27 de fevereiro de 2015

Casamentos circenses que deram certo


Quando alguém toca no assunto casamento circense o meu corpo treme. Em 80% dos casos a vibe está completamente errada, nos 20% restantes acabam montando uma festa steampunk (que morte horrível ser obrigada a aguentar isso). Ou seja, é um tema que todos acham interessante, mas ninguém sabe exatamente o que fazer. As pessoas não sabem, por exemplo, que vão ter de mexer bastante no bolso. Casamento circense não se faz com papel crepom e confete. Os mais otimistas acreditam que é possível elaborar algo minimamente aceitável sem uma tenda. Outros, todavia, desistem porque estão crentes de que vão precisar de um elefante. E quem nessa cidade oferece serviço de aluguel de elefantes?

Resumindo, se você aí está pensando em fazer um casamento ambientado na arte circense, sinto dizer, mas já começou errado. Sério, eu não queria ser a portadora dessa má notícia, mas pare por aí. De tudo o que você precisaria comprar, esses narizes de palhaço guardados na sacola plástica são a única coisa que você jamais deveria usar numa festa de casamento circense. Estou querendo banir as boas ideias do meio matrimonial? Não. Estou querendo evitar a vergonha alheia. Até porque a arte circense pode dar muito certo quando há pesquisa e bom gosto envolvidos. Se você se basear na companhia Spacial ou Moscou, por exemplo, obviamente as coisas sairão erradas. É essencial ter um bom livro em mãos, conhecer um pouco do trabalho de Buckles e ir além do Pinterest. Viu? Eu disse para você desistir!

E para a nossa alegria, teve casais que fizeram a lição de casa. Foi muito difícil encontrá-los, passei dois dias pesquisando, mas consegui achar alguns gatos pingados que promoveram perfeitos casamentos circenses. Quero dizer, se você se der ao trabalho de ir ao Google e procurar, encontrará centenas de resultados – quase nenhum se salva. Não precisei visitar os cofins da deep web, mas nem por isso foi fácil. Garimpei bastante e trouxe o melhor da arte circense representada em casamentos.

Stacey & Josh
Eu não acho que seja possível fazer melhor do que isso, mas estou esperando ser surpreendida (quem sabe por mim mesma). O casal foi esperto e escolheu uma das melhores décadas para o circo: os anos 40. Para ajudar nas despesas, amigos fizeram o bolo e cupcakes, outro serviu de DJ e, se não me engano, quem oficializou a cerimônia foi um amigo também. Um dos itens importantes para um casamento assim (item básico, eu diria) é a simplicidade. Sim, é necessário caprichar bastante nos detalhes, na combinação de cores, mas por outro lado, quanto menos, mais. A cerimônia e a festa aconteceram sob uma lona, num descampado e o foco foi direcionado para figurinos, mesas e apresentação de menu. A noiva sabia o que estava fazendo e sacou que a joia do casamento não seria seu vestido, mas a estrutura como um todo: a tenda era a principal atração!

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Adam & Halli
Como eu falei antes, a simplicidade é importante para uma festa assim ser bem sucedida, e colocar a mão na massa também é indispensável. Adam, Halli e familiares carregaram baldes, agruparam bancos de madeira, encheram balões. A noiva se maqueou no banheiro de casa. Não houve uma tenda propriamente dita, mas a família ergueu um circo com as próprias mãos no galpão de casa. E muito mais do que pipoca doce e flores coloridas, um casamento circense precisa ter suor próprio e família reunida. Numa tarde ensolarada, todo mundo tomando cerveja ou suco, a criançada ajudando, barulho de martelo, cachorro-quente e diversão: foi assim que surgiu um casamento lindo.

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Michelle & Werner
Apesar de precisar pouco para fazer muito, Michelle conseguiu criar um casamento circense mais requintado. O casal alugou uma fazenda, tendas, itens próprios de um circo, fotógrafo e no fim deu tudo certo (o engraçado é que há circenses na família da noiva, mas pelo relato que encontrei, não me parece que eles ajudaram). Para mim, talvez, as coisas tenham ficado um pouco confusas (às vezes era um casamento, outras vezes um espetáculo), mas não posso negar que ficou realmente lindo e genuinamente circense. Pecaram bastante na decoração das mesas, mas gosto é gosto. Não vou ser maluca de ficar apontando defeitos!

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Katy & Thomas
Casaram na igreja, como as pessoas normais fazem, mas não economizaram na festa. Os convidados foram recepcionados no campo, com uma ótima decoração e havia bastante brinquedos para as crianças. A noiva ralou meses a fio para encontrar um circo para seu casamento. Não foi nada barato, mas todo mundo comeu, bebeu e dançou até o anoitecer, encerrando a festa com fogueira e balões de velas – uma atmosfera muito bonita!

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Celeste & Mirko
Eu estava quase desistindo, fechando as 500 abas do meu navegador e dando a pesquisa por encerrada quando dei de cara com esse casal que escolheu a década de 50 para seu casamento circense. Pela roupa dos convidados nesse, e em todos os outros que mencionei, dá para perceber que a participação de todo mundo é indispensável. De todas as cerimônias que vi, acho que essa está mais perto do que eu faria. Não envolve grandes dificuldades e fica confortável para todo mundo. Não encontrei muitas informações, mas dá para ter uma boa ideia através das fotos.

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O que todos esses casais tem em comum é a paixão pelo circo; em determinado momento da vida todos tiveram contato com essa arte ou conviveram com parentes que trabalham/trabalharam em companhias. Não estou dizendo que você, por não estar familiarizada(o) com isso, deva desistir. Afinal de contas, se você realmente quer um casamento circense, o realizará independente de opiniões negativas. E mesmo que seja feito de qualquer jeito, o importante é se casar com quem se ama e estar feliz por isso. Mesmo assim, existem formas de se fazer, há caminhos mais fáceis, que podem levá-la(o) para uma satisfação maior (e a seus convidados também). Tive todo esse trabalho porque percebi uma interpretação errada (principalmente no Brasil) quanto a temática circense; me achei na obrigação de corrigir o mal entendido e, quem sabe, inspirar futuros casais. Eu nunca trabalhei com eventos nem me casei, mas acredite: de arte circense, eu entendo!

23 de fevereiro de 2015

Pequenas coisas, grandes incômodos

Eu não sou uma pessoa fácil. Quero dizer, numa escala de dificuldade que vai do azul para o preto, ainda que eu permaneça na parte azul, fico mais para o degradê cinza do que para o azul anil. Ou seja, dá para conviver numa boa. Joinha para mim. Daí que tem essas coisas do dia a dia, que chamamos de, sei lá, coisas, mas são recados do universo. E às vezes ele está afim de fanfarronar. Isso mesmo. Não há palavra melhor. Bela observadora que sou, não deixo nada passar em branco. Anotei os piores momentos minúsculos do meu dia, que nunca me deixarão em paz.


1. Não tem ninguém na linha
Eu estou sentada. Às vezes, trabalhando. Outras vezes, navegando na internet, lendo artigos interessantes, o fone de ouvido enrolado no pescoço, carregando um vídeo, comendo um sanduíche de dois andares. Tudo ao mesmo tempo. Aí o telefone toca e, vocês não sabem, mas me dá pânico ouvir telefone tocar. Nem precisa ser o meu, basta o vizinho demorar mais de quatro toques para atender, que eu já começo a balançar a perna e desejar que ele tenha um furúnculo na nádega. Então, se o meu telefone toca, ou eu atendo no segundo toque, ou faço o diabo para atendê-lo antes do terceiro e meio (são meus cálculos, deixa). Isso inclui: pisar no cachorro, empurrar pessoas, tropeçar nos tapetes, ralar o cotovelo na parede, bater o joelho nos móveis. Ou, no caso aqui ilustrado, cuspir um considerável pedaço de sanduíche de volta no prato, torcer a perna, fechar abas sem querer, se enforcar com o fone de ouvido e quase derrubar o notebook, cair para trás de volta na cadeira e sair rodando pelo quarto (porque a cadeira tem rodinhas). Então, pensemos: consigo atender no segundo toque e meio, ofegante, porém viva, mas a pessoa desligou. É preciso muito equilíbrio emocional, concorda?

2. Os sons mais (e menos) importantes
Começou a chover. Eu amo chuva. Como já disse, um dia bonito para mim é aquele nublado, chuvoso, frio. Então, quando chove (coisa rara, ultimamente) fico feliz. Abro a minha janela e deixo o vento entrar. As pessoas costumam me oferecer guarda-chuvas para percorrer pequenas distâncias, insistem quando recuso, perguntam se tenho certeza e sim, tenho certeza, eu gosto de chuva. Tem, sempre tem, o espírito de porco que fecha as janelas do ônibus, a espécie atormentada que é feita de açúcar, e os telespectadores. Estes últimos me atrapalham bem mais: aumentam o volume da televisão conforme a chuva cai lá fora. Chega num ponto que não consigo ouvir nada além dos programas televisos, gritos, sensacionalismos. Não consigo me ouvir pensar. Tapar os ouvidos não faz sentido, então o quê? A chuva amansa, o volume da televisão diminui. Sinto que perdi um momento da minha vida.

3. Ainda a respeito de sons...
Quando gosto ou me interesso por alguma coisa, é intenso. Só não mato um animal de porte pequeno e oferendo porque não é um costume encorajado pela minha espécie. Estou momentaneamente curiosa com determinado desfecho de uma cena da novela; preciso saber, ardentemente, qual será a resposta da mocinha para o mocinho no filme indiano mais esperado do ano; alguma guru aleatória do Youtube vai revelar seu segredo, ou o ponto X de um tutorial que demorei para encontrar. Darth Vader dirá: “Luke, I'm your...” BRÉÉÉÉÉÉÉÉ, uma moto sobe a rua. O telefone toca. O cachorro late. Alguém grita, aleatoriamente, porque em subúrbio funciona assim. O papagaio do vizinho começa a cantar Parabéns. Sua mãe te faz uma pergunta, tão sincronizada, que só pode ter sido obra de Mefistófeles. Mozart arranca numa Die Entführung aus dem Serail e não larga aquela batuta nem por um decreto. Mais um momento da minha vida se foi.

4. Surdez optativa
Eu, naturalmente, não gosto de repetir o que digo. Nasci assim, paciência. Portanto, falo clara e pausadamente, meu interlocutor sempre será um retardado tendo, ou não, diplomas de doutorado e o caramba a quatro. Eu faço a minha parte. Procuro não me incomodar. Não deixo brecha para maus entendidos, ou palavras cortadas, mal pronunciadas, não coloco vírgula onde não foi chamada. Mesmo assim, às vezes acontece. Tudo bem, eu repito. Uma vez, e já é muito. As minhas veias obstruem, mas o sangue nem chega a borbulhar. O problema é quando faço uma pergunta, por exemplo, “você prefere azul ou amarelo?”, certo. Calma, que eu preciso ilustrar. Então a pessoa pergunta: “o quê? Não entendi”. Ok, eu respiro fundo: “você prefere az...”

“Prefiro amarelo”.

A minha vista escurece.

20 de fevereiro de 2015

Por que não respondi seu comentário?

Faz tempo que quero escrever este texto, mas não encontro a forma adequada para me expressar. Eu quero ser didática, ética e quadrada. Talvez por não fazer ideia de como uma pessoa didática, ética e quadrada pense, eu não consiga evoluir. Porque eu não sou, nunca fui didática, ética e quadrada. Então, acho que jogarei os trabalhos para o alto e boa sorte a todos nós.

Eu adoro visitar blogs. Existem alguns que, aparecendo no topo da lista de atualizações, eu paro tudo o que estou fazendo para ler e, de praxe, fuxicar a página inteira porque não me canso de ler textos antigos, bisbilhotar o blogroll, saber o que a pessoa leu ou assistiu. Não é stalkear, já que as informações estão ali expostas para todo mundo, e mais um pouco. Foi, aliás, essa minha paixão que me ajudou a decidir voltar à blogosfera de uma vez por todas. Mas, não se engane, isso não fez de mim um membro mais presente.


Faço questão de visitar diariamente os blogs que mais gosto. Com ou sem textos novos, lá estou eu reciclando velhas estórias. Porque eu gosto da pessoa que está por trás daquilo. De alguma forma, ele/ela me conquistou. Às vezes, compartilho no Twitter ou no Facebook; meus seguidores e/ou amigos precisam ler as palavras que me fazem bem. Indico o endereço para interessados, insisto. “Leia esse blog. Não, sério, vale a pena #mindblowing <3”! Agora, se eu disser a você que comento em cada um deles, assiduamente, estarei mentindo. Para falar a verdade, consigo contar nos dedos quantas vezes fiz isso.

Para alguns blogueiros isso é o fim. Eu entendo, sim, com certeza. Receber um comentário naquele texto que levou embora duas semanas da sua vida para todo o sempre é um afago – é o pônei que seu pai não te deu. É lógico que eu adoro ler os comentários do Bonjour Circus. Mas (talvez isso choque você, portanto, se prepare) eu não escrevo para isso. Quero dizer, não é a minha finalidade primordial. O que eu quero é ter leitores que se identifiquem e que, por um acaso, passem adiante uma ideia que julguem boa. Eu sei que corro o risco de parecer mal agradecida, mas é preciso esclarecer: o Bonjour Circus quer ser compreendido, não comentado.

Ao sair para passear na blogosfera, levo esse pensamento comigo. Se o texto for sensaional, compartilharei. Se o texto mexer comigo, me desarrumar, inspirar, vou voltar para lê-lo, guardá-lo, mostrá-lo para a luz do mundo que o merece. E se o texto não for tão bom assim, ou péssimo, ou lhe falte algum detalhe, tudo bem, faz parte. Se, de repente, enquanto leio, me vier à cabeça algo importante a dizer, algo que eu realmente quero que a pessoa saiba, um recado, um carinho, uma urgência – eu comentarei. Caso contrário, prefiro não desperdiçar opiniões, causar mal entendidos (como muitas vezes acontece com os meus textos) ou, o pior de tudo, comentar só porque é o que se espera de mim (mesmo que seja vazio, mesmo que não acrescente). Olha, isso é coisa que eu não faço.

Então, eu sei que deixo a impressão de não retornar as visitas que recebo, mas não é bem assim. Vou em todos, todos, os blogs que passam por aqui (posso afirmar que sou uma, de um grupo seleto, que lê os perfis, abouts, sobres...). Garimpo os arquivos, leio as páginas internas e enfim, se o último texto publicado é uma Coca-Cola toda, vocês já sabem. É o meu jeito de respeitar o trabalho de alguém. É o que eu acho. Estão todos livres para discordar – seja nos comentários, ou nunca mais voltando aqui. O importante é encontrar a sua forma de se expressar, de se fazer entender. Eu sei que faz parte saber ser amado, mas existem outras formas de alcançar isso. Eu, por exemplo, escolhi a sinceridade.

Obrigada, se deixar um comentário.
Obrigada, se não deixar.

16 de fevereiro de 2015

As Aventuras de Pi (Yann Martel)

Ano retrasado, minha mãe chegou animadíssima em casa: “você precisa assistir As Aventuras de Pi”. Eu já tinha ouvido falar da adaptação para o cinema, mas não assito a nenhum filme antes de ler o livro. E como este não estava nem perto do topo da lista de leitura, pedi paciência a ela porque a coisa iria demorar. Eu não tinha a menor curiosidade de conhecer a história “extraordinária” de Pi Patel, apesar do que ouvia falar. O filme ganhou o Oscar, o livro virou best-seller, 2013 passou e 2014 também. Até que semana passada resolvi furar a fila, de tanto que minha mãe fala do filme – ela gosta de comparar a história com a vida que levamos. “Você vai se identificar muito, filha”.

Confesso que se Pi não fosse indiano, talvez eu tivesse demorado mais um ano para finalmente ler o que ele tinha para me contar. O que me chamou a atenção, também, foi sua sede por religiões. Ou esse garoto seria interessante, ou extremamente chato. No começo, nem uma coisa, nem outra. Tirando alguns ensinamentos enérgicos (para dizer o mínimo) de seu pai e alguns contratempos religiosos, eu diria que o início é morno demais para o meu gosto. Mas como eu sei que toda boa aventura precisa começar de algum jeito, e em algum lugar neutro, continuei.

Bom, a família de Pi resolve se mudar para o Canadá. Vai todo mundo de navio: ele, seu irmão, os pais e uma parte do zoológico de sua família. Como todo mundo sabe (mesmo quem não leu, ou não viu o filme), o navio afunda. O livro, para mim, começa efetivamente nessa parte. Pi, Suco de Laranja (uma orangotango), Richard Parker (o tigre), uma hiena e uma zebra são os únicos sobreviventes que convivem dias infindáveis dentro de um único bote. Daí para frente, sofri muitos momentos de tensão, quase desisti, achei ser demais para mim, que já nasci com os nervos abalados. Não é uma história bonita e por vezes tive a impressão de que o autor errou feio na mão. Havia trechos onde eu simplesmente fechava o livro, disposta a nunca mais abri-lo. As coisas que vi acontecerem dentro daquele bote estavam um nível acima da minha capacidade de compreender a crueldade da vida. O que eu não sabia, é que terminaria o livro trêmula, com as mãos geladas, à beira de uma crise de pânico.

Foi assim que fechei o livro, tomando um copo de água com açúcar. Eu estava em choque, nem um pouco preparada para o final. Foi estranho, pois estou acostumada a sacar a intenção do escritor lá pela metade, às vezes logo no primeiro capítulo, mas Yann Martel me atraiu para uma armadilha bem camuflada. Eu sentia confiança enquanto lia As Aventuras de Pi. Nada poderia me abalar. Quando me aproximei das últimas páginas, fiquei decepcionada: “mas era só isso?”, perguntei para mim mesma, sentindo raiva de minha mãe que alimentou tanto minhas expectativas. Achei que no finalzinho teria uma moral requentada, qualquer coisa sobre fé e sobrevivência, mais um enlatado para quem não tem muita bagagem literária e não leu isso milhões de vezes.

Só que aí eu tomei um soco.
No meio da cara.

As Aventuras de Pi é uma história sobre deus. A minha fé tem sido abalada por diversos motivos, ultimamente, e já há algum tempo que não acredito nessa entidade. Mas isso não me fez gostar menos do livro, pelo contrário. Acredito que alcançou distâncias muito mais profundas, lugares inóspitos, frios e escuros. Fui pega de surpresa e isso, acho, foi a melhor parte de tudo! Passei muitos dias tensa, ansiosa, para saber onde aquele livro me levaria. E sim, eu me vi na pele de Pi Patel muitas vezes após ter conhecido sua história de vida. Reli alguns trechos com olhos completamente diferentes e senti na pele a tristeza, a solidão, o perigo. Todos somos Pi Patel e Richard Parker, mesmo que só um pouquinho. O que nos diferencia é a escolha. E a minha me trouxe lágrimas aos olhos.

Eu escolhi acreditar no extraordinário!

13 de fevereiro de 2015

Breve relato do pequeno infortúnio

Acabo de passar pela pior TPM de todos os tempos. Durou, mais ou menos, duas semanas e alguns quebrados. Eu olhava para as pessoas e o que via eram rostos cubistas, tipo aqueles do Picasso, sabe? Mas sem arte envolvida, apenas uma desconfiguração ocasionada por hormônios que, por sua vez, também estavam desnorteados, perdidos, levemente tresloucados. Eu não conseguia reconhecer meus queridos, diferenciar amigos de inimigos, era tudo um grande campo de guerra, todos unidos em um complô contra mim, que sou e sempre fui uma incompreendida.

Weeping Woman, de Pablo Picasso
Mais ou menos assim, só que pior

Nessa época – que agora passou sem deixar saudades –, inventei de fazer uma lista com motivos, vários, para não namorar comigo. Eu estava no meu melhor. Com o item número 115 se aproximando, eu decidi que não valia a pena, que era complicado mesmo, que quer saber? Farei um texto somente sobre minha TPM e não haverá necessidade de mencionar a perna torta, o dente torto, a sociopatia. A TPM basta. O “incômodo”, como diria uma velha amiga portuguesa, se explica por si só (mas Chico Buarque não explica o incômodo, o que é um importante ponto negativo).

Eu pretendia me matar, ou assassinar alguém próximo. Não exatamente um conhecido, mas qualquer transeunte desafortunado. Não exatamente me matar assim, para morrer, mas tomar Rivotril o suficiente para dormir até 2016. Porque, apesar de no meu lugar estar uma neandertal, minha parte racional sabia que aquilo iria passar; não sabia, infelizmente, que duraria duas semanas. Ninguém estava autorizado a me tocar, incluindo objetos inanimados. Se a cortina da sala, por exemplo, esvoaçasse (verbo no pretérito imperfeito, eu conferi), se ela fizesse isso, mesmo a culpa sendo do vento, mesmo sendo seu instinto primitivo de cortina, teria grandes problemas comigo. Aliás, teve. Eu passei pela janela, a cortina roçou meu braço. Eu parei, a cortina parou. A gente se encarou pelo o que pareceu ser a eternidade, até que a peguei de surpresa e comecei a torcê-la, e torcê-la, xingando, quase rasgando seu tecido fino e aos berros de “vai para fora, desgraça”, a joguei pela janela.

Não me orgulho disso.

Eu, e mais uma boa parte do hospício, estamos acostumados com meus períodos obscuros, nodosos, estranhos. Em determinada altura do mês, começo a discutir com o computador, com o esfregão, com o mundo que um belo dia acorda em câmera lenta e todo mundo resolve andar devagar na minha frente. Aí, a gente já sabe. Alguns dias demorarão um pouco mais para passar. Todo mundo se reunirá no Coliseu para, mais uma vez, assistirem de camarote aos leões saírem sem suas jubas e eu, triunfante, erguendo as mãos ensanguentadas. É uma metáfora de diversas camadas, eu sei, mas faça um esforço para permanecer na superfície.

The Christian Martyrs' Last Prayer, Jean-Léon Gérôme
O meu útero

Passou. Ficaram as lembranças de um passado remoto, que posso jurar de pés juntos que não me pertenceu, de tão longínquo e surreal. Não me lembro do que disse, do que fiz, do que li. Só sinto uma dor latente no corpo, mas tanto pode ter sido da tensão pré-menstrual quanto de uma noite mal dormida – daquelas que deixam hematomas de procedência desconhecida. Eu pedi desculpas sem saber do quê. Estou limpando cacos que não sei de onde surgiram. A caixa do mercadinho aqui da vizinhança não me cumprimenta mais. Encontrei um terço e um dente de alho debaixo do meu colchão. Não sei ao certo o que houve na minha ausência.

Naturalmente, essa não é a primeira vez (tão pouco a última). Porém, sem dúvidas, foi a mais intensa. Eu não sei o que aconteceu. Os últimos meses, talvez, consigam explicar. Algumas pessoas ao meu redor, quem sabe, tem sua parcela de causa e efeito. Ou tudo não passa de uma armação do universo, desse pedaço de tempo que chamamos 2015, que começou bem errado e fora da casinha. Ninguém sabe. A gente apenas sente – passamos as mãos pelo nosso corpo, agarramos a própria garganta, estamos vivos.

Espero que aquele arranhão no rosto da caixa do mercadinho não tenha sido minha culpa.

9 de fevereiro de 2015

Sociologia das maçanetas

Bom, vejamos por onde começo.

Digamos que eu esteja planejando me mudar. Planejar não é bem a palavra, já que não existe um plano propriamente dito, tão pouco meios para realizá-lo (caso houvesse (aliás, não há porque não tenho meios de)). Eu quero me mudar, sair do ninho, largar a barra da saia, essas coisas. Não tenho renda fixa nem maturidade emocional, mas que outra coisa as pessoas fazem senão se jogarem sem paraquedas? Eu também quero. Então, comecei, ou melhor, começamos a procurar um apartamento. Casa, não. Já deu de casa para mim. Vamos procurar apartamento.

Veja bem...

A primeira e última vez em que morei em um condomínio eram os anos 90. Foram os apartamentos sólidos e sóbrios que estruturaram meu presente gosto para moradias. Eu não sei escolher, hoje em dia. Não é nada do que eu conhecia, muito menos do que eu esperava. Eu não preciso de academia, não preciso de sala de jogos. Se eu quiser malhar, ficar em forma, não vou gastar dinheiro com professor, com roupas caras, com tênis apropriados, para depois ter preguiça de descer ao térreo ou de correr o risco do professor não ir porque está chovendo. Eu faço exercícios em casa. Também não preciso de sala de jogos porque se eu quiser jogar (e eu nunca quero, pois tenho mais de 12 anos), posso comprar um tabuleiro ou um baralho. E jogar em casa. Quero dizer, dentro de casa, no conforto do lar, já que em qualquer uma dessas salas eu continuaria, tecnicamente, em casa.

Não preciso mencionar o cinema, a sala de massagens, videoteca, brinquedoteca (mas nunca encontrei uma biblioteca, por que será?), petplace, etc. Nada contra quem gosta dessa sensação de exclusivismo e acha que o futuro da nação é a individualidade, mas por outro lado, a tolerância não pode me obrigar a pagar por coisas que não quero no meu quintal. Eu procuro um apartamento, não um shopping. Não demorou muito para que eu descobrisse o óbvio: caso eu quisesse um lar, e não um hotel, deveria me dirigir aos condomínios antigos. Surgiu um outro problema: as pessoas não querem largar esse osso. Com toda a razão. Percebi que os moradores de prédios antigos só saem de lá mortos. É um grupo de seres esclarecidos que sabem muito bem o que estão fazendo. Espero ser inteligente assim quando crescer.

Voltemos aos prédios de drywall.

Então, domingo. Lançamento daquele condomínio lá, com nome de resort para a terceira idade norte-americana, como todos os outros, nada acontece feijoada. Ok. Tinha varanda grill, lógico, porque agora todo mundo virou sulista que adora comemorar o 4 de julho. Sala ampla para caber o ego: check. Decoração estéril imitando as casas de Caras, mas que na verdade parece banheiro público: check. Daí a corretora falou assim, olhando bem para a minha cara: “as portas de entrada são equipadas com maçanetas biométricas”. Enquanto todos os outros visitantes diziam oooooooh, acho que fiz cara de paisagem enquanto três perguntas surgiam:

  1. Por quê?
  2. Eu vou dormir em um cofre?
  3. E se o morador não tiver mãos?

1. Por quê?
Foi a única pergunta que tive coragem de fazer. A corretora não soube explicar muito bem, se agarrou na resposta “para maior segurança” e não largou de jeito nenhum. Fiquei sem saber como funciona se houver incêndio, ou caso eu perca o dedo e queira entrar em casa (adiantaria chamar um chaveiro?). Dá para arrombar uma porta dessas com grampos ou cartões de banco? E se uma criança de cinco anos não alcançar o visor? Minhas mãos, às vezes, ficam suadas, isso pode danificar o processo? Nós convivemos com leituras biométricas no trabalho, nos bancos, recentemente nas eleições. Nunca funciona. Então, por quê? Eu sei que na casa da pessoa que teve essa ideia não tem maçaneta biométrica. Na casa da presidente, a maçaneta não é assim. E se nem ela tem, por que eu teria? Essas pessoas sabem das coisas. Engenheiros, presidentes... Iluminatis não tem maçanetas biométricas. Maçons também não. O assunto da vistoria já era outro. Eu continuava intrigada. Algumas pessoas não gostaram muito da minha contrariedade. Mas não consegui encontrar sentido.

2. Eu vou dormir em um cofre?
Provavelmente, sim. Não que eu valha alguma coisa. As chances de me sentir claustrofóbica dentro daquele apartamento são gigantescas. É muito difícil depender do meu dedo para ir e vir, ao invés de uma chave, como sempre foi. Eu sinto segurança ao segurar uma chave na mão. O metal entre os dedos diz: “você conseguiu, chegou em casa”. Estão tentando tirar isso de mim. Querem que eu me tranque em um cofre. Ao pressionar meu dedo, a biometria dirá: “agora você me pertence”.

3. E se o morador não tiver mãos?
Estou arrependida. Eu deveria ter feito essa pergunta. Para os empreendedores, pessoas com cacife para comprar esse tipo de apartamento não são deficientes. Se a gente não tem mãos, eles pensam, moramos na AACC, não no condomínio deles. Deficientes não precisam se preocupar com maçanetas biométricas. Está tudo certo.

Foi uma tarde produtiva. Aprendi mais do que queria. 1) Estamos empregando trabalho e criatividade no lugar errado, e isso explica muita coisa; 2) O mínimo que a sociedade espera de mim é que eu fique impressionada com suas maçanetas biométricas. 3) Preciso esperar alguém morrer para comprar um apartamento de verdade e decorar minha sala de estar com flores de plástico. 4) Vou continuar morando no ninho enquanto o mundo não acaba.

4 de fevereiro de 2015

Minha história em 10 músicas

Encontrei essa tag no blog Teoria Criativa e já que nunca sei como iniciar uma conversa sobre música aqui no blog, ou posto playlist, ou alguém me salva com outras ideias boas! Fiquem à vontade para participarem.

1. Uma música que te lembre um momento bom:
This Is The Life, da Amy Macdonald, era o hit de 2009 na Suíça. Bom, pelo menos foi o que uma de minhas colegas disse ao me mostrar, empolgada, essa música que acabou entrando na minha playlist “Nostalgia”. Era muito bom ouvi-la antes de dormir, ou enquanto caminhava pelos jardins do Goetheanum. Hoje em dia, ela me traz a falta imensa da única época boa da minha vida.

2. Uma música que defina a sua vida:
Existem muitas. Procuro não me apegar a nenhuma. A última que me trasncreveu fielmente foi Sonho de uma Flauta, d'O Teatro Mágico. Tenho partes do meu coração que desconheço, mas essa música tem o mapa.

3. Uma música que te faz dançar na balada:
Acredite se quiser, vou de Am I Wrong?, da dupla Nico & Vinz. Lá estava eu, assistindo a novela do Comendador, quando essa música começou a tocar e houve um “click” em mim. Isso é bem raro. Eu nunca fui a uma balada, tão pouco pretendo, mas tenho a impressão de que Am I Wrong? seria a única música capaz de me tirar de um estado letárgico.

4. Uma música que foi tema de algum relacionamento:
Os meus relacionamentos estão guardados em uma sala escura, suas cabeças penduradas na parede. Alguns não deixaram rastros. Outros, no entanto, tem seus fantasmas. A verdade é que, agora, depois de tanto tempo, nenhum me assusta. Mas nada me machuca mais do que Try, de Nelly Furtado. Eu tenho sérios problemas com ela. É engraçado, pois superei a pessoa que a deixou para mim, mas me parece que jamais conseguirei vencer meus sentimentos em relação a música. Além do mais, me lembra da época boa de Nelly Furtado, e dá saudade.


5. Uma música que sempre te faz chorar:
Funeral Song, do The Rasmus, não me faz chorar. Contudo, é uma música perfeita em vários sentidos. É o tipo de coisa que se escreve uma vez na vida, quando o coração pede. Não acontece duas vezes. Por mais que todo o álbum Dead Letters (de onde vem essa faixa) seja a menina dos olhos de todos os fãs que se prezem, Funeral Song se supera de todas as formas. Sempre que a ouço, balanço minha cabeça e digo para mim mesma: “é isso”!

6. Uma música que seria toque do seu celular:
Antigamente, eu dava grande importância para isso. Hoje, deixo meu celular no vibratório e está de bom tamanho. Se por uma infeliz ideia eu quisesse mudar de opinião, acho que colocaria qualquer música de Mozart. Poderia ser a K. 550, ou a KV 41 (allegro). Sei lá, qualquer uma serviria.

7. Uma música que você gostaria de tatuar:
Passei da fase de curtir new metal, mesmo achando que seria para sempre. Só que a minha banda favorita desandou e junto com ela meu interesse por esse gênero. A única coisa que restou (e que pelo visto é realmente para sempre) foi a frase: “I am your mirror image, I'm all you left behind. You made me what I am, then who the Hell am I?”. Retirada da música How Can I Live?, da banda morta-viva Ill Niño, é uma identificação que não perde o efeito. Cristian Machado, o vocalista, escreveu a letra para seu pai.


8. Uma música que te deixa com vontade de ficar com alguém:
Na Varanda, do Fernando Anitelli. Tive que pensar bastante antes de escolher porque, na verdade, acho que não tenho uma música específica, que me lembre determinada pessoa e me faça sentir falta dela. Na Varanda, ao menos, me lembra abraços. É sempre bom abraçar quem a gente gosta!

9. Uma música que você está viciada agora:
Não consigo parar de ouvir Nagada Sang Dhol, do filme indiano Goliyon Ki Rasleela Ram-leela. O melhor filme, aliás. Assistam! Tem Deepika Padukone, tem Ranveer Singh e, enfim, com esses motivos não é necessário mais algum. Pelo vídeo clipe (que não contém spoilers) já é possível ver como a fotografia e o figurino são impecáveis. Se eu ainda me desse ao trabalho de comprar CDs o meu, sem dúvida, estaria “furado” na altura dessa faixa.

10. Uma música que faz as pessoas lembrarem de você:
Nunca falha: “assisti ao espetáculo daquele circo canadense e, nossa, aquela música! Sabe? A sua cara”! Todo mundo que ouve Alegría, do Cirque du Soleil, se lembra de mim. Seja por estarem, ora essa, em um circo, ou por causa da letra e/ou da melodia. De um jeito ou de outro, me conhecendo bem ou nem tanto, as pessoas acham que esta música me resume. Se você quer saber, concordo plenamente. Alegría me desperta, me faz reagir. É uma honra estar conectada à ela!