24 de maio de 2013

A arte de costurar - Parte III


O curso terminou na última segunda-feira após dois meses intensos de máquinas industriais, linhas, botões perdidos, peças “andando” misteriosamente sozinhas pela sala de aula e alguns outros empecilhos. Muita diversão, piadas e homens de uniforme também. Orgulho, quando cada um costurou até o fim sua própria peça de roupa, não faltou. Eu aprendi costura inglesa, o que é pesponto, como costurar uma barra invisível ou italiana, aprendi a pregar botões (!) e ainda de quebra ensinei à poucos como se usava determinado equipamento. Deu tempo de tudo - aprender, ensinar e redescobrir. Sexta-feira passada encerramos as atividades com uma festinha pessoal cheia de comes e bebes, que recompensou o lanchinho servido no lugar de um almoço digno durante dois meses de profissionalização.


Na segunda-feira, para fechar com chave de ouro, fomos todos convidados a comparecer ao Palácio do Bandeirantes (onde ocorreu o curso da minha turma) para receber das mãos de Lu Alckmin um diploma. O primeiro de minha vida, devo dizer. Politicagens à parte, a comemoração foi interessante. As portas do palácio foram abertas para todos nós, alunos e convidados, e eu aproveitei para fotografar um lugar o qual sempre quis conhecer por dentro; tenho essa queda por coisas velhas, como vocês devem estar cansados de saber.


Já no auditório, sentamos todos em cadeiras nomeadas e, pelo menos eu, acompanhamos um espetáculo típico de Pão e Circo. Música do momento (Michel Teló infelizmente incluso) bem alta para dançarmos e batermos palmas fora do ritmo, um animador de festas a la Sílvio Santos, tão brega quanto, fazendo perguntas sobre times de futebol e signos, e um vídeo apresentado por Dona Lu com aquele requinte de reeleições. Não que eu condene a prática; aliás, o que seria deles sem esta? Foi divertido, no fim das contas, e acho que é isso o que importa. Eu só me preocupava com o que seria de minha pessoa na hora da entrega de certificados. Como lidar com a pronúncia (sempre errada) do meu nome completo? É claro que o tio do microfone emperrou. “Vish, e agora?”, ele perguntou ao tentar ler meu nome, que seria o próximo da lista. “Te vira!”, eu respondi. Não, mentira. Pedi que ele me anunciasse apenas pelo apelido e todos se salvariam. A cara de alívio, vocês precisavam ter visto. Esse homem nunca se esquecerá de mim.


Intituladas “costureiras do Palácio”, eu e minha turma nos formamos felizes e cheias de ideias inovadoras tanto para o mercado quanto para nossas vidas. Foi um curso ligado no 220V, que tirou mulheres da depressão, da dependência de seus maridos, do ócio da aposentadoria e, no meu caso, tirou uma pedra do sapato. Não deixa de ser uma receita da política, não deixa de ser super básico, mas também não deixou a desejar! Saí dali sabendo coisas que jamais imaginei ser capaz de aprender, agora posso confeccionar minhas próprias roupas e escapar dos preços abusivos de lojas que vendem máscaras em grande escala. Posso, finalmente, levar meu ateliê para um outro patamar e fazer desse pequeno passo, um longo caminho. Obrigada às professoras, que mesmo não conhecendo este meu humilde espaço, sentem no coração toda a minha gratidão!

22 de maio de 2013

A arte de (não) secar o desodorante

Desde pequena tenho problema de sudorese (transpiração para os leigos, oui). Suo demais e não há desodorante que aguente o tranco. É incomodo, muito incomodo não poder usar blusas de determinadas cores porque a certa altura do dia estarei abrindo uma pizzaria, se é que você me entende. Mas eu não tenho vergonha do caso, assim como falo sobre meu ciclo de boa nas internets! Já tentei de tudo: cremes, roll on, aerosol, só faltou usar absorvente ou massa corrida. O mercado não anda nenhum pouco criativo nesse conceito de secabilidade apesar do esforço em nos vender até pérolas, prata e sal marinho em composições suspeitas.

Há anos que estou mudando de marca e embalagem sem sucesso algum. O aerosol me causa crises de asma porque empesteia o ambiente inteiro, saio com desodorante até nos cabelos. O creme toma um tempo precioso com essa história de passar na pele toda por igual e massagear e nossa, estou atrasada por causa de um desodorante, socorro. O roll on... Bom, esse eu nem preciso explicar. Acho que estamos de comum acordo quando o assunto é ficar com os braços em forma de cabide esperando essa meleca secar. E não seca. Você pode abrir a janela, ligar o ventilador ou pedir para alguém soprar - seu suvaco vai continuar molhado e gosmento.

Atrizes de sorriso perfeito levam uma vida dinâmica do barulho em comerciais, e eu nem preciso andar até a esquina da rua para me sentir desconfortável. “O problema está comigo, só posso ser anormal”. O problema é o meu suvaco antissocial e não a indústria que fabrica apenas dois desodorantes (masculinos) realmente eficientes.
A Proteste Associação de Consumidores avaliou 12 desodorantes em aerossol, sendo 5 femininos, 5 masculinos e dois unissex e constatou que nove deles induzem o consumidor a erro ao informarem que têm efeito por 24 horas. Apenas três desodorantes realmente resistem por um dia, por isso a Proteste encaminhou os resultados da avaliação à Anvisa para que os rótulos sejam reformulados.
Eu não sei mais como viver em um país tropical sem desodorante, com a axila grudando por culpa de produtos mentirosos e ainda por cima tendo de andar por aí com blusas pretas para não tornar pública a minha sudorese desenfreada. Não é sempre que dou atenção para as feministas de plantão, mas dessa vez sou obrigada a concordar: inventam canetas para nós, mas não dão um jeito nesses malditos desodorantes.

Se você souber de algum produto orgânico eficaz, por favor, me avise. Se conhece alguma mandinga, também estamos aceitando. Receitas, terreros, rezas, pular sete ondas, comer uva pulando num pé só, qualquer coisa será testada e devidamente anotada no meu livro de pesquisas científicas da S.H.I.E.L.D. em prol da liberdade feminina de correr à beira do mar com os braços abertos. Enquanto isso, Terry Crews faz uma demonstração de como os desodorantes funcionam para os homens e como deveriam funcionar para nós, mulheres. Até a próxima.

16 de maio de 2013

O Céu dos Suicidas (Ricardo Lísias)


Religião é um assunto muito complicado para mim. Até hoje não encontrei uma que me representasse por completo ou me fizesse sentir em casa ao entrar numa igreja/templo/seja o que for. Não tenho propensão a ser um cordeiro guiado por um velhinho de barba branca que carrega um cajado; dizem que é o mal dos inteligentes (deve ser piada). Até mesmo no Espiritismo, que andei pesquisando nos últimos meses, encontro coisas que não condizem com a minha forma de pensar. Talvez o problema esteja comigo, você deve estar achando. Nunca saberemos. Enquanto a verdade não aparece, eu fico em cima do muro.

“O Céu dos Suicidas” trata sobre o suicídio do amigo de Ricardo, o protagonista que leva o mesmo nome do autor (brega), um colecionador ou ex-colecionador, melhor dizendo, que acaba pirando com o enforcamento de André. O cara perde uns parafusos segundo a visão do autor, mas eu prefiro achar (assim como a mãe dele) que o único problema é a falta de umas boas palmadas para recolocá-lo nos eixos; é uma opinião que dá pano para a manga. Ricardo tenta seguir com sua vida após a morte de André, trabalhando como consultor de colecionadores já que as suas coleções foram desfeitas ao longo dos anós. Essa é a parte mais legal: suas explicações a respeito de filatelia, que coleções ele organiza e como é o trabalho de um colecionador de verdade.

O problema é que Ricardo dá umas surtadas de vez enquando, xinga pessoas através de emails mal educados ou sai pelas ruas correndo e gritando com as vistas escurecidas. Ele está conversando normalmente com um padre, por exemplo, e de repente começa a mandar o bom velinho “pedófilo” a tomar no cu. São trechos que dão nos nervos e no fim das contas não fazem grandes diferenças no enredo em geral, já que o tratamento dele não é exposto ao leitor. Ricardo chega a visitar um psiquiatra, dá tempo de xingá-lo também, mas nada além disso. O foco principal é a morte de seu amigo e a péssima maneira com que ele escolhei para contornar o problema.
Sentei-me em um dos bancos mais afastados do púlpito e em dois minutos caí no sono. Aos poucos, meu corpo foi se curvando até que acabei deitado. Não sei quanto tempo fiquei dormindo. De repente, senti que, bem de leve, a mão de alguém tentava me erguer. Com o pouco dos olhos que consegui abrir, reparei que um senhor muito idoso estava me colocando ajoelhado.
— É desse jeito, meu filho.
O livro levanta uma questão que me incomoda há bastante tempo: o suicídio do ponto de vista das religiões. Apesar de achar que o autor poderia ter trabalhado melhor no assunto e aberto uma discussão mais proveitosa pós-leitura, as cento e poucas páginas conseguiram provar que Ricardo Lísias (ambos, autor e personagem) tem uma visão parecida com a minha - preferimos não acreditar na punião cruel que sofrem aqueles que se mataram. Eu, particularmente, acredito em um Deus plenamente misericordioso incapaz de fazer qualquer espírito sofrer os horrores impostos pelas religiões. Ricardo chega a citar a visão espírita diante do suicídio e só pude concordar com ele: é difícil de reproduzir aqui o que eles acham ser a realidade post mortem.

Eu acredito ser desumano condenarmos um ser humano que não pode mais se defender por culpa de um último ato de desespero. Além de não ter recebido ajuda em vida, o pobre coitado suicida ainda deve lidar com uma condenação absurda e a recusa de serviços religiosos fúnebres; não somente ele é castigado como sua família sofre em dobro uma morte que poderia ser consolada. Veja, por exemplo, os casos mais conhecidos como Virginia Woolf, Florbela Espanca e Sylvia Plath. Por que mulheres inteligentes, que deixaram no mundo obras maravilhosas e fizeram o bem para muitos leitores, mereceriam o inferno ou seja o lugar que for após se matarem?
Quando a neta chegou, três enfermeiras estavam justamente tentando fazer a avó andar um pouco. Agarrada à boneca, ela conseguiu se levantar. Então, uma enfermeira explicou: — Vovó, coloca um pé à frente. — Mas ela não sabe o que é pé. Outra enfermeira se agachou e empurrou o pé esquerdo da avó. A neta, que tinha ido até lá porque jamais deixaria a avó sozinha, nesse momento encostou o rosto no ombro do André e os dois colocaram para fora a maior dor do mundo. Atrás, quatro ou cinco internos, todos com uma mania maluca ou alguma coisa errada na cabeça, também estavam olhando, sem saber se amparavam a neta e o André ou ajudavam as enfermeiras com a vovó. Essas pessoas, senhor Deus, merecem ir para o céu, mesmo que acabem se matando.
“O Céu dos Suicidas” tem valor por levantar uma questão ignorada pela sociedade, trazer como tema paralelo as coleções que também não tem muito espaço no Brasil, mas peca na simplicidade com que o enredo é construído e acaba varrendo ótimos argumentos para debaixo do tapete; assim como o mundo varre os cordeiros problemáticos para debaixo da terra.

12 de maio de 2013

A arte de costurar - Parte II


Outro dia uma menina da turma da manhã no curso conseguiu costurar o dedo na máquina reta. A agulha bateu três vezes e banhou a mesa de sangue deixando Stephen King no chinelo. Eu não presenciei a cena porque estudo à tarde, mas quem estava presente ilustrou desmaios, retalhos ensanguentados e muitos bombeiros bonitos salvando a aluna em perigo. Não, ela não perdeu o dedo (só porque a agulha não pegou o osso) e também não está de licença. No dia mesmo, ela preferiu continuar no curso ao invés de ir para casa. Depois dizem que costurar não vicia.

Começamos, finalmente, a mexer na galoneira e fizemos algumas peças de malha. Assim, ainda estou cá a pensar para que raios uma máquina daquele tamanho para fazer apenas dois tipos de costura - e ainda por cima só em malhas. Taí uma coisa que deveriam rever: o tamanho das máquinas. Eu sei que são industriais, produzem muito mais rápido e aguentam o tranco de uma fábrica, mas continuam grandes demais para poucas funções. Só para colocar a linha (ou linhas, no caso), a gente demora alguns séculos.

Juro que é só isso que uma galoneira faz.

Agora estamos fazendo as roupas do bazar. Apesar do medo da agulha assassina me fazer de próxima vítima e o estresse em produzir peças perfeitas, acho que estou me saindo bem. Terminei uma saia e comecei a fazer uma calça social sem ter derramado uma única lágrima. Já não posso dizer isso de outras alunas, que semana passada se desentenderam. Sabe como é, trinta mulheres, quinze máquinas e apenas uma galoneira e uma caseadeira. É lógico que mais cedo ou mais tarde acabaria em briga. O curso é gratuito, então é óbvio que depende do aluno aprender, ter atitude e também compreensão, pois trabalhar em equipe é fundamental. Algumas pessoas acham que estão ali sozinhas, ou que tem mais direitos do que os outros porque pagam impostos, ou que não estão nem aí, simplesmente vivendo na Lei de Gerson. É algo comum de acontecer quando a classe média alta se envolve em programas do governo. Muitas madames da minha turma podem pagar um curso com folga, mas ficam atrapalhando o rendimento de quem está ali para ter uma profissão.


Mas como eu disse para uma das professoras: estou me dando bem, faço o que deve ser feito e aprendo o que fui aprender. A minha saia ficou melhor do que eu esperava, para ser sincera, e vejo que a calça não será um bicho de sete cabeças. Se eu quisesse, já poderia confeccionar um vestido para mim se não fosse a falta de tempo e a máquina do século retrasado que temos aqui em casa (desculpa, mãe, mas depois de mexer em uma reta industrial jamais serei a mesma). Tirei uma foto bem porca da saia (acima); foi o que deu para fazer porque não podemos trazer as peças para casa. O próximo passo místico são os botões da calça, que também usam uma máquina gigantesca - caseadeira industrial - e com o trabalhão que ela produz - só que não.

O próximo passo - caseadeira!

8 de maio de 2013

Cinco lugares que quero conhecer

Antes, eu achava esse negócio de viajar o mundo um tanto blasé. Que mané conhecer lugares diferentes! Se eu pudesse pelo menos passear pelo bairro sem me perder já estaria no lucro. Hoje, eu mudei de ideia. Depois de conhecer um pouco do estrangeiro, aprendi que existe muito mais do que podemos imaginar. Descobri que o mundo existe para ser desbravado e, oras, estamos aqui para isso. É claro que o meu dinheiro só me permite viajar através do Google Earth ou do Google Maps, mas essas humildes economias não me impedem de sonhar. Quem sabe, então, um dia eu vá conhecer...

Auroville

Ainda estou em uma fase indiana, assistindo filmes de Bollywood, requebrando o pescoço com músicas felizes e também lendo livros a respeito da vida na Índia. Encontrei o livro “Tesouros da Índia”, de Maurício Andrés Ribeiro, dando sopa na internet e resolvi ler só por curiosidade. Dentre as páginas (riquíssimas em conteúdo) Maurício cita uma cidade senão excêntrica, pelo menos muito curiosa: Auroville. Fundada através dos princípios da ioga de Sri Aurobindo, a cidade reune mais de mil pessoas em prol de uma humanidade unida. É uma viagem surreal através da espiritualidade e de uma esperança sem limites na paz mundial, mas fiquei morrendo de vontade de conhecer um lugar onde ainda acreditam que podemos dar certo! Saiba mais em Auroville.org.

Finlândia

“Ain, só por causa do The Rasmus. Essa poser”! Não sei vocês, mas eu não vejo problema algum em também tirar uma foto nas escadarias de Helsingin tuomiokirkko e apertar a mão do presidente ou do primeiro-ministro na festa de independência. Só que o meu foco principal são as igrejas Petäjävesi (foto) e Kerimäki, ambas cheias de histórias e construídas em lugares e de jeitos diferentes. A Petäjävesi, por exemplo, é Patrimônio da Humanidade da UNESCO e...
Toda a construção é feita de pinho natural, somente um pouco de cor vermelho-ocre em seu interior, graças a uma tradição medieval. As paredes são guarnecidas das iniciais gravadas dos carpinteiros que participaram da construção.
— Wikipédia
Um dia, eu sei, vou me casar nela. Aliás, um dia terei dinheiro para viajar a Finlândia de cabo a rabo, passar uma noite gelada mas feliz sob o teto da Aurora Boreal, comer muito salmão, falar muito palavrão, assistir a um show da minha banda favorita em sua terra natal e você vai ficar aí com dor de cotovelo.

Não fica triste, não. Eu trago uma lembrancinha.

Vale do Loire

Lá estava eu lendo Clarice Lispector, “A Descoberta do Mundo”, quando no conto “Reconstituição histórica de uma dama nobre” ela menciona esse tal vale aí. Fui pesquisar porque ela pode não ser minha escritora favorita, mas reconheço o bom gosto. Dei de cara com o Castelo de Chenonceau e pronto, só faltava carimbar o passarpote. Quem me conhece sabe que tenho um pé atrás com contos de fadas, Disney e essa lavagem cerebral toda, porém, os castelos em Vale do Loire quebram as pernas de qualquer revoltada sem causa. E como não sou boba já logo escolhi o supracitado, que tem um barraco entre Diane de Poitiers e Catarina de Médicis, babado fortíssimo! Vai render muitas fotos lindas em um álbum de dar inveja ilustrando uma viagem com certeza inesquecível.

Floresta Negra

É uma cordilheira que fica na Alemanha e leva esse nome por causa do tom da floresta. Ela é mencionada na Revista Bula em um artigo sobre o escritor Hermann Hesse, que nasceu lá. O artigo é ótimo e explica melhor do que eu. Meu pai tem esse sonho de me ver voltando à terra natal da família, visitando Bonn - onde meu avô nasceu - e etecétera e tal. Não tenho a menor curiosidade de conhecer as grandes cidades como a maioria dos turistas, o meu desejo é passar um dia inteiro desbravando a floresta mais linda que já vi.

Flåm

Situado na Noruega, é um íngreme vale que oferece passeio de trem. Veja você, Escandinávia, trem, floresta, nórdicos, salmão: o que mais eu poderia querer?! Se porventura eu realmente me casar em Petäjävesi (e eu vou!) quem sabe Flåm seja o lugar perfeito para uma lua de mel. Esse meu lado Sheldon Cooper, que adora trens, só me leva para os lugares mais mágicos do mundo!

5 de maio de 2013

Cirque du Soleil: Corteo

Eu não achei que haveria uma segunda vez, mas cá estou para contar que visitei meu habitat natural no parque Villa-Lobos de novo. Agora, para curtir o espetáculo Corteo, que eu jamais imaginei que visitaria o Brasil algum dia. Foi uma surpresa quando meu namorado chegou em casa com um ingresso para mim! Sinceramente, eu tinha me esquecido de que eles estavam em São Paulo; sabe como é, quando a expectativa de visitar o Cirque é mínima, a gente procura não ficar sabendo. Por isso, meu coração quase parou ao me lembrar que o Corteo estava aqui e ao mesmo tempo ter um ingresso só para mim.


O palhaço imagina o seu próprio funeral, numa atmosfera de festa e observado por amáveis anjos. Contrastando o grande e o pequeno, o ridículo e o trágico, a magia da perfeição e o charme da imperfeição, o espetáculo evidencia a força e a fragilidade do palhaço, mas também a sua sabedoria e ternura, para ilustrar o aspecto humano de cada um de nós. A música, ora lírica, ora divertida, transforma Corteo numa festa intemporal onde a ilusão brinca com a realidade.
Além de italiano, o espetáculo é de uma doçura sem igual. Uma mulher que estava sentada ao meu lado, assim que um grupo de artistas entrou e passeou entre a plateia, disse para mim que dava uma dó sem tamanho não poder tirar fotos. Eu só pude concordar. O celular, apesar de ter uma câmera de resolução horrível, ficou deixando bem clara sua presença na minha bolsa indignado por não poder registrar tantas cores, caretas e momentos indescritíveis. Meu namorado provocou meu lado circense dizendo para tirar uma foto da cortina de abertura e colocá-la na área de trabalho do notebook, mas é claro que o ambiente estava escuro demais e o resultado foi decepcionante. Só que...

O que seria de nós sem a internet? (clique para ampliar)

Não dá para usar como papel de parede, mas pelo menos vocês tem uma amostra da beleza de Corteo. Se não fosse a segurança por todo canto, eu teria levantado sem cerimônias e tirado centenas de fotos; principalmente de Valentina, a anã com voz de bebê que foi para a plateia de balão e interpretou Julieta, na peça improvisada “Romeu e Julieta”. Por outro lado, eu entendo essa preservação dos direitos autorais e também da segurança dos artistas, já que não são todos que tem o bom senso de desligar o flash da câmera. No fim das contas, tirei fotos do ingresso (clichê), das tendas (o básico) e também de algumas partes técnicas da montagem porque eu sou assim mesmo, desculpa.


Bem melhor do que Varekai, Corteo me fez pensar que a arte circense é inesgotável. Existem inúmeras formas de fazer circo e a companhia canadense Cirque du Soleil aproveita toda a criatividade disponível. Sim, me arrancou lágrimas como da última vez que fui assistir, e fica aquela ideia fixa de trabalhar na equipe de qualquer maneira nem que seja limpando os banheiros químicos ou vendendo pipoca e água gelada por R$60 (true story) e capinha de celular por R$115 (não, o celular não vem junto). Às vezes ficar na plateia aplaudindo não é o bastante. Por mais que eu tenha ganhado uma piscadela de um malabarista (fiquei em choque e comecei a rir na cara do coitado), fazer parte é a única coisa que acalma um espírito circense como o meu.

Balde de pipoca, que não é de ouro apesar do preço, e caneca para a coleção!

Corteo mostrou que a morte pode ser bonita. Em um italiano misturado com português-portunhol e inglês, me encontro novamente em plena felicidade por ter vivido essa experiência. Eu sei que não são todos que tem condições de pagar um ingresso para o show, mas vale a pena assistir no Youtube ou até comprar o DVD. Com um palco de 360°, figurinos impecáveis e a morte de um palhaço representada com a magia do circo, o espetáculo valeu cada centavo ali - há pouquíssimos centímetros do palco!