28 de janeiro de 2015

Soterrada

Estou em guerra com minha lista de leitura. Contei o número de livros que quero ler, todos empoeirados numa fila sem fim, e passei dos 600. Então, a ansiedade. Senti um frio na barriga, coloquei as mãos na cabeça e saboreei a constatação: não vou ter tempo para ler tudo isso. Mas foi quando me peguei calculando minha idade com a expectativa de vida que me toquei de que havia algo errado. Descobri meu consumismo literário.


Volte e meia, no Twitter, dou meus pitacos a respeito dos livros e como alguns leitores os transformam em nada além de status. Quanto maior sua estante, quanto mais livros você receber de editoras e quanto mais extenso e cansativo for seu Book Haul no Youtube, melhor. Não importa se você terá tempo de ler no mínimo metade ou sequer tocá-los em qualquer momento do ano: você precisa tê-los. Não importa se a história lhe interessa, se há identificação, se a obra acrescentará conteúdo à sua vida. Eu não sei se algum(a) autor(a) chegou a publicar esse pensamento, mas a verdade é única: literatura com apego não é literatura. Os livros precisam viajar e, principalmente, ser lidos.

E apesar de não ostentar meus impressos e ebooks na internet, me peguei pensando na minha atitude com a leitura. Acumular tantos livros, aumentar enlouquecidamente a fila, também não é uma forma de consumismo literário? Existe a possibilidade de eu estar exagerando? Acho que sim. Mas o problema se agrava quando tento fazer uma limpeza e deletar/doar/trocar os livros que nunca vou ler ou que talvez nem sejam tão importantes/legais quanto parecem. Eu não consigo. Cada um deles tem um objetivo de estar ali, me esperando, mesmo que aparentemente esteja abandonado. Pode ser que eu tenha adquirido muitas obras pelo calor do momento, por culpa das ilhas coloridas e chamativas da Livraria Cultura, pela capa – não nego! Mantenho-os na estante por apego. Sim, eu estou apegada aos livros que ainda não li.

Algo dentro de mim diz que preciso lê-los, caso contrário não serei uma pessoa melhor. Essa voz sabe que não terei tempo, que não vou gostar da maioria deles, que isso não faz sentido algum. São mais, muito mais, de 600 livros que consumirão minhas noites de sono, atrapalharão as leituras de fato relevantes, mas tudo bem: é um mal necessário. A pressa faz parte, estar sempre com o celular, o e-reader ou um impresso nas mãos é natural, afinal, eu sou leitora (e, por que não, escritora em formação).

Só que não foi bem assim que imaginei, quando criança, a vida de um leitor. Para mim, o certo (e divertido) é consumir literatura e não ser consumida por ela. Comecei a escrever este texto logo depois de ter me dado conta de que estava adquirindo mais livros. Assim como me surpreendi com a fila gigantesca de leitura, me surpreendi com a pasta do e-reader: aconteceu de novo. Lá estava eu baixando mais e mais livros, acumulando novos arquivos e alimentando o problema. “Não, isso tem que parar”, pensei. Guardei o e-reader no lugar mais alto do guarda-roupa, onde só alcanço usando uma escada ou cadeira (e com o calor que anda fazendo, acredite em mim, essa é uma atividade exaustiva). É um meio provisório que arranjei para ignorar minha sede de leitura. Por enquanto, estou tentando me ensinar que não, eu não preciso ler tudo o que é publicado e parece ser interessante.

Ainda não tenho um método a longo prazo e não consegui deletar um livro sequer. A solução, até o momento, é ler os livros que já tenho e não comprar/baixar nenhum até reduzir significativamente a fila. O resto do plano consiste em torcer para que não lancem nada extraordinário (isso inclui a nova obra do Markus Zusak) e deixar de conferir as atividades dos meus amigos e pessoas que sigo no Skoob. Vai dar certo? Olha, eu não faço a mínima ideia. Grande parte do problema é a culpa que sinto por ter ficado muitos anos longe dos livros, por inúmeros motivos indiretos que não cabem aqui. Eu perdi tempo e grandes oportunidades que não voltam mais e agora tento recompensar esse vácuo literário que se formou na minha pré-adolescência e perdurou até os meus 20/21 anos. Mas, como dizem, é para frente que se anda – é para frente que se vira uma página.

Desejem-me sorte.

22 de janeiro de 2015

Do pó viemos, ao pó dos móveis voltaremos

Perdemos um ente querido na semana passada. Eu tinha certeza de que já havia experienciado a morte antes, mas as últimas semanas me provaram que eu estava redondamente enganada. Não, eu nunca tive um contato real com morte até poucos dias atrás. Não é nada do que eu achava, e sim muito pior. Acompanhar os últimos momentos de uma pessoa – mesmo que esta tenha uma idade avançada e esteja muito fraca – não é um processo fácil de ser absorvido pelo consciente. Isso revira sentimentos que nem sabíamos existirem. Pois bem, passei grande parte da minha infância convivendo com o tal ente querido, e mesmo que não fizesse parte da minha família, eu a considerava bastante. Ou seja, foi um choque e tanto constatar que aquela pessoa estava indo embora, definitivamente. Para sempre.

Pela primeira vez, acompanhei desde o princípio a despedida de alguém que gostamos muito – a internação, o sofrimento, o corpo pedindo por descanso, a pessoa aos poucos deixando de ser o que foi e por fim o último desejo (“por favor, me dê uma Coca-Cola gelada e depois desligue os aparelhos”). Eu já perdi a minha avó paterna, mas era muito pequena e não me lembro de quase nada. Já perdi dois cachorros, mas acho que seria indelicadeza de minha parte comparar. Me encontrei crua diante de uma situação natural, que acontece todos os dias com todo mundo, e não soube o que fazer de mim. Não soube me cuidar, ou o que pensar a respeito. O jeito foi seguir em frente e oferecer o meu melhor; afinal, minha mãe precisava do meu apoio. Durante uma semana e poucos dias não podíamos ouvir o telefone tocar que ficávamos aflitas, o coração despencando dentro do peito. Até que, claro, o dia chegou: uma noite chuvosa, sem energia em casa, a notícia recebida à luz de velas. É sempre assim.

Então veio o enterro – o primeiro que, com certeza, minha memória conseguirá guardar integralmente. Eu tenho um sério problema com cemitérios, algo quase físico que me impede de visitá-los, mas tive de fazer um esforço porque sou adulta e isso, além da morte, também faz parte. Fui, e agora estou na terceira semana consecutiva de insônia. Vai passar. Outras coisas, no entanto, não tem remédio. E foi ali, no velório, que meu psicológico começou a sofrer. Não por estar, contra todos os meus instintos, em um cemitério, mas por causa das pessoas. A maioria dos convidados não olhou para o caixão, não “se despediu”, digamos assim. E, olha, se eu consegui, isso era o mínimo que um parente consanguíneo deveria fazer. Outros conversavam alto e riam alto e discutiam alto. Filhos se achavam no comando de um ato que, na verdade, independe deles para acontecer. Não estávamos em um espetáculo, mas eu esperava, ansiosa, pelos aplausos a qualquer instante. Era só o que faltava para encerrar o próprio encerramento de alguém querido com a total falta de vergonha na cara.

Não pensem que sou uma protetora da moral e dos bons costumes. As pessoas podem sorrir quando quiserem.
Mas é que vocês não viram o que eu vi.

Eu achei que aquela seria a pior parte, mas o que eu não sabia é que dá muito trabalho morrer e que a pessoa, dependendo das condições, às vezes leva meses para, finalmente, descansar em paz. De fato, nunca senti um funeral em todos os detalhes. Agora, um pós-funeral sim, está sendo uma imensa surpresa. Essa parte eu desconhecia por completo, sequer desconfiei que existia. Nunca parei para pensar o que era feito da vida material da pessoa que se foi. A casa, os objetos. Os lençóis da cama? Os utensílios de cozinha? Sei lá, achei que morressem junto. Não morrem, não. Pelo contrário, muito pelo contrário. O que estou vivenciando nesse momento pode ser chamado, tranquilamente, de Batalha.

A Purificação do Templo, de El Greco

O apartamento do ente querido passou para as mãos de seus filhos. Ficou a cargo deles, também, tudo o que sobrou. Sabe? Aquilo que a gente não leva. “Caixão não tem gaveta”. Quando minha mãe me contou que começaríamos a distribuir os pertences, pensei logo em algum objeto de valor sentimental. E para mim era isso. O resto, novamente, sei lá, morre junto. Mas aí, de repente, os empregados estavam apontando para uma televisão de última geração. Estavam pedindo o fogão. As roupas de marca. De repente, os empregados estavam com os olhos vidrados, fazendo compras. Sem tirar nem pôr: fazendo compras no apartamento da pessoa que enterraram há três dias atrás. E se não fossem os filhos para dar um basta, teria sobrado o tapete, que não dá para ser tirado porque está pregado no chão. Teria sobrado as paredes porque o prédio, como um todo, precisa delas. Então, um irmão se virou contra o outro. “Não, eu vi isso primeiro. Não, isso não vai para o bazar, vai para a minha igreja. Eu já separei isso para a minha esposa, não, isso vai para o meu filho”.

Eu não fui ao apartamento.

Não consegui. Aquelas pessoas, ou melhor, aqueles urubus me deram nojo. Minha mãe entrou, pegou os objetos que o ente querido lhe reservou ainda em vida, algumas lembranças materiais do passado, coisas inúteis que os parentes guardaram para ela só para desocupar espaço (e ao mesmo tempo mostrarem para si mesmos o quão generosos são). Está tudo amontoado na sala de casa. Coisas frias, sem o menor significado, que provavelmente jamais iremos usar. Coisas que eram de outra pessoa, que agora está morta, enterrada, apodrecendo, sozinha. As sementes que deixou aqui na Terra estão alvoroçadas, garimpando seu armário de roupas, levando o faqueiro de prata debaixo do braço, dando os quadros que seu filho pintou para desconhecidos, distribuindo mercadorias, fazendo do apartamento onde habitou nos derradeiros anos uma réplica moderna do Templo de Herodes. Só que o meu sofrimento é maior, pois não acredito em um Jesus que expulsará os vendilhões.

Mas eu acredito na minha paz espiritual ao cultuar a memória de uma pessoa que me foi importante, enquanto outros renovam suas casas à custa de uma perda irreparável. Acredito em enfrentar meus medos, entrar em um cemitério e lhe deixar uma rosa, enquanto outros procuram, insanamente, lhe tirar o respeito. Minha mãe saiu, pela última vez, daquele canto que lhe foi tão caro nos últimos anos, virando as costas para uma situação que não nos pertence. A jarra de vidro, o pano de prato bordado a mão, não nos trará de volta aquilo que mais nos falta: a presença dela. Se para uns funciona preencher o vazio com um vestido de uma falecida, para nós de coração quente, sobrou o agasalho da nostalgia. As pessoas podem ser muito feias. Às vezes, cruéis consigo mesmas. Eu entendo a ganância. Deixei de ser pura há muito tempo. O problema é...

O que aconteceu com a gente?

18 de janeiro de 2015

O meu dia ruim

Todo mundo vive dias ruins, mas isso não torna o meu dia de cão menos estressante. Este dia ruim foi meu, todo meu, e eu não admito que me impeçam de sofrê-lo até ao menor dos detalhes só porque outras pessoas também não tiveram a sorte de passar por um dia bom. Não tenho alguém para fazer massagens nos meus pés ou nos ombros, ninguém preparou uma refeição especial, meus cachorros não entendem nada de dias ruins (apesar de esforçarem o máximo para me receber em casa como se este fosse o último dia do mundo). Então, eu escolhi terminar o dia da melhor forma possível. Porque eu mereço. Coloquei música boa para tocar e fiz uma das coisas que mais me relaxa: desenhei mandalas. Esqueci do dia e comecei a me preocupar só com os sonhos que teria durante a noite.


1. George Harrison & Ravi Shankar - Shanti Mantra
2. João de Sousa Carvalho - Toccata in G (Andante)
3. Anoushka Shankar & Sting - The Book of My Life
4. Wolfgang Amadeus Mozart - Die Zauberflöte (Bei Männern welche Liebe fühlen)
5. Yungchen Lhamo - Lhasa
6. Heidevolk - Dageraad
7. Apocalyptica - Nothing Else Matters
8. Maria Callas - O Mio Babbino Caro (Giacomo Puccini, Gianni Schicchi)
9. Ani Choying Dolma - Bhagawan Kahan
10. James Newton Howard - The Gravel Road

14 de janeiro de 2015

Tirando a TV da tomada

A educação nos anos 80/90 não era levada muito a sério. Quero dizer, era levada a sério ao modo da época o que hoje, para nós, mais parece uma total negligência. Ninguém se preocupava ao fumar perto das crianças, passar protetor solar para ir à escola, ou com rótulos de produtos indicando traços de leite. Isso se refletiu um pouco no uso da televisão. Vou tomar minha infância como exemplo: eu passava o dia inteiro assistindo televisão, ou todo o tempo que tivesse livre. Como minha mãe sempre trabalhou muito, não podia monitorar os programas que eu escolhia; o que não foi um problema já que eu nunca tirava da TV Cultura. Mas quando meu pai se juntava a mim, à noite, de Castelo Rá-Tim-Bum nós íamos para Você Decide, e daí para baixo. Ele, o meu pai, não se perturbava um cêntimo ao me fazer assistir programas sensacionalistas, muitas vezes episódios violentíssimos, que por fim danificaram uma parte de mim – até hoje encontro rastros de filmes ou cenas marcantes que me incomodam, ou que de certa forma meu comportamento absorveu.

E por que estou contando essa história? Estou querendo condenar a televisão? Digo que quem a assiste é uma bruxa, ou um bruxo, que queimarão na fogueira dos pecadores? É um papo bicho-grilo de como educar os filhos que não tive? Não, é a minha opinião pessoal e minha experiência de vida. Sabe, o nosso cérebro procura constantemente por informações a serem interpretadas. Se uma postagem num blog de uma Zé Ninguém instigou você, imagine o que os programas televisos fizeram com sua mente.


Eu não acredito em entretenimento. Nós, instintivamente, estamos sempre aprendendo ou caçando conteúdo nas entrelinhas. Um livro não é só um livro, assim como a grade de programação dominical não é só mais um domingo no sofá. Não acredito que uma pessoa consiga sentar em frente à televisão e simplesmente desligar – a situação é pior, com a sensação corporal de relaxamento o cérebro fica ainda mais exposto a qualquer coisa que quiserem transmitir com muita música, cores, dançarinas e celebridades. Não li isso em lugar algum, é apenas o que eu acho, o que observei em mim mesma ao longo de tantos anos consumindo produtos enlatados anunciados por grandes âncoras da comunicação. É no que eu acredito, quer você queira, ou não.

Qual foi minha conclusão? Tirar a televisão do quarto. Percebi que gradativamente fui perdendo o costume de ligá-la nas horas de ócio e só o faço quando há visitas em casa, ou quando minha mãe quer assistir à novela na minha companhia (sim, novelas são legais apesar de venenosas; continuo adorando o Silvio de Abreu). A televisão ainda está lá, inutilizando um canto do meu quarto onde caberia a estante de livros que quero comprar, mas seus dias estão contados – é uma questão de tempo escolher um outro lugar para ela e convencer minha mãe de que não virei Hindu (nem me pergunte). Não pensem que foi fácil descobrir que não preciso desse aparelho, que isso aconteceu da noite para o dia: é um exercício. Afinal, nós somos criados para assistir televisão, é tão natural quanto comer todos os dias – ou temos um insight (mesmo que provocado), ou assistiremos Gugu para o resto de nossas vidas.

10 motivos para não ter uma televisão
1. Você ouve muito mais música
2. Você aprecia o silêncio
3. Conversa-se muito mais dentro de casa
4. Você fica mais produtivo
5. Você consome menos
6. Você não vê absolutamente nada que não esteja afim
7. Você vê mais filmes e documentários
8. Você aproveita melhor o seu tempo
9. Você aprende a fazer nada
10. Aquele motivo que todo mundo já sabe. Junte o item 1 com esse, e tudo fica melhor
Leia o texto completo no blog Abra a Janela

8 de janeiro de 2015

Fantasma

Às vezes eu acho que já nasci com Síndrome do Pânico; tipo um resquício da vida passada, tão forte, que não conseguiu se dissipar durante a passagem para essa encarnação. Fui uma bebê quieta, quase muda, que não chorava nem para mamar ou para trocar a fralda. Na minha primeira memória de infância estou com medo. É engraçado porque registrei a sensação, mas não o motivo. A partir dos meus cinco anos as lembranças são mais recorrentes: o primeiro contato com a morte, viagens, o início da vida escolar, minha mãe pintando e até mesmo a primeira vez em que vi o Bicho Papão. Pois é, por alguma razão não me esqueço do animal de olhos brilhantes que meu medo inventou, e estava na sala de casa, no escuro, quando desci sozinha procurando por minha mãe. Também me lembro da noite de Dia das Bruxas, quando eu estava brincando no quarto (ao invés de dormir) e me apareceu o Lobisomem e um vampiro. Eu posso descrevê-los ainda hoje, apesar de ter acontecido há 22 anos atrás, e tudo não ter passado de pura imaginação.


Eu fui uma criança morta. Nunca fazia barulho, não dava risadas, me escondia das pessoas porque não queria incomodar. Era isso: eu tinha pavor da possibilidade de estar incomodando ou sendo inconveniente. Ninguém me ensinou isso. Eu nasci assim – um instinto. De alguma forma, eu sabia. Logo nos primeiros anos de vida, eu já sabia muitas coisas. Ainda não descobri a maioria delas. Mas o medo, este sempre esteve presente, e eu adoraria entendê-lo. Gostaria de compreender, afinal, o que tanto me assustava. O meu pai? A vida? Ou aprendi muito cedo que estava sozinha, que dependia de mim mesma e de mais ninguém? E em seguida percebi que não seria capaz de fazer isso, entrei em pânico, e nos primeiros meses desisti?! Será que, para mim, ter sobrevivido (pelo menos até agora) é um milagre tão inesperado, que não há alternativa senão temer o que está por vir? Passei a vida inteira sentindo medo, não do exterior, do mundo ao meu redor, mas de mim mesma?

Penso muito nisso. Tentei conversar sobre o assunto com minha terapeuta – a única que pode me ajudar a encontrar essas respostas –, mas travei. Levantei outros tópicos, desviei o propósito, fingi que não era comigo. É lógico que ela percebeu, que sabe o motivo exato de eu estar ali. Nós duas sabemos, aliás. Tenho plena consciência do que estava fazendo deitada naquele divã decorado por almofadas de estampa indiana. Em contrapartida, nos dias em que tinha consulta, jamais acordei preparada para rasgar o véu e observar no reflexo do espelho minha maior e invencível inimiga: eu. Em algum lugar aqui dentro, eu sei que tenho medo de mim. Eu sei que posso me infligir cicatrizes terríveis, talvez irreversíveis. Basta dar brecha. Eu tenho essa sensação, desde muito pequena, de que basta abrir uma fresta para que eu entre e destrua tudo o que levei anos para construir.

Apesar de não falar sobre isso na terapia, criei minhas próprias armaduras. Eu dei nome aos meus medos para que eles não consigam me derrotar. A minha avó dizia que não podíamos dar nomes às galinhas: “comida não tem nome”. O que ela queria dizer, é que para se manter certa distância entre a alma do bicho e a lâmina da faca, era imprescindível não se identificar. Quando nomeamos algo ou alguém, criamos um laço. Como poderíamos, por exemplo, almoçar Filomena, a galinha que adquiriu tanta personalidade com esse nome? E Camila, a cabra do sítio, que teve uma vida digna e é lembrada até hoje? Teria sido um jantar espetacular, meu pai não cansava de dizer, mas era a Camila.

Hoje em dia as coisas tem sido mais fáceis para mim. Se sinto medo, o chamo pelo nome. Converso com ele. “Calma, não precisa ser assim”. Eu lhe dou uma condição, é esse o segredo, e ele passa a ser imperfeito. Eu sei quem ele é, onde está e posso vencê-lo. Hoje, apesar de não sabê-lo e de não ter solucionado seus mistérios, eu o conheço. É possível que iremos conviver juntos por muitos anos, ou pela vida inteira, não sei. É provável que morra comigo, assim como nasceu. A diferença é que agora lhe coloquei correntes nos pés para ouvi-lo se aproximar e me preparar antecipadamente para recebê-lo da melhor forma possível.