21 de março de 2014

Espero Alguém (Fabrício Carpinejar)

Fabrício Carpinejar é uma dessas tantas entidades que estão em todos os lugares da internet. Por mais que você se esconda, não adianta: seus amigos, mais cedo ou mais tarde, irão compartilhar uma frase na sua timeline. Às vezes, para o azar da paciência, várias frases. Por mais que eu goste da pessoa, de sua companhia, sei que vou acabar me decepcionando porque 80% dos internautas se identificam com filósofos de gaveta. Dentre eles, Tati Bernardi e Carpinejar que, se não fossem os artigos na Wikipédia, eu juraria de pés juntos que são a mesma pessoa. O que, é claro, está longe de ser um elogio.

Mesmo assim decidi ler um livro de Carpinejar. Eu não poderia afirmar que conhecia seu trabalho sem antes ler ao menos uma obra, já que tweets e posts em blog não definem a carreira de ninguém. Foi numa madrugada de insônia que dei uma chance ao “Espero Alguém”, o salvando da poeira acumulada. “Se eu não gostar, pelo menos durmo”, pensei com meus botões. Era uma noite realmente difícil para mim, amorosamente falando – daí a insônia – e admito que a escolha não foi inteligente. Por outro lado, segundo a teoria de 80% da internet, o que seria melhor do que Carpinejar para me curar? Olha, depois que terminei o livro encontrei uma resposta: veneno. Se eu tivesse tomado veneno, ou uma dose cavalar de calmantes, teria me sentindo melhor do que passar a madrugada lendo os contos dele.

Pode ser que eu esteja exagerando. Existe a possibilidade. No entanto, seria ainda pior se eu dissesse que Carpinejar é leitura de banheiro de rodoviária, concorda? Se eu chegasse aqui na cara de pau e gastasse três parágrafos comparando a escrita dele com o que leio em para-choques de caminhão, cartazes para o Dia das Mães ou lápides de cemitério. E agora que você está ciente de que realmente poderia ser péssimo, não vai se escandalizar tanto ao saber minha opinião a respeito de Fabrício Carpinejar.

Para ser sincera, ele tem seu valor. Eu gostei de algumas frases e consegui simpatizar com um conto inteirinho, veja você! Mas existe um sério problema com esse cara, e é muito simples de ser resolvido. Amarrando as mãos atrás das costas? Não. Dar à ele uma matrícula num curso de escrita criativa já está de bom tamanho. Só assim para ele parar com essa ideia de achar que um texto bom é um texto construído por frases de efeito. Se você observar, se tiver o costume de ler e interpretar ao invés de apenas suspirar e trazer a narrativa para sua vida problemática, vai entender do que estou falando. Duvida? Olha só, abaixo estão algumas frases retiradas do “Espero Alguém”.

Nunca sei quando vai doer — isso é o que mais dói.

A dor é mais uma morte em mim. (...) eu me separei do que eu era com ela. São duas separações ao mesmo tempo.

Não duvido que o excesso de sensibilidade me torne insensível. Estou tão vulnerável que não sinto nada.

O riso é também pela metade. O riso hepático, mais uma contração facial do que uma respiração desembaraçada. Aceno com a cabeça, não é mais aquele salto felino dos dentes. Meu sim virou um não simpático, com a leve inclinação dos lábios. Não abro, nem fecho: respiro pela boca.

São três frases de efeito diferentes, certo? Cada uma mostrando um tipo de dor diferente. Errado. As três frases fazem parte do mesmo conto e uma complementa a outra. Tanto na primeira quanto na última Carpinejar está falando de sua separação, no entanto, são frases que cabem na timeline ou tweet de qualquer pessoa – na maioria das vezes com “correções” ao gosto do freguês para aprimorar a indireta ou chamar mais atenção para a dor de cotovelo. O que acaba acontecendo é que “A dor é mais uma morte em mim (...)”, por exemplo, vai parar na boca da Clarice Lispector.

Todos os contos, eu disse todos os contos sem uma única exceção, são assim. Carpinejar não é o tipo de escritor que está à vontade para desabafar e criar seus mundos, a cada palavra se encontra um esforço incomum de ser profundo, apaixonado, inspirador. Fabrício Carpinejar tem jeito, eu não diria dom (nem a pau), para escrever. Infelizmente, se acha na obrigação de fazer sentido o tempo todo. O que o impele, logicamente, ao ridículo. Um texto sincero, simples, cru é muito mais bonito, pois contém seu autor. Nos contos de “Espero Alguém”, e em tweets, blogs, crônicas, eu só consigo enxergar uma sopa rançosa de letras. É extremamente pesado ler Carpinejar. Cansativo. Melodramático.

Fora isso (é, tem mais), a composição do livro também me irritou. O que começou com separação, corações partidos e nostalgia descambou para memórias de infância, achismos e quando dei por mim não sabia mais sobre o que raios estava lendo. Aliás, desde que “acompanho” involuntariamente o trabalho de Carpinejar, tenho a impressão de que tudo, absolutamente tudo, termina em infância e adolescência. Você está lá, amorosamente desarranjada, curtindo (só que não) uns contos de quinta categoria e de repente, não se sabe como nem porquê, inicia um conto sobre o pai do escritor usando pijamas e pijamas são ruins, macho não usa pijama.

Se como não bastasse a visão do branco-classe-mediano-machista de que mulher sofre de TPM, usa batom e ponto final: tenho mesmo que engolir o pijama dos outros? Depois de sobreviver há dezenas de contos descrevendo a mulher como peça de decoração e objeto celestial de adoração, homens salvaguardados num habitat selvagem e másculo e me arrepender, amargamente, de ter dado uma chance para essa cabeça de vento, é sério isso de ter que ler uma crítica social sobre pijamas?

Pijama não é sensual, traz sempre bolsos para desfigurar o peito com canetas e papéis. Tem um componente broxante, que é uma braguilha sem zíper. Seu uso adoece os olhos, não sei se são as listras ou as cores, algo faz com que seu dono procure o oftalmologista e passe a adotar óculos de leitura.

O pijama corrompe a moda, estraga a aparência, prejudica a libido. Com ele, o homem aceita a velhice, entrega os pontos. Baixa a crista, o queixo e outras coisas mais. É uma castração moral, um canil de botões. Logo mais o sujeito estará assistindo novela.

Não, vocês só podem estar doentes se acreditam, de verdade, que esse cara vale a pena.

4 comentários:

Rick disse...

hihihihi, chorei.
Muito boa a crítica.

Camila de Paula disse...

HAHAHA por isso que eu gosto de você, Del, descarta toda essa modinha que os pseudointelectuais vivem adorando e obrigando os "inteligentes" a gostarem. Amei o texto!

Renata disse...

Tive que rir! haha
Eu nunca li nenhuma obra dele, apenas tweets e afins e, juro, nem imaginava que era assim. Muito obrigada, me poupou com certeza um tempinho na vida se um dia eu resolvesse tentar ler.
Adorei o sua crítica, muito bem construída.
Beijo!

lizce disse...

Não conhecia esse cara, mas a sua comparação com a Tati Bernardi me fez não querer conhecê-lo. Essas frases de efeito são uma boa jogada de alguns escritores, conquistam gente pra caramba e claro, muita grana, mas que é chatíssimo ter que ler várias por aí, isso é (esse foi um dos motivos que me fizeram excluir o Facebook), além disso é desanimador. Para cada momento da vida o povo tem uma citação de Clarice, Tati, Vinicius e companhia...

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