25 de março de 2014

Esvaziando os pneus de bicicleta

Deixa eu contar uma coisa engraçada: engordei. Para quem nunca passou dos 53 quilos é, de fato, uma piada. Acabei de me pesar e estou com 62 quilos, os quais se fizeram presentes enquanto eu ia ao supermercado com minha mãe. Pois sim, parei no meio da rua e implorei para que ela cortasse as costuras com a chave de casa e abrisse os ajustes na cintura da calça – empaquei, não consegui seguir em frente porque estava presa na minha própria roupa. Fiquei sem movimentos e sem fôlego. No meio da rua. Porque a calça não cabe mais em mim. Esta, cujo número aumentou por causa dos ansiolíticos, agora encolheu de novo por causa dos quadris. No meio da rua.

Vesti a calça e saí de casa. Não desconfiei de nada na hora de fechar o zíper e o botão. Já fazia um tempo que as saias estavam demorando a encaixar, outras calças mais leves (que não jeans) botavam para fora alguns gramas de quadril, pijamas não estavam mais confortáveis, um macacão foi para a caixa de doação e eu terminava de subir uma escada se como tivesse acabado de participar do Triathlon. Mas até aí: tudo bem. Sedentarismo, mais os ansiolíticos que “engordam um pouquinho”, achei normal ter ganhado um pouco de peso. E como meu relacionamento com a balança sempre foi estável, nem me preocupei. Comprei calças novas e não dei bola: continuei tomando refrigerante, comendo chocolate, devorando uma lasanha inteira sozinha.

Não sei. Talvez o metabolismo tenha, finalmente, começado sua aposentadoria ou – por incrível que pareça! – está provado que não sou uma deusa. Engordei. Nunca achei que um dia diria isso, pois minha família (de ambos os lados) foi abençoada com o físico palito de fósforo, mas cá está: estou gorda, preciso de uma dieta. À beira dos 27 anos, tenho de aprender a lidar com sabonetes e cremes para oleosidade da pele (e os antissinais e protetor solar também apareceram), cera quente para pêlos encravados (pêlos, com acento, eu posso, sou do século passado) e agora estou brigando com meu peso. Apavorada é a palavra certa. Seria muito fácil simplesmente aumentar, de novo, o número das minhas roupas, mas o futuro obscuro dessa escolha me deu arrepios. Então, ao invés de empurrar uma solução com a barriga (cada vez maior), decidi arrancar o mal pela raiz!


Cortei doces e bobagens da minha lista de supermercado. Aqui em casa, compramos frutas, legumes, verduras, estamos misturando couve em sucos naturais e tomo três copos de água por dia. Faço exercícios todos os dias, inclusive a maldita prancha, para o assombro dos sedentários de plantão. Daí você deve pensar que estou me sentindo melhor, bem comigo mesma, mais leve, orgulhosa... Não. Eu estou mau humorada. Quero comer chocolate, beber Fanta no almoço e comer Doritos no meio da tarde. Não é legal contrair o corpo até os músculos queimarem, eu não me divirto fazendo isso e a dor é tanta que não tenho ânimo para sentir qualquer satisfação que seja. Está chato. Quero parar.

Mas toda vez que sou obrigada a encolher a barriga para vestir uma calça 42 (e mantê-la encolhida para que o botão não escape e eu passe vergonha – no meio da rua), a culpa me corrói. Assim não dá para continuar. Sou dessas que apoia os pneuzinhos e gordurinhas e não acho que uma barriga seca deva ser o objetivo de uma vida feliz, tanto que me afastei das araras com numeração 38 numa boa, sem escândalos. Só que, conforme vou me aproximando do 44 num piscar de olhos, e percebo que se continuar assim ultrapassar o 46 será uma questão de tempo, senti que era hora de parar com o consumo de porcarias e que um exercício me cairia bem. Vida saudável nunca matou ninguém, não é? A não ser de tédio, mas até aí tudo bem, vou conseguir lidar com isso...

21 de março de 2014

Espero Alguém (Fabrício Carpinejar)

Fabrício Carpinejar é uma dessas tantas entidades que estão em todos os lugares da internet. Por mais que você se esconda, não adianta: seus amigos, mais cedo ou mais tarde, irão compartilhar uma frase na sua timeline. Às vezes, para o azar da paciência, várias frases. Por mais que eu goste da pessoa, de sua companhia, sei que vou acabar me decepcionando porque 80% dos internautas se identificam com filósofos de gaveta. Dentre eles, Tati Bernardi e Carpinejar que, se não fossem os artigos na Wikipédia, eu juraria de pés juntos que são a mesma pessoa. O que, é claro, está longe de ser um elogio.

Mesmo assim decidi ler um livro de Carpinejar. Eu não poderia afirmar que conhecia seu trabalho sem antes ler ao menos uma obra, já que tweets e posts em blog não definem a carreira de ninguém. Foi numa madrugada de insônia que dei uma chance ao “Espero Alguém”, o salvando da poeira acumulada. “Se eu não gostar, pelo menos durmo”, pensei com meus botões. Era uma noite realmente difícil para mim, amorosamente falando – daí a insônia – e admito que a escolha não foi inteligente. Por outro lado, segundo a teoria de 80% da internet, o que seria melhor do que Carpinejar para me curar? Olha, depois que terminei o livro encontrei uma resposta: veneno. Se eu tivesse tomado veneno, ou uma dose cavalar de calmantes, teria me sentindo melhor do que passar a madrugada lendo os contos dele.

Pode ser que eu esteja exagerando. Existe a possibilidade. No entanto, seria ainda pior se eu dissesse que Carpinejar é leitura de banheiro de rodoviária, concorda? Se eu chegasse aqui na cara de pau e gastasse três parágrafos comparando a escrita dele com o que leio em para-choques de caminhão, cartazes para o Dia das Mães ou lápides de cemitério. E agora que você está ciente de que realmente poderia ser péssimo, não vai se escandalizar tanto ao saber minha opinião a respeito de Fabrício Carpinejar.

Para ser sincera, ele tem seu valor. Eu gostei de algumas frases e consegui simpatizar com um conto inteirinho, veja você! Mas existe um sério problema com esse cara, e é muito simples de ser resolvido. Amarrando as mãos atrás das costas? Não. Dar à ele uma matrícula num curso de escrita criativa já está de bom tamanho. Só assim para ele parar com essa ideia de achar que um texto bom é um texto construído por frases de efeito. Se você observar, se tiver o costume de ler e interpretar ao invés de apenas suspirar e trazer a narrativa para sua vida problemática, vai entender do que estou falando. Duvida? Olha só, abaixo estão algumas frases retiradas do “Espero Alguém”.

Nunca sei quando vai doer — isso é o que mais dói.

A dor é mais uma morte em mim. (...) eu me separei do que eu era com ela. São duas separações ao mesmo tempo.

Não duvido que o excesso de sensibilidade me torne insensível. Estou tão vulnerável que não sinto nada.

O riso é também pela metade. O riso hepático, mais uma contração facial do que uma respiração desembaraçada. Aceno com a cabeça, não é mais aquele salto felino dos dentes. Meu sim virou um não simpático, com a leve inclinação dos lábios. Não abro, nem fecho: respiro pela boca.

São três frases de efeito diferentes, certo? Cada uma mostrando um tipo de dor diferente. Errado. As três frases fazem parte do mesmo conto e uma complementa a outra. Tanto na primeira quanto na última Carpinejar está falando de sua separação, no entanto, são frases que cabem na timeline ou tweet de qualquer pessoa – na maioria das vezes com “correções” ao gosto do freguês para aprimorar a indireta ou chamar mais atenção para a dor de cotovelo. O que acaba acontecendo é que “A dor é mais uma morte em mim (...)”, por exemplo, vai parar na boca da Clarice Lispector.

Todos os contos, eu disse todos os contos sem uma única exceção, são assim. Carpinejar não é o tipo de escritor que está à vontade para desabafar e criar seus mundos, a cada palavra se encontra um esforço incomum de ser profundo, apaixonado, inspirador. Fabrício Carpinejar tem jeito, eu não diria dom (nem a pau), para escrever. Infelizmente, se acha na obrigação de fazer sentido o tempo todo. O que o impele, logicamente, ao ridículo. Um texto sincero, simples, cru é muito mais bonito, pois contém seu autor. Nos contos de “Espero Alguém”, e em tweets, blogs, crônicas, eu só consigo enxergar uma sopa rançosa de letras. É extremamente pesado ler Carpinejar. Cansativo. Melodramático.

Fora isso (é, tem mais), a composição do livro também me irritou. O que começou com separação, corações partidos e nostalgia descambou para memórias de infância, achismos e quando dei por mim não sabia mais sobre o que raios estava lendo. Aliás, desde que “acompanho” involuntariamente o trabalho de Carpinejar, tenho a impressão de que tudo, absolutamente tudo, termina em infância e adolescência. Você está lá, amorosamente desarranjada, curtindo (só que não) uns contos de quinta categoria e de repente, não se sabe como nem porquê, inicia um conto sobre o pai do escritor usando pijamas e pijamas são ruins, macho não usa pijama.

Se como não bastasse a visão do branco-classe-mediano-machista de que mulher sofre de TPM, usa batom e ponto final: tenho mesmo que engolir o pijama dos outros? Depois de sobreviver há dezenas de contos descrevendo a mulher como peça de decoração e objeto celestial de adoração, homens salvaguardados num habitat selvagem e másculo e me arrepender, amargamente, de ter dado uma chance para essa cabeça de vento, é sério isso de ter que ler uma crítica social sobre pijamas?

Pijama não é sensual, traz sempre bolsos para desfigurar o peito com canetas e papéis. Tem um componente broxante, que é uma braguilha sem zíper. Seu uso adoece os olhos, não sei se são as listras ou as cores, algo faz com que seu dono procure o oftalmologista e passe a adotar óculos de leitura.

O pijama corrompe a moda, estraga a aparência, prejudica a libido. Com ele, o homem aceita a velhice, entrega os pontos. Baixa a crista, o queixo e outras coisas mais. É uma castração moral, um canil de botões. Logo mais o sujeito estará assistindo novela.

Não, vocês só podem estar doentes se acreditam, de verdade, que esse cara vale a pena.

15 de março de 2014

Precisamos falar sobre Shahrukh Khan

As chances de você não me seguir no Twitter são enormes – 50% por eu não ser uma pessoa interessante e 50% por culpa da minha histeria bollywoodiana. Não raro, me dá a louca após assistir um filme da ilustre indústria de Bombay e faço chover tweets dramáticos dando a impressão de que estou a beira de cometer harakiri. Se você é um desses ex-seguidores, olha, desculpaí. Tento me redimir, mas a verdade é que não vou parar. É mais forte do que eu. Quem conhece Bollywood, sabe: chega um determinado momento da trama (de mais ou menos três horas e uma vida) que fica impossível se manter, digamos, estável. Ou você chora todas as lágrimas do ano, ou arranca os cabelos, ou desabafa numa rede social. No meu caso, tudo isso junto de uma vez só.

Eu me derramo, me acabo, me divirto. Bollywood é a coisa mais supimpa que poderia ter me acontecido em termos de cultura e não economizo. Já tenho meus filmes favoritos, meus ídolos, meus inimigos gratuitos e estou prestes a fazer um curso de Hindi porque sou porra louca. E seguindo por essa linha 8/80, descambei para o lado dele: Shahrukh Khan. Aconteceu aquela coisa de “meu Deus, nunca vi alguém atuar assim”! Tipo quando você assiste novelas só que ao contrário. Quando assisti meu primeiro SRK tentei me reconectar a realidade para ver se era isso mesmo – se eu realmente havia encontrado um dos melhores atores desse planeta. Shahrukh Khan não é nada do que normalmente esperamos. É bem melhor do que qualquer expectativa e tão surpreendente quanto nos promete a cultura indiana. Ele é o rei de Bollywood.

É muito ladoo para pouca Índia.

Foi depois de ler o livro “King of Bollywood Shah Rukh Khan – And the Seductive World of Indian Cinema”, que eu resolvi assistir todos os filmes protagonizados por ele (depois, quem sabe, aqueles em que faz apenas participação especial). Não vou me dar ao trabalho de buscar um elogio mais a altura nem pesquisar sobre o que não lhe interessa só para parecer cult. Não vou dar uma de “nossa, como ela entende do assunto” para impressionar ou convencer quem quer que seja. Bollywood, Shahrukh Khan e eu não funcionamos desse jeito. Vou pular logo para a melhor parte: os filmes.

1. Devdas (2002)

Vamos começar pelo pior. Não, “Devdas” não é um filme ruim. Por favor, sem heresias! Digo o pior porque demorei um bom tempo para me recuperar. A história me atropelou de um jeito, que eu achei que só uma pá e um balde poderiam dar conta do que sobrou. Shahrukh Khan bêbado e destroçado é uma escola. Madhuri Dixit, essa divindade, só ajudou a me deixar mais perdida na vida. Aishwarya Rai, para mim, é questionável, mas até o seu trabalho ficou impecável. “Devdas” é um clássico. Muito cuidado com o momento escolhido para assisti-lo. Tenha certeza de que seu emocional está calibrado.

2. Rab Ne Bana Di Jodi (2008)

Eu bem que queria usar a palavra “fofo” para descrevê-lo, mas esse filme tem características bem mais fortes do que isso. O ideal seria eu ter um vocabulário mais extenso do que esse de gueto. Bom, é o que tem para hoje. A trilha sonora tem uma das minhas músicas favoritas, “Tujh Mein Rab Dikhta Hai”, que eu não consigo parar de cantar e até aprendi a pronúncia correta do refrão de tanto repeti-lo (me achei foda) – além de linda, o clipe é um bom resumo da história. Haule Haule também é de suspirar. Até hoje dou risadas quando revejo a cena de Surinder Sahni (SRK) carregando a lancheira amarela pela primeira vez. Ah, gente, desculpa mas é fofo!

3. Chennai Express (2013)

Passamos por um clássico de nos virar do avesso, depois uma fofura sem tamanho e agora chegamos no ponto crítico. “Chennai Express”: ame-o ou deixe-o. Se não me engano, foi o único filme que Shahrukh se prestou a fazer em 2013 (em Bollywood é comum os atores e atrizes filmarem mais de um filme ao mesmo tempo). Teve gente que adorou, tipo eu. Teve gente que detestou, achando que o protagonista King Khan já foi melhor. Para mim, é difícil – eu diria impossível – olhar para o trabalho dele e achar qualquer coisa mal feita ou fora do lugar. Quer dizer, estamos falando de Shahrukh Khan! “Chennai Express”, além de Deepika Padukone, (essa linda, essa deusa, vou ser igual a ela quando crescer) mostra um Rahul humorado e, mais uma vez (porém jamais cansativo), romântico. Lembrando que Shahrukh já carregou muita piriguete nos braços, mas Deepika foi a única a ser carregada trilhões de degraus acima. Beijo no ombro para a Kajol.

4. Swades (2004)

Ser o rei de Bollywood não é para qualquer um. A Índia viu muita gente passar no cinema, uns bons, outros mais ou menos, teve também os memoráveis, mas rei? Até onde sei, só um. Não conheço a carreira de SRK de cabo a rabo, mas o que li e vi por enquanto me deu uma ideia do porque ele ter sido o escolhido. “Swades” pode não ser o exemplo adequado do ponto de vista de quem conhece todo o trabalho dele. Na minha opinião, pelo menos está bom para começar. Uma simples viagem se transforma na sangria de uma cicatriz indiana. É inspirador. Mohan Bhargava vê o que muitos ocidentais (e mesmo conterrâneos) não se dão ao trabalho. A cena em que ele bebe a água vendida na estação de trem é uma das pouquíssimas no cinema que conseguiram me arrepiar. Não há como explicar, vocês tem que assistir.

5. Jab Tak Hai Jaan (2012)

Fiquei tão na dúvida de qual filme escolher por último... Por mim, eu falava de todos que asssiti até agora. Falta muito para completar minha SRK-List, é bem provável que essas indicações que acabei de fazer mudem completamente daqui uns meses. Daí eu pensei: se estou falando de Bollywood, sou obrigada a mencionar Yash Chopra. E se vou falar do diretor mais dramático do mundo, tenho que indicar “Jab Tak Hai Jaan”. Lembram de “Veer-Zaara”? Aquele filme que me fez ligar para a terapeuta em pleno fim de semana porque simplesmente despiroquei? Então, é do mesmo diretor. Só que “Jab Tak Hai Jaan” não teve o mesmo efeito. Acho que o assisti na época errada. Se eu assistisse hoje, talvez me acabasse de tanto chorar e surtasse de novo. Talvez. Tenho uma relação complicada com esse filme. Ele é ótimo. Mesmo. Mas não sei lidar com o Shahrukh Khan no papel de Samar Anand. Será intenso demais? Será que rola muita projeção do tipo quero-para-mim-peloamordedeus e meus sentimentos disfuncionais entram em crise? Não sei. É possível que Yash Chopra tenha superado o próprio talento e não se aguente (onde quer que esteja). Enfim, assista e tire suas próprias conclusões. Mas depois não me culpe pelo término do seu relacionamento.

Existem muitos outros, lógico. Já falei de “My Name Is Khan” aqui e, por favor, por favorzinho, pare de ler este texto e vá assistir agora! Esse filme é de cair o cu da bunda. Nunca falei de “Paheli” porque, além de ser meio vergonha alheia, é indiano demais para quem está começando. Mesmo assim, é recomendável, assistível, vocês vão gostar depois de conhecerem outros trabalhos do Shahrukh. E o que mais? Ah, “Don” é um mafioso sensacional, melhor ainda e muito mais apetecível em “Don II”. Para finalizar (infelizmente), puxo o saco da Deepika mais uma vez indicando “Om Shanti Om”, que trabalha em cima de uma das crenças mais fortes do Hinduísmo: a reencarnação. Chega a ser quase ridículo, mas a Deepika, sinceramente, é igual ao Shahrukh Khan: não tem limites.

12 de março de 2014

Literatura sem graça

Já faz um tempo que quero escrever sobre isso, mas não consigo encontrar o tom certo. Com tantos blogs e vlogs literários por aí, é como entrar numa jaula cheia de leões. Afinal, quem não faria de tudo para receber livros gratuitos no conforto do lar? A premissa é simples: leitores querem livros. Eu, que fiz um voto de nunca mais reclamar de nada nem ninguém simplesmente por não ser da minha conta, senti uma cutucada tão violenta que me obrigou, timidamente, a levantar o dedo e contestar: leitores querem ler. Não sei como essa onda literária começou ou quem deu o tiro de largada, só sei que está por toda parte. O que era novidade há, sei lá, uns quatro anos atrás hoje se tornou indispensável – todo mundo fala sobre livros.

Mas a internet inteira estar debatendo sobre literatura não significa que temos opções na mesma proporção. Muito pelo contrário. De cinco vlogueiros ou blogueiros que publicam suas opiniões a respeito do que leram, na minha conta, apenas um vale a pena de ser ouvido ou lido. Não que eu espere um alto teor de intelectualismo. O mínimo que se pede dessas pessoas é uma opinião baseada de quem leu além do resumo enviado pela editora e que mantenha interesse no que está fazendo. Eu, como “consumidora” desse tipo de informação, espero ler ou assistir a opinião de um leitor falando do livro, e não de um marqueteiro ou de um consumista literário.

No começo, eu assinava vários blogs e vlogs “literários”. No calor do momento, finalmente encontrando um bom espaço para falar sobre literatura na internet, acompanhei a maioria. Então, chegaram as editoras oferecendo parcerias. Pareceu uma ótima ideia para todo mundo, por fim, receber livros em troca de nada. Até eu, que estava com uma lista de desejados bem gorda e a conta bem magra, tentei me inscrever nas minhas editoras favoritas (que tem um catálogo de acordo com meu gosto). Já pensou? Eu pensei. Num passe de mágica, eu teria uma pilha dos melhores títulos a minha espera e em seguida poderia escrever a respeito de cada um para quem quisesse ler.

Só que não.

Existe um preço. Aos poucos vão aparecendo relatos daqueles que se sentem desconfortáveis em dar notas negativas para os livros que receberam de parceria. É lógico. Além de muitas vezes não ser uma leitura agradável, um título enviado sem solicitação ou avaliação prévia do perfil do blogueiro ou vlogueiro, a propaganda está implícita. Se não, para que as editoras se dariam ao trabalho de mandá-los? De um lado os leitores mais ansiosos acham que estão se dando bem, enquanto do outro as editoras duplicam vendas, e essas sim, se dão bem sem muito esforço. Ou seja, o hobby acaba se tornando um grande negócio. A atualização de sites literários é uma tempestade de lançamentos e best-sellers de, praticamente, todas as editoras do mercado sem que o leitor justifique suas leituras ou ao menos demonstre simpatia pelo o que está lendo. Ele quer livros de graça, independente se irá gostar ou não. O importante é continuar na lista dourada da Intrínseca, por exemplo, e continuar acumulando exemplares na estante ao mesmo tempo em que acumula nada no intelecto e no prazer.

E então aparecem os consumistas – aquelas pessoas que entram numa livraria, compram quatro ou cinco livros, recebem mais seis ou sete de editoras parceiras e os empilha no criado-mudo, na mesa, na estante, na varanda, no forno. Não raro, assisto vídeos dos reclamões que gostariam de mais tempo para ler, não sabem por onde começar ou sofrem de “ressaca literária”. Pudera! Afogados em uma montanha de livros, cuja a maioria das sinopses sequer capta a atenção, é natural se sentir pressionado e desmotivado. Posso estar errada e até parecer prepotente, mas ao meu ver não são leitores, e sim pessoas com o único motivo de ostentar. Assim como os funkeiros balançam nos pescoços seus cordões de vários quilates, alguns (veja bem, eu disse alguns) blogueiros e vlogueiros exibem dia sim e dia não capas e mais capas de diferentes autores e gêneros, uma mais linda do que a outra, pois isso é importantíssimo, mas sem saberem o básico, o essencial sobre a obra.

É por isso que decidi dizer não às parcerias. Cada vez mais evito e cancelo blogs ou vlogs de parceiros (às vezes com sete, oito, nove editoras, meu Deus). Cada vez mais é notável a superficialidade das opiniões, o medo por trás do “não gostei muito, mas é um livro interessante (por favor, COMPRE-O)”, e os Book Hauls com vinte livros que ao longo do ano se concentram na resenha somente de dois deles. É uma pena ver transformarem algo tão gostoso como a literatura em um negócio frio e calculista. O consumismo é saciado, os livros são de graça...

Mas continuam sem graça.

2 de março de 2014

O mundo invencível das bolsas

Houve um tempo em que eu era maluca por bolsas. Não podia entrar numa loja que comprava logo duas. Isso, lógico, me rendeu uma respeitável coleção. Com o tempo fui perdendo o vício e percebi que vendi a maioria delas sem usar uma única vez – uma situação ridícula, que me fez repensar e parar de vez com esse impulso consumista. Ainda tenho algumas remanescentes daquela época. São poucas, mas ainda conseguem me dar trabalho. Bem que eu queria me livrar de mais modelos se não fosse o fato de cada uma combinar com determinada roupa ou sapato. Daí fico no dilema do “impossível totalmente possível”.

A problemática do excesso de bolsas é a seguinte: você não encontra o que procura. Existem aquelas bolsas enormes ou lotadas, que escondem as chaves, o celular, a carteira. Até aí, a gente encontra se virar tudo em cima da mesa. Agora, se você é como eu, que troco de bolsa toda hora: pode esquecer. Aquela caneta, por exemplo, nunca mais será vista. Mudo de bolsa e na anterior deixo tudo o que não me parece necessário no momento, ou que pode ficar ali mais um pouquinho porque não vou usar imediatamente. E nesse “ah, depois eu arrumo” acabo passando por apuros na rua.

Tipo o dia que tive uma crise de rinite homérica. Foi o único dia da minha vida que cogitei seriamente a ideia de dar um tiro na minha cabeça. Estava morrendo de dor de cabeça, meus olhos ardiam e lacrimejavam, meus ouvidos zuniam e meu nariz escorria como uma torneira. Assim que entrei no ônibus e dei cinco espirros consecutivos percebi o drama: não tinha um lencinho sequer na minha bolsa, o pacote estava na outra – aquela que ficou em casa, na minha cama, porque “ah, depois eu arrumo”. Dei um jeito (brasileiro não desiste nunca) e quando cheguei em casa encontrei três pacotes de lenços em três bolsas diferentes.

Ou o dia que “ainda bem que eu trouxe meu guarda-chuva” e tive de parar num bar para procurá-lo no infinito e além, tirar tudo de dentro da bolsa: casaco, garrafa d'água, estojo, caderno, celular, chaves, carteira, lencinhos, linha de bordar (!), e-reader e “puta que pariu, ficou na outra bolsa”! Então fiquei ali no bar mesmo, pedi um pão de queijo, uma Coca-Cola, liguei para mamãe. “Mãe, vou esperar a chuva passar...” sim, ela já sabia, pois o meu guarda-chuva estava na sua mão.

E teve o dia bem recente que passei fome na rua (aquela fome, sabe?) porque além de ter esquecido minhas barras de cereal na mesa da cozinha, esqueci também meus trocados no bolso de uma calça. Era um daqueles momentos “não vou demorar, mas puta que pariu como tudo demorou”. As pessoas, despreocupadas em cumprir meus prazos particulares, não pouparam preguiça em adiantar para o meu lado e junto com a ansiedade foi crescendo a fome. Um calor de matar, eu ali presa, sem dinheiro porque afinal de contas fui ingênua a ponto de acreditar que o mundo só daquela vez funcionaria sob minhas regras, estava passando por um vexame. Fiquei pálida, minha pressão desabou, me vi rodeada de bons samaritanos e uma água de procedência desconhecida se materializou na minha frente. Cheguei em casa, decidi limpar a bolsa que usei nesse dia e veja você: no bolso falso da parte de dentro havia cinco barras de cereal.