27 de julho de 2013

Vou bem, obrigada

Estou aqui, sentada pois não digito em pé, fazendo de conta que não tenho comentários e visitas a retornar e encarando o Tony, que está deitado na minha cama com cara de poucos amigos. Ele ficou #chatiado depois de ser vestido com sua roupinha (filha única, mas limpinha). Desfez minha cama, se esfregou nos lençóis limpos, rosnou, tentou tirar a roupa por si mesmo balançando as patinhas no ar, mas sua incompetência canina só o deixou mais puto da vida. Se ele soubesse que essa injustiça afeta até mesmo nós humanos, que somos teoricamente capazes, tenho certeza de que ele pediria apenas um biscoitinho e tudo bem, estamos quites. No mais, está frio. Ele vai ficar com a roupinha porque, por enquanto, é a única coisa sob a qual tenho controle nessa vida - decidir se um cachorro permanecerá vestido ou não.

As coisas caem de minhas mãos com muita mais frequência agora. Ontem, por exemplo, derrubei um pote inteiro de ração canina no chão e só fiz observar os grãos se espalharem pela cozinha inteira - debaixo da geladeira, dos armários, da mesa, do fogão e debaixo de todas as coisas, caso contrário não teria graça. Se não fosse a lógica - a única que ainda se presta a me salvar - teria tudo ido para debaixo dos azulejos também. Você deve estar pensando “ok daí você limpou, que história babaca”, mas não. Eu não limpei. Eu subi as escadas, entrei no meu quarto, deitei na minha cama e liguei a televisão. O plano inicial era colocar a culpa no vento. Depois achei melhor colocar a culpa no meu pai. Com resignação, admiti que nada disso faria sentido para a mente conspiratória e sempre antenada de mamãe, então desci as escadas, entrei na cozinha e sentei em uma das cadeiras da mesa.

Fiquei olhando para o chão colorido. Ração mista deve ter de tudo um pouco, menos vegetais.

O Benjamin chegou abanando seu rabo de gato, fungou, colocou as orelhinhas para trás e olhou para mim. “Você bebeu, mamãe? Devo ligar para o papai”? Às vezes ele fala com os olhos. É lindo de se ver. Então, de repente, me peguei conversando com um cachorro - por mais que seja o meu filho e por mais que eu o ame, não deixa de ser um cachorro. E eu expliquei ao Benjamin, enquanto o chão continuava sujo, que a vida anda uma merda. As pessoas andam uma merda (ou na merda; ainda não decidi). E eu disse: Eu deveria incluir um 'não que eu esteja reclamando' nessa nossa conversa porque nem isso a gente pode mais: reclamar. Ao que tudo indica, está na moda demonstrar que somos felizes e estamos satisfeitos. Posso até estar satisfeita, mas é com essa minha infelicidade. Veja você, não há problema em ser infeliz.

Ser mal comido é feio, atrapalha a vida alheia, mas ser infeliz pode.

23 de julho de 2013

Ainda morro disso

Nos meus tenros quinze anos fiz uma listinha mórbida do que poderia me matar e em quais circunstâncias de novela mexicana eu me encontraria na hora do óbito. Volte e meia eu reclamava: “Ainda morro disso”, como se estivesse no alto dos oitenta anos de idade sofrendo dos nervos. Bom, dos nervos sempre sofri, mas convenhamos que aos quinze anos eu estava mais propícia a morrer de amor ou pisoteada num show dos Backstreet Boys. Todavia, o drama é um gênero muito bem interpretado por mim e tenho orgulho (ao menos) disso. Não pense que com a idade fui ficando madura e deixando essas bobagens para lá. Não, senhor. Os capítulos seguem:

1. Banho
Não que eu vá morrer de banho. Afogada. Eletrocutada. Intoxicada por shampoo. O mais provável é que eu morra cozida. Sou adepta dos banhos quentes, daqueles em que não se enxerga nada entre o fog do banheiro. Até reconheço que às vezes está quente demais, mas cabeça dura que sou, faço vista grossa para as minhas mãos avermelhadas e minhas costas que penicam debaixo da água fervida. Cabeça dura ou preguiçosa de ir lá mudar a temperatura, ainda não sei. Só existe um problema: os cabelos. Os friorentos também tem seus limites. Lavar o cabelo, no inverno principalmente, é um dilema. Consigo deixar a temperatura da água agradável para o corpo (assim, em torno de 70°), mas fica impossível molhar a cabeça. Então começa a dúvida: fico careca por causa da água quente ou por causa da oleosidade do couro cabeludo?

2. Leitura
Eu leio demais. Passei um bom tempo longe dos livros e agora não consigo largá-los. Às vezes leio de 130 a 180 páginas por dia e quando finalmente paro para descansar tenho a impressão de ter a cabeça mergulhada num aquário. Olho para o relógio e me assusto com a quantidade de horas que fiquei perdida na história, completamente alheia ao meu redor. Sim, há exageros na literatura. Enquanto uns abusam na compra de livros no mais puro consumismo e montam pilhas de títulos que nunca irão tocar, eu tento ler em tempo recorde para realizar o sonho de conhecer todos os autores interessantes ainda nesta vida. Dá dor de cabeça, os olhos cansam e embaralham letrinhas, mas em certos momentos sinto vontade de fazer só isso e mais nada. Acho que estou viciada.

3. O peixe morre pela boca
Sou vegetariana, natureba e sustentável. Na teoria. É, assim tudo funciona. As dietas de segunda-feira estão em pleno trabalho na teoria, a promessa de não comer doces por um ano deu certo na teoria, as pessoas se gostam na teoria. Não é segredo para ninguém, nem para mim que sou a última a saber das coisas, que é preciso viver mais e melhor. Nasci numa época em que era legal fumar e usar produtos cancerígenos, mas ao que tudo indica isso está fora de moda. De repente, depois de estudos e pesquisas complexos, o ser humano descobriu que tem prazo de validade. Então vamos alongar a vida e os músculos. Lindo, né? Eu entrei nessa barca furada. Sem resultados. De um lado, tento ao menos diminuir o consumo de isopor e carne de cavalo. De outro, bebo uma garrafa 600ml por dia e como uma barra de chocolate. Acho que o meu coração nem se dá ao trabalho. Meu corpo é constituído de 80% Coca-Cola e 20% sódio.


4. Bicho-do-matismo
A minha família toda vem de colonos alemães/gaúchos ou famílias humildes do interior paulista. São pessoas acostumadas com o bucolismo rural, gados mascando grama o dia inteiro, o vento varrendo o pasto e sempre que leio algum volume de “O Tempo e o Vento” não posso deixar de pensar que as minhas raízes surgem de algum Terra ou Cambará perdido na árvore genealógica. Chamo isso carinhosamente de bicho-do-matismo, um cacoete crônico que acabou por contaminar o meu DNA. Eu estaria no lucro se fosse apenas introspectiva. E com isso, vivo digladiando com dúvidas sociais do tipo “puxo assunto ou não”. Faz dois anos, por exemplo, que estou em cima do muro tentando decidir se refaço ou não contato com uma determinada amizade perdida nas areias do tempo e na lama da indiferença. Sei, de antemão, que nunca vou chegar a um veredicto porque o melhor mesmo é continuar escondida na toca.

5. Ansiedade
Fui diagnosticada com Transtorno de Ansiedade no início de 2010 e desde então não sou mais a mesma. Não é algo que adquirimos da noite para o dia, como acredita a maior parte das pessoas. Normalmente, esse tipo de problema emocional surge na adolescência e se arrasta ao longo da vida até que seja descoberto e tratado. O problema é que a gente nunca dá atenção aos sinais, que no meu caso surgiram em 2004. Minha vida se resume ao autocontrole. Há crises psicológicas e físicas, há remédios com estranhos efeitos colaterais (do tipo que faz você se esquecer o que está fazendo parada no meio da cozinha) e há também consultas infindáveis com psiquiatras e psicólogos que não querem ver o paciente roendo as unhas, tremendo a perna ou tendo surtos inesperados. Enquanto uns dizem ser frescura, quem sofre disso se vê sozinho diante de um monstro com inúmeras cabeças; se arrancamos uma, logo outra nasce no lugar.

19 de julho de 2013

O Grande Gatsby (2013)


Para começo de conversa, o quão estranha é essa história de adaptar livros para o cinema? Parece que nossa imaginação insuficiente precisa de um empurrãozinho para ver em movimento e ação os personagens que já tinham vida enquanto estávamos lendo. É como se reafirmássemos o que sabemos de antemão só para ter certeza do que não temos dúvidas. Não é o caso de eu estar afirmando que não gosto de adaptações. Gosto, sim. E é esse o problema. A verdade é que eu adoraria entender por quê. No fundo, não precisamos delas. Está provado que somos melhores diretores cinematográficos do que muito Spielberg por aí. O nosso filme criado a partir de histórias perfeitas e atemporais como “O Grande Gatsby”, por exemplo, teria menos lantejoulas por outro lado seria mais autêntico e fiel ao coitado do Fitzgerald, que não merecia uma bofetada dessas.

Daí que eu resolvi assistir a adaptação doismiletreziana feita por um cara chamado Baz Luhrmann. Não dou atenção para diretores de cinema apesar de saber que deveria, mas são elementos como este que me distanciam cada vez mais de querer conhecer qualquer coisa que seja sobre um currículo petulante. Pois é, tinha Leonardo DiCaprio, o que basta para me arrastar aos cinemas não importando o tema. Assisto “Cinquenta Tons de Cinza” se for estrelado por ele e sou capaz de sair gozada da sala, com pipoca no decote e um sorriso orgasmático nos lábios.

Discernimento e Leonardo DiCaprio não combinam na mesma vida.

Eu devo lhe dizer: não fui com a cara de Baz Luhrmann. Imagino o sujeito andando pelo estúdio com óculos escuros, plumas fluorescentes ao redor do pescoço, camisa floral do Havaí e um sotaque britânico acentuado. Ele e seu filme chroma key poderiam ter passado longe de mim não fossem dois fatores: F. Scott Fitzgerald e o menino do Titanic. Foi golpe baixo e Hollywood sabia disso desde o início.

Para mim, o livro é de uma sensibilidade sem igual; diz mais coisas do que lemos, por isso, é essencial lê-lo mais de uma, duas, três vezes; a cada vez que passo por algum trecho descubro entrelinhas e fico boquiaberta. Então é isso que o escritor quis dizer! Ah tá, agora entendi o que aquele outdoor significa. Putz grila, Gatsby, casa comigo! E assim adiante. Há mais coisas entre Gatsby e a Terra do que acredita o ingênuo Luhrmann. Ou seja, existem centenas de razões para eu ter passado mais da metade do filme dizendo: “Não, pára! O que você está fazendo”? Está tudo errado. A mansão de Jay Gatsby não era um circo nem tão brega quanto esta que você está retratando, Luhrmann. Pode até ser um desejo íntimo seu, e eu respeito, mas separemos o prazer do trabalho.


A minha maior expectativa era com a entrada de Gatsby. No livro, eu prendia a respiração a cada menção, tentava descobrir por mim mesma se ele estava escondido num dos personagens, não aguentava mais ler página atrás de página sem descobrir afinal de contas quem é Gatsby! Meu Deus, era uma necessidade quase fisiológica. Então achei que no filme, ali na minha cara sem o poder e a força da imaginação, com o plus a mais da interpretação de DiCaprio, eu simplesmente sofreria uma síncope. Daria tempo de ouvir a primeira frase e pronto, morreria com a mão cravada ao peito. Ah, mas essa maldita lei da Expectativa x Realidade... Heartless Bitch! Senão a pior cena, esta com certeza fica entre as mais tristes.

Ao invés de sangue quente, humilde e íntegro, corre um pano verde ou azulado nas veias do Gatsby de Luhrmann, que é para projetar o final insosso e sem emoção através de efeitos especiais que esfriam a história. Da festa de arromba (sim, tenho setenta anos) do perfeito Fitzgerald fomos banidos e jogados para uma farra indigna de um homem apaixonado, com champagne quente, fogos de artifício falhos, piscina cheirando a mijo, dançarinas sofrendo do ciático e figurantes histéricos como penetras. Nisso tudo, e mais um pouco, Gatsby castrado. É uma pena, realmente, pois o elenco é maravilhoso, formado por excelentes atores que quase me fizeram esquecer a falta de bom gosto do diretor. Pela primeira vez enxerguei o tal de Tobey Maguire “apertável” que vocês tanto babam. Foi um Nicky perfeito.

Pensei em desistir do filme assim que uma música do Jay-Z começou a tocar. E pensei nisso milhares de outras vezes ao continuar ouvindo a pior e mais dessincronizada trilha sonora de todos os tempos. Mas continuei. Apesar dos cenários impessoais, dos buracos estratosféricos no enredo, da superficialidade que representa uma história tão linda. Permaneci no meu posto, firme e forte, em respeito ao elenco - repito - sensacional e à ele: o poderoso DiCaprio, que só não ganhou um Oscar por intriga da oposição (e talvez por ter o azar de ultimamente trabalhar com os diretores errados).

Um brinde a nós dois.

16 de julho de 2013

Não se Mova, Morra, Ressuscite (1989)


Eu adoro assistir filmes russos apesar de fazer isso poucas vezes. Explico: são ótimos em fotografia e arte, mas fortes em histórias. Nem sempre tenho humor para acompanhar um russo gritar por quase duas horas. Porque os russos gritam. Eles são assim. Quando estava no aeroporto de Zurique, voltando para casa, um tipo desse chegou bêbado, cheirando à vodka e berrando comigo. Não sei o que o aeroporto fez contra ele, o que eu fiz para merecer isso ou se ele estava apenas cantando, só sei que seus olhos vermelhos e seu bigode me assustaram muito.

Como fazia tempo que eu não enfrentava um filmóvisky da vida, baixei esse tal de “Não se Mova, Morra, Ressuscite” porque o título é bacana e porque é filmado em P&B. Além do mais, a história se passa na Sibéria. Quer coisa mais russa do que isso?! Galia e Valerka são amigos que moram na cidade mineira de Suchan em meio a pobreza e também as traquinagens infantis; levando em consideração que o que é brincadeira para eles normalmente está enquadrado em algum artigo penal para nós. É um clássico de duas crianças que estão apaixonadas entre si e demonstram isso com pontapés e empurrões. Os dois passam o filme inteiro juntos, vendem chá na mesma zona de trabalhadores e se ajudam.

Na minha humilde opinião, é uma espécie de “Os Incompreendidos” (1959), só que russo ao invés de francês - ou seja, muito mais punk. O buraco é bem mais embaixo na banda dos camaradas. Valerka, o personagem principal (e um menino super talentoso), é aspirante a revoltado sem causa, tem uma mãe problemática, uma vida sem estrutura alguma e é autor de uma das melhores frases do cinema: “Agora todo mundo vai saber que eu durmo com um porco”!

Na URSS, o filme assiste VOCÊ!

“Não se Mova, Morra, Ressuscite” é um filme pesado - essa foi a palavra que encontrei e que se encaixou perfeitamente enquanto eu assistia o final. Representa a vida nua e crua de uma criança pobre na Sibéria de 1947 e não se esforça para romancear ou mesmo nos poupar do impacto que a realidade causa. Cometi a besteira de assisti-lo em um sábado a noite e só posso dizer que fui dormir deprimida, querendo a minha mãe. Recomendo fortemente para quem quiser conhecer o cinema deles, mas aviso de antemão que os russos não são para qualquer um.

12 de julho de 2013

Hoje eu cantei no chuveiro

Tomar banho, para mim, não tem segredo ou mensagem subliminar. Consiste em molhar o corpo, se ensaboar e depois enxaguar. Pronto, você está limpo. Mas depois de ler textos sobre o assunto como os do So Contagious e assistir vídeos como os de BubzBeauty, eu decidi participar. Inicialmente pensei em comprar uns sais e encher a banheira nunca antes usada na história dessa casa. Depois, vendo que isso nada tem a ver com o meu jeito brucutu de ser, apenas levei meu player para o banheiro e liguei o chuveiro. Apesar de precisar de playlists para fazer qualquer coisa, eu nunca havia tomado banho com música. É claro que não ouvi músicas agitadas - pois eu não estava afim de me empolgar, escorregar, e o que deveria ser relaxante terminaria com paramédicos sarados do SAMU me vendo em posição desmerecida. Portanto, escolhi soundtracks tranquilinhas para cantar enamorada pela acústica do banheiro. É, acho que foi romântico.



01. Edith Piaf - La Vie en Rose
02. Billie Holiday - God Bless the Child
03. Beth Hart - Lifetime
04. Socorro Lira - Coisa Boa de Oiá
05. O'QueStrada - Qualquer Coisa que me Anima...
06. Cássia Eller - Pedra Gigante
07. Imelda May - Once More
08. Adele - Crazy for You
09. Mariana Aydar - Florindo

10 de julho de 2013

O que o seu ego acha sobre isso?

Carole Brémaud
Dentre todos os meus defeitos (e você adoraria conhecer cada um), existe a necessidade de estar certa. Não sempre nem sobre tudo, mas quando sei que tenho razão. O problema é que às vezes eu não tenho razão e ninguém consegue me convencer do contrário. Porque além de tudo isso, eu também sou cabeça dura. Então eu continuo seguindo em frente crente de que a minha opinião foi baseada nas mais profundas reflexões, os outros que me acompanham estão perdidos em sua ignorância e mal posso imaginar a corrente de pensamentos equivocados que isso forma. Uma teia de aranha, sem dúvidas, pronta para o bote.

Na adolescência, eu me debatia entre quatro paredes usando camisa de força, mas não admitia que estava errada. Este tem sido um impasse que me acompanhou, digamos, até um bom tempo. Se não fosse a vida para dar uns pontapés de vez em quando, talvez eu ainda estaria acreditando em coisas que hoje não passam de fábulas ou absurdos para mim. Não foi fácil. Ninguém disse que seria. Este meu defeito nunca prejudicou ninguém além de mim, logo, sair da zona de conforto se tornou uma guerra particular. Por que assumir um erro se a única a reivindicá-lo sou eu mesma? As pessoas não estão interessadas nas minhas convicções. Se estou certa ou errada, dá na mesma para a sociedade. Não é assim que funciona?

Só que passei a perceber como minha mente andava fechada. Eu não me abria para novas coisas, era pouco receptiva, estava tornando minha conversa num discurso chato. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ninguém iria me ouvir mais. Mudei, não do dia para a noite, mas aos poucos. Como tudo deve ser. Estar errada, hoje, para mim é um alívio. “Ufa! Que bom que o mundo não é exatamente como eu achei que deveria ser, pois minha visão era realmente assustadora”. Sabe, mudar de ideia é ser mais otimista. Descobrir que o mundo não é movido por suas regras pessoais - por mais que você seja movido por elas - é libertador. Há outras verdades por aí, muitas vezes várias delas para um mesmo assunto, e tudo bem. Isso não precisa se tornar um problema.

Daí que outro dia, escrevendo para o Bonjour Circus, de repente apaguei o texto inteiro. Quer saber? Eu não preciso dar a minha opinião o tempo todo. É um insulto para o meu ego assumir que o que eu acho não vale mais do que um pacote de adubo. Doeu bastante nas primeiras vezes, amargou, ardeu. Hoje ele está mais acostumado. Até sai para brincar com outros egos no parquinho de diversões da sociedade. Eu, que tanto leio e tento aprender sobre a educação, estava criando um chorão mimado bem aqui, debaixo da alma. Não, eu não vou dar a minha opinião (leiga, na maioria das vezes). Eu não vou dizer o que eu acho assim, sem ser perguntada porque, cara, ninguém é obrigado.

Agora sei que estava errada sobre muitas coisas que disse e escrevi (inclusive aqui no blog). E olha, é gostoso saber disso. Vivo desejando ser burra para sofrer menos, mas no fundo o que quero mesmo é viver atenta. Eu quero estar ciente. Alerta. Ouvir cada palavra que sai da minha boca e saber que antes de chegar aos meus lábios meus pesamentos foram cuidadosamente podados. Pois sim, caro leitor, é preciso reciclar as ideias. Desculpe-me se eu estiver errada. Bem vindo se acaso concordar com minhas avaliações baratas. Porém, acima de tudo, agradeço-lhe a paciência com minhas virtudes rasas!

4 de julho de 2013

O dia E

Este post faz parte do desafio 30 Days Writing Challenge criado por Dasty, do blog Spleen Juice. Dia 02: “Escreva sobre algo histórico”.

Esta é a segunda parte do meme 30 Days Writing Challenge e devo confessar que fiquei empacada. Passei dias pesquisando na internet sobre o que escrever. Pensei em falar pelos cotovelos sobre minhas teorias conspiratórias provando que o homem nunca pisou na lua. Cogitei a ideia de prosear sobre os recentes protestos assim, como dois velhinhos jogando dominó na praça, sabe? Até a bandeira nazista hasteada no Rio Grande do Sul entrou em pauta. Porém, acabei deixando de lado. Quase desisti do meme por não conseguir preencher um item (pois é, eu sou esforçada desse jeito). Depois me reanimei, dei mais uma pesquisada, e por fim decidi que a história viria a mim. E ela veio. Eu recebi o sinal.


Semana passada fui ao Banco do Brasil resolver uns pormenores da vida adulta. Não que eu seja cliente, mas o destino me colocou sob a serventia deles. Veja bem, nunca entrei em um banco e saí dele após cinco minutos. Não sei o que andam dizendo por aí, mas seja lá o que for é mentira. O banco é uma dimensão paralela a nossa na qual você entra e se perde. São outras regras, outros tipos de pessoas e comportamentos e lógicas incompreensíveis. Como, por exemplo, a lógica de atendimento especial. Eram dois homens para dez pessoas sendo que ambos saíam de suas mesas a todo instante se como seus glúteos estivessem tomados por formigas africanas. Vinte e cinco minutos após minha entrada, uma senhora resolveu rodar a baiana e “Qualéquiééé”! O subúrbio pode ser divertido às vezes. Mas só às vezes.

Enfim, não quero me estender muito. Chegou a minha vez (quando eu estava crente de que viveria o resto de meus dias sentada naquela cadeira dura). É nessas horas que agradeço por ser capaz de controlar meu instinto assassino. Se eu tivesse reclamado e quebrado metade da agência junto com aquela senhora, o atendente estaria me olhando com olhos furiosos e na hora eu saberia: ele vai transferir todo o meu dinheiro para o Caribe. Fui o mais adorável possível. Fiz minha solicitação, entreguei documentos, etecétera. O atendente digitou, digitou, digitou. De repente, conferindo minha identidade com o que quer que aparecia para ele nas informações do monitor, ele franze o cenho e se confunde.

— Você tem dois homônimos.

Se você é um dos pouquíssimos membros da sociedade secreta “O Nome Completo”, o fato histórico termina aí. Na hora você entenderá do que estou falando e sem dúvidas captará a vibe do momento. Se por acaso você ficou de fora chupando dedo em posição fetal, basta saber que as chances de eu encontrar um homônimo e sofrer a possibilidade de ser confundida são de 0,0000001%. Todavia, existem duas desafortunadas nos dados do Banco do Brasil - o último lugar do mundo onde eu procuraria. Nunca em vinte e seis anos passei pela situação de soletrar meu nome ou solicitar o sobrenome para ter certeza de que se tratava de mim. Sempre funcionou assim: as pessoas travam, olham ao redor, pronunciam a primeira sílaba, começam a suar frio e pronto, imediatamente sei que sou eu. Então, rola o diálogo padrão:

— Que difícil.
— É, eu sei.
— É de onde?
— Alemanha.
— Você é alemã?
— Não, sou neta de alemão.
— É muito diferente...
— É, eu sei.
— Como é que eu posso te chamar?
— Del, por favor.

Acredite em mim, ninguém nunca mudou sequer uma palavra do diálogo padrão até o dia histórico da minha vida. Ao invés de “Que difícil”, o atendente simplesmente soltou um “Você tem dois homônimos” se como esta fosse a coisa que mais escuto. Ele sequer me preparou psicologicamente para a revelação. Ele não perguntou a origem, a pronuncia correta, se sou alemã, quais os nomes do resto da família (para comparação) nem nada que eu estivesse acostumada a responder. Eu tenho homônimos e é isso que interessa para o sistema bancário.

Eu tenho homônimos! E quase fui confundida! Tive que passar por uma certificação, uma segunda checagem, a prova dos nove, uma verificação mais profunda, análises, soletrações. Pela primeira vez na história desse país uma pessoa parou, não porque empacou na segunda sílaba do meu nome, mas porque deveria prestar mais atenção caso, sei lá, passasse um milhão de reais para a minha conta por engano. Pode parecer bobagem para você, que tem um nome comum de gente normal. Para mim foi mais um dia que com certeza contarei aos meus netos.

1 de julho de 2013

A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra (Robin Sloan)


Vocês sabem: eu não leio sinopses. Sei que deveria, afinal, lá está uma grande dica do que se trata o livro, não é mesmo? Mas é uma mania, um vício difícil de evitar. Eu olho a capa, analiso o título, levo para casa. É por essas e outras que normalmente dou apenas uma, se muito duas estrelas para cada livro que termino. É uma burrice sem tamanho. Concordo com você! Há pessoas que não leem resenhas antes de terminar sua leitura, outras cheiram livros como a primeira coisa sacra a se fazer após a compra - eu não leio sinopses porque gosto de surpresas. É claro que se tratando apenas de lançamentos ou obras pouco conhecidas já que com os clássicos não é preciso temer. Bem, são clássicos... Daí que resolvi fazer um tipo de reabilitação e fiz uma experiência: li a sinopse de “A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra” no Skoob. E ela diz que:
A recessão econômica obriga Clay Jannon, um web-designer desempregado, a aceitar trabalho em uma livraria 24 horas. A livraria do Mr. Penumbra — um homenzinho estranho com cara de gnomo. Tão singular quanto seu proprietário é a livraria onde só um pequeno grupo de clientes aparece. E sempre que aparece é para se enfurnar, junto do proprietário, nos cantos mais obscuros da loja, e apreciar um misterioso conjunto de livros a que Clay Jannon foi proibido de ler. Mas Jannon é curioso...
Gostei muito do título: uma livraria que não fecha nunca comandada por um idoso misterioso. Achei linda a capa: uma livraria velha, obscura. Fiquei contente por ter lido a sinopse, pois isso me deu a certeza de que adoraria a leitura: uma livraria, outra vez porque esse fato é importantíssimo, cujos clientes são estranhos, talvez membros de alguma seita, que proporcionarão aventuras do barulho. É, ler sinopses pode ser libertador - eu pensei. Agarrei o livro como se fosse um novo Markus Zusak surgindo do lodo e mergulhei de cabeça.

Só que a história não é nada disso.

Quando cheguei para lá da metade do livro, resolvi ler algumas resenhas porque olha: em que roubada eu me meti dessa vez? Foi então que descobri que esta foi uma péssima tradução da sinopse e ninguém sabe o que aconteceu. Foi um sinal. Ainda não sei se um sinal de que irei me enganar e me dar mal qualquer que seja minha intenção, ou um sinal de que não é para eu ler sinopses porque esse meu jeito mongoloide é o que liga. Só sei que fui ludibriada mais uma vez pelo mercado editorial.

Quer dizer, a sinopse não mentiu a respeito da livraria, do moço de profissão duvidosa, do velho e de seus clientes estranhos. Eles estão lá, mas perdidos entre parágrafos e mais parágrafos de um narrador que só faz falar do Google e do quão perfeita essa empresa é. Tenho para mim que sua namorada é apenas um holograma, uma amiga imaginária, uma desculpa para que ele mencione o Google a cada três linhas. “Os funcionários do Google andando de bicicleta, os containers do Google, a comida servida no Google, minha namorada - que vale ressaltar um milhão de vezes - trabalha no Google, o esgoto do Google que cheira a rosas”, e por aí vai. Pensei em desistir antes mesmo da história esquentar e fazer de conta que nada aconteceu, mas me lembrei daquela promessa de não abandonar nenhum livro em 2013.

Maldita seja.
Olho para o outro lado da Quinta Avenida, onde Kat e Neel estão parados, olhando para nós dois e à nossa espera. Kat (a namorada) acena.
— Ela trabalha no Google.
— A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra, Robin Sloan
Tirando isso, que deveria ser o suficiente para eu abandonar o livro não fosse minha promessa estúpida, o livro trata sim de uma livraria misteriosa. Infelizmente, é com pesar que lhes revelo que não passa de um degrau, um contexto para que o escritor tente nos convencer de que o mundo logo, logo será movido por máquinas e que sem ter percebido entramos em uma guerra entre o mercado digital e o impresso e o Google é o único que poderá nos salvar. Cara, é só isso. Eu juro para vocês. O enigma da “sociedade secreta” é tão superficial, que quando cheguei a resolução do caso, parei de ler, pisquei os olhos e reli para ter certeza de que fui guiada para algo que poderia ter sido explicado há 200 páginas atrás.

E eu nem vou mencionar que o nome do autor fictício de “As Crônicas da Balada do Dragão” muda misteriosamente de Clay para Charles e depois Clark; o jeito com que Jannon e seu amigo tratam a história se como fosse um RPG, intercalando com cenas destas tais crônicas, só deixa a coisa mais ridícula. Tão ridícula, que em determinada altura começo uma leitura dinâmica porque não sou obrigada. Sabe, para mim chega. Uma hora cansei de ler sobre o Google e como ele monopoliza o pensamento e as atitudes das pessoas, de como ele é na verdade o mocinho da história e o narrador apenas um nerd (dos mais alienados) querendo reverenciá-lo enquanto a namorada, os amigos, o dono da livraria e todo o “mistério” (pfff) flutuam livres da gravidade em um universo paralelo. Suas tiradas humorísticas simplesmente não funcionam e o uso de onomatopeias foi o único enigma verdadeiro nessa merda toda.


Finalizando: não é um livro de fantasia com um enredo que gira em torno de uma livraria que poderia facilmente entrar na disputa das mais desejadas pelo mundo real dos leitores. É sobre um designer falando em coisas ténicas, bajulando o Google, que conquista um relacionamento amoroso do nada e transforma a aventura do barulho pela qual eu esperava em uma terrível, terrível experiência. Na minha humilde opinião, da próxima vez que quiser um emprego no Google, senhor Sloan, mande um currículo ao invés de escrever um livro!