que eu mais falo:
1. Tenha dó!
2. Não.
3. Puta que pariu!
4. Tô com fome.
5. ARGH!
6. Viu? Eu avisei.
7. Já estava assim quando eu cheguei.

07 coisas que eu faço bem:
1. Até que eu desenho bem... (às vezes publico fotos no instagram)
2. Sei bordar (e se não soubesse morreria de fome).
3. Eu escrevo bem, sim. Com licença.
4. As pessoas dizem que o meu purê de batata é muito bom, mas nunca sei se estão sendo apenas simpáticas.
5. Limpar e organizar. Limpo e organizo que é uma beleza. Pode me contratar, que eu vou fazer milagres na sua casa.
6. Cortar cabelo. Ninguém acredita que corto o meu em casa (mas só o meu, jamais me entregue o seu).
7. Faço shavasana como ninguém.

07 coisas que me encantam:
1. Arte circense.
2. Neve e sol.
3. O céu europeu no outono.
4. Mozart (pedante, eu sei).
5. Livros.
6. Suíça.
7. Índia.

07 coisas que eu não gosto:
3. Pessoas que fazem barulho quando mastigam.
4. Odeio o perfume Kaiak com todas as minhas forças.
5. Publicitários.
6. Restaurante Giraffas. Fui levada na marra (porque eu jamais escolheria esse lugar) por duas vezes. Na primeira, o feijão veio sem sal. Na segunda, tudo o que eu pedia a atendente dizia que não tinha; e depois de encontrar qualquer coisa disponível, o pedido demorou quarenta minutos (contados) para ser servido.
7. Falsidade, quiabo e jiló (não necessariamente nessa ordem).

07 blogs para responder a tag:
Olha, eu bem que gostaria, mas não, obrigada. Nunca sei quem indicar e acho que vou chatear alguém se deixar de fora. Então fica assim: participa quem quiser. Muito mais democrático.

16 de junho de 2015

Boho: seis blogs que você precisa conhecer

Na verdade, você não precisa conhecer esses blogs, mas baixou uma jornalista sensacionalista em mim e saiu esse título aí. São só blogs que eu visito quase todos os dias. É claro que eu gosto dos looks (afinal, qual a finalidade disso?), mas o que mais me chama a atenção são os textos sobre yoga, meditação, saúde e alguns DIY. Boho, para mim, além de moda é também um estilo de vida. Cliquem nas imagens para acessar os links. Divirtam-se!





13 de junho de 2015

Os Luminares (Eleanor Catton)

Resolvi fazer um TBR para desencalhar alguns livros que jamais sairão da fila de espera se a escolha depender de mim. São títulos que quero muito ler, só que não – sempre me aparece algo mais urgente. Daí que Os Luminares, de Eleanor Catton, inaugurou o sorteio. É raro eu estar a fim de ler um calhamaço, então já provei para mim mesma que a ideia funciona mesmo: só assim para ler Ana Karênina, por exemplo. Só que eu comecei com o pé errado. Além de ser um tijolo que suprimiu boa parte do meu tempo, Os Luminares para mim não passou de um YA sofisticado que me daria mais prazer com 500 páginas a menos.

Algumas pessoas podem até ter ficado impressionadas com o início da história e, principalmente, com a promessa da sinopse. Comigo foi assim. O problema está no miolão, quando o combinado deveria ser cumprido. Pois estamos em Hokitika, no meio da corrida do ouro, banhados em ópio e láudano. Emery Staines desapareceu, uma prostituta está de luto, uma bala desapareceu após um revolver ser disparado, vestidos estão recheados de ouro e Crosbie Wells está morto. Todos os personagens, de alguma forma, estão conectados a Francis Carver, o homem que tem uma cicatriz no rosto.

Logo no início achei um exagero arrastar a trama por 880 páginas. O que eu não sabia era que 90% do livro não passava de uma história paralela, que o que realmente importava era o romance “mapa-astralmente” destinado entre dois personagens (não vou falar quais porque morro de medo de dar spoiler). Personagens, aliás, totalmente enfadonhos, cuja trajetória submissa em relação aos outros me deu uma gastura, que vocês sequer imaginam. No fim das contas, as revelações que eu tanto aguardava (e que me levaram à força até a última página) não passavam de uma cilada. Pelo menos de acordo com a minha experiência literária, ficou claro que a escritora começou a escrever de trás para frente. Os últimos capítulos nada mais são do que um esboço, um rascunho, da história em si. O que se principiou com capítulos graúdos, bem estruturados e com forte apelo, se encerrou com pedaços esparsos que incriminavam aquela velha falta de paciência do escritor com a própria história.

Estive a ponto de abandonar o trabalho árduo que foi ler esse livro quando alguns “mistérios” se solucionaram. Não posso deixar de dizer que outros ficaram de lado, ou foram resolvidos superficialmente. Então, eu faço a pergunta: como Eleanor Catton conseguiu ser superficial num livro de 880 páginas? Seria este, seu verdadeiro talento? Ou ela não quis jogar fora sua mais do que embasada pesquisa sobre a extração de ouro do século XIX? Pois isso não posso negar: a riqueza de detalhes com que a vida de Hokitika, uma cidade de mineiros, foi narrada. Não há um defeito a ser apontado na veracidade com que Eleanor ambientou o leitor. No entanto, quanto ao enredo, interligar um casal a um mapa astral e em relação a isso construir um paralelo com força suficiente para apenas 300 páginas foi um enfado que, sem sombra de dúvidas, não estava escrito nas estrelas.

9 de junho de 2015

Livros indianos

Eu amo a Índia. Quero dizer, temos uma relação muito íntima, estou fascinada, mas há um obstáculo que impede nosso enlace definitivo: a cultura. Quanto mais leio sobre o país e a cada vlog de indianos que assisto mais confusa fico. Índia: ame-a, ou deixe-a. Os indianos sabem ser esquisitos. No entanto, não descartei a possibilidade de estar sendo vítima do estereotipo. Sim, nós brasileiros sabemos muito bem o que é isso – para os estrangeiros, “todo brasileiro” sai do útero da mãe quicando uma bola de futebol. Para mim, “todo indiano” tem as vacas como sagradas e toma banho no Ganges. Por mais que haja muçulmanos, siques e outras centenas de religiosos, para nós a maioria é hindu.

Bom, o que eu faço com esse amor todo? Assisto Bollywood, me acabo com os dramalhões de Shahrukh Khan, com certeza. É claro que o cinema não passa de mais um anestésico, ainda mais para um país que vive fervilhando. Mas eu me permito esse guilty pleasure. Além disso, cada vez mais procuro ler livros e escritores indianos, ou que contam alguma história que se passou na Índia, ou que tenha qualquer coisa a ver com o assunto. Eu sinto a necessidade de compreendê-los, tenho curiosidade de ir mais a fundo e tentar encontrar algumas respostas. Por enquanto minha carga literária é bem leve, e de livros teóricos não conheço nada; decidi começar devagar, me divertir primeiro, ser iniciada sem susto. Depois de ter conhecido estes cinco livros, acho que foi a escolha certa.


1. Paixão Índia (Javier Moro): encontrei este num sebo, bem na hora em que havia decidido a ler mais sobre o país. Eu não sabia por onde começar exatamente – como nunca sei –, e uma biografia romanceada talvez tenha sido arriscado. Entretanto, entre mortos e feridos todos se salvaram. Consegui me colocar na pele de Anita Delgado e isso já conta um ponto positivo para o autor. Já devo ter falado desse livro por aqui pelo menos duas vezes, mas que encanto é a memória curta! A história de Anita daria um Bollywood se os indianos não estivessem preocupados somente com os romances saídos de suas cabeças. O livro abrange a colonização inglesa e também o impacto da cultura indiana nos estrangeiros. Digamos que Anita passa por situações inusitadas desde que decidi aceitar o pedido de casamento do rajá de Kapurthala.


2. Os Filhos da Meia-noite (Salman Rushdie): para não correr o risco de ser repetitiva, aqui está a resenha que fiz no ano passado. Por outro lado, nunca é demais ressaltar o quão legal é ler Salman Rushdie descendo a lenha em Indira Ghandi. Pretendo relê-lo logo; é o tipo de história que ganha novas cores e interpretações a cada nova leitura.







3. As Aventuras de Pi (Yann Martel): quanto amor é possível sentir por Pi Patel? Não há cálculos. Também há uma resenha, mas muito aquém do que o livro significou para mim. Entrou para o meu seleto grupo de favoritos. Eu sei que a maioria de vocês assistiu o filme e me assusto com a mínima quantidade que leu o livro. Pi Patel é um menino indiano que viajará com sua família para o Canadá, levando alguns animais do zoológico de seu pai. Não deve ser novidade para ninguém que o navio naufrága e Pi fica sozinho em alto-mar com um tigre. O livro não é focado na cultura indiana, mas achei interessante a curiosidade do protagonista em relação às religiões.




4. A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso num Armário da Ikea (Romain Puértolas): O PIOR LIVRO, em caixa alta mesmo, que eu li na minha vida inteira. Por que está na lista, então? Para sabermos o que não se deve dizer, ou escrever, sobre um indiano (ou qualquer outra cultura que não a nossa). Eu não sei se o autor estava tentando ser sarcástico e engraçado, ou se é completamente ignorante. Fato é que Ajatashatru Ahvaka Singh, o protagonista cujo sobrenome já indica ser um sique, trocou de religião uma dezena de vezes ao longo da história. Isso me irritou de um jeito, que vocês não fazem ideia! O livro tinha tudo para ser original se o escritor tivesse tido o trabalho de conhecer um indiano de verdade (eles são bons para comédia). Só que os franceses estão se saindo uns verdadeiros imbecis.


5. Passagem para a Índia (E.M. Forster): este sim, é um excelente livro para quem quiser conhecer um indiano (fica a dica, Romain). Trata bruta e simplesmente do domínio inglês e a convivência entre os povos. É um ótimo primeiro contato e me arrependo de não saber disso no dia em que comprei Paixão Índia. E.M. Forster deve ter sido um observador nato para ter construído Dr. Aziz, o protagonista. O que mais me encantou foram a fragilidade e superficialidade típicas do povo europeu caracterizadas nos personagens ingleses. Adela Quested é tão detestável que a vontade em mim de esbofeteá-la é quase física. Leiam Passagem para a Índia e odeiem senhorita Quested junto comigo.