14 de abril de 2014

Os Filhos da Meia-noite (Salman Rushdie)

E então aconteceu: li durante toda a noite até a minha cabeça começar a doer e quase explodir. Eu precisava saber, mais do que qualquer coisa, como aquele livro terminava. Não dava mais para esperar, não, eu não podia dormir, acordar e terminá-lo quando tivesse um tempinho no dia seguinte. Tinha que ser naquela hora, senão o momento teria passado e eu perdido a sensação crescente de clímax. Isso nunca me aconteceu. Quer dizer, é claro que já ansiei pelo final de muitos livros, mas nenhum deles me fez estourar os miolos e manter os olhos abertos com bastante Coca-Cola, passando frio na varanda só para não cair no sono. Foi uma experiência do tipo que contarei daqui uns anos, eu acho. E se meus netos perguntarem “que livro mágico era esse?”, tenho certeza de que não terei esquecido o nome: “Os Filhos da Meia-noite”.

E sobre o que é a história? Sobre joelhos, escarradeiras, porões, cantoras, lençóis furados, fórceps... E um pouco sobre a Índia também. Salim Sinai, o autobiógrafo que vive em uma fábrica de picles, percebeu que seu tempo era curto – ele precisava contar muitas coisas para seu filho e os músculos de Padma. É tudo assim: aos poucos. Fragmentos do que acontecerá capítulos mais a frente aparecem de relance entre parágrafos do presente, enquanto o passado constrói a narrativa. Esta, aliás, que não é das minhas favoritas, com um estilo repetitivo, que aguça demais a curiosidade e ansiedade já tão difíceis de controlar. Gosto de autores mais diretos, linhas do tempo contínuas e as coisas em seus devidos lugares. Confesso que não foram poucas as vezes que fiquei irritada com os “Mas depois falamos disso; estou me precipitando; deixarei para mais tarde”, que são muitos, imensos, e me deixava com cara de como assim para depois? Já que começou, termine! Mas Salman Rushdie só terminava quatro ou cinco capítulos depois, certas coisas ficando só para o final.

(...) mas no momento estamos perto demais da tela do cinema, a imagem está se decompondo em pontinhos, só há possibilidade de julgamentos subjetivos. Subjetivamente, pois, baixo a cabeça de vergonha. Caros Filhos, perdoem. Não, não espero que perdoem.

Salim tem o jeito melodramático de Bombaim. Muitos trechos são descritos como um script de cinema – emoção, perda de fôlego, personagens ganham características profundas, cenas improváveis, diálogos encaixados e ensaiados. No meio dessa atuação estão os filhos da meia-noite, os afortunados que nasceram juntamente com a independência da Índia. E crescerão com ela, sofrerão suas intempéries, suas guerras, rasteiras, serão ameaçados de destruição, mas...

É nacionalista. Quem quero enganar? É pura política indiana, do começo ao final. Talvez por isso um leitor em potencial torce o nariz e pense duas vezes. Às vezes cansativo, outras vezes Bollywoodiano, com uma pitada de magia, algumas coisas deixadas ao gosto da imaginação: “Os Filhos da Meia-noite” tem de tudo. O que mais gostei foram as analogias ao governo e as cutucadas nada sutis a dona Indira. Salman Rushdie tem o tipo de língua que nem uma flauta potente é capaz de domar. Nada do que lemos, realmente nada é só o que está ali escrito. A Índia inteira juntamente com sua independência se esconde no que Rushdie quis perpetuar.

(...) O palácio é, atualmente, um abrigo de mulheres que enviuvaram; compreendendo que suas verdadeiras vidas chegaram ao fim com a morte de seus maridos, mas agora desautorizadas a buscar a libertação pelo sati, a morte ao lado do corpo do marido na pira fúnebre, elas vêm para a cidade sagrada a fim de consumir seus dias inúteis em tristes lamentações. No palácio das viúvas vive uma tribo de mulheres cujos peitos estão irremediavelmente machucados pela força de golpes contínuos, cujos cabelos são inapelavelmente arrancados, e cujas vozes dilaceram-se pelas constantes e pungentes expressões de dor.

Assisti o filme logo depois de terminado o livro e, como esperado, me decepcionei. Na verdade, enquanto lia, fiquei pensando em como tinha sido possível adaptar a história para o cinema. Não consegui pensar em modo algum, por mais criativo que fosse, de transmitir aquelas mensagens na tela. “Os Filhos da Meia-noite” é o tipo de história que se ultrapassa, transborda, supera os próprios limites. É imortal. De fato, foi impossível filmá-la. Deixou muito a desejar, apesar de ter me emocionado em algumas partes (graças a bagagem da leitura que fiz antes). Não é, enfim, leitura para qualquer um que esteja procurando apenas um passatempo. Se você quiser ler “Os Filhos da Meia-noite”, esteja ciente de que não será o mesmo após a última página. É um livro escrito para pensar, refletir, para ser lido várias vezes, destrinchado, compreendido. Não é um instante no fim de semana. É uma história para a vida inteira!

A política, Filhos, mesmo na melhor das épocas, é uma coisa feia e suja. Deveríamos tê-la evitado, eu jamais deveria ter sonhado com objetivo, estou chegando à conclusão de que as pequenas vidas individuais e privadas dos homens são preferíveis a toda essa inflada atividade macro cósmica. Mas é tarde demais. Não se pode mais evitar. O que não tem remédio, remediado está.

2 comentários:

Thay disse...

Gosto de histórias que me façam pensar e que fiquem comigo por dia. Gosto de terminar um livro, deitar a cabeça no travesseiro e ficar repassando as cenas, completando com um "o que foi isso que terminei de ler" de pura satisfação. A capa desse livro é linda, o elefante carregando a lua nas costas é uma graça - e até penso que isso possa significar algo, mas como não li o livro, já não saberia dizer. Só não sei se estou no clima para uma leitura dessas no momento, a série que estou lendo já tem deixado meu cérebro uma bagunça - mas tudo no bom sentido da coisa. Beijo, Del!

Flor Baez disse...

Salman Rushdie faz isso com a gente, né.
Eu gosto muito dessas leituras urgentes também, que é impossível parar de ler.
Ainda não li este, mas acabei de terminar Joseph Antoun - Memórias, em que ele conta sua jornada com os Versos Satânicos e como foi sua vida durante esses anos. É bem emocionante também.
Um beijo,
Flor

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