30 de maio de 2015

Este texto poderia virar um livro

Estou tentando escrever um novo livro. Veja bem, antes eu estava tentando escrever três ao mesmo tempo, mas decidi escolher um único para ver se meu trabalho renderia mais. Não rendeu. Acho que o problema não era a quantidade excessiva de ideias. O problema, de verdade, está sendo colocá-las no maldito arquivo em branco do Word. Não, não é nenhum tipo de síndrome, daquelas que os escritores (ou quase isso, no meu caso) gostam de sofrer – até porque não tenho dificuldades com as páginas em branco que mais tarde serão os textos do Bonjour Circus. Só me falta um mapa.

Não concluo um “trabalho” (vamos abrir um belo parênteses aqui: eu chamo de “trabalho”, entre muitas aspas, porque não aceito o luxo de chamar meus livros de obras literárias. Eles não são, simplesmente. São apenas histórias que quero contar. Clarice Lispector escrevia obras literárias. Mia Couto escreve livros de verdade. Tolstói era, e sempre será, um escritor. Eu não faço nada disso; me esforço, mas nem chego perto. Eu escrevo histórias cotidianas e não pretendo mudar a vida de alguém. Então, me deixa), pois bem, onde eu parei? Odeio parênteses. Ok, não consigo terminar um livro desde que lancei “Helena”. Bem que tentei, alguns títulos apareceram. Promissores, até. Continuam, todavia, encostados numa pasta que não é aberta desde o ano passado.

Cheguei a pensar que perdi o tesão. Acontece com frequência: me empolgo com uma coisa, quero aprender, dominar o assunto e depois de considerar a missão cumprida abandono da mesma forma que agarrei, no início. Mas a escrita? Se fosse esse o caso, eu teria fechado o Bonjour Circus muito antes de empacar diante de um novo livro. Poderia ser uma fase, então, como as muitas que tenho. Mas ainda assim, repito: por que não acontece o mesmo com o blog? Por que não é um problema que se estende ao meu journal, que continua vivo e recheado? Por que os livros?

Alguns podem pensar que fiquei desgostosa com os resultados e feedbacks de Helena. Em nenhum momento! Pelo contrário, o livro teve uma repercussão maior do que eu esperava. Ainda tem. “Helena” foi bem recebido e avaliado. Divulgá-lo foi um trabalho divertido onde conheci pessoas novas e aprendi com os erros. Escrevê-lo, então, foi um presente. As pessoas confiam no meu trabalho, compram minhas ideias, e eu acho isso um máximo. Pois sou sincera e é bom saber que acreditam em mim. Este, aliás, é o principal motivo para querer lançar outro livro.

Será que, em contrapartida, seria o principal problema para escrevê-lo?

29 de maio de 2015

Os meus cinco desejos (versão 2.8)

Sim, eles voltaram. Agora vai! Ano passado consegui manter a tradição, apesar de ter sido esquecida por completo no meio do caminho, mas tudo bem. Eu gosto de parar um instante e descobrir o que realmente quero para mais um ano de vida (menos um ano, na verdade). O que queremos aos 28 anos? Dinheiro, é lógico. Queremos dinheiro, no entanto, é o que menos temos. Mas já que está difícil de ganhar e economizar nossos suados reais (obrigada, Dilma) vou levar a conversa para outro lado...


1. Batata frita para sempre
Costumo dizer que não importa o credo, a raça ou o status quo: sempre haverá espaço para a batata frita em todos nós. Mesmo se você estiver em um rodízio de churrasco, ou pizza; se comeu dois Big Macs e onion rings; se limpou o prato do chinês que serve yakisoba com macarrão italiano e uma porção dá para três famílias somalis. Eu sei que você, eu, todos nós iremos comer pelo menos mais umas cinco ou seis batatinhas porque elas estão lá – e só de estarem lá já nos sentimos melhores. “Dê batata frita a eles”, uma vez alguém deixou de dizer, e por isso perdeu a cabeça.


2. Água
Basta dizer que sou paulistana, moro na zona sul e não votei em Geraldo Alckmin. É a minha hora de botar o pau na mesa e exigir a água de volta. Todos os dias, das 20hrs às 9hrs do dia seguinte falta água no meu bairro. O governador de vocês apareceu na televisão outro dia dizendo que não há nem haverá racionamento. Eu dei a risada mais gostosa da minha vida porque, veja você, só podem ser alucinações, então, as torneiras secas. É coisa da oposição, né? Eles fizeram lavagem cerebral para que acreditemos na crise hídrica porque, ora bolas, está tudo perfeitamente bem, que que vocês estão reclamando aí, porra? Cala a boca. Tem água, sim. A gente que não está vendo, não procuramos direito. O povo está cheio de má vontade!


3. Um nariz
Tenho desvio do septo e meu nariz é visivelmente torto. Talvez a bolada que levei brutalmente no rosto durante o basquete, na 3ª série, tenha algo a ver. Talvez não. Além de tudo isso, ele também é um pouco inchado nas laterais – um presente dos genes paternos (muito obrigada). Dizem que a maioria das mulheres não gostam do nariz. Pode ser que sim. No meu caso, só quero respirar como uma pessoa normal e sentir cheiros, fragrâncias, essências. Uma vez dopada na mesa de cirurgia (o que só será possível com dardos tranquilizantes para animais da savana), por que não aproveitar para dar uma modelada?


4. Fones de ouvido
Sou uma pessoa muito altruísta, sabe, e nesse aniversário decidi doar alguma coisa para os necessitados. Entra ano e sai ano, a gente está acostumado a pedir, pedir e pedir cada vez mais. Mas e a generosidade? Onde fica?! Vocês sabem que estou trabalhando o meu lado espiritual, então resolvi doar além de ganhar. Vou começar pelos meus vizinhos que adoram sertanejo, mas gastaram toda a grana no tuning do carro, da moto, e agora não tem dinheiro para os fones de ouvido. E os passageiros das linhas de ônibus que costumo pegar, que amam funk, mas com a passagem a R$3,50 é óbvio que eles não tem reservas para um par de fones. Quem quiser colaborar, é só enviar os fones para o Quinto dos Infernos, que é para onde todos esses necessitados vão.


5. Uma papelaria
Isso mesmo: quero uma papelaria só para mim. Sinto falta da época escolar, quando eu e minha mãe íamos comprar os materiais para o início do ano. Vocês se lembram? As professoras entregavam uma lista contendo cartolina, cadernos, lápis, caneta e diversas outras coisas. Ainda é assim? Pensei que depois de crescida largaria dessa mania. Aham. Acho que piorou. Inclusive depois de ter começado a fazer um journal, descobri materiais novos, fascinantes, que preciso ter senão jamais serei plenamente feliz. Lápis de cor nunca é demais. Que mal há nisso?

28 de maio de 2015

O meu pé de romã

Ou: como estou me transformando em minha mãe

Não sei se vocês sabem, mas minha tentativa de cultivar um bonsai não deu certo. Tentei germinar umas sementes de maçã, mas elas não foram para frente. Tudo bem, não vou desistir. A minha vontade de Cuidar das Plantinhas™ está cada vez maior. Até pouco tempo atrás eu não dava a mínima para jardins. Tinha gastura. Hoje, eu sei que os maiores responsáveis por isso foram algumas pessoas de meu convívio, que ao invés de praticarem jardinagem, só acumulavam mato e lixo. Minha mãe, pelo contrário, desde que me entendo por gente vive agarrada numa orquídea, ou bromélia, caçando os pontos ensolarados da casa e comprando suplementos que não sei para que servem.

Pois, estou me tornando a minha mãe. Dizem as más línguas que é inevitável: toda garota, um dia, será a réplica da mãe. Orquídeas ainda não são minhas flores favoritas, no entanto. Estou às voltas apenas com projetos e infinitas pesquisas no Pinterest. Na minha cabeça, já tenho pronta uma horta com morangos, maracujá e hortelã. Açafrão-da-terra, por que não?! E para quem não dava a mínima para as roseiras da casa onde trabalhava, na Suíça, até que meus planos de reproduzi-las aqui, no Brasil, estão bem adiantados.

Quem me acompanha no instagram deve ter notado que estou apaixonada pelo pé de romã, mencionado nesse texto. Minha mãe o trouxe na surdina e o plantou num vaso de gerânios, bem escondido. O bichinho vingou que é uma beleza! Cada brotinho novo é motivo para tirar fotos e escolher o filtro mais bonito antes de publicar na rede social.


Fazer com que esse pé de romã dê certo se tornou uma questão de honra para mim. Preciso ser uma pessoa bem sucedida no setor de jardinagem. Sim, eu acho que são os ecos do meu bonsai frustrado que me impelem, de corpo e alma, a essa dedicação. Tenho de provar a mim mesma que sou capaz, caramba, de manter uma planta viva! O resultado está sendo o surgimento de um amorzinho maternal pelo pé de romã. Todos os dias vou checá-lo para ver se os brotos vingaram, floriram, e se as flores estão firmes para darem frutos – a primeira delas caiu dramaticamente, em câmera lenta, e eu só não chorei porque não achei cabido. Convenhamos.

Minha mãe sempre diz para eu me apaixonar, seja pelo o que for. O importante é se manter apaixonada senão a vida não tem sentido. Quando a vejo organizar as violetas na janela da sala, ou mudá-las para a janela da cozinha porque precisam de menos sol, compreendo exatamente o que ela quer dizer. Há vinte anos estou preocupada e com medo. Nunca me dei ao luxo de me dedicar a algo ou alguém. Eu estava mais preocupada em salvar, ou poupar os outros, do que deixar as coisas funcionarem por si mesmas enquanto eu, simplesmente, doava um pouco de mim. A minha mãe deixa um carinho por todo lugar que passa. É só procurar bem que vou encontrar uma marca dela: as orquídeas que ganharam mais espaço com uma poda discreta da tumbérgia azul, as plantas da minha janela que foram regadas, ou mesmo o pé de romã que surgiu de repente entre os gerânios – ele dará certo, pois é o carinho que quero deixar para o mundo.

E é uma homenagem para a minha a mãe.

27 de maio de 2015

These pretzels are making me thirsty

Há muito tempo atrás mencionei o seriado Seinfeld aqui no blog e me lembro de ter ficado horrorizada ao descobrir que a maioria dos meus leitores sequer o conhecia. “O que é Seinfeld?”, me perguntavam, e eu COMO ASSIM por dentro, mas solícita por fora. Tentei explicar que Seinfeld é o melhor seriado de todos os tempos – os fãs de Friends discordaram e os viciados em Netflix acharam impossível o melhor seriado de todos os tempos ter lhes passado batido. Ou seja, não houve progresso. Eu tinha em mente escrever um baita texto para convencer os incrédulos, mas a ideia foi soterrada pelo cotidiano. Acabei me esquecendo. Agora, com essa loucura que se tornou minha vida por causa da procura incessante de assunto, achei que seria o momento certo para “falar sobre nada”. Dou-lhes cinco razões para conhecerem e amarem Seinfeld!


1. Todos os personagens são ótimos
Estou bem por fora das séries atuais, mas as que eu costumava assistir tinham a mesma receita: um grupo de personagens que funcionavam em um único núcleo. Até mesmo os dramas individuais de Friends terminavam num abraço grupal. Não que seja ruim, eu mesma completei a série com louvor, mas depois de conhecer Seinfeld, digamos que fiquei mal acostumada. Cada personagem vive uma situação paralela que, às vezes, não se conecta. Isso, além da riqueza de roteiro, dá mais profundidade para a história – é quase real. Existe também o elenco de apoio, que não deixa por menos; são personagens que marcaram tanto quanto os protagonistas e renderam um catálogo bem gordo de citações.


2. Você aprende coisas
Com o Seinfeld eu aprendi coisas como: a serenidade nos levará à insanidade. Não tome nenhuma decisão precipitada, considere severamente se vale a pena gastar seu estoque de anticoncepcional favorito (que saiu de mercado) com aquele cara. Não há nada mais patético do que um homem adulto com medo de mulheres. Se você pergunta a alguém como vai o relacionamento e essa pessoa põe a mão no rosto, é porque não está indo nada bem. Dance como se ninguém estivesse olhando. Quem controla a correspondência, controla informações. Antes de terminar um relacionamento verifique se não há nenhum livro na casa do namorado. Não é uma mentira se você acredita. Não deixe sua noiva lamber os envelopes dos convites de casamento. E por último, aquilo encolhe.


3. Todos nós somos George Costanza
Eu, pessoalmente, o considero o filósofo do século XX. Ele me fez perceber que às vezes é normal, por exemplo, ter uma vontade incontrolável de dar uma mordida num pedaço inteiro de queijo, ou de sair na rua vestindo fantasias de uma peça de teatro, ou por que não, dormir debaixo da mesa do trabalho. Quem nunca quis tirar um cochilo no meio do expediente? George Costanza domina as habilidades. E quando tudo dá errado, ele tem uma receita infalível: faça tudo ao contrário. É óbvio. Se está dando errado dessa maneira, só pode dar certo de outra. Ainda mais se você tenta convencer o universo de que você não é você, mas sim outra pessoa. Como ninguém pensou nisso antes?!


4. Festivus é bem melhor do que o Natal
O pai de George criou o Festivus em resposta ao consumismo do Natal. Você sabia que o feriado existe mesmo? Pois sim, foi criado por Dan O'Keefe e é comemorado no dia 23 de dezembro. O filho dele, Daniel, um dos roteiristas do seriado, resolveu introduzir a ideia em um episódio – “The Strike”. Funciona assim: no jantar de comemoração, você reúne toda a sua família e amigos para lhes jogar na cara o quanto decepcionaram você ao longo do ano. Decorando o ambiente, há apenas um mastro, um suporte de pinheiro falso, sem nenhum enfeite. O feriado está oficialmente terminado após um combate corpo-a-corpo entre o patriarca e alguém de sua escolha. Agora, imagine que libertador seria fazer isso no Natal, ao invés de passar horas enfeitando uma árvore que pinica seus braços e cheira mal e de quebra deixar umas verdades esclarecidas ao invés de bajular pessoas de quem você sequer gosta. Muito melhor, com certeza.


5. Algumas de suas teorias serão comprovadas
Eu deixei de me sentir anormal depois de assistir Seinfeld. Até porque, por mais estranho que você seja, ninguém é capaz de rebater a atitude de comer uma barra de chocolate com garfo e faca no meio de uma reunião de trabalho. A minha teoria de que um test drive, desses oferecidos pelas concessionárias, pode dar muito errado foi comprovada no episódio “The Dealership”. Minha opinião a respeito da presença de banheiros em livrarias ganhou mais força com “The Bookstore”. E o episódio “The Implant” provou que eu estava certa em relação aos molhos e aperitivos!

Assistir Seinfeld é libertador.

26 de maio de 2015

Não seria eu

Não seria eu sem as asas costuradas, meio tortas, que não sabem mais voar. Não seria eu sem o coração gotejante, arrítmico, que bate na garganta. Se não fossem as palavras encardidas, os verbos esfarrapados, não seria eu. Há vagas lembranças, pequenas marcas, frágeis esperanças. E sem a decepção, não seria eu. Adormeço sob as estrelas, sobre a terra, sou nômade na minha estrada. Se não fosse a caravana dos pés descalços, se meu sangue não tingisse as pedras, definitivamente, não seria eu.

Se fosse uma simples afirmativa, escolhas a dedo, uma simplicidade descolorida, não seria eu. Eu sou o amor envelhecido, a vertigem, o medo do fogo, as mãos geladas. Sou os livros na estante, a cama desarrumada, cortinas fechadas, flores na janela. Não seria eu se não fossem os detalhes, o que ninguém notou, o sorriso arredio. Sou muitas milhas, migalhas, milagres. Se eu fizesse um discurso acalorado, não seria eu.

A música de uma nota só. Olhos acuados, de quem não tem para onde ir. O relógio quebrado, o pó nos móveis, lençóis balançando no varal, cheiro de grama cortada, a flor no asfalto. Muros velhos, portões abertos, luz acesa na janela. Um bilhete no espelho, um beijo na testa. A vida é um circo que leva o mundo na bagagem.

E isso sou eu.

A Thay me indicou para essa tag há um século atrás! Aproveitei a ocasião para, finalmente, participar.

25 de maio de 2015

Biografia de uma batata

Luna encontrou uma batata. Verdade seja dita, foi a batata que encontrou Luna. Eu não sei como isso aconteceu, pois guardamos todos os alimentos fora do alcance dela. Por isso prefiro pensar que a batata, um belo dia, cansou de ser batata e decidiu desbravar nossa cozinha. Digamos que ela era a ovelha negra da família, ou neste caso, do saco.

Ainda na horta, revolvida na terra irrigada, Batata – sim, letra maiúscula, pois agora temos uma personagem – sabia que nascera para o mundo. Na época da colheita ela seria levada para longe de sua terra natal, nunca mais veria suas companheiras, mas nada disso a inquietava: a vida era grande. Sabe-se lá quem a compraria, com quais outras batatas conviveria e para qual casa seria transportada. Por que ter medo disso? Olhe só quantas oportunidades! As probabilidades (uma batata não sabe o que é probabilidade, mas como todo ser vivo tem uma vaga ideia a respeito) eram infinitas, portanto, lhe restava relaxar. O instinto, ela já possuía.

Calhou que Batata veio parar na minha casa. O hortifruti do bairro estava com uma excelente promoção: cinco quilos de batata por um preço irresistível. Veja bem, eu sou de descendência alemã. Apesar de me opor a essa síndrome de vira-lata que assola 90% dos brasileiros, cujo principal sintoma é, com o perdão da expressão, dar o bumbum para os estrangeiros, fui criada sob a influência dos Fritz e não tenho por onde negar. Gosto de batata. Cinco quilos de batata, então, eu adoro. Ainda na fila, esperando minha vez, imaginei os purês, panquecas e sopas que faria. Salivei com a miragem de uma bacia de batatas fritas.

Pois bem. Batata não fazia ideia de que fritaria no óleo quente e teria uma morte rápida e violenta. Arrisco dizer que, me observando de dentro de seu saco, após sofrer uma terrível viagem e estar com dor nas costas (batata tem costas?), ela deve ter me achado simpática. Eu sou simpática, à primeira vista. No mínimo ela achou que eu era uma carnívora convicta e que jantaria um pedaço de picanha – jamais batatas. Fomos para casa.

Batata deve ter se achado o ser mais azarado na face da Terra já que uma semana havia se passado e ela ainda estava no mesmo lugar. Nenhuma aventura. O seu destino não acontecia nunca. Todas as suas colegas sumiram, saíram do saco e não voltaram mais. “Talvez”, Batata pensou, “aquela moça não seja tão carnívora assim”. Não sou. Será que, então, Batata decidiu fugir? Tecer sua própria sina? Não sei. Hoje de manhã, sem mais nem menos, talvez depois de muito batalhar para escapar e atingindo sabe-se lá que distância, ela me apareceu na boca da Luna.

Para você ver, Luna jogava essa batata para cima e para os lados, corria atrás, descascava aos poucos com a ponta de seus dentinhos de leite. Pareciam melhores amigas de infância. O Tony aproveitava e comia os pedaços soltos. Acontece que agora há pouco fui obrigada a abandonar o que estava fazendo porque Luna não parava de chorar e fungar por debaixo dos sofás. Ela perdeu a bendita batata.

Onde está Batata? Eu me perguntei. Levantei os sofás (sim, a que ponto...), arrastei os móveis, ergui tapetes, vasculhei o quintal. Nada. Como pode uma batata sumir desse jeito? Luna, os olhos azuis arregalados, girava a cabeça de um lado ao outro também sem entender. Não que ela tenha uma real consciência de batatas, ou qualquer outra coisa, mas ela tinha uma batata e depois não tinha mais – isso basta. Não achei. Procurei por todos os lugares possíveis, cheguei a cogitar a ideia da Batata ter sido comida. Improvável. Luna tem a boca pequena, Batata era de média para grande. Além do mais, minutos atrás ela estava entre nós. Evaporou.

Batata, nesse momento, deve estar pedindo carona na estrada. Ela quer voltar para a horta.
Aprendeu o que todos nós, um dia, aprendemos: a vida é uma vadia sem coração.

24 de maio de 2015

A arte de postar todos os dias

A maioria dos blogueiros que acompanho já fez isso. Não sei bem como funciona, mas parece que desce um exu e jorra inspiração para manter o blog rigorosamente atualizado durante um tempo determinado. Não recebi nenhum tipo de orixá, infelizmente, mas fui acometida pela vontade de sofrer a experiência. Vamos visitar o Bonjour Circus todos os dias? Vamos, sim.

Decidi publicar um texto novo todos os dias ao longo dessa semana. Aliás, sabe por que você sente depressão aos domingos? Porque a semana começa num domingo. A sensação de morte da segunda-feira é apenas a ressaca. Portanto, que satisfação deve ser iniciar a semana com uma notícia boa! Não que eu esteja puxando sardinha para o meu lado. Sendo sincera, nem sei até onde isso dará certo. É possível que na quarta-feira eu esteja dopada, babando, por causa da dose tripla de remédios que tomei no auge de uma crise ocasionada pelo desespero: “O QUE EU VOU ESCREVER HOJE”?

Vocês vão segurar a minha mão? Fazer carinho nas horas difíceis?

O Bonjour Circus está prestes a completar cinco anos e está na hora de topar um desafio. Atualizo o blog regularmente, nada que os deixem órfãos, mas todo relacionamento precisa de uma calibrada, se é que vocês me entendem. Então, vou pegar o blog pelos ombros e chacoalhá-lo. A única coisa que peço é a companhia de vocês. A gente se vê amanhã!


20 de maio de 2015

Olá, boa tarde...

Muito bem. Estamos todos aqui? Ótimo. Vamos terminar a conversa. Eu bem que estava mesmo com vontade de jogar tudo para o alto, deixar o blog à deriva, mas a verdade é que eu não posso. Como uma leitora disse nos comentários do texto anterior, isso aqui é uma terapia – tanto para vocês quanto para mim. Vou tentar seguir normalmente, se como nada tivesse acontecido e vocês, por favor, façam o mesmo. Foi um pouco constrangedor. Vamos nos esforçar para esquecer. Tudo bem? Tudo ótimo.

Então, agora.

Agora estou ouvindo Zé Ramalho enquanto faço minha lista de compras com base na sazonalidade. Porque, além de mais baratos, os alimentos da época tem menos agrotóxicos. Aprendi isso no livro Prato Sujo, de Marcia Kedouk. Eu ainda não sei o que é atemóia nem se esta palavra deveria ter acento agudo, nos dias de hoje, mas estou disposta a me adaptar à lista diversificada do Ceagesp em prol de uma alimentação menos cancerígena. Quanto ao Zé Ramalho, estou ouvindo porque sim. Acredito que todo mundo, um dia, chegará na fase de se enveredar pelo bosque espinhoso dos nacionais da velha guarda e deixar de lado os internacionais genéricos. Isso não quer dizer que vou ouvir Los Hermanos, pois não sou dessas sem-vergonhices. Respeite-me.

Eu adoraria ter me aventurado nessa semana só para ter o que contar aqui – assim como c e r t a s blogueiras que se vestem com roupas de marca só para tirarem fotos no quintal dos fundos de casa –, mas tudo permanece indiferente ao Bonjour Circus. Ninguém está afim de colaborar. Se bem que faço parte da banda que prefere assim: uma vez que, se algo tiver que acontecer, provavelmente será ruim. Então vou ficar quietinha, deixar a vida estagnada, deitar em posição fetal.

Algumas pessoas que leio costumam escrever sobre os três últimos filmes, ou livros, que assistiram/leram e taí uma ideia boa se eu fosse capaz de ser sucinta. O problema é que brevidade não é comigo. Eu dano a dissertar e a falar mal (às vezes bem), não há quem me salve de mim mesma. Por exemplo, se eu inventasse de escrever um único parágrafo sobre Tudo Pode Dar Certo, filme de 2009, acabaria por publicar um manifesto contra a pica dourada do ego de Woody Allen que rasga as entranhas de Hollywood com severidade. Woody Allen não cansa de falar de si mesmo em seus filmes. É tudo sobre ele. O seu ponto de vista lhe parece ser incrível demais para que ele cale a maldita boca e decida filmar uma história sobre a poeira das ruas de Nova York.

Mas o filme é legal.

Fiz umas tentativas de ser concisa a respeito de Admirável Mundo Novo, do escritor Aldous Huxley – quatro parágrafos depois vi que estava longe de concluir minhas alucinações. Achei melhor teorizar no Whatsapp e quando dei por mim sofria uma epifania envolvendo viajantes do futuro, gênios da antiguidade publicando sua ciência como mensagem de salvação para a posteridade longínqua e claro, por que não, a “descoberta” de que a reencarnação nada mais é do que nossos descendentes voltando do futuro para reavaliar determinadas decisões que nos levaram, talvez, à merda. Ou seja, não rola. Larguei mão quando comecei a filosofar num resumo de A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, e sinceramente... É um livro de sacanagem, quem se importa com filosofia?

A gente está aqui para se foder.
Essa é a verdade.

14 de maio de 2015

Cinco vezes Carpe diem

Cá estou eu tentando digitar sem clicar toda maldita hora no caps lock e às vezes consigo, ÀS VEZES NÃO. O problema é o seguinte: eu odeio o teclado do meu notebook. Acho que já disse isso aqui. O outro problema é: vale a pena continuar escrevendo para o Bonjour Circus? Tudo o que me proponho a publicar passa por um filtro e a maioria fica aprisionada no “desista, ninguém quer ler sobre isso”. Ninguém está genuinamente interessado. É tudo uma bobagem tão grande. Não sei porque me dou ao trabalho de continuar com o blog, a minha vida é um saco. Nem eu aguento mais.

Nossa, que crise! Vocês nem imaginam.

Então, vamos falar de The Rasmus que é para ver se A ENERGIA MELHORA. Desculpa o caps lock, é que eu simplesmente desisti de apagar e corrigir. Entrem vocês também nessa vibe de carpe diem, a vida é curta demais para revisar texto, etc. Resolvi jogar aí os cinco melhores vídeo clipes da melhor banda finlandesa porque sim. É claro que, se há pessoas cagando e andando para o que eu escrevo, existem muitas mais dispostas a ignorar uma banda da qual, provavelmente, nunca ouviram falar. Mas fazer sentido? Por quê?! A GENTE FAZ o que pode com o que tem, e no momento o que eu tenho é The Rasmus.


1. In The Shadows (US Version)
Essa é a hora em que vocês dizem: “ah, conheço essa banda! Tocava na MTV”. Pois é. Morro milhões de vezes toda vez que assisto. Antes, eu sequer imaginava que um dia estaria na pele da mocinha, me sentindo um peixe fora d'água, num quarto estranho, servindo pessoas sem saber o que estava fazendo. Procurei Lauri Ylönen nos espelhos da casa? Procurei, sim. Chegou o outono e saí correndo atrás dos corvos? Saí, sim. O clipe, obviamente, ganhou um cantinho ainda mais aveludado no meu coração. Depois de um ano voltei para o Brasil ao invés de ter entrado num espelho, mas tudo bem. Vida QUE SEGUE. Sem mencionar que este é o hino para qualquer fã que se dê ao respeito – não dá para ignorá-lo numa lista como esta.


2. Funeral Song
Eu não sei lidar com essa música. Nunca saberei. Veja bem, existem apesares: os corvos saindo do casaco dele, por exemplo, caramba QUE DESNECESSÁRIO. Lauri Ylönen desafina? Opa, desafina. Faz parte. Mas gosto desse clipe pracaralho. Aliás, o álbum Dead Letters é todo amor. Eles jamais vão conseguir superá-lo. Doloroso, mas verdadeiro. Enfim, achei digno mencionar Funeral Song por motivos de: que agonia esse moleque com o casaco molhado, no entanto, que artístico da parte dele.


3. In My Life
In My Life é uma fonte de nostalgia: foi o primeiro vídeo clipe que assisti e, consequentemente, aquele que me tornou fã da banda. Lembro dos meus primeiros seis meses presa na cama por causa do TA, sem conseguir me manter em pé, e passando tarde após tarde assistindo ao DVD deles, principalmente ao making of de In My Life – “do you like it? I like it. I looove it”. E a atmosfera combina com o foda-se que eu taquei neste texto. AFINAL, todo mundo que entra no Bonjour Circus sempre acaba chafurdando na lama um pouquinho comigo.


4. Immortal
Foi um clipe dirigido por Eero Heinonen, o baixista, e eu tenho todo um crush pelo meu yoga BOY. A energia é tão boa, QUE DÁ VONTADE de voltar para 2006 e não sair mais de lá. Se possível fosse, eu usaria uma camiseta com este clipe e a frase “Heinonen me representa” em letras garrafais. Quer dizer, chega de letras garrafais por enquanto, pelo menos neste texto, neste instante (como faz para trocar de teclado sem trocar de notebook?).


5. Somewhere
Toda banda que se preze tem um vídeo desse. Nenhuma novidade no front. Como eu sou coruja, VOU COLOCÁ-LO AÍ para fazer guti-guti. Foi o último clipe lançado, se não me engano, ao que parece há décadas atrás e estamos meio que preocupados, já. Vamos voltar a trabalhar? Está na hora, escute o galo cantar. Tem galo na Finlândia, gente? Algum leitor meu mora lá? Existe algum fã DE THE RASMUS QUE me acompanha?

Em última análise, e dessa vez com caixa alta proposital: PUTA QUE PARIU, EU AMO THE RASMUS.

Desculpem, mais uma vez, o caps lock e prometo voltar melhorada na próxima atualização. Lembrando que melhorada NÃO QUER DIZER NORMAL, jamais. Os comentários e meu email estão aí para sugestões de temas, ou indicações de terapias com preços acessíveis.

10 de maio de 2015

Cinco coisas que faço quando ninguém está olhando

Fiz uma visita ao blog I'm talking with myself (adorável, aliás) e encontrei essa tal lista de cinco coisas que a autora faz quando ninguém está olhando. Ana Luiza é engraçada, adoro ler seus textos, e acabei me inspirando na ideia. Sou o tipo de pessoa que gosta de ficar sozinha. Arrisco dizer que só demonstro o melhor de mim justo quando não tenho ninguém para testemunhar. Faço isso de propósito? Acho que não.


1. Pratico alemão
Já faz muito tempo, muito tempo mesmo, que estou aprendendo alemão por conta própria. Estou longe de ser uma autodidata, por isso o aprendizado demora tanto. Alguns exercícios de pronúncia necessitam de gravações de áudio, ou seja, preciso falar em voz alta. Acontece que eu ainda tenho vergonha de falar em alemão. Quando me escuto repetir as sentenças, automaticamente me vem à cabeça qualquer nazista de um filme aleatório sobre a Segunda Guerra Mundial, ou um parente caipira da família por parte paterna. Logo, me sinto uma idiota. Portanto, espero a casa ficar vazia para que eu possa gravar meus exercícios. Aproveito que ninguém pode me ouvir e já emendo um monólogo com meus cachorros, também. Às vezes tento interpretar “Fausto”, fazendo com que Goethe se revire no túmulo, mas além de cansativo é complicado demais para o meu nível de compreensão.


2. Danço...
Bom, estou na eterna luta contra o ansiolítico que me deu de boa vontade dez quilos a mais. Além de yoga, de vez em quando rebolo feito a Madhuri Dixit que não sou. É óbvio que não vou dançar músicas indianas na frente de uma audiência gigantesca. Não chega a ser um “exercício físico para emagrecer”, está mais para diversão. Infelizmente, não tenho jeito algum para a coisa. Eu sou o que chamam de dura. A impressão que dá é de que tenho vergonha dos meus próprios movimentos. Resumindo, eu não dançaria comigo se eu não fosse eu. Já pisei no pé de muita gente e não tenho carisma corporal (ouvi isso uma vez e nunca mais esqueci).


3. Leio poesia em voz alta
Eu acredito na poesia. Sou do tipo que coloca a mão no coração, ou no estômago, quando termino uma leitura. Oh, meus caros, eu sofro a poesia! Acredito tanto, enfim, que quando estou sozinha me dou ao luxo de ler em voz alta para mim mesma. O poder é outro. As palavras se expandem. E depois, o silêncio que a poesia deixa quando acaba, é divino. Recomendo que tentem em casa.


4. Desenho
Eu não consigo desenhar quando tem alguém olhando, analisando os meus traços. Fico esperando ouvir uma crítica, ou uma dica. Isso me sufoca, me trava porque eu sei que as pessoas falarão. Elas sempre falam. Se acham na obrigação de falar. Não conseguem simplesmente observar sem cutucar, tocar, fazer barulho. Mas diferente dos outros itens, neste não preciso estar totalmente sozinha, basta fechar a porta do quarto, ou ser ignorada por todos ao meu redor. Antes, eu pensava que não sabia desenhar de jeito nenhum. Hoje, descobri que não sei desenhar na frente dos outros.


5. Alinho o universo
Eu tenho um lado Monica Geller, mas tenho vergonha dele. Quase todo mundo que conheço já me zuou por causa disso. Então, o que eu faço? Quando viram as costas, eu ajeito o quadro na parede, os talheres na mesa, o vaso em cima da mesa. Não consigo mexer no computador se ele estiver torto em relação à borda da mesa. Eu cheguei a dar umas viradinhas nos bibelôs dos outros para que o “melhor lado” ficasse mais exposto. Não é um TOC. Só gosto de ver as coisas direitinhas em seus lugares. Mas nem sempre é possível esconder. Às vezes, assim que alguém desalinha um objeto, ou guarda algo no lugar errado, eu arrumo na mesma hora, sem pensar. No ônibus, uma vez, havia um cara com o nó da gravata descentralizado. Passei o caminho inteiro com a ideia fixa de fazer contato com ele só para dar o toque. Fiquei encarando (e disfarçando) aquela gravata torta. Levei a mão ao meu pescoço.

Não, não é um TOC.