27 de junho de 2013

Anestesia geral

Este post faz parte do desafio 30 Days Writing Challenge criado por Dasty, do blog Spleen Juice. Dia 01: “Descreva um lugar”.

Foto: ~HiiP
Acordo com dores nos ombros e nas pernas, uma sensação de ter nadado toda a noite contra a correnteza. Os ouvidos pesados, preenchidos, como se tivesse adormecido com a televisão chiando no último volume. Fecho os olhos e um céu nublado toma conta de mim. Pássaros migratórios desenham ponto a ponto o cinzento lugar inabitado. Por trás dos meus olhos fechados há um mundo regado por uma fina garoa, que descansa em orvalho na grama pisoteada. Não há barulho, exceto o tique taquear de um relógio invisível.

Debaixo da árvore de carvão, uma sombra toca violão tão tranquila que nem com muito esforço consigo ouvi-la, mas meu coração a sente transformar em música os sentimentos que a humanidade ainda é demasiada primitiva para compreender. Essa sombra frequentemente acena para mim quando fecho meus olhos para visitá-la. Ela gargalha os ombros em gestos e segue tocando seu violão negro de três cordas.

Além da árvore há também um amontoado de flores secas. Tímidas como virgens, exibem-se umas sobre as outras, cada uma querendo mais de mim. Nunca as toco, tão pouco me aproximo. Gota por gota elas choramingam mensagens de amantes suicidas. “Eu sempre te amarei” ecoa ao redor do amontoado que tem o cheiro do esquecimento. A gelada ventania, arrebatadora, impede as secas flores de colorir meu casto jardim, levando-as consigo.

De manso, meus olhos fechados vibram sob as pálpebras quando borboletas feitas de páginas apagadas acariciam meu rosto. Almas de escritores ignorados, essas borboletas me embriagam com as histórias jamais lidas. Eu me encanto com meu mundo escondido e protegido do toque desumano de quem se julga racional.

Fazendo parte de mim, esse mundo me convida para ficar. Oferece-me pipoca doce e dezenas de mapas para outras dimensões minhas nunca visitadas. Mas não posso. Não posso, ainda, me perder para sempre no que realmente sou. Abro meus olhos e o que me encara agora é o teto cor de gelo que não deseja boas vindas. Meu corpo repele o começo inevitável do dia. O câncer da alma. Eu me levanto.

Meu mundo se desintegra.

23 de junho de 2013

Este texto não foi escrito

Hoje é domingo pé de cachimbo e por lei deveríamos todos estar descansando nossas mãos calejadas e nossos pulmões infectados por ar condicionados limpados pela última vez em 1996. Não sou eu que digo, foi Deus que mandou. Pelo menos é o que proclamam os cristãos, mas como não sou leitora assídua da Bíblia, confio no meu ouvido de papagaio de pirata. E eu não faço a menor ideia do que pretendo com este texto. Acho que o fato de estar sem internet em pleno domingão chuvoso contribuiu para o meu impulso de abrir o bloco de notas e reclamar. Também acabei de assistir um filme francês de quase duas horas sobre uma mocinha que aprende a digitar rápido e participa de campeonatos; fora ela ser a Audrey Hepburn cagada e cuspida, o diretor desse filme precisaria urgentemente começar a tomar Prozac e devolver a minha 1hr e os meus 48min.

Como ia dizendo, deveríamos estar descansando. Eu e o meu ego, quero dizer. Não eu e vocês. Dos outros, infelizmente, não tenho tempo para cuidar. Infelizmente porque eu sei que seria uma excelente life coaching. Gosto dessa filosofia (é uma filosofia?) de que os problemas parecem mais fáceis para quem os enxerga do lado de fora. É uma canalhice tão grande, que me apaixona! Mas enfim, o assunto é descansar - este verbo gostoso o qual não estou acionando no momento. Vocês devem ter reparado que os pensamentos estão fluindo rápidos, estou trocando de assunto com a mesma velocidade de um cavalo que mija em campo aberto. O barulho chega a ser o mesmo. O alívio também. Por exemplo, agora é a décima vez (sem exageros, eu anotei) que o telefone toca e interrompe uma atividade minha. Tocou enquanto eu cozinhava meu almoço, tocou enquanto eu almoçava, tocou enquanto eu lavava a louça e tocou naquela hora imprópria em que estamos com as mãos cheias de espuma. Eu não gosto de telefones. Eles me lembram os humanos.

Por que uma pessoa como eu escreveria sobre descanso? Por que, afinal de contas, qualquer um neste planeta escreveria sobre isso ao invés de simplesmente deitar e dormir? Descansar é melhor do que escrever sobre a possibilidade, frustrada ou não, de descansar. Só que acontece o seguinte: se você não é uma criança e/ou consegue respirar sem a ajuda de aparelhos, as pessoas se sentem obrigadas a ocupar seu tempo. Nós nos sentimos obrigados, aliás, a muitas coisas. A fazer sentido, por exemplo. Todo mundo tem que fazer sentido; seja batendo a lateral da mão na testa ou praticando a coerência. Se você grita a palavra CU, assim bem alto CU!, no meio de uma conversa civilizada tem grandes chances de ser banido do convívio social. É uma dica para quando você quiser se afastar de alguém insuportável. Grite cu.

Que nem outro dia: um cara resolveu buzinar na frente da minha casa, do outro lado da rua, porque ele é ele. As pessoas são elas mesmas, fazer o quê? Parece que existe qualquer menção sobre liberdade na nossa constituição e uma única palavrinha fode uma vida inteira. Daí que ele escolheu justo o dia que eu escolhi para ficar na cama um pouquinho mais. E ele buzinava, sentava o dedo no brinquedinho novo já que sentar o dedo numa mulher deve ser impossível. O que que eu fiz? Eu abri a janela. Abri a janela e gritei, não cu, mas: “A buzina não coube no cu, seu bosta?” Se estivéssemos em um conto de fadas, talvez ele seria um funkeiro que, beijado, se transformasse no meu príncipe encantado. Talvez ele tivesse parado e me comprado um buquê de rosas vermelhas para se desculpar. Talvez um passarinho viesse à minha janela para cantar Mozart e abafar o som da buzina. Acontece que ele não parou porque estamos aqui, fodidos, e continuou buzinando porque a) não me ouviu ou b) me ouviu e o recalque bateu, a bicha é vingativa. Nunca saberemos.

Esse último parágrafo deveria estar nas Crônicas de um Bairro Qualquer.

Quer saber a verdade? Não existe texto. Não existe descanso. Isso foi tudo um fruto da sua imaginação. Eu não existo. Você não leu nada disso. A vida é um erro. Nós nos enganamos, precisamos admitir de uma vez por todas. Esse telefone tocando hoje pela décima primeira vez é uma alegoria de Matrix; não preciso me preocupar verdadeiramente com ele. O meu pai me enchendo os pacovás é só um grão de areia no tempo. Eu nem preciso mandá-lo para puta que o pariu, e transferir à puta essa maldição, porque a coitada sofreria a toa. É tudo passageiro. Pelo menos estou sob efeito dos meus remédios, o que me impede de gritar cu, CU!, na cara de certas pessoas. Bom, não sei até onde ganho ou perco, para ser sincera. Só sei que está tudo bem. Eu não estou nervosa. Não estou prestes a explodir em mil pedaços e matar todos ao redor com meus estilhaços.

Logo, para que domingo?

12 de junho de 2013

Crônicas de um bairro qualquer - Parte 2

Outro dia apareceu um rosto em cima do muro da minha casa. Esse rosto tinha um nome: Vizinho da Rua de Trás. Suado, gordo e assustado, o cara procurava seu papagaio que acabara de aprender a voar e fugira de casa. Ele saiu gritando pelo quarteirão: "Você não viu um papagaio por aí, não"? E as pessoas respondiam em negativa. A minha casa foi a única em que ele entrou porque o meu pai tem essa mania de convidar todo mundo para conhecer o lar - seja vizinho ou mendigo. O backstreet boy (piada ruim) entrou, olhou, foi ameaçado pelo Benjamin que detesta gente intrometida e foi embora cabisbaixo. "Olha, o nome dele é Leleco", avisou caso a gente se deparasse com um papagaio dando sopa pelo quintal. Mas não apareceu Leleco nenhum e o vizinho não voltou a rondar o quarteirão. O coitado estava com medo de roubarem seu papagaio. Fica a pergunta: para que alguém o roubaria, meu Deus?!

O Benjamin é um cachorro muito exigente, que tem sua praça preferida. São três que cercam as proximidades de casa, mas ele escolheu apenas uma para seu deleite matinal. A questão é que em uma das casas na rua dessa praça há uma cachorrinha que espera religiosamente pela chegada dele; a chamamos de Toalha. Ela chega chegando, dá umas cafungadas no cangote do Benjamin e abana o cotoquinho toda satisfeita. Acho que eles estão namorando. Confesso que eu não estava preparada para o súbito amadurecimento do meu bebê, mas tudo indica que meu filho me deu uma nora.

De repente, eu acordo com uma sinfonia parecida com aquelas de caminhão de gás, mas tocando o tema de Titanic. Abri a janela do meu quarto e me deparei com uma Kombi branca passando devagar na rua e anunciando, veja você, a dedetização da dengue. "Retire suas roupas do varal, guarde o carro na garagem e matenha seus animais de estimação dentro de casa. A dedetização começará em cinco minutos. Por favor, colabore"! O que raios o Titanic tem a ver com isso, jamais saberemos. Saí no portão para bisbilhotar e me deparei com uns vinte agentes vestidos de branco saindo da Kombi. Era como ver trinta anões de circo saindo de um Fusca. Eles se espalharam pela rua usando máscaras e bonés, batendo nos portões e afastando os cachorros soltos. Depois de um deles me olhar feio, como se eu estivesse sujando seu trabalho sacro, entrei e ajudei minha mãe a fechar as janelas. Coloquei o Benjamin debaixo da minha asa e escutei o bairro se aquietar como em dia de treinamento militar na Suíça. Logo, o único barulho ouvido era o da máquina de dedetização. Ficamos todos dentro de casa por uns vinte minutos achando aquilo muito inconveniente, porém, foi o ponto mais alto da minha semana. Veja a que ponto cheguei.

8 de junho de 2013

Enquanto o Candy Crush não libera

Estou aqui esperando infinitos 5min. e 44seg. para que o Candy Crush libere mais uma vida e me deixe jogar. Eu não havia me permitido esse frisson até que fiquei sem o que fazer na sala de um hospital e baixei o aplicativo no tablet do namorado. Foi um caminho sem volta. Consegui esquecer o joguinho assim que cheguei em casa, mas dias depois meu namorado resolveu acessar minha conta no Facebook e instalá-lo no meu perfil. Ele estava criando um monstro. Ou começando a formar seu grupo de adeptos, que mandarão quantas vidas ele necessitar. Acho que fui vítima de uma armadilha. Para vocês terem uma ideia, só me dei conta de que não tenho minha cunhada na lista de amigos agora, quando fui solicitar um bônus para ela. Vou adicioná-la por motivo torpe. É o que a balinha faz. Benjamin já está sentindo o impacto dessa nova rotina e estamos o chamando de bebê do crack.

Por incrível que pareça, Candy Crush dá assunto para um parágrafo pomposo. O que me fez pensar em tantas outras coisas mínimas que podem abrir espaço para um debate sério e agregador. Como, por exemplo, os atores da Globo - ou globais se você for pau no cu. Faz tempo que eu gostaria de saber se é um requisito obrigatório ter sotaque carioca. Transformar o ésse em xis e arrastar o érre deve ser mais importante do que uma interpretação regular (eu não disse boa, eu disse regular porque não dá para ser exigente nos dias de hoje). Malvino Salvador que o diga. Mesmo o núcleo sendo em São Paulo ou num agreste ficcional, todos irão conversar e interagir em carioquês. Talvez isso contribua para que o resto do país acredite que o Rio de Janeiro é realmente um lugar feito por Deus, sendo que a única culpa do Todo Poderoso deve ter sido derramar sua paleta de aquarela bem no meio da obra e tentar limpar com água raz.

A contagem regressiva do Candy Crush já terminou. Tenho uma vida preciosa, só para mim, e vou fazer valer a pena mas não neste exato instante porque me empolguei com coisas que com toda certeza não empolgaram vocês. Porque, veja você, outra dúvida me incomoda bastante: o humor atual. Ele não cabe em mim. Não serve. Eu não consigo, simplesmente. Nas novelas, em stand-ups, talk shows, MTV ou vídeos no Youtube: as pessoas dilatam seus ânus de tanto rir enquanto eu me pergunto onde vamos parar. Não pode ser tão engraçado assim. Vocês estão fingindo, não estão? É o que tem para hoje, nossa geração falhou, então vamos rir para não chorar. Aliás, o entretenimento como um todo tem a atenção que não merece. Mas estando nesse barco furado, acho que só nos resta aceitar para não sofrer tanto. Eu adoraria aceitar. Adoraria fingir ser burra para ser aceita por mais pessoas. Adoraria rir de vez em quando porque achei algo engraçado e não porque se divertir é uma obrigação.

Outra coisa que me aflige é a natureza humana. No que ela se transformou, não é mesmo? Estamos ficando civilizados demais. Todo mundo discute sobre política e feminismo agora, mesmo não entendendo porra nenhuma. O feiss está cheio de intelectuais que leram todos os livros do mundo e eles não gostam de feedback porque, aparentemente, apesar da inteligência estar se alastrando pelo planeta como a Peste Negra, só eles sabem do que estão falando e são os únicos com acesso as revistinhas da Folha de São Paulo. Ou seja, muito chato. Eu nem sei porque me preocupo com isso, afinal de contas. Ter internet, feiss e um aplicativo como o Candy Crush instalado em meu perfil é tudo do que preciso no momento.

5 de junho de 2013

Goethe! (2010)

Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo, igualmente, a fonte de suas desgraças?
— Os Sofrimentos do Jovem Werther, Goethe
Goethe, para mim, sempre foi um dos caras mais fodas. Apesar de ter lido mais artigos a seu respeito do que suas obras propriamente ditas, o admiro muito. Eu estava prestes a ler “Fausto” quando um artigo da revista Obvious me direcionou para outro caminho: “Goethe!”, filme inspirado em uma das mais importantes obras do escritor - “Os Sofrimentos do Jovem Werther”.

Retratado de forma semelhante ao jovem Mozart em “Amadeus”, Johann Wolfgang von Goethe é apaixonante desde sua primeira cena. Jovem, cheio de vida e reprovado em seu teste para o doutorado em Direito, ele se vê obrigado a seguir carreira enquanto seu único sonho é se tornar escritor. A história não tem tantos atrativos, a receita é a mesma de muitas usadas a exaustão no cinema, o que a deixa interessante é o fato de Werther ter sido inspirado em Goethe. Após este insistir em sua carreira (frustrada) de escritor, seu pai resolve mandá-lo para longe de casa em um trabalho como advogado. Lá, ele não só conhece seu melhor amigo como também se apaixona por Charlotte, uma garota que canta na igreja e tem muitos, muitos irmãos para criar.

Goethe em seu melhor.

Há muito tempo eu não incluia um filme na minha curtíssima lista de favoritos. “Goethe!” acabou com a monotonia. Está lá, bem ao lado de “Amadeus”, outro gênio da história. O romance não é exposto de forma, como posso dizer? Melancólica. Não é um filme meloso onde a mocinha não é ativa e o mocinho passa metade do tempo com lágrimas nos olhos sendo infeliz, ao invés de montar na porra do cavalo e galopar até sua amada, chamá-la na chincha e mostrar com quantos paus se faz um homem. Sim, estou falando dele: Mr. Darcy. Aquele cara chato, insosso, sem iniciativa. Eu sei que 80% das mulheres suspiram por ele e desejam ter um exemplar de sua pessoa, mas essas desavisadas não sabem o que estão perdendo.

O beijo mais lindo do cinema!

Charlotte, enquanto faz pão para sua família e não recebe cartas de seu amado, resolve ir à cidade ver o que tanto ele faz para não entrar em contato. “Vou comprar açúcar”, ela diz para sua irmã e pronto sai de casa para resolver sua vida! Ela vai atrás, não de um cavalheiro que passa metade da vida com as mãos cruzadas atrás das costas olhando pela janela, mas daquele que a pega pela cintura e faz amor nos gramados molhados de uma ruína medieval; um homem que após 48 horas de trabalho ininterrupto não dorme, monta em um cavalo com seu melhor amigo e ambos vão nadar no rio; que faz um teatro completo em papel para aquela que ama.

Sangue alemão corre nas veias de Goethe, enquanto em Mr. Darcy o coração bombeia o chá das cinco. Não a toa, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” foi uma obra que provocou uma onda de suicídios na Europa devido a linguagem profunda e o amor verdadeiro de seu autor. Jane Austen que me perdoe, seus fãs também, mas tratar a profundidade dos sofrimentos não é para qualquer um! Assistam “Goethe!”. Assistam! Eu imploro.