21 de abril de 2015

Budismo (agora de verdade)

Com espanto percebi que já faz mais de um ano que publiquei meu primeiro texto sobre budismo aqui no blog. De lá para cá, muita coisa mudou. Naquela época, outubro de 2013, eu estava começando a engatinhar e o texto (mais sarcástico do que explicativo) não foi interpretado da forma como eu esperava pela maioria dos leitores – ninguém raspa a cabeça para se tornar budista e se desfaz de todos os bens materiais para passar a viver usando togas alaranjadas. É preciso muito espírito esportivo para ler o Bonjour Circus.

(...) no Budismo cada um salva a si mesmo. Você não pode esperar que outra pessoa sinta o gosto de algum alimento por você: é você quem deve degustar tal coisa com o seu próprio paladar! Da mesma forma, não podemos esperar que outra pessoa mude o nosso interior: apenas nós temos acesso a ele.
Introdução ao Budismo (Sangha Online)

Como eu ia dizendo: muita coisa mudou. Eu li mais, pesquisei mais, abri mais a minha mente e, apesar de não ter sanado todas as minhas dúvidas, me joguei de cabeça para então emergir como uma boa e humilde flor de Lótus. Infelizmente, encontrei bastante resistência em casa e na família, cujos membros são, em 99% dos casos, cristãos. Fui obrigada a escutar que existe um único deus, infinitamente bom, que ama seus filhos (menos os budistas, aparentemente). Também ouvi dizerem que eu estava me afastando de Jesus por causa de minha revolta com a atual (porém, ao que tudo indica, permanente) situação. E enfim, “é só uma fase, você vai mudar de ideia, isso é inaceitável, mas e deus, onde fica deus nessa história”? Até que tive uma conversa séria com minha mãe (a única opinião que me importa é a dela). Ela me ouviu com atenção, sem julgamentos e por fim sentenciou: “desde que você cultue o amor, só quero que você seja feliz”.

É um processo longo e penoso, esse de se “converter” a outra religião (ou filosofia). Fui batizada e criada na igreja luterana mais por pretensão do meu pai do que por fé. Desde criança odiei o lugar, os cultos e, principalmente, as pessoas. Nunca achei o pastor da comunidade um homem de confiança, pois apoiava quem lhe convinha no momento. A gota d'água foi no dia da minha Confirmação (o equivalente à 1ª Comunhão no catolicismo), quando uma senhora de 70 e tantos anos chegou, me olhou de cima a baixo, e fez cara de nojo. Naquele instante, eu soube que jamais seria um deles – eu não me encaixaria em suas crenças tão pouco no status quo. Meu vestido branco modesto, em contraste com o figurino de grife dos outros adolescentes, destoou de tal forma que todos, sem exceção, fizeram com que eu me sentisse um lixo. Sem mais, nem menos: um lixo.

Foi mais ou menos logo após essa época (meus idos quatorze anos) que me encontrei sem rumo espiritual. Eu sabia que tinha uma alma e que precisava cuidar bem dela, mas não sabia como. Deus, aos poucos, começou a desbotar. Quanto mais eu sofria, mais rezava, mais castigos físicos me infligia. Nada. Às duras penas aprendi que existem humanos mais fortes e perversos do que o senhorzinho bonachão do segundo testamento. Ou, quiçá, que esse senhorzinho (se realmente existe) não está dando a mínima. Depois de ter tentado e não ter encontrado ninguém lá em cima – tive essa convicção por muitos outros motivos que não cabem aqui (#falseabilidade) –, aí sim, me vi com uma mão na frente e outra atrás.

Como eu já disse algumas vezes por aqui, tenho um paladar religioso bem eclético; ou pelo menos tinha. A partir do momento em que me vi sozinha no universo, comecei a experimentar o espiritismo, o catolicismo, me aventurei pelas bordas do judaísmo, do islamismo e até do hinduísmo. Tudo isso na calada da noite porque já sabia que minhas metamorfoses não seriam bem vindas. Ou seja, sempre acreditei na minha espiritualidade, só a parte da religiosidade não me convencia de jeito algum. Só que foi a partir do hinduísmo que eu acabei reencontrando o Budismo; uma escola que eu já havia explorado antes.


Então, chegamos ao meu primeiro texto sobre o assunto aqui no blog, retornamos ao início de tudo. Não parei minha pesquisa naqueles primeiros livros, fui me interessando cada vez mais e, o importantíssimo, fui me encontrando, me identificando. Pela primeira vez, me senti acolhida em um grupo de pessoas (quanto ao nicho religioso). Passei a frequentar o Sangha Online (e finalmente me senti segura para fazer o registro e começar a participar), o Sobre Budismo se tornou uma boa fonte de reflexões para mim e encontrei grande ajuda no Acesso ao Insight. Procurei consumir diariamente, de pouco em pouco, todas as informações que encontrava na minha frente.

A minha conduta mudou; da leitura passei à atitude e trouxe o Budismo para o meu dia a dia. Apliquei grande parte do meu tempo ao desapego porque notei que era um dos meus maiores defeitos. Iniciei um ciclo de meditação, e não vou dizer que foi perfeito porque, pelo menos para mim, por enquanto é difícil. Não desisti. Resolvi começar a fazer aulas de yoga na tentativa de melhorar minha disciplina e deixar de ser tão sedentária – o sendetarismo atrapalha qualquer prática. Sim, funcionou! Quero dizer, ainda é complicado meditar, mas além de ter perdido uns quilos, eu me sinto melhor e mais focada. Acho que agora é só uma questão de tempo e persistência.

Mas como decidi me tornar budista de uma vez por todas? Quando e aonde isso aconteceu? Olha, eu não sei responder. Aos poucos constatei que Buda era o tipo de pessoa (sim, de carne e osso!) que eu queria seguir. O Budismo, que eu prefiro chamar de filosofia e não de religião, conseguiu preencher lugares abandonados em mim, trouxe à tona a minha espiritualidade e o mais importante: despertou o melhor de mim. Gradativamente, abri portas, janelas, arrastei os móveis, enrolei os tapetes, coloquei algumas coisas para fora para “tomarem um sol”. É claro que ainda estou cheia de dúvidas, que não pratico à risca todos os ensinamentos, mas existe um início para tudo. Não estou com pressa. Eu poderia cair na armadilha de começar a comparar o meu deus de antes com sua ausência agora, insultando vários leitores e suas crenças pessoais, porém, prefiro aceitar as coisas como foram e como são. Pois sim, muita coisa mudou e mais coisas irão mudar. Estou pronta para tudo isso? Ah, é aí que está a melhor parte!

Namastê.

15 de abril de 2015

33 perguntas. Sério mesmo: 33!

Encontrei a tag em um dos melhores blogs da internet. Eu sei que já respondi mais perguntas do que aconselha a etiqueta, mas vocês não deram nenhuma ideia melhor!

1. Por que você costumava levar bronca quando criança?
Eu fui uma criança atípica que, provavelmente, já nasceu com Transtorno de Ansiedade. Eu era quieta, comportada, enfim, uma múmia. Então, já que eu não fazia nada de errado, o meu pai inventava motivos para brigar comigo. Uma vez, eu estava brincando de esconde-esconde e ele me deu uma bronca homérica porque eu tinha me escondido.

2. Qual foi a última vez em que você saiu sem rumo?
Não vejo sentido em sair sem rumo porque até mesmo uma pessoa perdida como eu sabe, instintivamente, para aonde está indo. A não ser que eu esteja na Suíça e não faça ideia de onde minha colega me deixou, como aconteceu em 2009. Fiquei dando voltas pela vila por umas duas horas até que começou a escurecer e resolvi começar a pedir informações. Uma galera que estava num restaurante me indicou a direção errada. Peguei carona com três completos estranhos que, ou não entenderam o meu inglês, ou existiam dois lugares com o mesmo nome naquele ovo, e me deixaram no lugar errado. No fim, paguei uma fortuna para o último táxi que rodaria naquele dia só para descobrir que bastava ter subido uma ladeira que ignorei completamente.

3. Três objetivos para seu futuro…
Eu já tive objetivos e todos foram boicotados pelo cosmos. Hoje, só tenho vontades. Não chamo de “sonhos” que é para não atrair energia negativa. São vontades, muito bem? Se acontecer, ótimo para mim. Se não acontecer, melhor ainda porque eu nem queria mesmo. Eu adoraria voltar a morar na Europa, pois estou convicta de que o Brasil não é um país para mim. Estou inscrita em vários canais do nicho “brasileiros fora do Brasil” e se eles, que só tem um passaporte nacional, conseguiram eu, que tenho cidadania alemã, estou esperando o quê? É bem simples, mas ao mesmo tempo não é. Ficam as pitangas para chorar em outro post.

Também gostaria de abrir um ateliê bonito, organizado e grande. No momento, eu e minha mãe dividimos um quartinho que fica nos fundos do sobrado e isso não está funcionando. Damos o melhor de nós, mas sinto que nossa criatividade não se sente à vontade. Eu trabalho com bordados em algodão cru e feltragem, mas tenho planos (quero dizer, é só uma vontade) de fazer string art, macramê, aquarela, crochet e viver com a arte das coisas que a natureza dá, mas não tenho espaço para nada disso.

E o terceiro objetivo, como não sou boba nem nada, é me casar com um árabe. Não, mentira (nem tanto). Seria bacana se eu conseguisse passar em um maldito concurso público. Estabilidade é tudo nessa vida. Já que graças ao Transtorno de Ansiedade não vejo como seria possível viajar para a Europa para trabalhar novamente como Au Pair, me vejo infeliz e obrigada a permanecer neste país que, se você não for um empresário estrangeiro rico ou um funcionário público, jamais lhe dará uma oportunidade concreta de ter uma vida decente. E eu, sinceramente, estou cansada de trabalhar para comer.

Você vai à Suíça e tira foto do quê? De vacas.

4. O que você encontraria se abrisse a geladeira neste exato momento?
Tupperwares. Sempre tem uns quatro ou cinco deles recheados do desconhecido. Minha mãe não pode ver um stand de tupperware que sai ensandecida e volta com uns quinze nos braços. Se eu tento segurá-la, ela me morde. Mas tudo bem porque eu também fico assim em sebos e papelarias. Então, tem uns potinhos com os restos do jantar de ontem e, bem, essa é a única coisa que me atrevo a adivinhar porque é um mundo ilimitado de possibilidades.

5. Qual tecnologia ocupa mais o seu tempo?
O celular. Eu tinha um smartphone sem vergonha, que me pareceu uma boa ideia quando foi lançado, mas não aguentou dois anos no constante fluxo de novidades e atualizações. Fiquei com ele, todavia, porque na época nem era apegada a esse tipo de coisa. Até que ganhei um novo, moderno, com bastante espaço, câmera frontal, que aceita praticamente todos os aplicativos. Pronto, agora não desgrudo mais. Baixei apps que não preciso, que me prendem e desviam minha atenção. Não sou o tipo de pessoa que, numa mesa de restaurante com amigos, fica teclando no smartphone. Não, a tecnologia não estragou a boa educação que recebi. Só que o cenário muda quando estou sozinha. Se eu analisar bem, verei que sou mais comedida do que a grande maioria. Ainda assim, o celular está se tornando um vício que não me apetece.

6. Uma coisa usada que você comprou…
Eu só compro coisas usadas. Menos alimentos, claro, que nunca comprei mastigados ou digeridos. Livros, roupas, sapatos, móveis: eu não sei mais o que é entrar em uma loja de shopping, ou de grife, ou cadeias famosas, para comprar um produto novo em folha. Foi um gosto que adquiri com o tempo. Minha maior razão são os preços abusivos. Em segundo lugar, o escapismo. Eu tenho pavor de padronização quando se trata de viver em sociedade – todo mundo vestindo e consumindo as mesmas coisas. Agora, a última coisa usada que comprei, se não me engano, foi uma caixinha “meio circense” que encontrei perdida em um bazar de pulgas catastroficamente bagunçado. Ainda não arranjei utilidade para ela, mas adorei.

Pode tirar foto à noite? Pode sim.

7. Qual a primeira coisa que você faz ao acordar?
Quão pau no cu seria responder “abro os olhos”? Pois foi o que me deu vontade de escrever. Desculpa. Infelizmente, como já mencionei, mexo no celular porque sou sua escrava. Preciso ver se alguém morreu, se determinado usuário publicou alguma foto no Instagram, qual é a treta do dia no Twitter, se finalmente recebi algum email de Lauri Ylönen dizendo que me ama. Depois me levanto, desço as escadas, às vezes dou comida para os cachorros, tomo café da manhã, às vezes na varanda quando não tem ninguém em casa e posso ficar tranquila.

8. Do que você precisa neste exato momento?
São tantas coisas, que acho que eu preciso mesmo é de ajuda.

9. Qual foi a última coisa que você leu, ouviu ou assistiu que te inspirou?
Walden, do senhor Thoreau, pode não ser o livro mais legal do mundo, mas eu o indicaria como leitura obrigatória para todo mundo que conheço. Henry David Thoreau decidiu registrar sua vida nos bosques. Tudo bem que no século 19 não haveria na cidade atrativos para que ele desistisse dessa loucura, mas cuidemos do zeitgeist. Este querido ser humano (pois sim, rolou todo um afeto) se instalou às margens desse tal Walden, um lago que fica nos Estados Unidos. Henry constroi uma casinha, observa a natureza, mede a profundeza e extensão do lago, come o que planta, é uma maravilha. Foi um livro que serviu para me desacelerar e rever que rumos minha vida estava tomando. Aprendi a dar valor a outras coisas.

10. Um souvenir que você comprou ou ganhou…
Vieram alguns à cabeça, tipo o relógio de cozinha em formato de vaquinha que comprei para minha mãe na Suíça (sou a pior pessoa para souvenirs), ou mesmo a bandeira Suíça que comprei para mim porque... ora essa, porque eu estava na Suíça! Mas tem a xícara de lá, que eu adoro, mas nunca uso porque tenho medo de quebrar, e as xícaras de todos os espetáculos que fui do Cirque du Soleil, que também não uso pelo mesmo motivo. Eu já devo ter tirado umas trezentas fotos disso, mas aí vai mais uma:

Pode tirar muita foto à noite. Tem problema, não.

11. O que te deixa estressada?
Eu sou estressada. Está no meu DNA, no meu corpo, na minha mente, correndo em minhas veias. Qualquer coisa me estressa. Pessoas andando devagar na minha frente, por exemplo. As amigas da vizinha da frente, que mesmo com uma puta campainha instalada no portão, insistem em bater e gritar o nome da dita cuja a plenos pulmões seja às duas horas da tarde, ou às três horas da madrugada. O povo anda me estressando bastante, ultimamente – é gente que pede impeachtment ao invés de renúncia, ou intervenção militar; a economia estagnada há quinhentos anos; feijoada nada acontece...

12. Já morou em outro país além do Brasil?
Morei um ano na Suíça como Au Pair. Eu não deveria ter voltado e esse fato amarga o meu hálito matinal todas as manhãs desde 2010.

13. Você tem tatuagem?
Não, mas penso seriamente em tatuar essa pergunta “você tem tatuagem?” para ver se param de me perguntar isso.

14. Qual foi a última coisa que você pesquisou no Google?
Não me lembro, mas deve ter sido algo relativo a câncer, ou algum endereço, ou como envenenar alguém sem deixar vestígios.

15. Qual a sua maneira de ser egoísta?
Talvez o que lhes vou dizer lhes pareça estranho, senhores socialistas, progressistas e humanitários, mas nunca me preocupo com o meu próximo nem tento proteger a sociedade, que me não protege, e direi mesmo mais, que geralmente só se preocupa comigo para me  prejudicar. Por isso,  arredando-os da minha estima e mantendo a neutralidade em relação a eles, é ainda a sociedade e o meu próximo que me devem retribuição.
O Conde de Monte Cristo (Alexandre Dumas)
16. O que demora demais?
Demora demais para as pessoas pararem de cagar regra.

17. A última vez em que você ficou acordada durante a noite toda…
Só fico acordada a noite inteira por dois motivos: doença na família, ou insônia. No caso de doença, corro o risco de dar uma cochilada e deixar todo mundo na mão. Não é desleixo, é sono. Já a insônia me deixa acordada até o sol arraiar. Depois de passar a noite inteira rolando na cama, ou escrevendo, durmo como se nada tivesse acontecido. As noites sem dormir são nocivas para mim porque perco o controle das ideias (se como eu tivesse algum). Faço planos aparentemente plausíveis de ir para Dubai só de mochila e através de caronas, trabalhando em navios e o escambal. Da última vez, mês passado, coloquei na cabeça que seria uma tradutora de Hindi morando confortavelmente na Inglaterra. Eu nem gosto da Inglaterra!

18. Qual comida que todo mundo ama, mas que você odeia?
Depois de uma certa reeducação alimentar passei a comer de tudo (até peixe ao forno com yogurte), menos quiabo e jiló. Morar durante um ano na Suíça inovou meu cardápio de um jeito, que vocês não imaginam. Perdi todas as minhas frescuras. Mas se é para responder, vou escolher a carne vermelha. Cada vez mais tenho dificuldades em querer, de livre e espontânea vontade, comer churrasco, hambúrguer, ou assados. Não chego a odiar, até como caso todo mundo me leve arrastada para um restaurante, mas tento evitar. Eu até poderia iniciar um papo vegetariano, mas vou ficar quieta porque adoro peixe.

19. O que você está vestindo agora? O que essa roupa diz sobre você?
Estou escrevendo este texto durante a noite e, portanto, usando pijamas. O que os pijamas dizem sobre mim é que, sendo a pessoa depressiva que sou, por mim está tudo certo passar o dia inteiro de pijamas. Isso deveria ser socialmente aceito. Eu ganhei um conjunto do Mickey quando era criança e fui com ele na padaria perto de casa. Só depois a menina que o deu para mim disse que era um pijama, ora essa, onde já se viu. Fiquei chocada de início, apesar dos meus nove anos, de ter ido vestida dessa forma para um lugar público, mas quer saber? Depois, fui de novo. E no domingo eu fico de pijamas no melhor beggar style, às vezes no meio da semana, e não estou nem aí.


20. Já fez amigos ou se apaixonou por alguém que você conheceu pela internet?
Tantos, que não sei mais como fazer isso fora da internet. Se é que isso é possível. Acho que não.

21. O que te faz perder o sono durante a noite?
Preocupações, é claro. E o que um ansioso mais tem são preocupações infundadas. Antes de dormir, costumo ler alguns capítulos do livro da vez e às vezes a história fica tão boa, que leio mais um pouquinho. Daí, fica tarde e preciso dormir. Apago a luz, me acomodo. Fico pensando na história. Começo a remoer as possibilidades do próximo capítulo. Perco o sono.

22. Qual foi a primeira coisa que você comprou com seu dinheiro?
Mesada ou salário? Com minha mesada, que na época já era o Real, comprei lanche na hora do recreio. Com o meu salário, não me lembro mais. Pode ter sido qualquer coisa na papelaria Peixinho Dourado, que ficava ao lado do prédio onde eu trabalhava. Eu adorava aquele lugar porque tinha de tudo.

23. O que tem na sua prateleira?
Eu não tenho uma estante propriamente dita. Tinha uma prateleira no meu quarto, mas tirei porque me deixava tensa – acumulava poeira e eu estava vendo a hora que aquilo despencaria. Eu tenho dois criados-mudos, um em cima do outro, revestidos com folhas de jornal. Sim, sou muito craft. Tem fotos dele aqui e sua função não mudou muito desde 2012: guardo meus livros, que são poucos, e minhas estatuetas de elefantes.

24. Como você se acalma depois de um dia estressante?
Eu adoraria responder “meditando”, mas a verdade é que eu prefiro deitar e chorar em posição fetal. Um banho quente à noite, antes de dormir, resolve (ou melhor, dissolve) qualquer problema. Logo depois do banho vem os cachorros, pois tenho três e meio (Bethoven tem 15 anos de idade e meio que se aposentou da gente) e eles precisam de atenção – e eu também. Talvez muitos respondam que ler um livro, ou ver um filme, ajuda a relaxar, mas no meu caso é o contrário. Eu gosto de prestar atenção no que estou lendo, ou assistindo. Por outro lado, gosto de escrever no meu journal quando o dia merece alguma nota.

25. Escreva sobre algo que você quebrou…
Quando eu era criança (4/5 anos de idade), meus pais trabalhavam em uma casa de família, que por sua vez tinha quatro netos; o mais novo da mesma idade que eu. Adorávamos brincar juntos. Um belo dia, o mais velho dos irmãos chegou na casa com presentes que ganhou de índios de verdade. Dentre os objetos, uma flecha de verdade. Tão sensacional quanto proibido para os irmãos mais novos e, consequentemente, para mim. Tudo bem. O garoto colocou a flecha em cima do sofá da sala. Eu e os mais novos decidimos brincar de qualquer coisa aleatória, que consistia em correr ao redor da mesa de centro. Em determinado momento, enquanto eu corria passando pelo sofá, ouviu-se um pléc. Acontece que metade da flecha estava para fora do sofá e eu, ao passar, fisguei a parte pontiaguda com a minha coxa e, com a pressão, quebrei a flecha ao meio. A ponta fez um furo na minha perna. Eu nunca, nunca, senti dor igual àquela em toda a minha vida. Tenho a cicatriz até hoje. Não consigo me lembrar da reação do garoto, dono da flecha.

26. O que você mais gosta de comer no café da manhã?
Granola! Eu sou tarada por granola. Como salpicada em frutas, ou no yogurte, ou com leite. Eu sei que o meu dia só terá metade de seu potencial quando não há granola no café da manhã. É quase uma superstição. E no inverno, às vezes, abro mão da granola e faço um mingau de aveia com canela.

27. Como quer que sua vida de aposentada seja?
Eu não sei nem como será minha vida de contribuinte daqui há uma semana. Acho ostentação, pelo menos por enquanto, imaginar uma vida de aposentada. Não sei se vou ter netos porque as chances de ter filhos é mínima. Também não sei se estarei casada porque, olha, não está fácil para ninguém. É provável que não esteja mais no Brasil porque esse país, sinceramente, não foi feito para brasileiros. Se eu conseguir me aposentar dignamente, com certeza irei morar na Europa (e finalmente dar serventia para a dupla cidadania). Mas nunca se sabe, né? Vai que eu consigo casar com um árabe! Ou que me case com um diplomata... E se eu virar uma escritora famosa? Muitas possibilidades. É claro que o mais provável seja eu me aposentar como artesã e passar o resto da vida alimentando cachorros de rua.

28. O que você leva em consideração ao votar em um partido político?
Eu não voto em partidos políticos, voto em candidatos com propostas boas e viáveis. Em suma, falou em ferroviárias, reforma política e investimentos concretos em educação: ganhou meu coraçaozinho. Viu? Não preciso de muito. Por isso, a eleição passada foi um momento complicado para mim. Até o último instante estava convencida de que anularia meu voto. E não, não tenho o menor peso na consciência em fazer isso, pois não voto para ganhar.

29. A religião é um fator importante na sua vida? Por quê?
Não. Durante muito tempo acreditei em deus, mas até aí, quando criança eu acreditava em Fada do Dente também, então... Li sobre o catolicismo, espiritismo, islamismo, hinduísmo. Gastei uma bela cota de crença com o espiritismo, aliás. Hoje, sigo livremente a filosofia budista e me sinto realizada. Respeito plenamente todas as crenças, mas prefiro que não tentem me evangelizar – o ateísmo é um caminho sem volta. Ainda tenho de lidar com algumas crendices de família, pois nem todo mundo compreende. A religião para mim não passa de um sinônimo para fanatismo e cegueira.


30. Como está sua casa agora, limpa, suja?
Suja. A minha casa está suja. Eu tenho três cachorros e meio, incluindo um filhote. Como você queria que minha casa estivesse? A gente faz o que pode.

31. Você não economiza quando o assunto é…
Minha família. Eu vivo com as finanças sufocadas, mas se minha mãe, ou um dos cachorros, exigem alguma despesa não penso duas vezes. Nem que eu tenha de pagar em vinte vezes, a cirurgia será feita, o remédio será comprado, todos estarão agasalhados, alimentados, protegidos. A Luna, por exemplo, não cabe no orçamento da casa, e mesmo assim já foi vermifugada e logo será vacinada e castrada. É uma responsabilidade, além de ser um animal de estimação querido por nós.

32. Você separa o lixo para reciclagem?
Separo, mas no meu bairro não temos o caminhão especial para recolher esse tipo de lixo. Ou seja, o que acaba acontecendo é que ajudamos os catadores de latinhas e, às vezes, os donos de ferro-velho, ou aqueles que reciclam papéis. Eu cheguei a entrar em contato com a sub-prefeitura mas, obviamente, eles cagaram para a minha solicitação.

33. Sua sobremesa favorita?
É um pudim branco com calda de chocolate, receita de família (que minha mãe insiste em passar para todo mundo, fué). Quero que o mundo acabe naquele pudim branco, não ligo para mais nada. Tasco calda de chocolate e vou para a sala assistir um pouco de televisão, ou entro na internet, e até esqueço que estou viva. No dia seguinte, a balança marca 63 quilos. O que eu faço? Como mais pudim branco porque mereço ser feliz.

11 de abril de 2015

Luna entra em cena

Já contei essa história tantas vezes desde sábado, que minha vontade de vir aqui escrevê-la é nula. Resumindo: minha mãe salvou uma cachorrinha do atropelamento no sábado passado, ficamos o dia inteiro procurando por um dono para ela e à noite encontramos uma família disposta a adotá-la. É claro que não foi tão simples assim. Antes, tive de divulgar em todas as minhas redes sociais, no whatsapp e até na OLX. Domingo à noite ela já estava na nova casa, apesar de eu ter balançado um pouco na hora de entregá-la.

Eu me apego muito fácil aos animais. Para mim, ela ter passado dois dias e uma noite aqui em casa já foram o suficiente para nos tornarmos amigas de infância (quem dera eu tivesse a mesma facilidade com cerezumanos). Talvez eu não assumisse isso na frente de algumas pessoas, em público, mas como o Bonjour Circus, de certa forma, me protege de eventuais desconfortos, posso contar tranquilamente que chorei feito um bebê assim que o carro virou a esquina levando consigo a filhotinha. É lógico que me senti uma criança, que me perguntei aonde estava a maturidade. Doá-la era o que queríamos, afinal. Além de uma fêmea não combinar com os três machos que já temos, um quarto cachorro não caberia no orçamento.

Dormi mal no domingo, preocupada com a adaptação do filhote e, por que não, da família também. Segunda-feira, o dia inteiro, fiquei com a cabeça nas nuvens tentando convencer a mim mesma de que apesar da cachorra ter se acostumado comigo não sentiria falta tendo uma criança para brincar. Cachorros se acostumam com qualquer situação (e eu não diria o mesmo dos humanos). Agora, na segunda-feira à noite eu estava convencida de que nunca mais dormiria, que o aperto no coração não passaria, que o mundo estava ao contrário e ninguém reparou. Eu não tinha uma noite dessas há muito tempo, desde que o Benjamin era bebê e eu me assustava com cada ronco dele.

Pois bem, depois de uma noite terrível, acordo na terça-feira com uma mensagem da família comunicando a devolução da cachorra. Disseram que ela chorou no domingo e na noite de segunda-feira sem deixar ninguém dormir. Os vizinhos reclamaram que ela chorava o dia inteiro, pois ficava sozinha na casa. Nesse ponto fiquei surpresa porque pensei que a partir do momento em que a criança tivesse uma companhia não iria mais para a casa da avó antes da escola, mas sim ficaria com a cachorra para brincarem. Pelo visto, nada do que imaginei de fato aconteceu. A família toda saía às seis da manhã e só voltavam às sete da noite. Nesse período a filhote, em fase de desmame, ficou sozinha na garagem à mercê de um gato que invade as casas e come a ração dos animais.

Talvez eu exija demais das pessoas, ninguém é obrigado a raciocinar como eu, mas num cenário como esse, se eu estivesse no lugar deles, seria evidente que um cachorro atrapalharia o meu cotidiano. Por mais que meu filho, ou filha, pedisse um animal de estimação eu não precisaria de muito tempo nem de cálculos para descobrir que não poderia assumir tal responsabilidade. Porque, afinal de contas, um animal, qualquer que seja a espécie, exige cuidado e atenção. Ademais, eu não faria outras pessoas perderem seu tempo e saliva doando para mim um filhote do qual eu não pudesse tratar. Sabe? Não era só uma cachorra sem dono, eram eu e minha mãe também. Foi estressante para nós, não só o sábado, mas os dias que se seguiram.

Pensando em tudo isso e com a cabeça fervendo de raiva, terça-feira recebi a filhote de volta. Quando ela me viu e começou a abanar o rabo e a chorar; quando eu a peguei no colo e ela mordiscou meu rosto e lambeu meu pescoço; quando ela se agarrou como pôde no meu ombro implorando para que eu não a soltasse, para mim, valeu a pena. Naquele momento, eu e minha mãe decidimos que a cachorra nunca mais sairia da nossa casa. Uma castração resolverá o convívio com os três machos. Muitas costuras e bordados irão aumentar o orçamento. O nosso sobrado é espaçoso e o quintal é amplo. Eu trabalho em casa, o que me proporciona acompanhá-la o dia inteiro e ajudá-la na fase difícil que é a do desmame.


Nessa mesma noite escolhemos o nome: Luna. Queríamos algo que remetesse aos olhos dela, que são marcantes, e sem querer acabei sugerindo este (“lua” em italiano). Minha mãe, que adora o luar, aceitou na hora. Na quinta-feira a levamos ao veterinário (pois nem isso a família adotiva fez), onde ela foi pesada (dois quilos), descobrimos que está com dois meses e que tem uma saúde de ferro. Ela crescerá do tamanho médio ao grande, a veterinária não soube especificar. Semana que vem iremos vermifugá-la (preparem as máscaras de gás) e logo depois vaciná-la. Aos seis meses faremos a castração.

Luna é muito boazinha, não chorou uma única vez desde que voltou para nós. Adora morder, como todo filhote feliz, e lamber nossos rostos. É geniosa feito o diabo, mas isso só a deixa mais engraçada. Rosna quando interrompemos sua brincadeira com beijos. Gosta de dormir aninhada no meu colo com a cabecinha no meu ombro. Sabe brincar sozinha, mas senta na minha frente com cara de bunda quando fica entediada. Roubou minhas pantufas e vai mastigá-las até sobrar só a lembrança. Entende mais o “não” do que o próprio nome. Meus outros cachorros ainda não se acostumaram com ela, estão com ciúmes. Todo mundo, aliás, está se adaptando. O meu quarto virou um playground de cachorro, tem um monte de brinquedinhos (que o Benjamin ignora desde que cresceu) espalhados pelo chão. Quando ela dorme (por uma hora e meia ou duas, mais ou menos), aproveito para “viver” e, claro, tiro um monte de fotos porque enquanto acordada Luna é um furacão. Como, repito, todo filhote feliz.