27 de abril de 2013

O Teorema Katherine (John Green)

Na realidade, eu tirei uma nota C menos em álgebra, apesar dos esforços heroicos do meu professor de matemática do segundo ano do ensino médio, o Sr. Lantrip (...)
— John Green
Tudo leva a crer que John Green e Markus Zusak um dia disputarão a atenção dos leitores assim como Claudia Leitte e Ivete Sangalo, hoje, disputam a atenção dos desocupados. Ambos estão ali, quase empatados, mas receio dizer que o senhor Green jamais ultrapassará o talento ilimitado do senhor Zusak. É um barulho com o qual vocês terão que dormir. Pode parecer pretensão de minha parte... e é mesmo. Então por que raios eu leio John Green? Porque, apesar dos pesares, o cara é legal. E também porque o Zusak o indicou uma vez e isso, para mim, valerá para o resto da vida. Sabe como é. Discernimento e Markus Zusak não ornam na mesma frase. Daí que eu li O Teorema Katherine só para ver qualéquié desse amigo da onça.

No começo, eu imaginei que a dupla de amigos Colin e Hassan viveriam altas aventuras nas estradas dos EUA; mais para Crossroads (2002) do que para Wolf Creek (2005) porque estamos lidando com YA, afinal de contas, e as minhas expectativas permanecem adestradas. Só que não. Eles fazem sim, uma viagem após Colin terminar com Katherine XIX, mas ao invés de atravessarem o país e fazer da criação do teorema uma verdadeira brainstorm, ambos se instalam na casa de Hollis e sua filha Lindsey - que moram em Gutshot, uma cidade cheia de caipiras que é sustentada pela fábrica da família delas. Isso, e o fato de Colin não parar de relembrar e falar sobre suas dezenove Katherines, fizeram com que o livro perdesse duas estrelas em minha classificação.

Não posso dizer que foi uma leitura chata. Longe disso! Hassan é o meu novo melhor amigo literário e já comecei uma busca fervorosa para encontrar qualquer clone dele na vida real. Os diálogos dele, ou qualquer cena em que estivesse envolvido, foram os únicos que me fizeram rir alto. Colin, por outro lado, é um prodígio (um projeto de gênio?) egocêntrico e frustrado que, como todos dessa safra, tem lá seus problemas sociais e suas manias de dizer tudo ao pé da letra. Ele, simplesmente, não se diverti nunca, não se envolve com nada e seu único trabalho no livro é falar sobre suas ex namoradas e criar o Teorema Fundamental da Previsibilidade das Katherines que, se tiver sorte, explicará a probabilidade de uma garota terminar o relacionamento - tanto porque ele quer ser um gênio quanto por ter medo de ficar sozinho.

Acho que valeu a pena ler o livro só pela grande sacada do autor, que ao final ainda adiciona um apêndice com explicações matemáticas feitas por Daniel Biss. Não é qualquer um que faz isso, tenho que admitir. Confesso que ainda não li o apêndice porque vamos combinar! Acabei de passar por um livro de 300 e tantas páginas, matemática não é o meu forte, e prefiro esperar a história ser digerida antes de ter uma aula dessas. Contudo, pela leitura dinâmica que fiz, o trecho promete grandes revelações (nada que vá acrescentar mais uma estrela na classificação, todavia).

O final foi, digamos, decepcionante. Previsível, talvez. Se é que podemos criar algo muito diferente do lugar-comum em YA. Tudo continua de forma rápida e concisa, os laços vão se resumindo em trechos curtos e a moral demora além do confortável - são umas três páginas com Colin tirando suas conclusões repetitivas e óbvias. Algumas coisas, para variar, ficaram em aberto, mas isso deve ser normal também. Não chega a ser um defeito. De qualquer forma, o trecho em que eles vão caçar javalis vale pelas partes monótonas e pela mimimice interminável de Colin que é sim, insuportável e deveria aprender que... Badalhoca!
(...) E Colin pensou: Porque, tipo, digamos que eu conte a alguém da minha caça ao javali. Mesmo sendo uma história boba, o ato de contá-la gera uma mudança pequenininha na outra pessoa, da mesma forma que viver a história causou uma mudança em mim. Infinitesimal. E essa mudança infinitesimal se propaga em ondas - sempre pequenas, mas duradouras. Eu serei esquecido, mas as histórias ficarão. Então, nós todos somos importantes - talvez menos do que muito, mas sempre mais do que nada.

21 de abril de 2013

A arte de costurar - Parte I

Comecei a fazer um curso de corte e costura. Pois é, nem eu vi isso acontecendo. Minha mãe encontrou aulas gratuitas oferecidas no Palácio dos Bandeirantes e resolveu que não seria mais digna da luz do sol se não me arrastasse a qualquer custo para aquele lugar. Resultado: ela estava certa e eu estou realmente gostando de aprender a fazer minhas próprias roupas. Uma parte de mim não quis dar o braço a torcer de jeito nenhum: “Ok, mãe. O curso tem seu valor. Satisfeita”? Mas com o passar das semanas, me dei conta de que já estava a ensinando a usar uma galoneira. Veja você. Eu ensinando minha mãe, a costureira, a usar um touro daquele tamanho. São as controvérsias da vida.


Esta é uma reta, digam “Olá”! Da primeira vez que usei uma achei que ela me costuraria junto com o tecido; sua velocidade é de assustar, realmente, mas pelo menos eu não era a única novata na sala. Os gritinhos foram a parte mais interessante das primeiras aulas. Minha mãe tem uma Singer do século retrasado, o que nunca me animou para começar a aprender alguma coisa sobre costuras, por isso, quando acelerei uma reta industrial, a sensação foi de estar descendo a Rua Augusta de Calhambeque com o Roberto Carlos ao volante fazendo “bip- bip”. Não sei como descrever esse sentimento de outra forma. Os primeiros exercícios - que logo de cara achei coisa de jardim de infância - se mostraram complicados demais para quem se achava o AS da coordenação motora.


Olhando parece muito fácil, mas - continuando com as metáforas automobilísticas - é como um motoqueiro fazer balisa com um ônibus triarticulado. Sabe, não vai dar. A máquina, essa peça criada por seres humanos e que funciona somente por nosso comando, simplesmente é incapaz de acompanhar meu raciocínio. O acelerador e meu pé são duas peças que não se encaixam. Demorou um bocado para que um entendesse as limitações do outro. Foram muitas costuras tortas, panos comidos, desmanches de linha (e em lágrimas) para que se encaminhasse a um final feliz.


Ainda falta um mês (o curso é intensivo e tem apenas dois meses de duração) para que essa experiência inesperada termine e é com surpresa que me vejo capaz de produzir peças completas. Estas, da foto acima, são apenas pilotos. As peças “de verdade”, que serão vendidas em um bazar no fim do ano (medo) serão iniciadas agora, nas próximas semanas. Sim, estou apreensiva. Apesar de termos duas professoras em sala, ainda acho que falta algo. Talvez sempre faltará. Contudo, se enfrento uma galoneira na vida sem medo de me jogar em queda livre, o que vem por aí não passará de pura diversão. Aguardem as cenas dos próximos capítulos!

Já fez muita gente suar frio.

17 de abril de 2013

As cinco grandes invenções

Tirei a ideia do blog da Mayra, o A Casa de um Alien, que se você não for visitar agora estará perdendo uma grande chance de ler textos realmente bons. Ela postou no blog as cinco melhores invenções da humanidade de acordo com o seu ponto de vista e eu resolvi fazer o mesmo, pois se hoje dou graças à Deus por ter nascido em tal época, a culpa é da história. Sinceramente, a Idade Média era linda... para os reis. E olhe lá. Enfim, eis as cinco invenções mais importantes para mim:

#1 Antroposofia
A Antroposofia, do grego "conhecimento do ser humano", introduzida no início do século XX pelo austríaco Rudolf Steiner, pode ser caracterizada como um método de conhecimento da natureza do ser humano e do universo, que amplia o conhecimento obtido pelo método científico convencional, bem como a sua aplicação em praticamente todas as áreas da vida humana. O índice da home page deste site (em www.sab.org.br) dá uma idéia dessas áreas e da abrangência da Antroposofia.
— Sociedade Antroposófica Brasileira
Eu adoraria explicar o passo a passo dessa filosofia, mas acho que as pessoas aprendem muito mais quando pesquisam por si mesmas - o que também é um indício de que elas querem aprender. Clicando no site da SAB você encontrará todas as informações sobre antroposofia, assim como do seu criador, o fodão do Steiner. Tenho me sentindo mais leve e melhor desde que comecei a ler seus livros e me aprofundar no assunto. Você se sente cuidado e compreendido individualmente ao mesmo tempo em que aprende a conviver melhor na sociedade. De todas as coisas que a antroposofia me trouxe, a mais valiosa foi a Pedagogia Waldorf, que entrará muito em breve no meu currículo.

#2 Cinema

Eu amo filmes. Confesso que às vezes tenho mais paciência com eles do que com os livros. Tudo bem que o que começou mudo e incolor hoje se perdeu em explosões e diálogos insípidos, mas ainda assim é a sétima arte e todos deveriam dar valor. A começar, por exemplo, deixando crianças de colo em casa e não levá-las para assistir Os Vingadores. Infelizmente também inventaram a falta de noção, e esse vírus de laboratório é contagioso. Eu não sabia qual foto escolher para ilustrar este tópico, mas tinha certeza de que seria algo do Buster Keaton - o mestre.


#3 Fotografia

Se não fosse ela, até hoje estaríamos desejando que nossos olhos fossem capazes de guardar os momentos (se você ainda faz isso, lamento, mas precisa sair melhor equipado de casa, benhê). Ok, eu tenho essa fobia de tropeçar na rua, ou coisa que o valha, desde que os celulares com câmera se popularizaram. Privacidade é quase um mito nas cidades grandes. Por outro lado, não teríamos registrado grandes acontecimentos da história, que ficariam perigosamente a cargo da imaginação de cada um. Eu, que morro por uma foto circense, sei o que estou dizendo. Odeio tirar fotografias, mas não posso negar que amo colecioná-las e vê-las quando visito alguém, vou a um museu, ou pesquiso arquivos na internet.

#4 Piscina

Há controvérsias. Por exemplo, aquele buraco no fundo da piscina, que dão várias funcionalidades para ele, mas na verdade é uma passagem para o submundo. Eu não gosto dele. Porém, é o único perigo que a piscina me oferece, ao contrário do oceano - esse lugar inóspito e traiçoeiro.Tendo uma piscina, não preciso enfretá-lo mesmo que às vezes seja inevitável. Algumas pessoas acham que tenho esse medo por não saber nadar, mas lhes digo que na verdade é questão de bom senso. Você não se joga numa coisa onde o fundo não é visível e seus pés não conseguem tocar, e cujo fim é inalcançável aos olhos. Isso não é sensato. Numa piscina, pelo menos, você sabe com quem está se metendo. Nada do que um par de boias do Bob Esponja não possa resolver. Mob Dick e Davy Jones comprovam minha teoria.

#5 Papel higiênico
Antes de sua invenção, que data do século XIX, as pessoas costumavam fazer a sua limpeza com folhas de hortelã, água e por vezes sabugos de milho. Diz-se que o papel higiênico foi inventado na China, em 875, mas a invenção também já foi atribuída a Joseph Gayetty, de Nova Iorque, EUA, que a teria concebido em 1857.
A Mayra chegou a mencionar o absorvente interno em seu texto e eu não lhe tiro a razão. É realmente um trocinho que salva a lavoura. Mas para ser justa com toda a categoria, o papel higiênico não poderia estar de fora de nenhuma lista. Veja bem, sabugo de milho não é um método agradável. Cá entre nós - faz de conta que ninguém está nos lendo -, como funcionava isso?! Pensei em comentar "intrigante", mas se com o milho é inimaginável, com o trigo é praticamente impossível.

13 de abril de 2013

Saawariya (2007)


Às vezes eu passo pelo o que chamo de fases. Não como a lua (porque essa comparação seria brega), mas quando me interesso por um assunto pesquiso tudo o que for possível para saber cada vez mais a respeito dele (como toda boa geminiana). Teve a fase grega, quando saí por aí lendo mitologia e aprendendo sinais obscenos. Teve a fase alemã, quando comecei a ler filósofos, fiquei com medo do Nietzsche e descobri o Goethe e o Steiner. Ano passado fui atacada pela fase indiana. Baixei vários ebooks sobre a Índia, religiões, costumes, também músicas e filmes. Foi aí que conheci o famoso Bollywood, tão falado mas que nunca mereceu a minha atenção porque, veja você, eu tinha preconceitozinho. Filme indiano, para mim, era chato, sem pé nem cabeça e super esquisito com aquelas danças fora de hora. Vocês se lembram, não é? Não gosto de musicais.

Só que com a chegada da fase indiana, que como as outras caiu de paraquedas, eu resolvi experimentar. Até hoje não sei qual foi o meu critério para escolher meu primeiro Bollywood, nem tenho certeza se tive um, mas acabei acertando. Optei logo de cara por um filme com quê de fantasia e uma fotografia espetacular: Saawariya.

Sakina é uma moça serelepe que vive em uma vila de dar inveja; com um lago que se atravessa por uma ponte simpática e um prostíbulo cheio de gente supimpa. Fiquei tão abobada no começo com o cenário que me confundi: achei que Gulabji era a personagem principal, mas depois de vê-la dançar e comparando suas vestes com a de Sakina, descobri que ela era a prostituta. My bad! Mereço um desconto por ter sido meu primeiro Bollywood. São muitas informações, e mais a legenda, para quem estava acostumada aos filmes europeus e americanos. Estes, aliás, nunca mais serão os mesmos. Desde que assisti Saawariya tudo tem sido monótono.

O filme começa com um... projeto de rockstar? Chegando à vila. Logo ele descobre que todas as noites uma moça debaixo de um guarda-chuva fica na ponte a espera de alguém. É assim que Raj e Sakina se conhecem. Infelizmente, Raj entra na friendzone e acaba ajudando Sakina com o que se torna um mistério: quem ela espera? Apesar de estar apaixonado, ele fica ali, passível, a ouvindo lamentar sua solidão. É impossível contar mais do que isso sem quebrar o encanto da história. O bom do filme é esperar na ponte junto com ela e reprovar (ou aprovar) as atitudes de Raj contra (ou à favor) este mistério. Mas digo uma coisa: tem dança, tem música, tem muitas cores e tem homem pelado!


O final não foi lá essas coisas porque, convenhamos, a Índia vive em um estado de pureza. Não estou reclamando! É exatamente esta uma das melhores coisas do cinema deles - não tem apelo. Entretanto, eu ainda estou acostumada a um tipo diferente de contar histórias. O que é uma pena. Quem dera eu já pudesse ser capaz de aproveitar 100% de uma arte pura e inteligente. De qualquer forma, comecei bem a minha caminhada desta nova fase! Confesso que fiquei com medo de topar por aí com um Alluda Majaka da vida...

3 de abril de 2013

Um café frio com um pingo de saudade, por favor

Do que trata este texto? Dornach. Por quê? Porque estou com imensas saudades de lá. Para quê? Para que vocês saibam que existem lugares no mundo que fazem a vida valer a pena. Não, não que eu vá tentar convencer alguém de alguma coisa - o meu ponto de vista é míope. Que merda, eu só quero conversar!


Faz quatro anos que voltei de Dornach e apesar de clichê, cara, parece que foi ontem. Foi o tipo de coisa que nos acontece sem o menor aviso prévio - eu nunca imaginei que um dia moraria na Suíça, nunca se passou pela minha cabeça que existia um lugar chamado Dornach levantado, praticamente, pelas mãos de Rudolf Steiner. Como diria Hassan (do livro Teorema Katherine): "o mundo é um enorme globo de neve". Deus gosta de chacoalhá-lo às vezes e ver a neve cair sobre nós. Sim, caro leitor, a vida é uma caixinha de surpresas.


É inútil olhar as fotos e tentar voltar à atsmofera daquele lugar. Por outro lado, nada me impede de fazer a promessa de retornar qualquer dia desses. Pode parecer pretensão de minha parte (e sempre é), mas é por causa de lugares como esse que eu não entendo a fissura pela fria Paris e a poluída Londres. As pessoas não sabem procurar. Ou tem medo de encontrar? Eu faço um apelo, enfim: deixe Dornach entrar!