27 de setembro de 2013

Carta aberta aos quinze anos

Quando mais nova, ouvi muito dizerem para mim: “errar é humano”. No fim das contas, ser jovem é estar sempre certo. Existe um culto contemporâneo que segue a juventude religiosamente - lhe dá oferendas, faz sacrifícios, tenta mantê-la o mais próximo possível. Ninguém quer envelhecer. É cada vez mais frequente mães serem comparadas as filhas e senhoras se deitarem em uma maca hospitalar para reconquistarem uma beleza que não é mais um direito. Os adultos não querem crescer, querem mesmo mas é usar jeans apertados e voltar para casa de madrugada caindo de bêbados. Para eles, a única chance de acertarem o alvo é viverem o que não lhe competem.

Por essas e outras passamos a mão na cabeça dos adolescentes que erram porque, afinal de contas, eles tem o que mais nos foi valioso e que o tempo levou. “É só uma fase, depois toma jeito”. Depois envelhece, perde o viço, emprega responsabilidades e fica meio assim, gente grande. Daí não nos interessa mais se é fase, momento ou deslize. Deixou de ser jovem, deixou de merecer a inveja branca. O que mais gostamos de fazer é relembrar o “nosso” tempo. Sim, nosso porque quando jovens somos os donos da situação. Tudo é feito para o nosso futuro, nossa comodidade, tudo é realizado a duras penas para um amanhã que a ninguém pertence. De repente, de nosso o tempo passa a ser dos outros, que não sabem como lidar com ele. Por isso, “no nosso tempo” era melhor, mais bonito, mais justo. Sabíamos como fazer, pois acreditávamos ser ainda jovens e muito melhores do que aqueles que o são agora.

Eu sei que a mídia, os veículos de comunicação em geral, querem ocupá-los com novelas, maquiagens, artistas pops e videogames. Sempre houve demasiada distração para a juventude, que de tanto ouvir acabou acreditando que errar é humano e que “isso não é assunto de criança”. Mas acreditem em mim, que há pouco tempo atrás vivi os meus quinze anos: nada do que dizem é totalmente verdade, e sim uma tentativa de manter os dois mundos separados. Se não sou mais digno da juventude que você tem, então lhe privo da melhor parte da brincadeira.

Não errei na minha adolescência. Essa palavra, errar, é grave demais para as atitudes ao alcance de vocês, crianças. Não acreditem nisso. Não existe nada que não possa ser consertado com um sermão ordinário ou um pedido de desculpas. O máximo que vocês podem cometer é um engano. Portanto, livrem-se de uma culpa que não é de sua conta. O mundo é mais velho do que isso. Não se esqueçam de que o certo e o errado são mutáveis e que a história tem inúmeras versões - e todas estão corretas. O ponto de vista alheio é que faz nascer as guerras.

Não se esqueçam de alimentar o espírito. Sei que é difícil de acreditar, mas há uma autonomia em vocês. Nada os impede de conhecer a boa e velha arte, seja lendo, ouvindo ou assistindo. Apesar de martelarem em suas cabeças diariamente o contrário, vocês tem sim muita inteligência e capacidade para compreenderem as mais complexas questões e argumentarem nas mais assíduas discussões. O que mais me dói (e repito que já tive essa idade) é ver um adolescente subestimado. Experimentem, que este é o único jeito de descobrir. Questionem a si mesmos para encontrarem seus certos e errados íntimos. Divirtam-se a sua maneira, entretanto, não permitam que a televisão diga o que é o mais adequado para seus gostos. Grupos e amigos são importantes, mas não insubstituíveis. A única verdade que deve prevalecer é a sua. Respeite-se antes de se calar diante de alguém. Dedique-se a cada minuto que antecede uma vida adulta para vivê-la plenamente, pois foi um jovem livre e pensante.

Esta é uma carta que eu adoraria ter recebido nos meus temerosos e limitados quinze anos. Espero que dessa vez chegue a tempo aos seus destinatários.

23 de setembro de 2013

Prinsessa (2010)


Eu adoraria conhecer mais sobre o cinema finlandês, mas é difícil encontrar filmes disponíveis por aí. Por isso, a lista de títulos que assisti é bem pequena. Não que sejam os melhores filmes do mundo, mas o pessoal se esforça. Todavia, não foi por gostar do trabalho finlandês que me dignei a procurar “Prinsessa” e uma legenda em inglês por toda a internet. Não, eu queria assistir esse filme just because Paula Vesala interpretava uma enfermeira. Não sabe quem é? Bom, ela canta numa dupla muito famosa na Finlândia chamada PMMP. São ruins pra caraaaalho! Ela tem bastante influência por lá, mas o que chama a atenção mesmo é seu namorado. Vocês já devem ter ouvido falar dele, ainda mais aqui no Bonjour Circus.

Lauri Ylönen, o magnânimo.

Oh, mas que coincidência, não é mesmo? Eu correr atrás de um filme feito uma condenada só porque a namorada do vocalista da melhor banda de toda a vida faz uma participação (questionável). 'Magina né, que eu ia baixar um puta arquivo e ter todo o trabalho de procurar legendas em inglês por causa de motivos assim, tão frívolos. Tá, eu não engano ninguém. A verdade é que eu não perco a chance de criticá-la e estava louca para dizer: “que atuação de merda, menina”. Só que ela aparece pouquíssimas vezes e o filme, meus queridos, é sensacional!

Um drama biográfico, “Prinsessa” retrata a vida de Anna Lappalainen. Dançarina de cabaré, ela acreditava ser um membro da família real inglesa, uma legítima princesa. Preocupados com suas alucinações, a equipe do hospital psiquiátrico onde ela foi internada resolve utilizar novas técnicas de tratamento em busca da cura – a Lobotomia adentrava as fronteiras da Finlândia e causava desacordos entre os especialistas. Enquanto os médicos discutiam os novos recursos, Anna conquistava aos poucos os pacientes e enfermeiros. Alguns entravam em suas alucinações, a tratando como realeza, outros caçoavam achando que estes precisariam logo de um tratamento de choque.


Mas o enredo não se resume à ela, e sim a vida em geral do hospício e seus momentos particulares que abrangeram outras pessoas. Mostra-se a vida do diretor e suas ideias novas que batem de frente com críticas e conservadorismos, outra interna que acaba por fazer amizade com Anna e se torna sua “dama de companhia”, assim como o paciente mais velho do local que passou pelo processo de lobotomia. Acompanha-se a rotina, os trabalhos no jardim feitos pelos doentes, suas refeições, instalações, e o elenco representou de forma excelente os medos de quem mora do lado de lá do alto muro branco.

Vocês sabem, é difícil escrever sobre algo que gostamos muito. É o caso desse filme para mim. “Prinsessa” é doce, ilustra a loucura com um toque sensível de realidade. Anna Lappalainen, ousada e ingênua, trouxe médicos para mais perto de seu mundo. Viajou com sua dama de companhia, distribuiu folhetos bancários para os pobres acreditando ser cheques com altas somas, teceu os presentes mais lindos e significativos para aqueles que precisavam abrir os olhos para uma vida alternativa. Não à toa, virou livro, filme e ganhou um memorial na clínica em que ficou internada a maior parte do tempo e onde deixou boas lembranças. É uma pena não ter aqui no Brasil mais informações – só encontrei sites em finlandês. No mais, recomendo para quem está precisando de histórias bonitas, um filme perfeitamente ambientado e cenas inesquecíveis.

19 de setembro de 2013

Uma comadre, por favor

Estou cansada. E quando estamos cansados é como se o mundo ganhasse tonalidades sóbrias e mais fortes. Falando em tonalidade, não compreendo essa gente que arruma a vida de acordo com paletas da Pantone. Vocês tem objetivos? Comem, dormem, vão ao banheiro, precisam pagar contas? Essa é uma questão que está na minha lista de temas para o Globo Repórter (sério). Qualquer dia desses eu mando porque, veja você, ao invés de organizar minhas calcinhas em degradê enviarei pautas originais a um programa de televisão que passa na sexta-feira à noite – momento em que a civilização socializa enquanto curto um documentário sobre o acasalamento de girafas ou cenas tensas de correspondentes internacionais desmaiando nas montanhas do Tibete. Mas tudo isso fica para depois. Estou cansada. Meu cabelo, oleoso. Meus pés, inchados.

Meu pai retornou ao hospital após uma pequena e equivocada alta. Sabe como é: os residentes não encontraram mais o problema que antes havia derrubado um homem tão forte quanto papai e, poxa vida, milagre né fía! Mandaram o pobre coitado de volta para casa sem averiguar o cmoaçim um puta problema desse se dissolve da noite pro dia meu deus. Ah, vamos simplificar, dar o resumo da ópera, receber nosso ordenado e pronto. Se morrer, morreu. Se não morrer, não morreu. O importante (daí o médico coloca a mão no nosso ombro porque é nosso amigo, viu?) é o meu pai estar bem, em pé, comendo direitinho. Trocando em miúdos: “estou com preguiça de fazer meu trabalho, seu pai é só mais um para mim. SOU RYCO.”

¯\_(ツ)_/¯

Bom, a rotina hospitalar voltou. Não aconselho para ninguém. A comida tem gosto de pé, e mesmo assim meu pai é obrigado a engolir. Tentei traficar uma fruta, mas fiquei com medo na hora H – comi no caminho de casa para o hospital. Entendo que é para o bem dele, que a dieta é necessária. Não sou criança. O problema é a nutricionista ser desatenta e receitar massinha de modelar para o almoço. Pelo menos no refeitório tratam os acompanhantes como pessoas de paladar. Continuo servindo demais, caso alguém esteja interessado.

É isso, minha gente. Eu não tenho vida. Passo as horas como dá sentada num sofá de couro, daqueles que peidam quando nos mexemos, e vou levando com a barriga. Chego em casa e durmo. Os vizinhos devem achar que consegui emprego numa buátchi, só pode. Seria mais divertido, devo admitir. Eu adoraria sentar e escrever algo decente para o blog. Só que como? Quando? Aonde? Outro dia, por exemplo, enquanto eu digitava um rascunho no meu celular, entrou uma dupla de palhaços no quarto.

Pare e calcule quantos pontos de exclamação são necessários para enfatizar a última frase.

De repente me vi confusa com piadas sem graça, meu pai sendo chamado de ervilha (um trocadilho com o nome dele e, confesso, a palhaça foi muito corajosa) e, caralho, eis que contam a eles qual é meu nome completo – uma informação tão preciosa desperdiçada assim, por um deslize diante de palhaços. Quando acho que já passei por todo constrangimento possível, dão a descarga. Foi a gota d'água. Saí do hospital dando uma desculpa qualquer e vim para casa. Liguei o computador disposta a escrever qualquer coisa, mesmo que sem sentido, só para esvaziar a cabeça. Olha, vou te contar: é muito entulho para minha caçamba.

16 de setembro de 2013

Dez coisas que me fazem feliz

Encontrei esse meme no blog Boneca de Neve e na verdade ele faz parte de um prêmio que rolou entre blogs amigos - o Liebster. O título original é “Onze coisas que me fazem terrivelmente feliz” só que eu acho isso impossível para o meu pragmatismo funcional, então simplifiquei a ideia. Espero que quem tenha participado por indicação não fique chateado com a ovelha negra aqui, mas é que eu achei a proposta bacana. Não vou indicar alguém e blá blá blá...


#01 A solidão
Refiro a opcional, quando a pessoa quer ficar sozinha e se afastar das pessoas. Talvez eu goste até demais e me afaste por períodos muito longos dos amigos e familiares, mas eu me sinto satisfeita comigo mesma. Gosto de ler o que quero, assistir o que tenho vontade, fazer o que der na telha sem precisar prestar contas, compartilhar ou abrir mão para satisfazer o outro. Eu gosto de decorar os cantos do meu jeito sem ter de abrir espaços para objetos e temas diferentes dos meus. Prezo pelo meu tempo comigo mesma, ficando extremamente cansada física e mentalmente quando sou obrigada a socializar por mais de duas horas. Pode me chamar de individualista, preguiçosa ou o que quiser.

#02 Finalizar um texto
Eu tenho uma dificuldade desgraçada em finalizar textos. Vocês não imaginam! Arranjar um final, por vezes, é impossível. Estou descontente com a maioria deles. Acho que sou muito ansiosa, por isso não tenho paciência para pensar num desfecho digno. Terminar uma história, texto para o blog ou qualquer coisa do gênero é um alívio.

#03 Fins de semana
Meu namorado fica comigo e com o Benjamin só nos fins de semana. Esses dois dias servem para aproveitarmos o que não temos tempo para fazer durante a semana. Normalmente, não é nada de especial. Somos um casal pouco exigente. Assistimos televisão, e a nova moda é falar mal das modelos do reality show Top Model (que acabou e nos deixou órfãs); o canal aberto às vezes proporciona uma trivialidade sem preço. Pedimos pizza ou comida chinesa. Brincamos com o Benjamin, que se sente o centro do mundo nessas horas e ficamos, simplesmente, juntos. É gostoso poder curtir o nosso relacionamento, que continua como se fosse o primeiro ano.

#04 Ter saúde
Depois de passar por tantas coisas, tantos problemas e desconfortos, hoje dou um enorme valor à minha saúde. Não é conversa fiada o que dizem os mais velhos sobre esse bem maior: ter a saúde em dia é, de fato, um presente. Confesso que tenho de aprender ainda a cuidar melhor de mim; por exemplo, há anos não faço um check up. O Transtorno de Ansiedade me mostrou que o corpo humano não tem limites de ambos os lados: ele tanto pode ascender quanto pode ser derrubado e só levantar com muita dificuldade.


#05 Waldorf
Rudolf Steiner nasceu em 1861 unicamente para me fazer feliz. Amo seus livros, sua antroposofia, sua arte e tudo o que ele deixou na Terra. Foi através dele e graças a ele que conheci a feltragem, as lindas pinturas em aquarela e o seu método de educação e modo de viver. Eu me sinto completa, algo que poucas coisas conseguem fazer, quando leio algo que ele escreveu ou enquanto me aventuro nas minhas feltragens. Desde 2009, quando morei no distrito praticamente erguido pelas mãos dele, Steiner tem se tornado um herói do meu dia a dia.

#06 Encontrar o inencontrável
Sei lá, inventei o termo. A questão é: eu tenho essa mania de querer as coisas mais perdidas no mundo. Eu quero justo o produto que se esgotou na loja, o lote que não fabricam mais, a edição que não vendeu nem mil cópias e empoeirou em um sebo escondido nas sombras de algum beco da cidade. É um dom, devo dizer. Não adianta tentar me convencer do contrário, só descanso quando encontro o que quero! Felizmente, em 99% dos casos eu encontro, o que evita uma enorme frustração e finda uma busca cansativa. Mas não paro de caçar tesouros. Quanto mais difícil de ter, mais eu quero. Talvez, quem sabe, eu tenha jeito para me tornar uma colecionadora.

#07 Estranhos sorrindo
Encontrar no meio dos pedestres alguém que esteja sorrindo sozinho ou comemorando, mesmo timidamente, é muito raro. Eu gosto porque é a prova de que ainda existe vida no planeta. As pessoas ainda tem consciência de si mesmas, e mesmo que precariamente, continuam correndo atrás dos seus sonhos. Às vezes a gente se lembra de que existem coisas mais importantes do que a rotina.

#08 Guloseimas
Eu sou uma formiga. Volte e meia lamento um desejo de comer tortas de morango, chocolate branco, bolos ou fast-food. Sou magra de ruim, e com essa já são duas expressões clichês em um único parágrafo. Quer me ver feliz? Compre uma torta de maçã do Mc Donald's. Faça um mousse branco com calda de chocolate. Também serve me passar receitas gringas de doces. Outro dia sonhei que fazia panquecas recheadas com morango. Vivo numa eterna gravidez com as vontades loucas chegando à tona em plena meia-noite.

O melhor meme da vida.

#09 Cachorros
Nada contra os gatos. Até tentei um, dois ou três; não me lembro. Eles fugiram, não voltaram mais. Gatos não servem para mim, só sei cuidar de cachorros. Ao contrário do que alguns dizem, não são animais carentes e dependentes. Pelo contrário, é complicado domesticar um vira-lata que foi tirado das ruas, ele está tão acostumado a se virar sozinho, que não gosta da ideia de usar coleira, tomar banho e seguir regras. Aqueles que vivem em casa, tomo como exemplo o Benjamin, também tem suas horas de solidão opcional e adoram descobrir coisas novas por si mesmos. Cachorros são inteligentes e surpreendem todos os dias.

#10 Homens de uniforme
Pode ser o cerumano mais feio, com a cara amassada de quem caiu do céu com a fuça no asfalto, ter o corpo no formato de “sobrevivi a um ataque de Sucuri” ou qualquer obra abstrata do tipo - se estiver de uniforme eu não me deixarei abater. Ficarei feliz, derretida e satisfeita. Eu não sei explicar o fenômeno, só sei que funciona.

6 de setembro de 2013

Eu não comi as batatas

A gente se conhece, mas não se confia. Por exemplo, num almoço aleatório da semana passada eu servi meu prato e me dei por satisfeita com a distribuição e coloração da refeição (porque os nutricionistas ultimamente querem que nossos pratos sejam réplicas do Renoir). Só que ao invés de me sentar à mesa decidi que não, não estava pronta minha obra de arte, eram necessários mais dois pedaços de batata. É nessa hora que começo uma discussão com meu Eu Comigo e a Voz de Mim. Todos temos um anjo e um demônio, cada um sentado no ombro que lhe compete. Além destes, tenho também vozes críticas, quase um parlamento. Não é para entender, é para lamentar. O Eu Comigo parabenizou minha iniciativa, já o Voz de Mim teve uma crise de pelanca e enviou relatórios em tempo real do meu estômago: eu não comeria tudo aquilo.

E não comi. Os dois pedaços sobressalentes de batata foram para o lixo.

Mas o que minhas batatas tem de interessante? Olha, para ser sincera, elas não interessam nem a mim, que tenho de comê-las, mas como este é o tipo de texto que só faz perder tempo então tudo bem. Estou querendo dizer que eu deveria ter confiado na minha primeira análise self-serviceniana. Assim como deveria dar atenção apenas ao meu instinto, sempre, e ignorar meu consumismo, ou meu autismo facultativo, ou (e principalmente) a opinião alheia. Ontem escolhi uma nova armação para meus óculos. Ela é preta. Por quê? Porque preto não enjoa fácil e “combina com mais coisas”. Tinha uma armação vermelha, que se encaixou perfeitamente no meu rosto sem formato definido graças ao meu nariz. Mas era vermelha; uma cor chamativa, cansativa e que não orna com uma blusa amarela, por exemplo. Aliás, eu já sou amarela o bastante, ou seja.

Daí que quando cheguei em casa, assim que coloquei meus pés no quintal, me arrependi amargamente.

Foi então que me toquei: eu poderia ter escolhido a armação de cor canela, que era mais leve e discreta e ainda por cima a que mais combina comigo e é uma das minhas cores favoritas. Passei o resto do dia, àquela altura, não me chicoteando por ter deixado a armação vermelha, mas por ter me esquecido da cor canela. Agora, toda vez que eu me olhar no espelho com os novos óculos, vou me lembrar, brilhará uma lágrima em meu rosto, vou balançar a cabeça em negativa e a vida não seguirá como planejada. Ou melhor, passarei mais algum tempo no plano B.

Se fosse desatenção, tudo bem. Se eu fosse o tipo de pessoa que tenta ligar a televisão apertando os botões do telefone, vá lá. O que realmente acontece, creio eu, é uma busca pela insatisfação. Sabe auto sabotagem? Pois é. Chegou nesse nível. Sirvo mais três folhas de alface só para depois me recriminar. Ridículo, não é? Infelizmente, o Bonjour Circus não trabalha com devoluções de tempo.

3 de setembro de 2013

Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa (Mariana Alcoforado)

 

Não sou muito chegada em declarações de amor. Quando meu namorado começa com suas cantadas, eu já corto o barato e digo que isso não funciona comigo. E não funciona mesmo. Ando com os dois pés atrás até com o pobre coitado que me atura por oito longos anos. Mas às vezes, só para manter o hábito de ser contraditória porque é divertido e de graça, gosto de ler livros sobre trocas de cartas entre escritores(as) e seus amores. Os livros “Querido Scott, Querida Zelda” e “Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz” são exemplos que não saem da minha lista de desejados há muito tempo. Como estão demorando a chegar eu decidi procurar na internet qualquer coisa parecida que pudesse substitui-los. Foi então que em um site português (de Portugal, ora pois) eu encontrei “Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa”, que no Brasil parece ter levado o título “Cartas Portuguesas”.

“Prefiro ser desgraçada amando-te do que nunca te haver conhecido.”

Dizem por aí que é um clássico universal, mas sinceramente eu nunca tinha ouvido falar dele antes; encontrei por acaso mesmo. Nas pouquíssimas 80 páginas estão publicadas cinco cartas de Mariana Alcoforado destinadas ao seu amor impossível - Noel Bouton de Chamilly. Os dois realmente existiram e o fato de Mariana ter envergonhado seus familiares é verdadeiro, só que muitas personalidades e pesquisadores contestam a autoria dessas cartas amorosas. Rousseau (ele mesmo) chegou a declarar que uma mulher não seria capaz de sentir ou descrever o amor da maneira como fez a freira. Feminismos à parte, que eu sei que vocês teriam uma ótima resposta para ele, particularmente prefiro acreditar que as cartas são verídicas.
Apesar disso, não estou arrependida de te haver adorado. Ainda bem que me seduziste. A crueldade da tua ausência, talvez eterna, em nada diminuiu a exaltação do meu amor. Quero que toda a gente o saiba, não faço disso nenhum segredo; estou encantada por ter feito tudo quanto fiz por ti, contra toda a espécie de conveniências. E já que comecei, a minha honra e a minha religião hão de consistir só em amar-te perdidamente toda a vida.
Mariana, aquela que você conhecerá melhor clicando aqui porque não tô afim de fazer biografia, foi deixada em um convento pelos pais como muitas moças na época. Foi lá que ela conheceu Bouton, o homem que acabaria com a calma de sua vida. De serviço na Guerra da Restauração, o rapaz conquistou a freira que ficava o observando da janela do convento e não poucas vezes a visitou secretamente em seu quarto, provocando assim, o escândalo que também é mencionado na biografia oficial de Mariana. Todos descobriram e de um amor arrebatador o casal passou direto para uma insensível distância.
Vi-te partir, não tenho esperança de te ver regressar e no entanto respiro. Atraiçoei-te; peço-te perdão. Mas não, não me perdoes! Trata-me com dureza. Que a violência dos meus sentimentos te não baste! Sê mais exigente!
Após a partida (definitiva) de Bouton, Mariana lhe escreveu as cinco cartas publicadas em “Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa”, que são repletas de agonia, melancolia, desespero e saudades. Por inúmeras vezes ela se designa como desgraçada e se sente culpada por não ter morrido de tristeza, porém, em nenhuma linha sequer condena o conde por tê-la abandonado. Tenta de todas as formas perdoá-lo, pois para ela é melhor sofrer terrivelmente de amor do que nunca ter amado.
És tu mais digno de piedade do que eu, pois vale mais sofrer como sofro do que ter os fáceis prazeres que te hão de dar em França as tuas amantes.
Tenho a impressão de que Mariana perdeu por completo o juízo, o bom senso, e se transformou em um cachorro que sempre espera por seu dono, sabendo que este não voltará mais. Ela sabia que o amor havia terminado, que para Bouton tinha sido muito provavelmente apenas uma aventura, mas continuava a lhe escrever cartas, declarar seu amor incondicional e nutrir uma esperança inválida. Suas cartas provam que desde o século XV (e bem antes, convenhamos) os homens usam de juras falsas e artimanhas físicas para chegarem aos finalmentes e depois descartarem as vítimas. Em sua penúltima carta, Mariana menciona o investimento “delicado” e os “sonhos” com que foi comprada (“Tu não estavas cego como eu, porque me deixaste então chegar ao estado a que cheguei?”).
Adeus; parece-me que te falo de mais do estado insuportável em que me encontro; mas agradeço-te, com toda a minha alma, o desespero que me causas, e odeio a tranquilidade em que vivi antes de te conhecer. (...) Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
“Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa” é a história de uma freira que foi enganada por um soldado francês? É a história de um casal separado pelos pormenores da situação? Bouton é o primeiro grande filho da puta registrado na história? Rousseau tinha o pinto pequeno? As cartas que inspiraram tantos escritores, afinal de contas, são reais? Ninguém sabe. A leitura foi tão boa que por mim colocaria tantas outras citações. Recomendo o livro com as cartas daquela que amou entre tanta mágoa e ao invés de odiar o homem que lhe condenou a uma vida sem vocação no convento, odiou tudo ao seu redor apenas para conseguir perdoá-lo.
Concordo que tem sobre mim muitas vantagens, e que me inspirou uma paixão que me fez perder a razão; mas não deve envaidecer-se com isso. Eu era nova, ingênua; tinham-me encerrado neste convento desde pequena; não tinha visto senão gente desagradável; nunca ouvira as belas coisas que constantemente me dizia; parecia-me que só a si devia o encanto e a beleza que descobrira em mim, e na qual me fez reparar; só ouvia dizer bem de si; toda a gente me dispunha ao seu favor; e ainda fazia tudo para despertar o meu amor... Mas, por fim, livrei-me do encantamento. Grande foi a ajuda que me deu, e de que tinha, confesso, extrema necessidade.