19 de julho de 2013

O Grande Gatsby (2013)


Para começo de conversa, o quão estranha é essa história de adaptar livros para o cinema? Parece que nossa imaginação insuficiente precisa de um empurrãozinho para ver em movimento e ação os personagens que já tinham vida enquanto estávamos lendo. É como se reafirmássemos o que sabemos de antemão só para ter certeza do que não temos dúvidas. Não é o caso de eu estar afirmando que não gosto de adaptações. Gosto, sim. E é esse o problema. A verdade é que eu adoraria entender por quê. No fundo, não precisamos delas. Está provado que somos melhores diretores cinematográficos do que muito Spielberg por aí. O nosso filme criado a partir de histórias perfeitas e atemporais como “O Grande Gatsby”, por exemplo, teria menos lantejoulas por outro lado seria mais autêntico e fiel ao coitado do Fitzgerald, que não merecia uma bofetada dessas.

Daí que eu resolvi assistir a adaptação doismiletreziana feita por um cara chamado Baz Luhrmann. Não dou atenção para diretores de cinema apesar de saber que deveria, mas são elementos como este que me distanciam cada vez mais de querer conhecer qualquer coisa que seja sobre um currículo petulante. Pois é, tinha Leonardo DiCaprio, o que basta para me arrastar aos cinemas não importando o tema. Assisto “Cinquenta Tons de Cinza” se for estrelado por ele e sou capaz de sair gozada da sala, com pipoca no decote e um sorriso orgasmático nos lábios.

Discernimento e Leonardo DiCaprio não combinam na mesma vida.

Eu devo lhe dizer: não fui com a cara de Baz Luhrmann. Imagino o sujeito andando pelo estúdio com óculos escuros, plumas fluorescentes ao redor do pescoço, camisa floral do Havaí e um sotaque britânico acentuado. Ele e seu filme chroma key poderiam ter passado longe de mim não fossem dois fatores: F. Scott Fitzgerald e o menino do Titanic. Foi golpe baixo e Hollywood sabia disso desde o início.

Para mim, o livro é de uma sensibilidade sem igual; diz mais coisas do que lemos, por isso, é essencial lê-lo mais de uma, duas, três vezes; a cada vez que passo por algum trecho descubro entrelinhas e fico boquiaberta. Então é isso que o escritor quis dizer! Ah tá, agora entendi o que aquele outdoor significa. Putz grila, Gatsby, casa comigo! E assim adiante. Há mais coisas entre Gatsby e a Terra do que acredita o ingênuo Luhrmann. Ou seja, existem centenas de razões para eu ter passado mais da metade do filme dizendo: “Não, pára! O que você está fazendo”? Está tudo errado. A mansão de Jay Gatsby não era um circo nem tão brega quanto esta que você está retratando, Luhrmann. Pode até ser um desejo íntimo seu, e eu respeito, mas separemos o prazer do trabalho.


A minha maior expectativa era com a entrada de Gatsby. No livro, eu prendia a respiração a cada menção, tentava descobrir por mim mesma se ele estava escondido num dos personagens, não aguentava mais ler página atrás de página sem descobrir afinal de contas quem é Gatsby! Meu Deus, era uma necessidade quase fisiológica. Então achei que no filme, ali na minha cara sem o poder e a força da imaginação, com o plus a mais da interpretação de DiCaprio, eu simplesmente sofreria uma síncope. Daria tempo de ouvir a primeira frase e pronto, morreria com a mão cravada ao peito. Ah, mas essa maldita lei da Expectativa x Realidade... Heartless Bitch! Senão a pior cena, esta com certeza fica entre as mais tristes.

Ao invés de sangue quente, humilde e íntegro, corre um pano verde ou azulado nas veias do Gatsby de Luhrmann, que é para projetar o final insosso e sem emoção através de efeitos especiais que esfriam a história. Da festa de arromba (sim, tenho setenta anos) do perfeito Fitzgerald fomos banidos e jogados para uma farra indigna de um homem apaixonado, com champagne quente, fogos de artifício falhos, piscina cheirando a mijo, dançarinas sofrendo do ciático e figurantes histéricos como penetras. Nisso tudo, e mais um pouco, Gatsby castrado. É uma pena, realmente, pois o elenco é maravilhoso, formado por excelentes atores que quase me fizeram esquecer a falta de bom gosto do diretor. Pela primeira vez enxerguei o tal de Tobey Maguire “apertável” que vocês tanto babam. Foi um Nicky perfeito.

Pensei em desistir do filme assim que uma música do Jay-Z começou a tocar. E pensei nisso milhares de outras vezes ao continuar ouvindo a pior e mais dessincronizada trilha sonora de todos os tempos. Mas continuei. Apesar dos cenários impessoais, dos buracos estratosféricos no enredo, da superficialidade que representa uma história tão linda. Permaneci no meu posto, firme e forte, em respeito ao elenco - repito - sensacional e à ele: o poderoso DiCaprio, que só não ganhou um Oscar por intriga da oposição (e talvez por ter o azar de ultimamente trabalhar com os diretores errados).

Um brinde a nós dois.

5 comentários:

L.H.C disse...

Eu gostei do filme, mas concordo contigo no que diz respeito a trilha sonora, foi meio estranha; já o Leo, oh my god, cada dia mais lindo e realmente ainda não ganhou um Oscar por pura intriga da oposição, só pode.

Dasty-Sama disse...

Não assisti o filme ainda. Nem li o livro, mas prefiro lê-lo primeiro do que assistir o filme. Um amigo meu assistiu e disse para mim que a fotografia/cenário é bonita, mas só isso. A história é superficial e talvez era isso que eles queriam mesmo. Um monte de coisa bonita, mas que não leva a nada (como muitos filmes por aí).

Thay disse...

Só vou assistir a esse filme por motivos de: Leonardo DiCaprio. Já não gostei muito do estilo multicolorido do trailer, e a trilha sonora que lançaram é totalmente esquisita, então não estou criando muitas expectativas quanto ao produto final. Havia planejado assistir no cinema, mas as coisas acabaram não dando certo - e depois de ler seu texto acredito que tenha sido pra melhor, economizei meu dinheirinho pra algo melhor.

E o fato de Leo ainda não ter seu Oscar é totalmente inaceitável. Sei lá, parece que o povo ainda está preso ao Jack, quando já vieram interpretações sublimes em uma porção de outros filmes.

=*

Anna Kuhl, diga kil disse...

Eu assisti o filme por dois motivos: Leo e o figurino.
Não havia lido o livro, e um amigo meu que assistiu junto saiu indignado da sala, embora ele tenha gostado da trilha desencontrada do Jay Z. Eu gostava do Baz Lurhamnh - mas talvez eu fosse adolescente, e pega desprevinida por Romeu e Julieta e Moulin Rouge. Confesso que sua crítica me deixou mais desconfiada da minha saída da sala de cinema.

Fernanda N disse...

oie! tudo bem?
nunca li o livro e estava ansiosa por assistir o filme só por ser um clássico da literatura americana. mas também nem conhecia a história... gostei de saber que o dicaprio faria gastby, apesar de não saber muito o que esperar dele e do filme. mas eu gostei, de um modo geral. não sabia que o filme tinha sido filmado parcialmente com chroma-key (e me perguntei várias vezes durante o filme como eles tinham conseguido reproduzir a cidade de anos atrás), e achei bárbaro o resultado. depois do filme, agora que ler o livro, que imagino ser muito melhor. adorei o dicaprio no filme e achei que demorou demais até ele aparecer (tava tendo um treco já)... eu gosto do tobey mcguire, mas achei ele completamente sem sal neste filme... enfim, gosto é subjetivo e pode mudar conforme as circunstâncias! =P
beijo, beijo!
www.confabulando.net

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