27 de novembro de 2013

Nem um pouco determinante

Peremptório. Escovei os dentes, vesti meu pijama, tirei minhas meias (invejo quem consegue ficar com elas) e me deitei para ir dormir após mais um dia, menos um dia. Fechei os olhos, comecei a fazer meu exercício de respiração com os fones de ouvido tocando músicas relaxantes e de repente: Peremptório. A palavra surgiu do nada, vinda do mesmo lugar das ideias sensacionais que me colocam na merda - um espaço vazio, frio, onde o vento assovia e os pássaros caem mortos.

O que eu fiz? Levantei, atravessei o corredor escuro (com o cu na mão) e me atrevi a ligar o computador dos meus pais. Acessei o Google e logo depois o dicionário online. Foi nessa hora que me lembrei da Barsa e dos idos anos quando eu fazia pesquisas para trabalhos escolares usando a coleção caríssima desses livros pré-históricos. Até hoje o dia que escrevi mais de sete folhas de papel almaço sobre Tiradentes está fresco na memória. Se hoje me perguntarem, não sei mais porra nenhuma dele, mas a dor da tendinite continua impulsionando alguns nervos. Portanto, googlear ao invés de descer as escadas, entrar no escritório sombrio de papai e me ver as voltas com um livro de setenta quilos é um grande passo para a humanidade.

Em uma aba, o dicionário online ficou aberto com seu campo de pesquisa piscando para mim (isso ficou pornô). Pensei: não, espera, vou ver nos trend topics do Twitter se alguém morreu. Fiz o login. Apoiei o cotovelo na mesa, o queixo na mão. Não sei vocês, mas mesmo quando estou sozinha na sala tenho a impressão de que alguém está de butuca no que faço pela internet. Conseguem sentir o bafo de dragão no cangote reprovando os sites que vocês visitam? Olhei para trás. A casa no escuro, todos dormindo, o Benjamin roncando tão alto que era possível ouvir da rua.

Uma hora perfeita, per fei ta, para escrever. Apesar de ter inventado mais um projeto de livro novo, o tempo não dá conta. Ele não está disponível para mim. Meu pai está 97% recuperado da cirurgia. Só que ainda não sabe disso. Ou finge não se dar conta. O negócio é que tá bom ser servido na boca. Inventaram de espalhar (ainda mais) que faço feltragem, então as encomendas natalinas já estão escapando pelas narinas. Durante o dia: nada de exercitar a escritora sedentária que me habita. Durante a noite: sono, muito sono, que no fundo sinto o dia inteiro, mas tenho que segurar. "Já que estou sentada aqui, por que não"?

Abri o arquivo "Borboletas, borboletas, borboletas" e comecei - a fechar os olhos. Não, força! Entrei no buraco negro, Google, para fazer uma pesquisa (antes de escrever merda) e me perdi no labirinto da fascinante vida das borboletas. Só eu mesmo. Às três da madrugada achando muito legal o macho depositar o sêmen no abdômen da fêmea. Veja você. E com isso, toda a inspiração foi para o saco. Simplesmente me esqueci do que ia escrever no capítulo. E, de novo, veio a imagem de uma Del com seus oito anos de idade folheando a Barsa, que tinha cheiro de cemitério já naquela época. A vontade de descer as escadas e dar uma conferida pessoalmente, deixando a nostalgia de lado, foi menor do que o medo de ser raptada por um ET escondido atrás do sofá.

Desliguei o computador, pois minhas costas datadas de 1600 reclamavam de dor. Peguei o Tony, que chamo de "pantufa" porque vai aonde vou, e voltei para o meu quarto (sem ocorrência de espíritos, bichos sobrenaturais ou qualquer coisa que escape da madrugada). Deitei, satisfeita por estar ativa em plena noite, e fechei os olhos. Agora, com mais sono e incrivelmente mais relaxada. Acomodei meu bom e velho esqueleto entre os lençóis, suspirei porque sou uma pessoa de bem e ansiei pelos bons sonhos. Foi então que aconteceu, a palavra, como um trovão me atingindo bem no meio da testa:

Peremptório.

22 de novembro de 2013

Se não for pedir muito

Quando as pessoas me perguntam "qual é seu maior defeito?", eu não sei o que responder. Primeiro porque acredito que não há escala; seus erros não estão organizados por hierarquias, são ruins igualmente e te atrapalham na mesma proporção. Ou seja, não tenho um defeito pior ou maior - todos fazem de mim uma pessoa imperfeita. Classificá-los seria merecê-los. Segundo, não sei porque alguém perderia seu tempo enumerando defeitos ao invés de simplesmente tentar consertá-los. Então, é isso. Não me faça perguntas idiotas.

Mas existe a repetição. Eu adoro voltar a falar sobre um assunto o qual já esgotei, ou que os outros não estão interessados em ampliar impossivelmente mais. Sempre tem um capítulo que, eu acho, foi ignorado. Por exemplo, o meu notebook que ainda está na assistência técnica. Sabe, não há muito pano para a manga, mas eu preciso salientar: que inferno tem sido minha vida! A quem interessar possa, até meditação comecei a fazer. Estou aprofundada num caminho sem volta, que é o Budismo, na tentativa de me desintoxicar desse vício, dessa necessidade aparentemente corporal de ter comigo um aparelho sem vida inteligente, que com certeza não está chorando no escuro da sala de consertos (apesar de eu acreditar que o pobrezinho está). Por outro lado, tudo não passa de uma única verdade: nas horas de ócio, não tenho nada para fazer.

Até mesmo minha discreta biblioteca está abandonada, pois ao pegar um livro para ler lembro imediatamente dos meus mais de 300 ebooks conquistados com muito suor e afinco. O consumo de chocolates aumentou. Sou uma criatura contaminada, confesso, pela modernidade. É ridículo - agora posso ver isso - sua vida depender de um HD. Por que guardar todas as coisas mais importantes em um único lugar? E por que se livrar de todos os bens materiais concretos? Por que não álbuns de fotografias? Por que não CDs? Por que não DVDs? Por que não impressos? Por que não? Porque custa caro, a gente responde sem pensar muito a respeito. Cara, o valor do conserto do meu notebook é o triplo do que eu gastaria montando a desgraça de um álbum de família e tudo o que, talvez, perderei jamais poderá ser calculado.

A vida não está mais saudável. Não me sinto livre. Não ter meu computador pessoal não significa que estou caçando borboletas ao ar livre ou desenhando perfis de passarinhos sentada no meu jardim com uma xícara de chá ao lado. Olha, nem perto disso. A merda da natureza não é nada comparada com o Google Earth. Pois é, o Budismo não está, afinal de contas, fazendo efeito sobre mim. Só me dê mais uma semana, por favor. Eu poderia estar prometendo uma cura milagrosa e a postagem de fotos minhas em trajes alaranjados com a cabeça raspada, porém, vou me ater a garantir uma sobrevivência limitada durante esses próximos dias nebulosos que vem por aí. Também poderia adotar a prática de minimizar meus defeitos e vícios, todavia, não estou nem um pouco interessada em me tornar um espírito evoluído, tão pouco acordar às seis da manhã, cruzar as pernas em Lótus e fixar meu olhar numa parede vazia. Se não for pedir muito, quero a merda do meu computador para continuar sendo uma burguesa superficial.

19 de novembro de 2013

Você tem uma nova mensagem

Oi, tudo bom? Lembra de mim? Sou eu, a sua inspiração. Não, não. Essa nuvem negra e tempestuosa é sua consciência! Eu sou aquela neblina densa, que volte e meia garoava sobre seu coração. É compreensível que você tenha se esquecido, afinal, não nos encontramos há meses. E se por um lado você estava ocupada com os afazeres fisicamente extenuantes, por outro lado eu continuei aqui, invisível, mas presente. Tentei entrar em contato uma vez. Você deve se lembrar do dia que começou a escrever e foi interrompida por um chamado desnecessário. Afinal de contas, concluímos após um tempo, não tem havido muita utilidade para nós duas ultimamente.

15 de novembro de 2013

3 Idiots (2009)


Então, vamos começar este texto assim: se um filme norte americano tivesse na capa três babacas sentados em cadeiras com formato de nádegas e o nome fosse “3 Idiots”, cara, eu nem me daria ao trabalho. Passaria os olhos rapidamente achando se tratar de algum remake frustrado de “American Pie” (e tão detestável quanto). Mas o filme é de Bollywood, e não Hollywood, o que nos indica duas diferenças importantíssimas para minha resolução: 1) Americanos estão acostumados a serem idiotas porque, provavelmente, nascem assim. Indianos, não. Indianos dominarão o mundo. 2) Eu nunca digo “não” para Bollywood. Sim, isso vale para filmes sobre vampiros apaixonados também.
Most of us went to college just for a degree. No degree meant no plum job, no pretty wife, no credit card, no social status. But none of this mattered to him, he was in college for the joy of learning, he never cared if he was first or last.
Farhan e Raju acabaram de entrar para a melhor faculdade de engenharia e ainda não sabem que irão conhecer um grande cara. Um dos melhores personagens que já vi no cinema, com diálogos incríveis, que fará de tudo para salvar seus amigos das mais complicadas situações, é apaixonado por máquinas, sonhador e o único gênio que fará Viru Sahastrabudhhe morder a língua: Rancho.


Quando notei que o filme tinha duas horas e quarenta e quatro minutos, humpf, sério mesmo?! O que vão fazer com todo esse tempo? Quantos números musicais serão necessários para justificar esse orçamento, meu Deus? Acontece que não passaram de duas cenas e, olha, para Bollywood isso é um marco. O diretor deve ter se segurado forte na cadeira para não ter produzido mais uns quinze, pelo menos. E se ele fez isso, foi por ter uma carta na manga. “3 Idiots” não é sobre três amigos enlatados que passam duas horas e tanto fazendo palhaçadas sem o menor pretexto – como eu havia pensado. É sobre três amigos que tem uma ótima história para contar.

Bom, tudo começa do final: dez anos após a formatura na universidade, Farhan e Raju recebem uma ligação de Chatur, que traz uma enorme surpresa: ele encontrou Rancho, desaparecido desde então. O que os dois melhores amigos desse revolucionário fazem? Fácil, oras: um finge sofrer um ataque cardíaco em pleno voo para que o avião retorne ao aeroporto e o outro sai correndo de casa. Sem calças. Chatur marca o encontro em um lugar especial, onde há tantos anos atrás ele prometeu se vingar de Rancho, se tornando um homem bem sucedido. A partir daí, refrescando a memória dos dois melhores amigos de seu único e maior inimigo, Chatur nos leva para o passado.

É o tipo de oportunidade que Rajkumar Hirani, o diretor, não deixou passar! Ele não deixou nenhuma brecha para que eu pudesse fazer meu comentário favorito: “se eu fosse ele, teria feito assim”, ou “putz, ele perdeu a chance de fazer tal coisa com essa cena”. Não. Hirani calou minha boca e mostrou como se faz um filme sobre três amigos sem muita coisa na cabeça, mas de coração cheio. Tem liçaozinha de moral, tem suicídio, tem filosofia de vida, tem sim uma trégua para o humor e bastante tapas na cara.

Infelizmente, qualquer coisa que eu vá comentar poderá estragar as surpresas, que não param de chegar a cada minuto. Farhan e Raju não passaram por grandes aventuras enquanto procuravam por Rancho, pois na faculdade aprontaram o suficiente pelos próximos dez anos. Só posso indicar o filme de todo o coração, mesmo para você aí, que não curte Bollywood e acha que em todo filme terá um bigodudo saltando de algum carro em chamas (eu também pensava assim). Rancho, meu Deus, é de longe um dos personagens mais fantásticos do cinema! Eu sei que já disse isso, mas estou realmente impressionada com o trabalho dele. Além de todas suas respostas petulantes o seu mantra, sem sombra de dúvida, entrou para a minha lista:

12 de novembro de 2013

A zueira, ela não tem fim

Querem ouvir uma coisa engraçada? Meu notebook entrou em coma. Como tudo na vida foi assim, do dia para a noite. Eu estava lá, conectada, e de repente, no dia seguinte, não estava mais - o bicho parou de funcionar. Levei para a assistência técnica e com muita angústia deixei para trás o mais importante pedaço de mim. Ele permanecerá na UTI por mais de sete dias. O preço, minha úlcera me impede de divulgar. Estou tentando me convencer de que será barato se comparado com o prazer e satisfação que sentirei ao tê-lo de volta com todos meus arquivos (isso, se o HD não ter resolvido morrer bem a essa altura do campeonato porque, sim, há chances, por que não?).

Enquanto isso, estou aqui no computador usado pelos meus pais, cujo teclado é duro e minha única fonte de inspiração são as músicas do Roupa Nova e o passatempo é composto por arquivos da Receita Federal e Sabesp. No mais, fora a crise iminente de abstinência, e o fantasma do HD perdido para todo o sempre, estou me sentindo equilibrada com a ajuda de mantras budistas, um saco de boxe e remédios mais fortes. A quem interessar possa, as facas da casa já foram guardadas longe do meu alcance. Mas não se preocupem, os textos do Bonjour Circus - caso o pior aconteça - estão a salvo. Porque, meus amigos, eu posso ser idiota, mas até mesmo isso tem limites.


Eu poderia gastar mais, deixe-me ver, uns cinquenta parágrafos descrevendo o meu mais completo desespero diante da situação atual. Só que chega, né? Acho que todo mundo pegou a essência de ser Del Lang. Vocês captaram a mensagem. Portanto, mudando totalmente de assunto, eu gostaria de ressaltar a marca de 100.000 visitas do blog. Sim, veja você, nós conseguimos! Em três anos o Bonjour Circus recebeu mais visitas do que a minha própria casa. Mais visitas, aliás, do que eu fiz ao meu bom senso durante esse tempo, para ser sincera. E o que eu tenho a dizer? Obrigada! No meio de tanto azar e topadas sangrentas em calçadas quebradas, vocês são minha ponte para um lugar melhor.

7 de novembro de 2013

100 perguntas que você não fez - Parte II

Resolvi publicar a segunda parte. Veja você a que ponto chegamos. (Parte I)

51. A última vez que você teve um retrato tirado por um fotógrafo?
Nossa, acho que foi no período Paleolítico quando fiz a campanha para o Danoninho. E ainda assim porque meu pai me pegou de surpresa, senão eu teria corrido para longe, só parando no México.

52. Você acha que os musicais são legais?
Bollywood mata a pau.


53. Natal é estressante?
As pessoas são estressantes. O ano inteiro.

54. Nunca comeu um Pierogi?
Saúde.

55. Tipo favorito de torta?
Só existe um tipo bem sucedido de torta: maçã. As outras são tentativas frustradas.

56. O que você queria ser quando era criança?
Professora. Eu sentava meus bichinhos de pelúcia na frente de uma lousa de brinquedo, passava exercícios e provas. Sim, já tinha vocação para ser chata.

57. Você acredita em fantasmas?
Respondi essa pergunta tantas vezes, que estou pensando em fazer uma palestra. Vão ler Allan Kardec e me deixem em paz.

58. Já teve um sentimento de Deja-vu?
Sempre. Toda vez tento descobrir qual falha consertaram na Matrix.


59. Toma uma vitamina diária?
No cu. Todo dia. Depois passo a receita.

60. Usa chinelos?
Uso os pés também.

61. Usa um roupão de banho?
Começou a baitolagem...

62. O que você usa para a cama?
Colchão.

63. Primeiro show?
The Rasmus, 2006, Via Funchal, maior que a vida.


64. Wal-Mart, Target e Kmart?
Tai chi chuan.

65. Nike ou Adidas?
ABAIXO O CAPITALISMO!1

66. Cheetos ou Fritos?
...

67. Os amendoins ou sementes de girassol?
Não sou pinto para comer grão.

68. Já ouviu falar do grupo de Tres Bien?
Não. Também não sei nada sobre o Gato de Schrödinger, então... Tudo bem!

69. Já teve aulas de dança?
Não, tenho vergonha na cara.

70. Existe uma profissão que você imagine fazer no seu futuro?
Vendedora da Top Therm.

71. Você consegue enrolar sua língua?
Dependendo da pessoa, consigo qualquer coisa.

72. Já ganhou um concurso de soletração?
Olha, muito difícil responder esse meme...

73. Você já chorou porque estava feliz?
Sim. Quem nunca chorou de felicidade é porque ainda não nasceu. E só não vai atrás do trio elétrico quem já morreeeeu!


74. Possui algum disco de vinil?
Bem que eu gostaria, a título de decoração.

75. E uma vitrola?
Idem. Pensa, que louco!

76. Você utiliza incenso regularmente?
Gosto de incensos leves, mas como tenho rinite, fica mei' impossível.

77. Já se apaixonou?
Não, meu coração afundou um navio em 1912 e matou o Leonardo DiCaprio em 1997.

78. Quem você gostaria de ver em um show?
Sidney Magal feat. Ney Matogrosso.

79. Qual foi o último show que você viu?
O Teatro Mágico.

80. Chá quente ou chá frio?
Tanto faz.

81. Chá ou café?
Chá.

82. Açúcar ou adoçante?
Açúcar. A vida é uma só.

83. Você sabe nadar bem?
Opa! Igual uma pedra.

84. Você consegue prender a respiração sem segurar o nariz?
Eu não respiro pelo nariz porque tenho desvio do septo nasal. Não faça piada com isso. Eu processo você e tiro até seu sobrenome.

85. Você é paciente?
Sim. Vivo indo ao hospital por causa de dores estomacais, crises asmáticas e de pânico, dores nas costas, rinite, cólica...


86. DJ ou banda, em um casamento?
Nenhum dos dois. Casamento, para mim, significa ir ao cartório, assinar um documento, almoçar com os mais próximos e depois cada um seguir com sua vida.

87. Já ganhou um concurso?
Ganhei, na Capricho. O álbum do MTV Acústico Capital Inicial. Trágico.

88. Já fez alguma cirurgia plástica?
Pela cara dá para ver que não.

89. Quais são as melhores azeitonas, pretas ou verdes?
Who has any strong opinion on azeitonas?!

90. Você faz tricô ou crochê?
Crochê. Sou uma negação, mas me esforço.

91. O melhor lugar para uma lareira?
Nos Alpes Suíços.

92. Você já viajou pra fora do seu país?
Sim, e voltei porque sou burra.

93. Que lugares pretende conhecer?
Alguns. Não terei tempo nem verba para nenhum.

94. Qual era a sua matéria preferida no Ensino Médio?
Não tinha professor para passar matéria.


95. Você esperneia até conseguir as coisas do seu jeito?
É bem capaz de eu ter voltado aos cinco anos depois de responder esse meme.

96. Você tem filhos?
Crianças me dão medo.

97. Você quer ter filhos?
Corinne Maier daria uma resposta que deixaria você chupando o dedo em posição fetal.

98. Qual é sua cor favorita?
São cores demais para ter apenas uma favorita.

99. Você sente falta de alguma coisa da sua infância?
100. Se você encontrasse o gênio da lâmpada, qual seria o seu pedido?
Mais um bilhão de pedidos.

1 de novembro de 2013

Meu Coração de Pedra-Pomes (Juliana Frank)


Lawanda. Eu daria esse nome à minha filha se a protagonista não fosse uma porra louca com pensamentos duvidosos e imaginação sem limites. Ela trabalha como faxineira no hospital, mas também ganha um dinheiro extra dançando com pacientes, os levando para shows do Cauby ou arranjando companhias noturnas para moças carentes. Foi numa dessas que conseguiu o dinheiro para comprar um frigobar. Aos dezenove anos Lawanda faz macumba, tem um frigobar vintage vermelho e costura borboletas em suas calcinhas.

— Bom, eu te amo. E o amor é importante.
— Não, José Júnior. Importante é saneamento básico.

Gosto de livros cujo personagem central não bate bem das ideias. Eu adoraria ser capaz de escrever uma narração assim como Juliana Frank. Ela é tão autêntica, que em alguns trechos fica difícil separá-la de Lawanda. Confesso que escolhi “Meu Coração de Pedra-Pomes” mais por curiosidade do que por vontade. Apostava em um livro lírico, metafórico, açucarado. Essa mania de não ler sinopses (estou começando achar que é sabotagem) não me levará muito além. Com uma liberdade bruta, Lawanda não poupa o leitor de seu vocabulário sujo e suas expressões ao mesmo tempo engraçadas e pesadas. No entanto, suas ideias e comparações são tão geniais quanto. Sua carta a respeito de um esfregão velho foi, para mim, o ponto alta do enredo.

Minha voz é a reprodução sonora dos peidos de Lúcifer.

Coleciondora de besouros (seus únicos amigos) e aquela que coloca as lágrimas de volta para dentro dos olhos quando chora, Lawanda é uma das personagens mais bizarras que já li. Ela entra dentro do leitor sem pedir licença, causando uma sensação desconfortável e ao mesmo tempo certa ternura – mais ou menos o comportamento que temos quando nos aproximamos de um real ser humano com problemas mentais. Portanto, longe, muito longe de ser um livro de metáforas duvidosas para descrever a vida, “Meu Coração de Pedra-Pomes” nos apresenta a forma crua de ser quem se é.

Ao contrário do que as pessoas pensam, loucos não são aqueles que saem gritando “Estou vivo” e esfregando o pau perdigueiro em cachorros.