25 de abril de 2014

Raízes

O dia raiou vazio. As ruas cheias de asfalto. Descobri que as árvores brigam assim: os galhos velhos não dão lugar aos novos. E o mundo seria tão diferente disso? Lembrei de você - boca fechada, mente aberta. Não sei se um dia lerá esta carta, mas saiba desde agora que as nuvens são uma só - a maior frustração do homem não é ser improvável voar, mas impossível lhes dar um nó. Nua de pele, é com pesar que lhe digo: meu coração não bate, chia como água fria em óleo quente.

Eu não sei como anda o tempo por aí. Só sei que aqui ele parou. Morro um pouco a cada dia com a falta do seu ar. Antes fosse morte de morrer, mas é morte de matar. A grama nasce contra a gravidade - é um jeito bonito de pensar. A grama nasce contra a gravidade... É, amor. A grama sabe que nunca terá tronco, galhos ou pétalas. Contudo, continua lá. Ela sabe que sempre será grama pisoteada, cortada, arrancada. Olhe pela janela. A grama estará lá.

Todas as minhas metáforas cabe a você completar.

Esta carta não serve para reviver o passado ou maldizer o presente. Eu lhe escrevo na esperança de que minhas palavras iluminem o futuro. Que ele a nós não pertence - é do mundo. Mundo este que moramos e nos esquecemos de habitar. É monótona a vida, eu sei. Paciência, vamos aguardar. Criamos raízes no pior de ambos. Quem há de nos podar? Não sei se você lerá esta carta, mas eu quero que saiba: o sol nasceu uma única vez.

18 de abril de 2014

Não é para entender

Faz tempo que estou me perguntando: cadê? Para onde foi minha vontade de escrever, onde estão os rascunhos de livros que escrevi com tanto entusiasmo, para onde foi a busca pela inspiração, por quê? Por que eu paro, assim, simplesmente de uma hora para outra quando as coisas parecem ter se encaixado? O que acontece (e por que deixo acontecer)? E então eu fico assustada, com medo da própria sombra, achando que é agora. É agora que minha depressão não tem volta. É meu fim. Acabou. Isso é o máximo que consigo, me desculpe. Eu não posso, ou pior, eu não quero passar dos limites, não quero que melhore. Melhorar abre um espaço infinito para que as coisas piorem, e eu não tenho bem certeza se hoje eu conseguiria lidar com essa merda toda.

Daí eu paro. Seja porque não me dou o direito, porque estou fadada a acreditar que não há direito algum, porque tem que ser desse jeito e pronto. Eu paro porque estou de saco cheio, também. De tudo. Antes fosse de uma pessoa específica, de uma situação particularmente complicada, de uma conta que paguei e ainda me cobram, mas não. É de tudo. Do fio de cabelo que nasceu branco ao vizinho da outra rua que pintou seu portão com uma cor feia. Por que ele fez isso? Por que as pessoas fazem isso? Se elas tem a oportunidade, por que gastá-la com um amarelo gema? Se eu tivesse a chance de pintar o meu portão, eu a aproveitaria como se fosse a última. Porque para mim é sempre a última. Oportunidade não estoura dentro da panela. Todo mundo deveria saber disso, pois estou cansada de saber sozinha.

Existem esses cidadãos por aí que reclamam da prova difícil, da cerveja quente, do amigo ausente como se fosse o fim do mundo e eu fico: porra, olhe ao redor. Toda hora: porra, etc... Eu observo, questiono e chego a conclusão de que, por incrível que pareça, só está difícil mesmo para mim. Não é possível. Parar a vida para reclamar que pisou num cocô de cachorro na calçada – não podem estar falando sério. Eu penso: quando você se sentir o próprio cocô pisado, a gente conversa. E vou embora. Já deixei muita gente para trás. Muitos ficaram falando sozinhos enquanto eu dava as costas para nunca mais voltar. Porque eu tenho problemas. Olha, bastante.

Uns dizem que essa é a vida adulta, outros que é assim mesmo, fazer o quê? Ainda tem aqueles que não sabem como ajudar e por causa disso acham melhor se afastar. Encontrei pessoas que começaram a dividir seus problemas se como eu tivesse pedido por. E também os únicos e exclusivos que acham saber melhor do que eu. Estou exagerando, não estou fazendo o suficiente, preciso me esforçar, preciso esquecer, a solução cairá do céu quando eu rezar e ninguém, ninguénzinho parou para se colocar no meu lugar. Sabe por quê? Porque não conseguiriam suportar. Mas até aí, tudo bem. No cu dos outros é refresco.

Ninguém disse que seria fácil.
Ninguém disse que seria impossível.

14 de abril de 2014

Os Filhos da Meia-noite (Salman Rushdie)

E então aconteceu: li durante toda a noite até a minha cabeça começar a doer e quase explodir. Eu precisava saber, mais do que qualquer coisa, como aquele livro terminava. Não dava mais para esperar, não, eu não podia dormir, acordar e terminá-lo quando tivesse um tempinho no dia seguinte. Tinha que ser naquela hora, senão o momento teria passado e eu perdido a sensação crescente de clímax. Isso nunca me aconteceu. Quer dizer, é claro que já ansiei pelo final de muitos livros, mas nenhum deles me fez estourar os miolos e manter os olhos abertos com bastante Coca-Cola, passando frio na varanda só para não cair no sono. Foi uma experiência do tipo que contarei daqui uns anos, eu acho. E se meus netos perguntarem “que livro mágico era esse?”, tenho certeza de que não terei esquecido o nome: “Os Filhos da Meia-noite”.

E sobre o que é a história? Sobre joelhos, escarradeiras, porões, cantoras, lençóis furados, fórceps... E um pouco sobre a Índia também. Salim Sinai, o autobiógrafo que vive em uma fábrica de picles, percebeu que seu tempo era curto – ele precisava contar muitas coisas para seu filho e os músculos de Padma. É tudo assim: aos poucos. Fragmentos do que acontecerá capítulos mais a frente aparecem de relance entre parágrafos do presente, enquanto o passado constrói a narrativa. Esta, aliás, que não é das minhas favoritas, com um estilo repetitivo, que aguça demais a curiosidade e ansiedade já tão difíceis de controlar. Gosto de autores mais diretos, linhas do tempo contínuas e as coisas em seus devidos lugares. Confesso que não foram poucas as vezes que fiquei irritada com os “Mas depois falamos disso; estou me precipitando; deixarei para mais tarde”, que são muitos, imensos, e me deixava com cara de como assim para depois? Já que começou, termine! Mas Salman Rushdie só terminava quatro ou cinco capítulos depois, certas coisas ficando só para o final.

(...) mas no momento estamos perto demais da tela do cinema, a imagem está se decompondo em pontinhos, só há possibilidade de julgamentos subjetivos. Subjetivamente, pois, baixo a cabeça de vergonha. Caros Filhos, perdoem. Não, não espero que perdoem.

Salim tem o jeito melodramático de Bombaim. Muitos trechos são descritos como um script de cinema – emoção, perda de fôlego, personagens ganham características profundas, cenas improváveis, diálogos encaixados e ensaiados. No meio dessa atuação estão os filhos da meia-noite, os afortunados que nasceram juntamente com a independência da Índia. E crescerão com ela, sofrerão suas intempéries, suas guerras, rasteiras, serão ameaçados de destruição, mas...

É nacionalista. Quem quero enganar? É pura política indiana, do começo ao final. Talvez por isso um leitor em potencial torce o nariz e pense duas vezes. Às vezes cansativo, outras vezes Bollywoodiano, com uma pitada de magia, algumas coisas deixadas ao gosto da imaginação: “Os Filhos da Meia-noite” tem de tudo. O que mais gostei foram as analogias ao governo e as cutucadas nada sutis a dona Indira. Salman Rushdie tem o tipo de língua que nem uma flauta potente é capaz de domar. Nada do que lemos, realmente nada é só o que está ali escrito. A Índia inteira juntamente com sua independência se esconde no que Rushdie quis perpetuar.

(...) O palácio é, atualmente, um abrigo de mulheres que enviuvaram; compreendendo que suas verdadeiras vidas chegaram ao fim com a morte de seus maridos, mas agora desautorizadas a buscar a libertação pelo sati, a morte ao lado do corpo do marido na pira fúnebre, elas vêm para a cidade sagrada a fim de consumir seus dias inúteis em tristes lamentações. No palácio das viúvas vive uma tribo de mulheres cujos peitos estão irremediavelmente machucados pela força de golpes contínuos, cujos cabelos são inapelavelmente arrancados, e cujas vozes dilaceram-se pelas constantes e pungentes expressões de dor.

Assisti o filme logo depois de terminado o livro e, como esperado, me decepcionei. Na verdade, enquanto lia, fiquei pensando em como tinha sido possível adaptar a história para o cinema. Não consegui pensar em modo algum, por mais criativo que fosse, de transmitir aquelas mensagens na tela. “Os Filhos da Meia-noite” é o tipo de história que se ultrapassa, transborda, supera os próprios limites. É imortal. De fato, foi impossível filmá-la. Deixou muito a desejar, apesar de ter me emocionado em algumas partes (graças a bagagem da leitura que fiz antes). Não é, enfim, leitura para qualquer um que esteja procurando apenas um passatempo. Se você quiser ler “Os Filhos da Meia-noite”, esteja ciente de que não será o mesmo após a última página. É um livro escrito para pensar, refletir, para ser lido várias vezes, destrinchado, compreendido. Não é um instante no fim de semana. É uma história para a vida inteira!

A política, Filhos, mesmo na melhor das épocas, é uma coisa feia e suja. Deveríamos tê-la evitado, eu jamais deveria ter sonhado com objetivo, estou chegando à conclusão de que as pequenas vidas individuais e privadas dos homens são preferíveis a toda essa inflada atividade macro cósmica. Mas é tarde demais. Não se pode mais evitar. O que não tem remédio, remediado está.

10 de abril de 2014

Cinco livros que mudaram minha vida

Ler é importante. Mais importante ainda é ler o que se gosta. Você, por exemplo, que gosta de Crepúsculo, eu poderia dar uma machadada na sua cabeça tudo bem. Eu já aceitei a ideia de existir pessoas assim no mundo e hoje sei que há espaço para todos nós. Estou calma.

Então, como eu ia dizendo: ler é importante. Qualquer dia desses conto minha história com os livros, que com certeza de emocionante não tem nada. Por enquanto, vou apenas dar um parecer rápido a respeito de leituras que, se não mudaram minha vida completamente, pelo menos reestruturaram minha forma de pensar. E é disso que estou falando, afinal de contas: leia porcarias, se isso te faz feliz, mas não se esqueça de ser uma pessoa melhor.

1. Os livros de Florbela Espanca
Quando descobri Florbela Espanca o meu mundo particular feminino sofreu uma reviravolta. Até então eu dava valor para a poesia, conhecia certos poetas famosos que às vezes conseguiam, como dizem, se conectar comigo. Mas era só isso. Com Florbela foi tudo diferente: todas as suas poesias, sem uma única exceção, me fazem arrepiar. Quando abro um de seus livros e começo a ler, é como se me colocasse diante de um espelho.




A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo ou o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!...

2. A Filosofia da Liberdade, Rudolf Steiner
De todos os livros que li e ainda vou ler, este é o mais complexo. É o tipo de leitura que deve ser repetida ao menos uma vez por ano durante, sei lá, duzentos anos. Só então entenderemos por completo a teoria de Steiner. Mesmo assim, mesmo dando um nó no cérebro e passando dias com a cabeça quente de tanto pensar e tentar compreender este é, por enquanto, o único livro que me tirou do lugar.

3. A Doutrina de Buda, Siddhartha Gautama
Sou batizada na igreja luterana, mas nunca, jamais, me senti parte da comunidade. Religião, para mim, sempre foi um assunto muito complexo o qual os adultos tratavam com uma simplicidade suspeita. “Porque sim” nunca me satisfez. Minha mãe sempre dizia que bastava acreditar em Deus para que tudo corresse bem, enquanto eu, na surdina, descobria por mim mesma no que acreditaria ou não. Foi pensando assim que acabei encontrando o budismo. E com ele, a coerência que tanto fez falta na minha infância e adolescência. Tudo se encontra no “caminho do meio”.

4. O Mito da Beleza, Naomi Wolf
Encontrei o livro no CMI Brasil numa época em que não me preocupava com o feminismo. Quer dizer, ao menos não pensava nisso conscientemente. Não que eu dê muita importância para o movimento contemporâneo, mas todas as coisas tem o seu lado bom. Enfim, li e gostei. Naomi Wolf me fez ver o mundo com outros olhos. Não concordei com 100% do que ela escreveu, mas talvez isso seja fruto da idade e experiência pessoal, ou somente uma questão de observação. Apesar dos pontos de vista diferentes, a escritora colocou para mim tudo em seu lugar correto. Muitas coisas começaram a fazer um sentido assustador.

5. Deus, um Delírio, Richard Dawkins
Eu pergunto. Dizem que é este o meu pecado. Pergunto muito, sobre tudo, para qualquer um. Se você é formado em uma especialidade, pode ter certeza de que vou bombardeá-lo com dúvidas. Adoro saber, descobrir e, principalmente, deixar de me perguntar. Richard Dawkins é bem conhecido por seus livros, mas só ouvi falar dele ao lançar o “Deus, um Delírio”. Infelizmente, não é a bíblia dos ateus como muitos dizem, pois cerca de metade do livro não passa de uma provocação entre colegas de trabalho e uma autoafirmação científica que já foi enfatizada o bastante, creio eu, ao longo da carreira do escritor. Mas tudo bem. Mesmo assim o livro derruba argumentos religiosos até então “sólidos” e também traz explicações valiosas para algumas de minhas questões pessoais. Enfim, é o tipo de leitura que me deixou com um pé atrás para antigas crenças.

Não organizei por ordem de importância ou qualquer hierarquia. Também escolhi a dedo, já que o número de títulos que mudaram a minha vida é bem maior. Dei prioridade aos menos pessoais, que podem influenciar outros dentro de um contexto mais amplo. Deixo em aberto para quem quiser participar (e quem o fizer, deixe o link do post por aqui para que eu possa ler).

2 de abril de 2014

Fones de ouvido

Faz um tempão que encontrei esse meme no blog Julho Agridoce e ele ficou aí, esperando uma chance ou um vácuo ou uma linguiça para encher ou... Não costumo falar de música no Bonjour Circus porque, bem, o meu gosto não é do tipo que agrada as pessoas. Não sei. Eu sou estranha até nisso.

1. Você tem uma banda preferida? Qual?
Eu tenho! Posso falar sobre ela? Posso?! Quero escrever cinco parágrafos sobre o The Rasmus e quero que todo mundo ame também! Pode ser? Vocês deixam? Eu tenho material e inspriação para uns trinta textos se prometerem não dormir nem denunciar meu blog. Então: eu amo The Rasmus. Mas amo mesmo. De verdade. Bastante. Muito mais do que vocês estão tentando imaginar no momento. The Rasmus é minha banda favorita. Não, favorita é pouco! É mais do que qualquer adjetivo maior e melhor e mais digno do que “favorito”. Favoritar bandas é para os fracos, eu vivo The Rasmus! Eu já amava quando você era apenas um feto e vou continuar amando quando nos tornarmos cinzas. Ok, chega.


2. Qual seu cantor ou cantora preferida?
Beth Hart tem uma voz linda e escreve músicas perfeitas. Parece que ela nunca perde a inspiração, nunca vacila, nunca desequilibra. Essa mulher canta com o coração, e apesar de sempre ouvirmos alguém dizer isso, são poucas as vezes que conhecemos um artista que realmente se doa à música.

3. Uma música que defina sua personalidade:
Que bom ver você florindo
Desperta, cheia de luz e de verdade
Deixa fugir do seu peito
Essas marcas de um passado que só vão te magoar

Por que você chora tanto
E sofre sem ter motivo?
Vai, deixa todo esse rancor pra trás
Que a vida vem sorrindo pra nós dois

Florindo (Mariana Aydar)
4. Uma música que te faça sentir viajante:
Chill (The Rasmus).

5. Uma música que te deixe melancólico:


6. Quais são suas 8 trilhas sonoras preferidas?
Oito trilhas sonoras é demais até para mim, que estou viciada em Bollywood. Mas vou tentar: Goliyon Ki Raasleela Ram-Leela, Rab Ne Banadi Jodi, Saawariya, Veer-Zaara, Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, Pearl Harbor, Rocky Balboa e O Pianista (só para fechar a lista mesmo).

7. Um compositor que você admire:
Mozart. Ele é minha alma gêmea. Apesar de não poder (nem querer) falar dele com propriedade, suas composições são as únicas obras primas que ultrapassam qualquer compreensão e deixam no chinelo até mesmo, veja você, o The Rasmus. É lógico que ambos são incomparáveis, eu não me atreveria... Mozart foi um gênio e seu legado, além de imutável, é o próprio canto de Deus.

8. Coloque aqui imagens de 6 capas de CD que você goste e, ao mesmo tempo, ache as mais bonitas:
 
Chandra Lacombe (Namaskar) • O Avesso (Cacai Nunes) • Quem vai comprar o nosso barulho? (Chicas) • Miles From India (Vários artistas) • Waving at us, we've provoked (Deus Nuvem) • Trilhos/Terra Firme (Casuarina)

9. Onde você mais gosta de ouvir música?
Em qualquer lugar. Antigamente, eu ouvia bastante enquanto estava na rua, mas aprendi que é sempre bom estar atenta, então abandonei esse hábito. Às vezes ainda ouço música no ônibus. Acabei me acostumando a levar o iPod comigo quando vou tomar banho, preciso de música para escrever e tenho, enfim, um monte de listas para toda e qualquer ocasião.

10. Qual foi a última música que você ouviu?