29 de outubro de 2014

“Nossa, garota, se benze”!

Eu abro o bloco de notas disposta a escrever o texto mais completo e detalhado possível. Espremo para tirar o melhor de mim, mas só escorre suor. Essa fase agreste não seria um problema se não fosse a vontade de escrever. Ou seja, a vontade, a necessidade, eu tenho – faltam os meios. O que acontece, de verdade, é que estou evitando falar sobre determinados assuntos. Computadores, por exemplo, tenho mantido certa distância. Se eu conto, afinal, ninguém acredita. Quer ver? Eu vou tentar: o meu antigo notebook pifou de vez, certo? O conserto não valia a pena, então comecei a usar o desktop “comunitário”, da casa. Daí me dão um notebook novo, ok? E tudo se resolve, aparentemente, até duas semanas depois o aparelho quebrar também. Do nada. Um dia estava funcionando e no outro não mais. Vocês sabem, isso é bem a minha cara. Voltei para o desktop enquanto o notebook novo em folha seguia para a assistência técnica via Correio. Está sertinho: correio mesmo. Foi novidade para mim também.

Voltei para o desktop pensando que por lá ficaria não mais do que uma semana, niqui minha encomenda, aparentemente, tomou rumo para Madagascar via teco-teco. Demorou uma semana para chegar, duas semanas para o conserto, mais três semanas e dois dias de atraso para a entrega. Nesse meio tempo, o desktop quebrou.


Recapitulando: eu tinha três computadores em meu poder, nenhum funcionando; um estava morto, o outro perdido em algum lugar de Nárnia e o último arregou na prorrogação. A única conexão com o mundo que me restou foi o celular, sendo que 1) eu precisava estudar e meu celular não comporta Dropbox e PDF; 2) ele sempre, sempre trava; 3) não há limites para as limitações. Para quem não fica sem computador desde os 16 anos de idade, consegui sobreviver a essa situação. Muito mantra, com certeza. Então começaram as crises de abstinência, né. Não há Buda que resolva quando decido ter chilique. Ou melhor, pensando bem, talvez o universo tenha conspirado ao meu favor, já que o notebook chegou do Triângulo das Bermudas bem a tempo de evitar uma desgraça.

Ele chegou
com o HD
formatado.

A primeira coisa que me perguntaram foi: como assim? Respondi que não sabia, que cada vez menos compreendia, que quanto mais o tempo passa, menos entendo o que está acontecendo. Na caixa, um papel impresso dizendo que o HD havia sido trocado e que, como consta no contrato, as informações do antigo não foram guardadas. Daí gargalhei. Bem alto. Dei tapinhas no joelho. Sabe por quê? Porque quando meu primeiro notebook começou a demonstrar sinais de falência múltipla, fiz um back up completo dos meus arquivos para um pendrive. Sabe como é, eu não queria dar brecha para o erro. Fiquei aliviada quando o aparelho morreu mesmo, de morte morrida, mas as coisas importantes permaneceram. Achei que eu tinha aprendido a viver, finalmente. “Agora eu jogo o jogo”. E eu disse uma ou duas vezes aqui no blog que quando ficamos felizes, descuidamos da defesa – no dia em que ganhei o notebook novo senti uma sensação de queda livre e fiz o quê? Esvaziei o pendrive nele.

Essa história continua vida afora, mas acho de bom tom encerrá-la por aqui.
Vocês já entenderam onde quis chegar.

23 de outubro de 2014

Não sei

Estou na reta final de uma rotina desgastante, muita coisa ruim já aconteceu, outras tantas inesperadas e inacreditáveis também, e agora estou meio que... Não sei? Estou tão não sei, que fica difícil determinar se é preguiça, ferrugem, lodo ou... Não sei. Parei tudo o que estava fazendo para escrever isso porque, ao abrir a pasta de textos do Bonjour Circus, me deparei com treze arquivos incompletos. Sim, eu estava disposta a atualizar o blog, mas acontece que não tenho com o quê. Em algum momento desse último mês me baixou um santo escritor e eu comecei a criar muitos blocos com variados assuntos e, de repente, não terminei nenhum. De repente estou nua e a toalha cai. De repente, não mais que de repente, não sei.

18 de outubro de 2014

Mais um meme (e se reclamar, posto dois)

Sei que já respondi esse meme antes, mas ele é realmente legal, e a Thay me indicou fazendo perguntas bacanas. Vocês já devem saber que as regras consistem em enumerar onze fatos sobre mim, responder às perguntas, criar outras onze e indicar blogueiros. As chances de eu burlar uma ou mais regras são de 50%, dois pontos na margem de erro para mais ou para menos.

Onze fatos sobre mim
1. Já viajei para a Suíça, Itália, Sardegna, Alemanha e França.
2. Eu sou budista, mas ainda não assumi isso.
3. Acho que a política, nesse país, é um tabu.
4. Não sei nadar.
5. Eu teria um filho com Ranveer Singh, numa boa.
6. Quero me tornar vegetariana, mas o salmão não deixa.
7. Não diga “eu te amo”, diga “saiu para entrega ao destinatário”.
8. Todo dia, ao acordar, espirro quatro ou cinco vezes.
9. Gosto de trens.
10. Pratico Savasana como ninguém.
11. Vou largar uma foto do Lauri Ylönen aí porque sim.


Onze perguntas da Thay
1. Qual foi a última música que você escutou? Coloque o vídeo!
Nossa, ninguém adivinhou que foi The Rasmus, né. Nem passou pela cabeça de vocês essa possibilidade. Realmente muito difícil imaginar que logo eu estaria ouvindo essa banda em qualquer momento da vida. Um acaso, sem dúvidas. Coisa do destino.


Puta que pariu, eu amo The Rasmus.

2. Se tivesse que escolher apenas um prato para comer o resto da vida, o que seria?
Salmão! Eu nem pensei para responder essa pergunta porque salmão tem sido um problema, ultimamente. Eu bem disse no item 6 que estou tentando me tornar vegetariana – por questões pessoais, não ambientais –, mas taí um obstáculo e tanto. É uma relação meio tarada, até, um pouco constrangedora. Seria fácil me abster da carne vermelha e pronto “virei bicho-grilo”. Comigo não funciona assim. O salmão é um obstáculo que não sei como superar e, para ser sincera, não sei se realmente quero isso.

3. Quais os livros que mais ama e mais detesta?
Adoro qualquer livro da Florbela Espanca, do Mia Couto ou Markus Zusak, como vocês estão cansados de saber. O meu xodó, mesmo, é a coletânea circense The Circus lançada pela Taschen e também, por que não, O Circo, de Gary Jennings. Gosto muito d'O Tempo e o Vento, e Os Maias foi um livro que me surpreendeu bastante. Agora, fácil é falar sobre as leituras que detestei porque sou do tipo. Fabrício Carpinejar é horrível, Chico Buarque é horrível – prefiro o pai – e A Peculiar Tristeza Guardada Num Bolo de Limão é horrível, tenho trauma desse livro, sério. Por outro lado, aprendi que as pessoas que gostam não são imbecis por causa disso. Quer dizer, talvez sejam, mas o gosto literário não define, apenas acrescenta.

4. Uma palavra que te defina.
Preguiça.


5. Sente saudades de que?
Da época em que eu morava no exterior. Foi difícil, mas também foi muito bom. Tive a oportunidade de conviver mais comigo mesma, aprender mais sobre minha personalidade e como moldá-la. Voltei para o Brasil completamente diferente, melhor, mais amadurecida e responsável. O melhor de tudo foi descobrir que sou medrosa sim, cagona, mas que fui capaz de peitar tudo isso com a cabeça erguida. Fiz merdas, como sempre, mas quer saber? Eu sou assim. E eu gosto de mim desse jeito.

6. Não consegue viver sem.
Salmão, talvez? Não posso viver sem internet. Faço e desfaço tudo online, emails, trabalhos, consultas, televisão, estudos, música, filmes, livros: tudo! Hoje eu vejo que minha vida era bem limitada antes da internet, e seria muito mais agora. Tudo bem que os aparelhos não ajudam muito, vivem quebrando, mas basta ter wifi para existir vida inteligente.

7. Conte qual foi o momento mais constrangedor da sua vida – e com detalhes!
Não dá para detalhar uma vida inteira de constrangimento. Olha, teve a vez em que me afoguei num tobogã aquático, que eu não sabia haver intervalos de piscinas no trajeto e caía de surpresa, me afogava, alguém me puxava para cima e eu voltava a escorregar e mais para frente me afogava de novo na próxima psicina do tobogã, debatendo os braços, engolindo água, chutando pessoas, um inferno.

Também teve a vez em que eu, estrangeira, estava passeando no inverno suíço, niqui um carro pára, um motorista bonito aparece na janela, pergunta para mim “onde fica o Goetheanum?”, eu me atrapalho no inglês, explico direitinho apesar de, ele pisca para mim, eu balanço os cabelos ao vento e escorrego. Caio de bunda no chão porque minhas botas, que eram para ser à prova de neve, não aderiram ao gelo da pista e eu fui, feito jaca, para o chão. O cara olha, questiona se estou bem, eu digo que sim, minha mão está sangrando, torci meu pé, minha bunda lateja, mas tudo bem, o motorista bonito não foi a primeira nem última chance que perdi na vida.

E já que estamos falando em Suíça, viajaremos agora para o verão de 2009, eu no parque com o cachorro, um Golden Retriever zarolho, passeando e curtindo a vista. Como era a primeira vez que eu saía com ele, e ninguém na casa tinha o costume de me avisar sobre as peculiaridades do convívio, fui tranquila. Daí aparece um cachorro com seu dono no sentido contrário e o meu cachorro, do nada, deita no chão. Eu paro. O cara com o outro cachorro pára. A gente conversa, ele está interessado no comportamento do Golden Retriever, eu o tranquilizo “it's ok, he's fine”. Então o meu cachorro pula, dá o bote, de repente, assusta o outro cachorro e seu dono. Mencionando o fato de que a coleira estava enrolada no meu pulso. Ele pula, eu caio de boca no chão. Ele sai correndo e me arrastando no caminho de pedregulhos. Eu poderia ter soltado a coleira, poderia ter tentado puxá-lo, segurá-lo ou ter gritado, abraçado o capeta, mas estava mesmo é me fodendo inteirinha. Cheguei em casa sangrando, com a roupa rasgada, o cachorro ofegante e me disseram “não te avisaram que ele ataca outros cachorros”? Não, não me avisaram.

8. Filme que você assiste 39 vezes seguidas e nunca se cansa.
Titanic! Quem se cansa de Titanic? É um clássico. Claro que preciso de um intervalo considerável entre uma apresentação e outra, tipo uns dois anos. Adoro um “Sessão da Tarde” também: Casamento Grego, O Pai da Noiva, essas porcarias. Tem uns Bollywoods que gosto de repetir, apesar dos três meses de duração: Rab Ne Bana Di Jodi, por exemplo, ou Black, Guzaarish e 3 Idiots.


Cabras.

10. Escolheria amor ou dinheiro?
Ama-se quem se ama e não quem se quer amar.
Florbela Espanca
11. Se tivesse direito a apenas uma viagem na vida, para onde iria?
Índia. Além de encontrar espiritualidade, amor, compaixão e sabedoria, seria possível encontrar o Ranveer Singh para que a gente tenha um filho. Acho que essa é uma das viagens mais curiosas que alguém pode fazer. A Índia é um espetáculo de cores, sabores, cultura, história e de crença também. Escolheria, é lógico, a época do Happy Holy, um dos festivais mais lindos de lá, que comemora a chegada da primavera. Se eu pudesse realizar uma única viagem na minha vida com certeza seria essa e ficaria conhecendo o mundo inteiro.


As minhas onze perguntas
1. Se o seu blog fosse uma pessoa, qual seria sua personalidade?
2. Qual autor literário você gostaria de ser?
3. Cite três filmes favoritos.
4. Para você, o que existe no fim do arco-íris?
5. Se você pudesse tirar uma única fotografia, qual seria? Fotografe e publique!
6. Quem você admira?
7. Qual é a música da sua vida?
8. Você coleciona ou gostaria de colecionar algo? O quê?
9. Conte uma situação engraçada da sua infância.
10. O que você nunca fez, mas tem vontade de fazer?
11. Indique o melhor texto do seu blog!

Até agora não caguei nenhuma regra, mas o respeito termina aqui: não vou conseguir indicar onze pessoas, só cinco. Pe-dri-nha, A Life Less Ordinary, Gosto de Canela, Andrecefalia e Minha Vida Como Ela É. Todo mundo que quiser pode participar, é claro, e não se esqueça de me enviar o link!

7 de outubro de 2014

O sorriso e a memória

— Por que os elefantes sempre tem a cara triste?
— Porque eles tem memória.

Às vezes rolam uns papos circenses aqui em casa. Minha mãe fez a pergunta, mas sinceramente nunca reparei na cara de um elefante. E é verdade, eles sempre saem meio tristes, frustrados, nas fotos antigas. Certa vez uma criança me perguntou como faz para saber se um elefante está sorrindo? Eu disse que estudava arte circense, não medicina veterinária. A pergunta incomodou mesmo. Eu já havia visto elefantes mortos, sofridos, pendurados sobre um navio, carregando lona, descendo de trens, sendo treinados. Nunca vi um elefante sorrir. Se vi, não percebi. Então fica por isso mesmo: elefantes tem memória. Coitados.