10 de janeiro de 2013

É tempo de dar um tempo

Debaixo de chuva forte, fui ao supermercado para comprar papel higiênico. É o que a modernidade faz: nos obriga a limpar o cu não importa o preço. Mas não é sobre isso que se trata este texto. O que eu estou tentando dizer, é que no meio do caminho havia uma cena bonita. Uma coisa que eu não acreditava acontecer fora dos filmes: crianças e cachorros brincando debaixo da chuva torrencial. Sabe como é, braços e bocas abertos, correria, pulos, sorrisos e cachorros parados no meio da rua com os olhinhos semicerrados, se divertindo só como eles conseguem.

Eu não sorri porque, além de não ser louca em sorrir para a criançada e levar um chute na poça d'água bem na minha fuça, eu não tinha tempo. Pois é, minha gente, eu não tenho tempo de sorrir. Desculpe, estou ocupada. Sorrio mais tarde. Segurando o guarda-chuva contra o vento, contei a mim mesma um segredo terrível: você não tem é vontade de sorrir, minha filha. E por quê? Perguntei à mim mesma, já desfiando um monólogo. Porque você está na vida errada. E estando na vida errada não entenderei a piada, logo, rir para quê?

Foi-se a época em que eu fazia troça de mim e me divertia com minhas desgraças privadas. Foi-se todo o tipo de época, afinal. Hoje, eu como quando tenho fome. Durmo quando tenho sono. Acordo quando o despertador toca. Só respondo quando me perguntam. A vontade se retirou tão tímida, que nem bilhete deixou. Bateu a porta achando que eu a odiava. A vida, coitada, se trancou no quarto e faz greve de fome. "Essazinha prefere a vida dos outros do que a própria". Como posso explicar que loucura não tem razão?

Eu tinha medo dessa pergunta, apesar de saber que ela chegaria em um momento da minha vida: O que eu fiz do meu tempo? Estou vivendo a vida dos meus pais e não é de hoje. Faço vinte e seis anos em 2013 e eles ainda não me entregaram a nota fiscal do serviço. Fiquei na dívida, pendurada. O que mais me dói, porém, é olhar para trás e constatar que não valeu a pena. Tudo jogado fora contra a lei da reciclagem. Tão seca, que não adianta regar. Não há chuva que me faça parar para sorrir. Não há criança ou cachorro que me faça parar só por parar, pois todo ser humano uma hora necessita cessar o passo para continuar. O tempo está mais rápido do que as minhas soluções e não tenho tempo de me reorganizar. O resultado é este: eu. Assim mesmo.

Uma árvore outrora frondosa.
Com as pétalas no chão ao meu redor, servindo de testemunhas.

12 comentários:

Janaina Barreto disse...

Queria comentar algo bacana, Del, mas fiquei realmente sem palavras. Só posso dizer que me sinto igualzinha. E sempre que penso que esse sentimento vai mudar (ou que qualquer coisa vai mudar), muda sim, mas não é pra melhor. Só tem uma diferença: cachorros me fazem parar e sorrir. São as poucas "coisas" que me animam (e vão me animar pra sempre, espero).

Mayra disse...

Minha mãe é dessas que sai no meio da chuva com qualquer roupa e grita "eba" e rodopia e se diverte, depois de tirar as roupas do varal, claro. Eu aprendi desde pequena, portanto, a me divertir com a chuva e eu adoro quando chove, o mundo muda, as pessoas adultas se estressam abundantemente no trânsito e as crianças, os animais e os desocupados sorriem e os olhos brilham. É mágico. Eu adoro chuva! E fico amargurada quando leio esses seus textos porque eu não consigo acreditar que alguém simplesmente não sorria. Acho que você sorri, mas quando acontece é tão natural que você nem nota e nem sabe os motivos.
Abraços!

Corvus Cryptoleucus disse...

Não compreendo. Não mesmo. Não compreendo como uma pessoa consegue viver sem os sentimentos à flor da pele. Talvez eu seja sentimental demais, mas eu realmente não consigo entender. Belo texto, aliás.

Ana Luísa disse...

Del, re-aprender a sorrir não é tão difícil! Agora que você percebeu, é só começar a tentar de novo! (Já desistiu do layout circense, pelo visto?)
Beijo!

J.Barroso ☂ disse...

Del, minha vida tá longe de ser um mar de rosas, só não sou emo por falta de idade jovem e preguiça. Nasci num lugar pobre, meu pai nunca facilitou minha vida, também não fiz a faculdade que queria, aliás não fiz nenhuma, quando encontrei o amor da minha vida me casei logo, quando nossa filha estava com 1 aninho, sabe o que é isso? 12 meses de vida o pai dela morre aos 28 anos e me deixa sozinha neste mundo que só tinha sentido com o sorriso dele pra espantar meus humores ruins. Tive que pensar rápido entre ir com ele pro caixão ou cuidar de nossa filha e meu amor por ela não me deixou ser egoísta. É tudo tão dificil, sou ruim de sorrir também, mas por ela eu sorrio. Não quero que ela seja como eu era pequena passando a vida inteira reclamando dos meus pais. Eu tive um ruim, ela não teve essa opção. A vida é cruel. Uma droga. Mas se ajudar, tenha filhos, e ache mil motivos pra sorrir em momentos muito únicos e eternos. Pareceu auto-ajuda né, mas nem sou assim. Sou sua fã a pouco tempo, me identifico com sua pessoa, mas você ainda tem a alegria de ter seu namorado com você, eu não tive essa opção. Homem é igual biscoito vão dizer, pode ser, mas uma pessoa que aguenta a gente como a gente é, acho que só uma vez na vida mesmo.
Desculpem o monólogo. Em tempo...parabéns por seu talento.

Dea Carvalho disse...

Dizer o quê, né? 34 e ausente.

Thay disse...

E o que se escreve depois de um texto desses? Poxa Del, não gosto de te ver (ler?) assim. Ainda há motivos pra sorrir! Veja seus cachorros adoráveis, seu namorado, sua mãe, Helena! Sei que alguns dias parecem mais escuros do que outros, e sentimos que não há como as coisas melhorarem mas, acredite, há! E eu não quero soar muito auto-ajuda nesse comentário, só estou te escrevendo aquilo em que acredito. Pq eu tenho meus dias nebulosos em que acredito estar desperdiçando um tempo valioso e que não volta, mas isso passa. :)

E pra quem não sabia o que comentar, quase escrevi um romance para jovens adultos e suas oito continuações! HAHA, adoro hipérbole. ;D

Camila disse...

"O tempo está mais rápido do que as minhas soluções." GENIAL!
Acho que entendo um pouco do que escreve. As vezes eu sei que estou mal, como e porque estou, e tenho até mesmo uma solução, mas não encontro meios para colocá-la em prática. As vezes por falta de ânimo, falta de motivação e muitas vezes porque não depende só de mim (o que eu acho o pior de tudo).

Espero que passe por isso e encontre mais sentido nas coisas. Se descobrir uma fórmula, me ensine porque tá difícil a vida, companheira! rs

Fiquei um tempão longe de tudo na internet e principalmente no mundo dos blogs, mas é sempre bom voltar e ver que blogs como esse continuam.

Luciana Brito disse...

Eu só queria dizer que me vi nas tuas palavras e senti uma angústia familiar. É, foi isso... nem sei o que dizer.

Beijo.

Ana Flávia Sousa disse...

Engraçado dizer "viver a vida dos outros", engraçado porque eu( parte de um 'outros') me identifiquei com o que escreveu. Ano passado a vida (minha agora) estava em greve: de fome, de surpresa boa, de sorriso, de realizações. Levei-a ao nutricionista e a estou obrigando a comer agora! A comer com os olhos e digerir com a alma! Só assim pra sorrir de novo, debaixo da chuva e se arriscando a levar chute de poça d'água. Sei lá, acho que é assim...

Beijo Del, e sorria!

Camila Faria disse...

Outro dia presenciei o que eu acredito ter sido um primeiro beijo na minha rua. A caminho do supermercado. Um primeiro beijo me pegando assim de surpresa numa tarde qualquer de terça-feira. Fiquei tão encantada, tão estarrecida, sei lá. Só percebi que estava sorrindo uns cinco minutos depois. Acho que eu sou assim mesmo, de sorriso fácil. Minha vida não é modelo para ninguém e tenho meus problemas, mas acho que ainda me encanto com a beleza das pequenas coisas. Ainda bem.

Um sorriso e um beijo para você, viu?

Flá Costa * disse...

Del, querida, há fases complicadas de difíceis mesmo. E você se descreveu de um jeito tão triste e poético, se te consola, me identifiquei muito! É doído e as vezes eu me pergunto para onde estou indo, mas a gente tem que ter uma fé de que uma hora as coisas se encaixam. Sabe, a vida dá voltas e há quem diga que só valorizamos o doce depois de experimentar o amargo.

Beijoca!

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