5 de janeiro de 2014

Crônicas de um bairro qualquer – Parte 3

Faz uma semana, ou mais, que um dos meus vizinhos – não sei qual – escuta Leandro & Leonardo em repeat. Antes fosse o repertório completo dos tomateiros, mas não. “Rumo a Goiânia” ecoa o refrão continuamente bairro afora. Heeeei, Goiââââniaaaaa... A vizinha às vezes acompanha formando um trio desafinado, um karaokê em plena luz do dia e sem o consentimento do restante dos moradores, que só queriam viver em paz. Só queríamos. Pensei em sair na rua para descobrir de qual casa vem o som, daí tocar a campainha e, sei lá, pedir uma outra música. “A senhora poderia tocar 'Não aprendi dizer adeus', por favor”? E com essa ideia em mente me vejo cantando Não tenho nada pra dizeeeer. Só o silêncio vai falar por miiiim. Eu sei guardar a minha dor, e apesar de tanto amor, vai ser melhor assiiiim o dia inteiro. Nada se resolve, claro. Fica “Rumo a Goiânia” tocando de um lado e eu cantando “Não aprendi dizer adeus” do outro.

Agora com as férias as crianças começaram a pipocar por aí nas ruas. Com elas, chegaram as pipas. É um tal de pedrinhas voando para arrancar aquelas que ficaram presas nos postes ou nos muros das casas. Janelas ainda não quebraram. Ainda. E com tanta gritaria, corre-corre e disputas acirradíssimas de quem empina mais alto, as minhas tardes de leitura na varanda foram por água abaixo. Por férias abaixo, melhor dizendo. Fato é que meu pai nessa época se transforma no velho rabugento que aterroriza a infância de qualquer inocente. Não sei o que falta para os estúdios Pixar descobrirem ele e se inspirarem. Ou melhor, levá-lo embora. Enfim, as pipas caem no nosso quintal e isso quer dizer que seus donos, os infantos, jamais a verão novamente. Vão todas para o lixo. E o prazer com que meu pai as amassa me faz entender porque fui uma criança desgraçada.

Minha mãe se revoltou contra as pulgas que nosso bairro gratuitamente oferece a todos os cachorros e comprou um veneno qualquer para exterminar o problema pela raiz. Quando vi que o Benjamin também sofria de tanta coçeira cheguei a apoiá-la. Só que nenhuma de nós pensou nos canos – estes, que receberiam veneno água abaixo após o banho dos animais e a lavagem (intensa, devo frisar) dos quintais. Existe todo um mundo subterrâneo o qual ignoramos, onde habitam insetos e crocodilos. Sabendo disso, fica fácil imaginar o resultado. Acuadas pelo cheiro do veneno, baratas – milhares delas – arrombaram as portas do inferno e entraram na nossa casa. Com boa vontade era possível ver Gregor Samsa de cartola e maleta na mão correndo entre elas. Se eu não estivesse ocupada gritando absurdamente e quebrando duas vassouras na tentativa de me defender teria acenado para ele. Se eu não estivesse a beira de uma síncope teria pensado duas vezes antes de armar um barraco extraordinário, que deve ter alertado os vizinhos de que sim, há um hospício funcionando na casa “dos alemães”.

7 comentários:

Renata disse...

Cara, aqui é esse mesmo problema quando jogamos veneno. O bom é que o veneno mata as baratas mais lerdas \o/ haha
consegue ler com fones? Seria útil. Acabaria com os gritos da criançada e com as músicas dos vizinhos enquanto você consegue colocar a leitura em dia (:
beijo
Reenoceronte

Douglas Gonçalves disse...

Hahahah, vizinhos que não tiram o CD da tia do repeat, seres hiperativos mirins (vulgo crianças) e baratas são as coisas mais detestáveis nessa época. Calma que não é você que não sabe lidar! x)

L.H.C disse...

Tinha um vizinho que ficava ouvindo ou reggae ou Padre Fabio de Melo o dia inteiro (também não entendo como alguém consegue ser tão eclético), mas agora ele está de férias e viajou, é um alívio. Minha no geral é muito sossegada, não tem muitos acontecimentos.

Douglas Rodrigues disse...

Adoro a organização e o design do seu Blog!!
Me inspira!

gotadenanquim.com/

Thay disse...

Não sei se é pra fazer trilha sonora para o texto, mas um vizinho aqui está todo trabalhado no sertanejo. Não consigo decifrar o que é, mas sei que não estou gostando. E acho bom ele parar com a festa que logo mais quero dormir, e com o sossego merecido! Incrível como vizinho tem time pra perturbar. ¬_¬

Thay disse...

@Thay

E esqueci de uma coisa: obrigada pelo link, Del! Baixei Black, mas só vou assistir no final de semana pra ficar bem sossegada! E vi o trailer do Ram-Leela que você falou no Twitter e - OH MY!! OOO:

Pâm Teles disse...

Que encantador *-*
Sofro do mesmo problema sonoro, só que no caso toca funk e com as piores letras. E as pipas também estão por aqui e sempre tem as gritarias com esse tal de "manda busca", "relô!" kkk.

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