29 de março de 2013

Memórias de um Amigo Imaginário (Matthew Dicks)


Bom, eu não sei exatamente o que esperava desse livro. Acho que vivo numa expectativa de ler algo inovador e bem escrito, mas esqueço que as pessoas não estão aí para supri-la. Eu imaginei que seria uma história ao menos aceitável e que faria um pouco (só um pouquinho) de sentido. Sabe, nem todo mundo tem que ser um Markus Zusak na vida, só que o meu cérebro custa a entender isso. Um problema, realmente. Vivo frustrada. "Memórias de um Amigo Imaginário" não é um livro péssimo, é uma leitura para crianças. 

É muito estranho ser um amigo imaginário. Não dá para ficar sufocado ou doente; é impossível cair e quebrar a cabeça ou pegar uma pneumonia. Só o que pode matar um amigo imaginário é o seu amigo humano não acreditar mais nele. E isso é bem mais frequente do que todas as sufocações, quedas e pneumonias juntas.

É injusto de minha parte resenhar um livro infantil. Não tem como gostar de uma história dessa. Mas acabei lendo por curiosidade e, como já expliquei, por culpa das altas expectativas Zusakianas. Em cada esquina haverá um "A Menina que Roubava Livros" e não adianta tentar me convencer do contrário. Max Delaney, todavia, não tem a ver com o Max Vandenburg. Na verdade, ele é ninguém menos do que Sheldon Cooper quando criança. Talvez vocês tenham o reconhecido também sem ligar o nome a pessoa.

Quem narra a história é o amigo imaginário de Sheldon Max Delaney, o Budo. No início, ele nada faz além de descrever como seu amigo é, o que ele pensa e descreve sua rotina escolar. Ao invés de tentar descrevê-lo, vou simplesmente indicar o seriado The Big Bang Theory, para quem não conhece. Ele e Sheldon são a mesma pessoa. Insisto. Budo, por outro lado, mais parece um espírito do que um ser imaginário - pensa por si só, tem suas vontades, uma vida paralela enquanto se afasta do seu amigo humano e é egoísta. Budo passa o livro inteiro preocupado com seu amigo não por gostar dele, mas por medo de desaparecer caso alguma coisa aconteça à Max. Quando tem oportunidade pergunta a outros amigos imaginários se sumir dói, assim como fez quando Graham (amiga imaginária de uma garota que estuda na mesma escola que Max) começa a ficar transparente enquanto a amiga humana a esquece. Ele não está triste por perder uma amiga, mas com medo do que ela sente e que ele poderá sentir um dia quando for sua vez de ser deixado de lado.

Daí, o que era para ser um livro infantil cheio de aventuras do barulho, se tornou num romance policial. Max é levado da escola por uma de suas professoras e simplesmente desaparece sem deixar vestígios; somente Budo sabe quem o levou e onde pode estar, mas não é capaz de ser ouvido por ninguém. É nesse ponto que começo a fazer uma leitura dinâmica porque a história fica arrastada. São vários capítulos sobre a mesma coisa e sem finalidade. Para tomar uma atitude, é preciso que Budo resolva visitar um hospital infantil e tomar na cara uma lição de moral de uma outra amiga imaginária sem pescoço chamada Summer, que não consigo parar de imaginar assim:

Não sei, cara. Não sei!

Segue uma corrida contra o tempo para o heroi salvar seu melhor amigo e estamos então dentro da Sessão da Tarde. Não posso contar tudo o que se passa porque isso seria spoiler, ou melhor, uma tortura para vocês. Assim, comecei o texto dizendo que esta é uma história para crianças e elas devem ter achado sensacional, mas para os adultos exige um esforço supra-humano. Não seja enganado pela classificação YA. Deite-se confortavelmente ao lado do seu filho/sobrinho e tenha muita paciência enquanto lê "Memórias de um Amigo Imaginário" para ele dormir. E tenha cuidado para que não seja você a cair no sono.

24 de março de 2013

Dez coisas que odeio

Indicado pela Mariana, esse meme é perfeito para o meu estado de TPM somado ao meu ódio por ter deletado a pasta mais importante do Velho Oeste. Não, não vou esquecer disso assim, do dia para a noite. Vai levar um tempo até que o meu organismo absorva o veneno. Falando nisso, vou evitar o lugar-comum na minha lista e simplesmente dizer que "deletar o que não deve" é item essencial, que abre o desfile. A ordem não significa nada - ódio não tem hierarquia, né?


1. Telefone
Telefones em geral. Eu odeio falar ao telefone, odeio quando ele toca e normalmente odeio quem está ligando porque quem tem o meu número sabe que eu não gosto de ligações. Sou uma espécie de Violet Crawley contemporânea. Para que telefone? Por que inventaram isso? Nós estávamos tão bem sem ele. Antes, as pessoas precisavam sair do conforto de suas casas para encher o saco dos outros. Hoje, não. Hoje elas pegam o telefone - seja em casa ou na rua - e nos penduram por horas a fio sem ter nada de útil a dizer. Veja você, não gosto de conversas nem cara a cara, olhando nos olhos, imagine através de fios e tecnologia barata! Desenvolver assuntos não é o meu forte, para ser sincera, e se não sei quais são as reações do meu interlocutor fica mais complicado administrar a conversa. Ao contrário do que reza a lenda, o telefone não foi inventado para nos aproximar.

2. Cinismo
Vamos ver se eu consigo exemplificar. As pessoas tem essa mania desgraçada de dizerem: não precisa, eu faço. Não precisa vir para cá, eu estou bem. Elas nunca precisam de nada mesmo passando 12hrs do dia reclamando o contrário no tumblr. Quando perguntamos, está tudo bem. Quando viramos as costas, as flechas acertam em cheio. Daí que isso acontece muito comigo. Eu me ofereço, insisto após uma negativa, e após três e também após quatro, que é o meu limite de generosidade. Ninguém quer, Ninguém está contente assim. Passam uns meses e o cerumano me vem com conversa fiada de que "você nunca faz nada, você não foi me acompanhar a tal lugar, você não estava lá, você não quis"... Se argumento dizendo que perguntei, que ofereci, que quase dei a bunda, o cerumano solta um: "Mas não tem que perguntar, tem que fazer". Ou seja, por que a pessoa negou ajuda?

a) porque é orgulhosa;
b) para ter do que reclamar a meu respeito mais tarde;
c) guerra psicológica;
d) um comportamento social que não me foi ensinado;
e) as pessoas ainda acham que somos o que elas querem que sejamos, assim como temos bolas de cristal para adivinhar o que elas pensam e que devemos estar apostos como bons lacaios para os servir.

3. Que apontem o dedo para mim
Se você quiser me deixar nervosa, seja numa discussão ou numa simples brincadeira, aponte esse seu dedo indicador gordo e sujo para a minha cara. Eu vou perder a compostura. É uma das muitas frescuras que me dou o prazer de ter. Acho falta de respeito, uma atitude que se deve ter com cachorros quando eles fazem xixi nos móveis da casa. Sabe, eu mijo onde eu quiser.

4. Gente burra
Veja bem, existem dois tipos de burrice: o primeiro é aquele com o qual nascemos e depois aos poucos nos desfazemos dele no período escolar. Não tenho nada contra isso, já que ninguém nasce sabendo. Aliás, não há nada melhor do que você querer aprender o que desconhece e assumir as respostas que não tem. O meu problema é com o segundo tipo: a burrice opcional ou por falta de atenção, digamos assim. Cerezumanos que são obrigados a fazerem repetidas vezes a mesma coisa porque não conseguem acertar logo de primeira; quando é necessário repetir a mesma frase ou explicação mais de duas vezes porque a cabeça do sujeito está superlotada de vento; a inexplicável incapacidade de aprender algo simples e por aí afora. Não tenho paciência e não vejo porque tê-la.


5. Abóbora gratinada
Era o meu prato favorito até eu fazê-lo em um dia que estava com febre. Talvez uma coisa não tenha nada a ver com a outra, mas não recomendo que comam creme de leite com abóbora num estado deplorável de gripe. Fiquei tão enjoada, que desde então não consigo nem olhar para esse prato. Ele continua sendo bom, nada mudou, e tenho esperanças de voltar a gostar dele. Mas por enquanto faz meu estômago dar voltas.

6. Não saber o que escrever
Como agora. Travar no meio de um texto é algo que me tira do sério porque na maioria das vezes as palavras estão prontas, só esperando. Mesmo assim não consigo digitá-las por alguma razão desconhecida.

7. Aparelhos com defeito
Eu sou do tipo que acha assim: se vai fazer, faz direito. Não dou brecha para o mal feito. Se você tem uma puta multinacional cheia de escravos trabalhando em condições perigosíssimas, por favor, fabrique um celular que pelo menos não trave o Angry Birds a cada cinco minutos, né. Vamos justificar, vamos fazer valer a pena. Se você resolveu inventar um Windows 7.000 Reloaded, que pelo menos essa bosta não tenha os mesmos bugs que o Windows anterior. Agora, se você não resolveu nada e só quer ganhar dinheiro a custa de Black Fridays mascaradas, meu amigo, não me faça de vítima. Eu vou fazer da sua vida um inferno. Vou fazer suas atendentes do SAC chorarem sangue até a morte. Seus técnicos sairão da minha casa da cor do cal, com as calças cagadas. Suas filiais e autorizadas amanhecerão com uma macumba na porta da frente. Não, eu não vou quebrar o aparelho com defeito. Eu vou quebrar a sua espinha só com um olhar.

8. Pessoas adoráveis
Você não precisa ser amargo para que eu o ame. Não é isso. Aliás, nem tente se aproximar de mim com um papo pseudo-gótico, oi eu coloco asas negras no Lauri através do photoshop. Gente assim me dá ânsia. O que eu quero dizer é: não seja amável. Não compreenda, não entenda, não ame, não goste, não dê para trás em todas discussões o tempo todo. Pessoas assim normalmente tem as ideias e opiniões mais chulas e conservadoras a respeito de qualquer assunto. Vivem num mundinho de classe média alta onde nada atinge o quarto cor de rosa ou cheio de posteres de bandas de metal. Não julgo quem diz ter uma vida perfeita porque eu realmente acredito nisso. Quer dizer, quem diz ter uma vida assim só pode achar que o problema da cidade grande onde mora se resolve votando melhor, deixando de usar seu carro por um dia inteiro ou ainda fechando a fronteira do estado para que migrantes não entrem. Lógico que a vida deles é perfeita. É a única coisa que lhes interessa.

9. Calor
Antes, eu amava o calor. Gostava de vestir blusas de alcinha, shorts, saias e chinelos. Minha asma quase não incomoda no verão, enquanto que aparece praticamente todos os dias ao longo do outono e inverno. Depois, eu viajei e conheci o que é frio de verdade. Ao contrário do que todo mundo apostava, eu não morri e não odiei. Sobrevivi e passei a venerar o inverno. Fico igual criança em noite de Natal quando chove ou quando os meteorologistas anunciam uma frente-fria. Preparo os meus pulmões com os medicamentos, rezo para que a sinusite não apareça, e pago o preço que for para curtir um friozinho debaixo das cobertas!

10. DELETAR O QUE NÃO DEVE

Não resisti.

18 de março de 2013

O Azarão - Markus Zusak


Eu estava prestes a me aventurar pelo mundo dos livros em idioma inglês para conhecer, finalmente, do que se tratava as três primeiras obras de Markus Zusak: The Underdog, When Dogs Cry e Fighting Ruben Wolfe. A trilogia não foi traduzida para o português do Brasil, diziam os boatos, porque o autor recusou o contrato. Então fiquei na vontade. Vocês sabem como sou fã do Zusak e devem imaginar o quão foi difícil ficar na curiosidade. Foi quando comecei a procurar algum ebook em inglês para download que a editora Bertrand anunciou o lançamento da tradução! O que me fez pensar: "que mané o autor não quis lançar seus livros no Brasil, é a Intrínseca que ficou com preguiça"! Ou seja, não foi recusa, não foi falta de tempo e o cachorro não comeu a lição de casa de ninguém. De repente, não mais que de repente, a Bertrand se tornou minha editora favorita e, o que começou com o Cinquenta Tons de Cinza, terminou com a displicência da Intrínseca.

Mamãe me obrigou a acompanhá-la no shopping para trocar um presente do qual ela não gostou. Fui com uma tromba na fuça porque detesto ir ao shopping sem minha verba mensal para dar uma passada na livraria. É uma experiência pela qual meu espírito não suporta passar. Mas fui. Chegando lá, após perder horas preciosas do meu tempo (ocioso), sou surpreendida por um convite para ir à... Saraiva! Mamãe queria comprar um livro de bolso para-não-sei-quem. A primeira coisa que fiz ao entrar na livraria foi óbvia: interceptei uma vendedora. "Boa tarde, 'cê tem o livro O Azarão, do Markus Zusak"? A garota nunca tinha ouvido falar e sequer sabia escrever o nome do autor. Ok, eu ignorei e persisti. Era a minha única chance. Depois de uma hora (que minha paciência aumentou para uns quinze anos), ela me entregou um exemplar novinho em mãos. Daí para frente, foi só fazer cara de depressiva e mamãe comprou.

Cameron Wolfe é um menino sujo e selvagem. Ele e seu irmão mais velho, Rube Wolfe, são os dois personagens centrais do livro. Para quem conheceu Zusak com "A Menina que Roubava Livros" vai achar que a espera para ler "O Azarão" não valeu a pena. É um romance curtíssimo, sem clímax nem sombra do estilo com o qual estamos acostumados. Para mim, que sou otimista, as particularidades estavam presentes assim como o jeito humorado dos protagonistas de Zusak narrarem a própria vida. Como os assaltos mau sucedidos dos irmãos Rube e Cameron, o cheiro dos cogumelos que a mãe deles cozinha todas as noites e só descem goela abaixo com muito molho de tomate ou os diálogos sucintos cheios de ironia. Às vezes me perguntam por que gosto de Markus Zusak. É por isso:
Joguei (a almofada) de volta para ele, que a devolveu para o lugar onde estava. Esse era o Rube. A almofada fedia, ele sabia que fedia e estava preocupado com isso. Queria conversar sobre o assunto, mas uma coisa era certa: de jeito nenhum ele ia lavar a almofada. Voltando para o canto do sofá, ela ficou lá, fedendo. Eu ainda poderia sentir o cheiro dela agora, mas só porque o Rube tinha chamado a atenção. Provavelmente, era a minha imaginação. Obrigado, Rube.
Pode parecer (e é) um diálogo sem sentido para muitas pessoas, mas eu não consegui parar de rir por um bom minuto. O meu senso de humor é um tanto excêntrico. Não acho graça na maioria das coisas engraçadas de hoje, porém dou risada com o mais inesperado. Markus Zusak nunca errou. Ele sempre sabe me fazer rir. Não sei explicar; acho que é o sarcasmo subentendido.

O livro me fez lembrar do Ed Kennedy (do livro "Eu Sou o Mensageiro"). Cameron Wolfe é um cara perdido, sem lugar no mundo, que está apaixonado por uma garota que ele julga ser impossível de conquistar. Resumindo, ele se acha uma merda, um lixo, como também se achava o Ed. Ambos tem vários pontos em comum e fico me perguntando se "O Azarão" não foi o passo inicial para o manuscrito de "Eu Sou o Mensageiro". O primeiro não me fez rir tanto quanto o segundo, mas é visível que um acabou por inspirar o seguinte. Cameron, assim como Ed, é o tipo de cara que se apaixona daquela forma bonita. Não sei vocês - eu acho complicado encontrar um livro onde o homem saiba gostar de uma mulher. Ou é adocicado demais, ou submisso demais, ou mala demais.
Algumas vezes, eu pensava nela nua, mas nunca durante muito tempo. Não queria ela só para isso. Sério. Eu queria encontrar o local de onde vinha a voz dela. Era isso que queria. Queria ser bom para ela. Queria agradá-la, e suplicava para isso acontecer.
Como não suspirar? Além disso, Cameron reza pedindo proteção para as pessoas que conhece. É um projeto de marginal, vive seguindo o irmão mais velho que tem uma ideia pior do que a outra, no entanto volte e meia pára e se pergunta se é realmente tão ruim assim, ou se há algo de bom nele, e ainda ora por aqueles que não estão nem um pouco preocupados com seu bem estar - é o traço de bondade que Markus Zusak acredita existir em todas as pessoas. E eu também. Cada capítulo é encerrado com a narrativa de um sonho que Cameron teve. Os meus favoritos, de longe, foram o sonho com a velhinha russa dentro do ônibus e o Azarão que luta sozinho contra o mundo. Num, Cameron está congelando dentro de um ônibus na Rússia e não consegue levantar quando uma idosa se aproxima para sentar no lugar reservado a ela. No outro, ele se aproxima de uma multidão que urra e cerca um garoto que luta sozinho no círculo formado pela plateia - "ele está lutando contra o mundo"! Diz um dos espectadores.

"O Azarão" pode não ser um dos melhores livros de Markus Zusak, mas sendo uma trilogia, prefiro não tirar conclusões precipitadas. Mesmo assim foi uma história que conseguiu me fazer parar de ler para rir e cujos sonhos do protagonista me fizeram pensar em algumas coisas. Se você ainda não conhece o autor, não comece por este livro, inicie com os best-sellers que mostram um Zusak mais maduro! Mas se você já o conhece, O Azarão mostrará uma inocência de iniciante que o fará compreender as raízes dele.

15 de março de 2013

Vagenda

Como eu adoraria que fosse socialmente aceito falar sobre menstruação em um blog! Mas acho que a sociedade ainda tem de ler muita Naomi Wolf e Beauvoir para não se escandalizar com a natureza feminina. Por isso, eu vou tentar ser discreta e resumir o máximo possível a minha saga íntima.

Fui uma adolescente abençoada com uma regra agendada e sem cólicas. Todo dia primeiro de cada mês era sagrado e nenhum sinal apocalíptico o previa - acontecia de forma cristã. Depois dos 18 anos, porém, meu corpo foi possuído por um exu e o meu relógio configurado com o fuso horário de alguma terra pagã. Não tenho data, não tenho hora, às vezes sequer tenho um mês! Perdi as contas de quantas vezes corri até a farmácia mais próxima para fazer um teste porque estava atrasada (meu namorado, coitado, perdeu os cabelos). Sempre alarme falso. Sempre a ginecologista com cara de bunda porque a minha falta de lógica menstrual a induziu ao erro mais uma vez. Eu sei que a doutora me culpa. Quando saio do consultório sinto seus olhos fulmegarem minhas costas. Ela deve achar que estou tirando sarro do sistema único de saúde, pregando peças e os obrigando a preparar um leito no corredor da maternidade a cada mês.

Desculpaí, SUS.

Li um texto muito bacana no So Contagious sobre agendas e só fiquei pensando no meu desejo de manter uma. Mas não a convencional, essa eu já desisti faz tempo de manter. Anseio mais por uma Vagenda - aquele caderninho fechado com um cadeado como nos velhos tempos do diário escrito à mão, onde eu pudesse marcar e relatar meus meses desconexos. Acreditem, é um assunto que dá pauta! Preciso de uma vagenda para registrar as receitas naturais, os alimentos contra cólicas, os remédios que melhor funcionam contra a minha manifestação hormonal... Finalmente, marcar os dias cruciais, que podem ser a qualquer momento - do mais prático ao menos esperado, como no meio do shopping, sem nenhum bote salva-vidas - ou a ausência deste juntamente com uma tabelinha para não precisar ser socorrida por um exame de sangue que dará, mais uma vez, negativo. Também preciso marcar as aulas de yoga que nunca farei e que me arrependerei ao primeiro entortar de coluna com as pontadas no ventre, e lembretes para cancelar compromissos porque estou presa à cama o dia inteiro morrendo aos poucos. Ah, preciso de um único lugar para colocar todos os orçamentos de coisas que quebrei, pessoas que matei ou qualquer outra coisa reparável que foi avariada durante minha TPM. Na vagenda eu poderia acompanhar a escala de dias em cada mês e descobrir o que já sei: nem a minha menstruação faz sentido.

Olha, não sei se outras mulheres passam por esse mesmo problema, mas eu não consigo mais viver sem uma vagenda. Perdi a conta de papéis e marcações no calendário do computador que não compreendo ou que foram parar no lixo por engano. A ginecologista pergunta quando foi minha última regra e às vezes não me recordo porque anotei em algum lugar desconhecido. O jeito é responder: Não sei... Pode ter sido em qualquer dia entre 1 e 31. É provável que não tenha vindo no último mês, ou veio duas vezes e contei como uma só. Nunca saberemos, doutora.


Tentei anticoncepcional, mas o papa disse que não pode não me dei bem com ele. Ainda não estou na beira do abismo dos desesperados para me cadastrar nos tratamentos do Hospital das Clínicas. Esse negócio de injeção e maneiras de evitar o ciclo, para mim, é coisa do capeta e prefiro evitar. Sabe como é, a minha alma do século 16 acha melhor as coisas correrem como manda a natureza; afinal, quanto menos eu ir aos consultórios do SUS, salva estará a minha saúde. Resumindo, é de uma vagenda que eu preciso para, pelo menos, não ficar perdida comigo mesma porque isso sim, está saindo do controle e não é de hoje. A plebe não está podendo gastar quase R$40 por mês para descobrir que não está grávida.

9 de março de 2013

Das expectativas

O meu aniversário de 26 anos está chegando e com ele um carro de boi carregado de latas fazendo um barulho ensurdecedor. O casal de bois balança seus traseiros na rua de terra esburacada, mascam a vida tranquilos, e a bagagem anuncia os problemas do 4 de junho de 2013.

Eu estava bem preocupada ano passado com os meus 25 anos recém completados. Sozinha, eu me cobrava a falta de sucesso profissional, a falta de aliança dourada no dedo, a falta de posses materiais. Aquele frio na barriga me atingiu assim como o fez com as gerações anteriores e fará com as próximas. É um ciclo. O que eu não sabia, e ninguém se deu ao trabalho de me informar, é que o frio na barriga seria coletivo a partir dos 26 anos. Se antes eu me incomodava com uma pedra no sapato, hoje me vejo obrigada a lidar com uma pedreirada em plena atividade.

As pessoas tentam ser discretas. No fundo, há uma memória que os aconselha a não perguntar nada - uma memória empoeirada, que quando esquecida, faz com que os adultos pensem que nunca foram jovens. Mas essas pessoas ignoram os sinais, não veem mal algum em perguntar algo tão inocente e apenas por curiosidade. Então, o bombardeamento começa: "E o namoro, não vai vingar"? Antes, ninguém se contentava com a minha solteirice. Agora, ninguém está satisfeito com o status do meu relacionamento. "E o trabalho, já consegue se sustentar"? "Não faz bem para a mulher ter filhos muito tarde, é bom aproveitar os vinte e poucos anos para não ter problemas sérios de saúde". Na minha humilde opinião, nesta descartável teoria de bueiro, isso é medo de ver o país envelhecer.

Estou cada vez mais chegando à beira dos 30 anos e ainda não tenho um marido, uma casa própria, um emprego "seguro" (seja lá o que signifique) e para assombro da sociedade não estou interessada em obter nenhuma dessas coisas. A única coisa que almejo, por enquanto, é minha autonomia. Sei que é querer demais, e que antes seria mais fácil atingir o Eike Batista na lista de bilionários, mas estou cansada de ver outras pessoas decidindo o que é melhor para mim de acordo com minha idade fisiológica. Não, não é um manifesto feminista porque também estou de saco cheio disso. Não sou obrigada a aderir um grupo, seita, clã ou ideal para saber que sou mulher, e ainda assim, humana. Existe uma certa pressão em ser feminina até mesmo no feminismo.

Para ser sincera, eu não estava preparada para descobrir que há todo um leque de tipos diferentes de pressões. Aos poucos, conforme meu aniversário se aproxima, é a mãe, a sogra, os parentes, os mais velhos, todos em geral, me atingindo com armas das quais não aprendi a me defender. Perguntas como "e os bebês, quando começam a chegar?" tomam o lugar das antigas "e os estudos"? Tudo bem, se as pessoas estivessem desavisadas, mas elas sabem. A sociedade sabe que não somos máquinas programadas para procriar e produzir. As mulheres, principalmente, que já passaram por esses constrangimentos - elas sabem que existe o tempo certo e que outros se intrometendo estão mais fazendo uma guerra psicológica do que puxando assunto. O que falta, então, para voltarem a começar uma conversa comigo comentando sobre o clima?

7 de março de 2013

Um texto para ser lido usando boia de braço

Antes de começar o texto propriamente dito, eu gostaria de dizer que o David Foster Wallace é um cara foda e que só não fiz uma resenha sobre o livro dele porque fiquei com preguiça.

Sempre associei o oceano com pavor e morte. Quando criança eu costumava decorar todo tipo de informação sobre mortes causadas por tubarões. Não apenas ataques: mortes. (...) E hoje, quando dou aulas, sempre apresento o assustador “O bote” de Crane e fico muito transtornado quando a garotada acha o conto chato ou meramente aventuresco: quero que sintam o mesmo pavor medular do oceano que sempre senti, a intuição do mar como o nada primordial, sem fundo, profundezas habitadas por coisas gargalhantes cravejadas de dentes avançando até você na velocidade de uma pena caindo.
— Ficando Longe do Fato de já Estar Meio que Longe de Tudo, D. F. Wallace
Eu nunca gostei de mar. Quero dizer, nunca gostei do alto mar. Sabe aquelas boias que ficam oscilando com as ondas? Acho que se chamam "boias de balizamento". Como a maioria dos meus medos, esse também não tem explicação, mas eu entro em pânico quando vejo uma; seja em vídeo, foto ou pessoalmente. Não gosto. Elas me deixam nervosa. São corpos estranhos boiando numa água sem fundo e balançam se como aquilo não tivesse o menor problema, se como nenhum polvo gigante fosse emergir para engoli-las. Fico me imaginando presa numa delas, após um náufrago, sem eira nem beira com o mar agitado ao redor.


Mas para fazer menos sentido ainda, digo que adoro praia. Veja bem, o meu problema não é com a natureza em si, mas com a sua profundidade. Eu não sei o que acontece lá no fundo e prefiro continuar na ignorância. Alto mar é coisa para marinheiro, e ponto final. Não a toa ele vive nos jogando para fora, numa clara demonstração de desagrado com nossa presença. O termo "repuxo", aliás, deveria ser a prova de que estamos lidando com um psicopata. Buracos, tsunamis, tudo isso é um alerta de que não somos bem vindos. Das duas, uma: ou vocês são muito desatentos, ou gostam de brincar com o perigo.

Quando eu era pequena, escorreguei dos braços do meu pai e fui parar debaixo de uma onda. Aos dez anos, meu professor de natação deixou que eu me afogasse ao se distrair com alguma beleza dentro de um maiô. Aos doze anos fui atacada por um siri e quase sofri queimaduras de uma água-viva também (não recomendo Ubatuba; além de chover muito, está infestada de animais extraterrestres). Assim que Deus disse: "Que se faça a luz!", o capeta logo apareceu com um advogado e reclamou a sua parte. Papai do céu o empurrou para o fundo do mar e lá se estabeleceu a criação daquele-que-não-se-menciona-o-nome. Não preciso de argumentos! Além de tudo isso, existe ainda a problemática da tripofobia (dá um google) fazendo de Fernando de Noronha um lugar indesejável.

Vocês nunca leram Pinóquio? Moby Dick? Nunca assistiram Piratas do Caribe? Titanic? Poseidon?! A menos que você seja uma personagem de Clarice Lispector vivendo no livro dos prazeres, não há desculpas para querer entrar no mar. Todos os indícios apontam para um homicídio doloso. A cena do crime, exposta a modificações externas sem as fitas de isolamento, infelizmente não pode provar meu ponto de vista, mas basta meia hora de conversa com um bombeiro ou um salva-vidas. Entretanto, se mesmo após esse alerta você continua apaixonado pela água salgada, profunda e cruel, ao menos certifique-se de que pode tocar os pés no fundo. E não faça como eu, que gritou feito uma doente mental para a praia inteira ouvir ao ter algas enroscadas nos tornozelos. Se o mar não suporta você naturalmente, imagine com escândalos.

4 de março de 2013

Jantar literário

A Mayra me convidou para fazer esse meme, que consiste em responder essas perguntas aí em um vídeo. Está para nascer a pessoa que me obrigará a gravar um vídeo. Sabe, o motivo de fazer um blog é esse: eu não gosto de aparecer. Odeio minha voz, não sou fotogênica e não vejo razão em conversar com uma câmera. Alguns fazem isso muito bem, que é o caso da própria Mayra, mas se eu me aventurasse seria capaz de fazer a coisa perder todo o sentido e as pessoas se perguntariam: Por quê? Então, vou responder com um texto mesmo e vocês se deem por satisfeitos. Ah, e como sou mei'assim, limitada, na minha lista haverá tanto personagens literários como de seriado também.

1. Um personagem para fazer o jantar.
Já que estou trapaceando posso convocar a Beryl Patmore, de Downton Abbey. Mesmo eles não mostrando os pratos servidos, eu fico babando porque toda cozinheira gordinha e atarantada tem mão boa para cozinhar. E antes que o sindicato chegue aqui com as suas reclamações, isso foi um elogio.

2. Um personagem para pagar a conta
Fiquei entre dois candidatos: August, personagem do livro Água para Elefantes, ou Yolcault, de Festa no Covil. Um trabalha no circo, é responsável pelos animais e corno. O outro é chefe do narcotráfico, tem um zoológico particular e dinheiro a dar com o rodo. Como eu quero que os dois se ferrem, qualquer que seja o meu escolhido terá de pagar um jantar regado a riqueza, garçons, música, comida boa e um espetáculo a minha escolha no final. Acho que fico com a primeira opção - August - porque um temperamento como o dele jamais deve faltar em uma festa de arromba.


3. Um personagem para causar uma cena
Eu sei que a maioria das pessoas escolheram um personagem denso para responder esse item, mas a minha convidada causaria uma ótima impressão mesmo deixando o ambiente mais pesado. Miranda Hart, do seriado Miranda, peida, canta e cai em público. Causa um desconforto no início, mas vai por mim, logo estarão todos acostumados.

4. Um personagem popular
Gatsby! Como assim alguém pensou em fazer uma festa sem ele?! O Grande Gatsby, livro de Fitzgerald, traz um personagem festeiro, charmoso e vulnerável. Eu quero mais é que ele encha a minha casa de flores, bebidas de procedência desconhecida, fogos de artifício e gente bêbada caindo dentro da piscina.

5. Um personagem engraçado
Qualquer moça insegura, insossa e perdida retirada dos livros de Marian Keyes. A gente pode enfiá-la em algum jogo desonesto, tirar sarro da cara dela quando terminar de perder todas as suas roupas no strip poker e ser obrigada a correr só de calcinha e sutiã pela rua. Ou, para ficar ainda melhor, podemos convidar Marley (do livro Marley & Eu) e o Porteiro (do livro Eu Sou o Mensageiro)! Cachorros são sempre melhores do que pessoas.

6. Um vilão
Escolhi um vilão que poderia ter saído com a cabeça erguida da história, e que seria muito útil no meu jantar: Hatsumomo, do livro Memórias de uma Gueixa. O final dessa personagem foi muito indigno de sua capacidade e vou demorar alguns anos para aceitar esse fato. Todavia, ela continua sendo uma das gueixas mais populares de Gion, o que significa musiquinha estranha, dancinha do robô e uma criatura muito bonita para entreter meus convidados.

7. Um casal
Olha, não suporto casais recém ajuntados que só falam de amor e ficam trocando beijinhos pelos cantos porque, já que a história terminou, eles podem viver juntos para sempre. Por isso, eu adoraria observar de longe o senhor Urbino e dona Fermina, ambos do livro O Amor nos Tempos do Cólera. Se calhar, assim como quem não quer nada, ou como se um erro houvesse ocorrido na lista de convidados, eu convidaria o Florentino também.

8. Um personagem subestimado
Gregor Samsa, do livro A Metamorfose. Ainda não conheci um cara mais subestimado do que esse pobre coitado. Tudo bem que os convidados achariam ser uma festa a fantasia, mas Gregor Baratão tinha muito o que dizer antes de sua família lhe virar as costas. Uma boa caneca de chopp e uma companhia retirada de um livro da Marian Keyes para escutar seus desabafos será o bastante para ele se recuperar. O garoto está precisando de novos ares!


9. Um herói
Vocês não acham que está faltando um nórdico? A casa nunca está cheia até um viking entrar quase arrebentando a porta, ocupar todo o espaço da mesa e comer com as mãos, fazer todo mundo tropeçar na capa e afins. Thor, o herói mais mulherengo e oxigenado da história não poderia ficar de fora. A presença dele fará a diferença para muitas convidadas.

10. Um personagem qualquer
O meu convidado ilustre (e não qualquer um) seria Florian, o mestre de cerimônias que deu duro para que o circo O Florescente Florilégio de Maravilhas de Florian desse certo. É o dono de companhia mais dedicado que conheci, que chegou a levar sua trupe com elefante e tudo para o outro lado do oceano, na Europa. O Circo seria um livro pela metade sem ele. E o velho precisa esticar as pernas. Nada melhor do que em um jantar cheio de gente excêntrica!

É isso. O meu jantar está mais para um show de freaks, mas essa sou eu. Não vou indicar alguém para participar, simplesmente vou deixar as vagas em aberto para quem quiser ou se sentir corajoso o bastante porque, olha, meme difícil de responder.