29 de maio de 2012

Uma pena de corvo no fim do túnel

Cá estou, mais uma vez, atropelando os textos e ouvindo o coração; o que ele manda, eu faço. Embora eu quisesse reclamar sobre a vida, decidi que ao invés disso eu falaria sobre as coisas que (podem) acontecer. Porque se eu não conversar sobre isso e não fizer de conta que está tudo bem, acho que enlouqueço! Muito bem, então vamos divagar se como não houvesse o amanhã e...

Vamos conhecer The Rasmus, bebê!

Peguei vocês mais uma vez, e não tem como escapar. Antes, porém, eu gostaria de agradecer aos comentários nos últimos textos. Vocês tem sido grandes companheiros para mim, apoiando minhas decisões e projetos, e eu não poderia deixar isso passar em branco. Muito obrigada! Meu livro será lançado assim que estiver pronto, mas de forma independente; sem noite/tarde de autógrafos ou toda essa divulgação que as editoras promovem. Há de ser um desperdício, mas realmente não posso esperar pela boa vontade alheia para lançar meu filhote. Mesmo assim, irei agradecer cada exemplar vendido (comprado por vocês) da forma que der! E enquanto Helena não nasce, eu quero desabafar (sim, porque isto chega a ser um peso).

Não é necessário acompanhar o Bonjour Circus há muito tempo para notar que sou fã da banda The Rasmus. No menu ao lado há um link para meu blog sobre eles. Entre as categorias existe uma reservada só para este assunto. Nós, fãs brasileiros, corremos para todos os lados feito baratas tontas tentando trazê-los ao Brasil, e para garantir que o agente da banda estude geografia direitinho e saiba da existência do nosso país nas Américas (e também que nossa capital não é o Rio de Janeiro); talvez até saiba que falamos português e não espanhol. Se não souber, se tirar zero nas provas e ficar de recuperação sem poder ir à sauna com a família - tudo bem! Brasileiro é insistente. A gente ensina aos poucos, com carinho, até ele aprender. Mas temos um ano para tudo isso, portanto, é bom gritar bem alto!

Ocorreram boatos (de que os fãs brasileiros estão na pióóór) que o Twitter onde a turnê mundial foi anunciada é falso, e a banda mais tarde confirmou a notícia. Mesmo assim, serviu para acordarmos e percebermos que está mais do que na hora de lutar por uma turnê do novo álbum aqui. Mais uma vez, com o rabo entre as pernas, é hora de encher o saco da Universal Brasil e convencê-los de que vale a pena incluir o Brasil na lista de países visitados. Será muito suor para, se muito, um único show em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. (porrãn, o que que é tá mal?)

Existe um pequeno problema: poucas pessoas conhecem The Rasmus a fundo. Não me conformo com essa verdade de outros preferirem Michel Teló, mas também (ainda) não posso sair pelas ruas com uma metralhadora em mãos forçando as pessoas a mudarem seu gosto musical. Não, não estou dizendo que minha banda preferida é perfeita (eles se esforçam); o importante, no momento, é ser melhor do que Ai, se eu te pego e isso nem é difícil. Eu tento espalhar a palavra amém e por vezes consigo convencer algumas pessoas de que The Rasmus é uma banda boa. Nem maravilhosa nem perfeita, boa. Para mim já é o suficiente. Desde 2003 eu acompanho o trabalho deles, tanto sei das obras de arte quanto das derrapadas e alguma vergonha alheia que dissipou na história. O meu único interesse é demonstrar um novo estilo, que não americano, e fazer com que as meninas parem de molhar calcinhas só pelo Lauri, mas sim pela banda inteira.

E você, leitor circense que já abandonou este texto, quer conhecer? Quem sabe dá tempo de decorar as músicas e estar afinado para o show deles, que com certeza acontecerá no Brasil. Caso contrário, eu mudo de nome. O nome de São Paulo, ou melhor, eles insistem no "Sao Paolo", estará na lista com uma data para setembro, outubro ou novembro. Eu sei disso. Você sabe disso. Até o The Rasmus deve estar sob aviso. O Universo Inteiro sabe disso porque, senão mermão, a casa vai cair. Estou esperando pelo show desde 2006 (a primeira e última visita deles aqui) e não vou esperar nem um segundo sequer. "Cala a boca e fala da lista!", vamos lá: não coloquei as músicas mais conhecidas, pois é fácil ouvi-las por aí. Pelo menos eu, quando quero conhecer uma banda nova, procuro sempre aquelas músicas que ninguém dá atenção. Escolhi uma ou duas faixas de cada álbum lançado:


Still feels like the first time! by Ill Circus on Grooveshark
Escute com carinho!

Nem vou cair nessa de descrever o The Rasmus nos mínimos detalhes; eu ficaria horas contando histórias, curiosidades, segredinhos, coisas boas, ruins e aquelas outras que só fãs entendem. Visite o site oficial, o artigo na Wikipédia, o canal do Youtube, o fan site mais foda e o fan site brasileiro riquíssimo em novidades!

All the love you put out will return to you.

23 de maio de 2012

Voar, cair e levantar

Tem alguém ligando aqui em casa e desligando o telefone quando atendemos. Falamos alô, mas ninguém responde. Eu, que sou hipocondríaca e (provavelmente, se caracterizada) a nerd imbecil da turminha do barulho, já conspiro teorias de que estamos sendo vigiados. Deve haver alguém do outro lado da rua com uma câmera a nos monitorar e anotar em um caderninho preto os horários que saímos e voltamos para casa. Essa pessoa quer nos fazer mal. Seja quem for, deseja vingança! Existe a possibilidade de ser a esposa da segunda família do meu pai. Eu tenho certeza de que ele sustenta trinta famílias pelo Brasil. Pode ser um namoradinho de adolescência da minha mãe. Alguém que quer plagiar meus textos. Um fantasma. Um ex meu que não se conformou. Pode ser qualquer um, menos um cidadão querendo vender aspirador de pó ou uma senhora idosa querendo saber como estamos. Imploro para que meus pais instalem um identificador de chamadas, mas a preguiça os impede.

Eu sou assim, catastrófica. Alguma desgraça irá acontecer. Tem que acontecer porque a vida não está de brincadeira. Já percebi que estou nessa merda para levar sustos e nada mais. Calada, compenetrada, fico acariciando as preocupações como se fossem gatos manhosos no meu colo. Sou perturbadora. "É mais forte do que eu" choramingo para a terapeuta, "não consigo sair desse estado automático de atenção". Os olhos dela dizem: bitch, please. O profissionalismo obriga a coitada a ter paciência e dizer que iremos curar isso com o tempo. Tento me convencer de que não estamos mais em uma guerra, mas minha Ansiedade não me escuta. Com pressa, ela sai correndo de um lado ao outro usando farda, a cara pintada de preto, capacete militar e uma pistola d'água com pimenta dentro. Só me conheço dessa forma, portanto, é difícil me apresentar a alguém diferente dentro de mim mesma. Entendeu?

Nem eu.

"Em 2009 comecei a sonhar com acidentes aéreos" contei para minha psicóloga ao chegar no divã. No começo achei que era medo de voltar para casa. Alguns meses antes de embarcar de volta ao Brasil, houve aquele acidente com a Air France. Logo depois, o vulcão resolveu foder com minha vida também, fechando os aeroportos na Europa. Eu sonhava com boings caindo sobre casas, incendiando bairros, caindo sobre morros ao longe e eu assistindo a tudo da minha janela. Agora em 2012, comigo em casa sem precisar me preocupar com as máquinas voadoras do diabo, os sonhos continuam. O último deles foi o mais estranho. A polícia havia sido avisada sobre a queda de um boing, e veio para meu bairro na tentativa de levar o avião para um local seguro através de sinalizações. Estacionaram carros de tetos luminosos dos dois lados das ruas e homens uniformizados faziam gestos com as mãos, como em uma pista de pouso no aeroporto. As pessoas saíram de suas casas para olharem a tragédia iminente. O avião cairia sobre nós e não havia o que fazer senão tentar diminuir o estrago. Os homens morreriam, os carros morreriam, a rua morreria.

— Vejamos se você consegue visualizar - minha psicóloga se ajeitou na poltrona. — Essas pessoas na rua, os carros estacionados indicando o local certo para o avião cair, estão protegendo a queda.
— ... Hã?
— Os sonhos são uma manifestação do seu subconsciente, e ele está acolhendo o seu avião em queda. No caso, algo em você está querendo morrer. Entenda que a morte nos sonhos nem sempre significa desencarnar, e não se preocupe, seu caso não é uma premonição! Algo em você está querendo "morrer" para dar lugar a uma nova coisa, abrir espaço para uma nova você. Porém, existe uma parte sua que não quer se desfazer disso, ainda está apegada a zona de conforto. Então, seu subconsciente protege "o acidente". O avião: a mudança interior. A queda: o medo de mudar.

Eu quis dizer que ela é uma pessoa muito foda, mas acho que ela já sabe disso. Preferi balançar a cabeça, meio boquiaberta, e mudar o foco do meu olhar para a estante de livros no fundo da sala. Sempre faço isso quando não sei o que dizer; acontece frequentemente. Ela ainda explicou que nosso subconsciente usa o sonho para nos mandar mensagens ou decodificar o que aflige nosso instinto. Todos somos uns animais, por mais que a gravata e o salto alto demonstre o contrário. Temos instintos e eles entram em ação quando acuados. De forma moderada, é claro, já que fomos presos em gaiolas pelos sistemas econômicos, mas eles continuam se manifestando através do que acreditamos ser mensagens subliminares. Eu jamais chegaria a essa conclusão da minha terapeuta sem sua ajuda. Continuaria achando que iria morrer em um acidente terrível como aquele envolvendo a TAM nos anos 90. Lembram? Acho que foi no Jabaquara.

Não tive mais sonhos desse tipo desde a tal consulta, mas ainda fico ansiosa quando escuto o ronco das turbinas passando pelo meu bairro. "Deixe morrer" digo para mim mesma na madrugada de insônia. Os aviões seguem a rota diretamente para Congonhas e eu fico deitada de barriga para cima, os olhos fixados no teto, a cabeça travando as engrenagens. Existem muitas coisas em mim em transição. Dezenas. Acumulei muito lixo nos últimos vinte anos. É difícil dizer, apontar com determinação o que estou tentando salvar. É óbvio que não tem a menor serventia agora, mas sinto um apego emocional ao que estou acostumada a ser. Ora essa, quem não se apegaria a si mesmo? Eu estou no meio do oceano e não sei nadar, no que vou me apoiar? Na boia. Quem é a boia? Eu sou a maldita boia. Estão tentando tirá-la de mim com a promessa de me entregarem uma melhor, ou até um bote, mas como sobreviverei durante a troca? Eu não sei nadar! Um segundo pode valer minha vida.

"Deixe cair" é meu mantra. Deixe o avião cair, arder em chamas, virar cinzas. "Chegará o dia em que eu te direi: você pode voar" a terapeuta diz, "e você irá acreditar em mim". Acho que o segredo não está em acreditar ou não nisso. O verdadeiro segredo é voar sem o medo de cair. Deveriam mudar o discurso: Um dia, eu lhe direi que você não irá cair.

E eu espero acreditar.

18 de maio de 2012

Os meus cinco desejos (versão 2.5)

O que fazemos com 25 anos? Por favor, não me mande enfiá-los naquele lugar. Já está cheio e não comporta mais 25 anos, que serão completados no próximo mês. Não gosto de comemorar meus aniversários; são lembranças ruins e sempre fico rodeada por um pau no cu. Mas como meu inferno astral está começando (se como não bastasse o azar habitual), resolvi dar um upgrade no ânimo fazendo uma singela lista. Vou fazer de conta que faço parte do crème de la crème paulistano, e que não existem barreiras para meus desejos. Meus anos estarão em festa (!) se eu ganhar:

#1 Um mordomo

O Batman pode vir de bônus. Talvez ele não goste da fruta, mas se eu tivesse um mordomo nada disso seria problema. Contratempos não existem quando temos um escravo moderno e fiel. Meus pés seriam massageados, minhas unhas pintadas de vermelho, meu quarto viveria arrumado e cheiroso, minhas roupas seriam organizadas por cor em ordem degradê no armário e minha granola seria servida todas as manhãs acompanhada por um cravo branco ou gérbera vermelha. Eu teria alguém para me avisar que "isso dará merda, milady" e seria poupada de certos aborrecimentos. O telefone seria entregue em uma bandeja dourada (eu não disse de ouro, eu disse dourada). O meu suco de acerola com laranja chegaria pronto e com guarda-chuvinha assim que eu esticasse meu braço. Enfim, o meu lado pirua viveria pleno e livre das garras dessa moça horrorosa e pobre com a qual me fantasio todos os dias. Oui, mes amis!

#2 Um Arabo-Friesian

No meme das 11 perguntas eu disse que ainda terei um cavalo, e não menti! Vou consegui-lo nem que para isso eu tenha que vender o Jaguar e o Porsche que eu não tenho. Ainda. É tudo questão de tempo. Sempre gostei de cavalos e quando pequena andava na chácara dos meus tios. Para mim, é um animal fascinante! Consigo imaginar eu e Janfred, meu mordomo, ambos na badalada hípica - ele segurando sombrinha, água mineral, leque, tablet, o Batman, as chaves do Rolls-Royce Phantom e eu acariciando meu lindo e negro Monsieur (não tenho cavalo, mas ele já tem nome).

#3 Cupons e descontos

Se eu puder economizar R$ 00,99 você pode ter certeza de que irei fazê-lo. Se meu cavalo custar R$ 90.000,99 eu vou pedir a bala de menta no troco. Eu adoraria receber uma caixa repleta de cupons, daqueles recortados em revistas, valendo um livro, outra revista ou até mais um cupom. Seria uma delícia entrar na Accessorize e encontrar tudo com 90% de desconto para aniversariantes. Melhor do que isso só achando R$20 na rua, tipo minha mãe. Eu não reclamaria de chegar no caixa da Livraria Cultura na Paulista lotada de pedaços de papel picotados, que valem rios de literatura. Também não acharia ruim de entrar em um restaurante e ter o manjar dos deuses graças ao vale-alguma-coisa. Gente como eu, que não nasceu em berço de ouro (aliás, em berço nenhum) ou fica rica desse jeito ou morre tentando.

#4 Um circo

Nunca pensei em montar uma companhia circense. Não, prefiro ficar sentada na plateia ou até me aventurar no tecido acrobático, mas administrar um circo não está nos meus planos. Por outro lado, viver disso seria o trabalho perfeito para mim, concordam? Apesar de não ter nascido em uma família tradicionalmente circense, eu poderia experimentar. Janfred cuidaria da parte chata e burocrática enquanto eu, obviamente, ficaria com o mais legal da história. Palhaço é o que mais tem nesse país, não seria difícil encontrar um montante no primeiro estalar de dedos. Monsieur seria a atração principal juntamente com Benjamin, mas meu acervo de animais não passaria desses dois. Talvez uma girafa, a Doroteia, que sempre quis ter. Gertrudes, uma batara adestrada que usa cartola e talvez um hipopótamo, o Sílvio Fabrício. Todos muito bem cuidados, com toda a certeza desse e de outros mundos! Viajar pelo país, quiçá os continentes, conhecendo todas as culturas é algo que todo ser humano deve almejar. Já imaginaram fazer isso em um circo? Puxa, pensando bem, vou trabalhar melhor essa ideia de companhia circense.

#5 Um gênio da lâmpada

Eu sempre achei que ele fosse o demônio, e estando no inferno, só me resta abraçá-lo. Janfred, infelizmente, não é o suficiente para atender a todos os meus anseios. Eu preciso de uma mágica branca para atingir meus objetivos. Qual seria o nome dele? Não sei. Eu ficaria muito ocupada desejando mais um bilhão de desejos e não teria tempo de pensar nisso. Eu não pediria a paz mundial, caso você esteja se perguntando, mas sim "que os homens aprendam a conviver com a paz, e percebam que ela não é inimiga". Logo em seguida viria minha biblioteca pessoal, o fim da minha unha encravada e um barril de sorvete de flocos. Desejaria que o meu aniversário fosse comemorado com um show privado d'O Teatro Mágico com todos meus amigos e queridos, e que muito além de presentes eu tivesse saúde para continuar. Que as pessoas sejam felizes, apesar delas mesmas. Que o Benjamin seja sempre esse cachorro amoroso e satisfeito. Que eu faça por merecer, principalmente.

Mas como nada disso é possível, eu me contento com livros e abraços. Algo me diz que, mesmo se eu tivesse todos esses pedidos atendidos, eu continuaria sendo essa garota que quer calor humano ao invés de ar condicionado. Entende? Que bom!

14 de maio de 2012

Procura-se moça vestida de palhaço

Branca, cabelos castanhos claros, olhos sem vida. 1,70 de altura e sorriso de quem não entende nada do mundo. Favor contatar o Manicômio da Cidade.

Foi abandonada pela família após o indício de que não cabia mais na sociedade. Era demasiada grande para o espaço pequeno, populoso e deveras disputado. A cabeça frágil e ávida pelo outro lado não acompanhou o tempo. "Ela deve ser separada de nós antes que contamine a todos"! E ponto final. Camisa de força e dois enfermeiros a levaram para o lado que sempre tanto a interessou, fazendo feliz uma alma já morta. O olhar vidrado, os dedos rijos, todo o corpo querendo tocar o ar. Sempre fantasiada, a fisionomia da nova moradora era desconhecida e até mesmo já esquecida pelos pais. Ninguém mais sabia, ninguém mais se importava em saber quem era ela. "Só uma louca, e nada mais". O rosto encoberto por uma pasta branca, os olhos rodeados por tinta preta com pequenas lágrimas pingadas nas maçãs do rosto, uma boca vermelha com os cantos encurvados para baixo. Vestimentas improvisadas por tecidos coloridos rasgados em tiras, uma blusa estufada branca esburacada, os pés descalços e sujos. Seu nome era Palhaça. Seu adjetivo também.

Mas aconteceu, certo dia nublado, um lapso de misericórdia na moça atordoada. Deitada na grama do jardim do manicômio, os pés para cima apoiados em uma árvore, Palhaça fitou a copa repleta de flores em botão. "Logo, logo, vai nascer", ela pensou em reticências. "Logo, logo, vai sair pra fora, pro mundo... que coisa, que coisa... Como salvar a plantinha tão bonita do mundo? Dos outros? Daquilo? Disso?" , ela entortou a cabeça para um lado e para o outro. "Só os burros são felizes", constatou se levantando devagar e sentando na grama, ainda com o olhar a observar a copa da árvore. "Só os burros são felizes, só os felizes podem ser burros... tem que ser burro pra poder ser feliz, então eu sou burra porque eu posso tudo, até ser feliz"... de repente, pareceu ouvir o botãozinho de flor chorar. Aflito, ele não queria conhecer o lado de cá. "Ele tá achando feio, tá achando cheio. Tadinho, tadinho... calma, eu vou consertar"! Palhaça se ergueu do chão, a mente nova, e correu para os muros altos que cercavam seu lar. "Tá alto. Pobrezinhos dos homens ali, tem medo da gente que não tem cabresto", ficou um bom tempo parada observando a fronteira branca e descascada. Então, de relance notou que o portão grande de ferrugem estava aberto enquanto um moço cheio de espinhas mantinha o carro estacionado para entregar remédios.

— Vou salvar a plantinha do mundo. Vou poupar o mundo da plantinha - e saiu murmurando, a maquiagem dos olhos escorrendo pelos cantos.

Quando o entregador e o porteiro perceberam, ela já estava virando a esquina correndo sem tocar os pés no chão. Os trapos coloriam o ar e se embaçavam com a velocidade das pernas magras e pálidas da pequena palhaça. A inocência de criança, tão insistente nessa menina sumida da consciência, percorreu o trânsito com os olhos arregalados - duas jabuticabas gozando primavera. Olhou para cima, olhou para um lado e para o outro, olhou para o chão. A atenção dos transeuntes foi sugada pela palhaça indecisa à beira da calçada. No horário de almoço, a cidade estava sendo invadida por um dos leprosos de sua margem. Tinha barulho, cheiro ruim, gosto amargo, água suja e estampa desbotada. "Podre, podre"... Ao seu lado parou um moço jovem, terno e gravata, maleta em uma mão, celular de última geração na outra. "Fala sem dizer nada", ela sussurrou para si passando as costas das mãos na boca; sentia nojo. Decidiu, por pura necessidade, cutucá-lo:

— Tem uma plantinha assim - ela demonstrou o tamanho da planta afastando um dedo do outro. - Ela tá nascendo no jardim de casa, mas não dá agora porque o mundo tá ruim. As pessoas vão pensar que ela é veneno e vão matar ela, vão matar... me ajuda?
— Sai daqui, garota, antes que eu chame o policial! - o rapaz rosnou.

"É tudo assim", ela pensou. Homens com pressa de se enterrarem a sete palmos debaixo da terra. Mulheres estressadas com a aparência e fazendo de conta que o interior não existe; só aquele em casa, que merece a mobília mais cara. Os humanos não entendem o que é nascer, mas são peritos na morte. "Matam achando que não vão ser matados", Palhaça suspirou. O povo habitante do mundo que ela desconhecia, se importava com o que os olhos enxergavam se esquecendo daquilo que só a alma via. Uns ignoravam os outros mesmo sabendo que todos precisavam de cada um. A estrutura estava partindo ao meio - a moça escutava! O chão tremia, o céu balançava. Ao seu redor, todos permaneciam martelando os sapatos no asfalto. "Corre, corre!", ela brincou; o moço ainda ao seu lado esperando o sinal de pedestres abrir. "Tão fugindo do quê?", ela gritou. Deles mesmos, querida. Que companhias insuportáveis, eles são. Projetam-se nos outros se esquecendo de que são eles os odiáveis. Acusam sendo eles o réu, sufocam sendo eles a fumaça, brincam sendo eles a coisa séria, torturam sendo eles os torturados, não fazem nada sendo eles o problema, criam sendo eles a destruição... "Pára, pára!", choramingou. "Mistura, mistura... tem que desmisturar!", e tornou a olhar para o moço.

Bruscamente, puxou a gravata do pedestre, que de sobressalto largou o celular. Os pés descalços e sujos pisotearam o aparelho até chutá-lo sem querer para dentro do bueiro. Ele surtou! Colocou as mãos na cabeça e atacou Palhaça com o cuspe do terror. Ela não entendia, porém, por que ele gritava "sua louca"; os braços erguidos, as veias saltadas, o animal selvagem pulsando, fervendo, se contraíndo, os dentes caninos escapando pelas palavras. "É tempo perdido... não tem mais a alma", ela descobriu tardiamente. A plantinha, coitada, estava perdida. Juntaram três, quatro, cinco, seis homens para segurarem o pobre desorientado que perdeu o celular. Quem seria ele sem status? Só mais um. "Um mais um dá onze", o mundo estava explodindo e só Palhaça sentia as vibrações. Os religiosos diziam que aquela fantasiada moradora do manicômio era o câncer da humanidade, mas "não, espera... essa é a Bíblia errada!" Os dedos inquisidores surravam dizendo que uma raça imprópria não podia viver espalhada, mas "são vocês que se multiplicam sem olhar pra frente!" As vozes condenavam, clamavam por um quarto branco para ela, mas "eu só queria salvar uma plantinha de vocês!"

Palhaça sofria de uma doença incurável, cujo principal efeito colateral eram os olhos abertos. "Já tentei fechar, mas o médico se assustou com o sangue. Gente não gosta de sangue, acham triste. Não sei por que, é bonito, fino, forte, dá vida, constrói cidades, se apaixona, se perde, se encontra... mas muita gente lá fora não sabe que não tem mais sangue, eles só tem vinagre no corpo". Azedos, todos eles, não sabiam de mais nada. Inventaram tantas verdades, que se perderam entre as próprias mentiras; não confiavam, não segredavam, não existiam. Tornaram-se mudos, surdos, cegos - discretos macacos fugindo da ciência e a reinventando para ter do que ter medo. Viciados na desgraça, no desamparo, na catástrofe - intrépidas máquinas querendo roubar o sol do próprio céu. Derrotados exibindo prêmios roubados na estante do ego e forjando heróis de um cotidiano estilizado pelos vilões - egoicos. Palhaça compreendeu que não havia lugar para a plantinha também, "por isso ela vai nascer do meu lado do muro"! Brilhante conclusão. As gotas da garoa chacoalharam os sentidos da moça, que saiu correndo se afastando dos homens loucos. Livres? Não. Eternamente aprisionados em um sonho profundo e indolor.

Ela correu, correu, correu sentindo a chuva, o ar, as células e todas as pessoas, todos os mundos dentro daquele único planeta. Por um instante, se sentiu feliz e aliviada por saber que o botãozinho estava a salvo, protegido, distante das mãos loucas por apertá-lo até a morte. Palhaça estava segura, finalmente sabia, de todo o mal e incompreensão que tomaram conta das ruas enquanto as casas dormiam. "Todo mundo vai morrer, mas eu não!", e de fato era eterna. Seu coração jamais irá parar de bater na memória daqueles que compartilham sua sensibilidade e estão perdidos, deslocados, desse lado do muro. Lembre-se, sempre haverá um e outro que sabe das coisas erradas e fora do lugar. Por mais que os valores estejam invertidos, vez e outra alguém irá pular o muro para nos avisar que o caminho é outro. Os palhaços irão ocupar a cidade berrando a plenos pulmões: Ouçam, o circo chegou! Num piscar de olhos, a chuva será de confetes e a loucura será normal.

Palhaça não foi longe. Passou voando por um, dois, três carros e um ônibus, mas antes de alcançar o cruzamento sentiu os braços da prisão agarrarem sua cintura. Apagou. Despertou, novamente, no quarto do manicômio. Leve, linda, nova. Lar, doce lar. Pela janela, avistou a copa da árvore, os botões alegres e prontos para estourarem; sorriu, a maquiagem escorrida por toda a cara: "Vem pra cá! Tá tudo bem agora!"

Conto enorme, mas se não fosse tão grande seria apenas mais um texto blogueiro e não é minha intenção. Foi inspirado na música "Esse Mundo Não Vale o Mundo", d'O Teatro Mágico. Dedico à todos os loucos!

10 de maio de 2012

A outra Helena da minha vida

Quando meu pai ainda trabalhava com reformas de casas, eu sempre o acompanhava nas visitas aos clientes. Como era uma empresa de porte pequeno, ele sempre encabeçava os orçamentos, e já que a maioria era composta por famílias alemãs, tudo acabava em amizade. As senhoras adoravam aquela menina pequena que fui porque podiam fazer de mim o que quisessem. Ensinavam alemão, presenteavam com bonecos alemães e ofereciam centenas de biscoitos e gostosuras alemãs. "Tomara que ela se torne alemã por associação!" Mas não deu certo. Digo, a amizade ficou, eram todas e todos muito atenciosos, mas continuei brasileira e odiando sauerkraut. Odiava, também, passar horas sem nada para fazer naquelas casas sem filhos nem netos. Quintais enormes, cheios de plantas. Casas cheirando aos alpes. Para qualquer lugar que eu olhava tinha algum objeto delicado demais para dividir um cômodo comigo ou algo que era óbvio, até para uma criança, ser profundamente amado pelos donos.

De todas essas pessoas, a que mais ficou guardada na minha memória foi a casa da Dona Helena. Uma alemã da raiz, sozinha até o último fio de cabelo, com a casinha mais confortável que já conheci nesses 24 anos. Não tinha mais família, jamais havia se casado e não tinha nenhum filho. Nem um sobrinho para contar história, acho. A única coisa que ela tinha era a casa, um cachorro e a família do meu pai. Ele, minha mãe e eu, que fui o mais perto de "criança" que ela conseguiu chegar. Então, toda vez que nos víamos, Dona Helena me enchia de atenção. Mostrava as recordações da terra dela, fotos, trabalhos manuais que fazia como hobbie, os truques que ensinava para seu cachorro ou ficava simplesmente sentada com meus pais conversando, e me bisbilhotando de soslaio.

Também me lembro, infelizmente, da forma como meu pai a tratava ou falava pelas costas. "A Helena isso, a Helena aquilo!" Eu cresci o observando desmerecer as pessoas. Ninguém era o suficiente para ele. Ninguém fazia a coisa certa. Nem eu. Aliás, muito menos eu; a menina quietinha e educada que era mais querida do que ele pelos clientes. Todo mundo aceitava os trabalhos do meu pai por causa da minha mãe e eu. Caso contrário, ninguém se sentiria obrigado a aguentar aquele sujeito. Palavra dos próprios. Mas a Dona Helena, idosa e sozinha, era quem mais sofria. Eu, pequena, ficava sem entender nada. O mesmo pai que falava horrores dela, tanto na cara quanto pelas costas, era o mesmo funcionário que lhe entregava o orçamento, mês após mês, e realizava o trabalho. Dona Helena foi a única que continuou pedindo os serviços dele mesmo após todos os outros clientes terem lhe virado as costas porque "ele já estava velho".

Ainda assim, meu pai reclamava muito dela. Até que ele resolveu cortar as relações e ignorá-la para ficar em casa sem trabalhar e encher a cara o dia inteiro; destruindo assim, minha juventude inteira.

Dias atrás, soube através de minha mãe que Dona Helena está em um asilo e sofre do Mal de Alzheimer. Foi então que abri meu armário, minha caixa de acessórios, e encontrei o anel que ela havia me dado. O anel mais especial da vida dela, que se não ficasse comigo, não ficaria com mais ninguém já que ela não tinha para quem dar. Um anel azulado, muito antigo, que ela ganhou de seus pais em seu aniversário de 15 anos. Olhando, ninguém diz que o anel envelhecido tem valor, mas tudo depende do ponto de vista. É o maior presente que já ganhei, tão cheio de história, sentimentos e lembranças boas. Também encontrei o relicário que ela me deu de presente. Dentro, ainda estavam as fotos de seus pais, um de cada lado, bem apagados pelo tempo e má qualidade das fotografias naquela época tão distante. A única coisa que Dona Helena me pediu foi para que eu guardasse as fotos se caso quisesse tirá-las, mas que não as jogasse fora porque seus pais foram as pessoas mais importantes em sua vida.

E eu, a neta que ela nunca teve.

Agora, Dona Helena sequer lembra dos rostos conhecidos. Sua casa tão confortável e perto de um dos melhores shoppings está em mãos estranhas. O último cachorro que ela comprou antes de adoecer, não sei com quem está. Meu pai, tempos atrás, só foi procurá-la por pura curiosidade e não se abalou nem um pouco com a notícia. Como eu disse antes, nem foi pela boca dele que fiquei sabendo. Mas de nada adianta querer visitá-la. Dona Helena pode estar viva, mas há muito sua memória foi embora; gosto de pensar que voltou para a Europa e lá vive muito feliz com seus pais, quem sabe usando aquele anel tão lindo e gozando da leveza de seus 15 anos.

Gosto de pensar assim, mas é algo que ao mesmo tempo me traz tristeza. Uma senhora que me deu tanto, recebeu tão pouco, e agora passa o resto de seus dias sozinha, sem nenhuma recordação material porque estão todas aqui comigo. Será que ela se lembra do anel, do relicário? Para quem os deu e por qual motivo? Eu queria, sinceramente, que o calor do meu coração pudesse atingí-la sem importar a distância ou as leis da Ciência. Sem importar quantas vezes a tristeza o abrace tentando esfriá-lo, e sorrisse querendo o convencer de que seu lugar é a solidão. Eu queria, muito, enfrentar todos os sorrisos que a tristeza me mostra hoje e não ter medo de chorar ao ver uma Dona Helena diferente da que conheci. E que Deus um dia me perdoe por eu ter desejado que meu pai ocupasse o lugar daquela senhora no asilo para colher toda a miséria que plantou, e morresse no eco do esquecimento.

7 de maio de 2012

99 não é 100

Valter trabalhou no lixão por 26 anos, mas morreu pouco tempo depois do início do projeto de Vik; é dele a frase deste texto e ela lhe dirá muito mais do que agora, quando eu terminar de escrever tudo o que senti após assistir Lixo Extraordinário.

Confesso que me interessei pelo documentário só porque o mesmo artista, Vik Muniz, fez a abertura da novela Passione, escrita pelo meu amado Silvio de Abreu. Achei inovador e muito bonito, então resolvi pesquisar um pouco mais sobre o tal brasileiro tão criativo. Logo de cara encontrei o documentário dele falando sobre o lixão de Jardim Gramacho (RJ), mas não dei atenção porque tinha certeza de que seria puro sensacionalismo; um brasileiro que se deu bem no exterior voltando para cá e fazendo favores para pessoas pobres em troca de uma massageada no ego através de um documentário. Não sei o que me levou a baixar o arquivo dias atrás, mas acabei assistindo. Para provar que eu estava certa? Para me indignar com a cara de pau das pessoas se promovendo com o sofrimento alheio?

Errei tanto, que até fiquei com vergonha de mim.

Muniz é o tipo de artista que não tem ego, só alma. Ele tem aquele olhar puro e desprentencioso que não encontramos em qualquer um hoje em dia. Mais do que um brasileiro que deu certo, Vik lutou bastante para ser um dos homens mais cultuados na atualidade. Sua intenção ao visitar o Jardim Gramacho não poderia ser mais genuína: ele queria ajudar aquelas pessoas usando da própria arte. Queria invadir aquele mundo, desconhecido por mais da metade da população brasileira, e mudá-lo de alguma forma.

O documentário começa tímido, sem pressa, mostrando todos os pontos importantes da vida do artista e também do lixão no Rio de Janeiro. Ninguém se preocupou em florear a opinião que tinham sobre o projeto, e o medo que aquilo causava. A primeira imagem que todos formam é triste, de pessoas que não tem o que perder, doenças e desolação. Não é preconceito, é o pensamento natural sobre um lixão, o lugar de uma rotina inimaginável. Corajoso, Muniz continuou com a viagem e a ideia inicial. Visitou a antiga casa onde morou quando adolescente, antes de ir tentar a vida nos EUA, mostrou sua família, sua vida no exterior com a esposa e filha e rapidamente, com certeza timidez, comentou sobre seu trabalho - o importante ali não era o artista, mas sim o homem que estava disposto a desvendar a vida no maior aterro sanitário da América Latina.

Não vou contar em detalhes o que se passa entre as montanhas assombrosas de lixo para não perder a graça, mas posso adiantar que Lixo Extraordinário abriu meus olhos para pessoas que eu sequer imaginava existir. O que encontramos naquele lugar não é nada daquilo que imaginamos, muito pelo contrário, é uma grande surpresa e duvido que seja possível encontrar visões de vida como as que sobrevivem em meio ao que não serve mais para a população. Não são catadores que se igualam ao lixo, mas sim trabalhadores que deram outra cor à coisas que cansamos de olhar. Foi incrível descobrir que eles encontram livros (até mesmo de autores como Maquiavel e Nietzsche) inteiros, intactos, no meio de tudo aquilo. Não só encontram como leem e citam e discutem, tendo como sonho abrir uma biblioteca para a criançada só com o que arrecadam sob o sol forte e os urubus.


Muniz entrou ali esperando encontrar o último suspiro de vida da cidade, mas encontrou todo um bairro em atividade, lotado de sonhos e histórias comoventes de superação. Eu, que deixei de lado o documentário por um tempo, acabei descobrindo que realmente ninguém é descartável. Podemos topar com a esperança em qualquer canto, sem precisar procurar muito ou escolher um lugar em especial. Não sou do tipo que comparo minha vida com alheios, mas o Jardim Gramacho de fato me ensinou muitas coisas e me fez rever outras. Com o documentário aprendi que cada um precisa fazer sua parte e jamais desistir de lutar. Noventa e nove não é cem! E as pessoas extraordinárias estão logo ali, basta querer enxergá-las.
Comecei a me sentir arrogante ao querer ajudá-los. Quem sou eu para ajudar alguém? Foram eles que me ajudaram!
— Vik Muniz.

5 de maio de 2012

Conheça o blogueiro

Pessoal, muito obrigada pelo retorno em comentários tão animadores a respeito do meu livro! Estou mais animada do que vocês possam imaginar, e agora entrei em uma fase de pesquisas para continuar a história. Um beijo para cada um de vocês que comentaram ou apenas leram o prefácio :)

Eu adoro navegar pela blogosfera, normalmente entre links de um blog para outro. É o jeito mais fácil para encontrar blogueiros de ouro e textos que combinam comigo. Numa dessas, acabei encontrando um meme bacana que, senão para engordar o Bonjour Circus, serve para tapar buracos. Foi no blog Brincando de Verdade, que entrou na minha lista para ir conhecendo melhor aos poucos. Como eu sou uma blogueira piriguete que adora ter o ego massageado, essa "entrevista" coube direitinho no meu ânimo! Mas se você não quiser ler o meme, tudo bem, dê três pulinhos até os comentários e diga somente "Te manca!"

"Hoje recebemos essa figura ilustre..."

1. Quando surgiu a ideia de criar seu blog?
Bom, não vou ficar comentando sobre os defuntos que criei ao decorrer desses anos. Falemos do Bonjour Circus e nada mais: Na verdade, eu tive a ideia em 2009 ainda na Suíça. Queria manter um diário da minha viagem para guardar. Como eu não tinha tempo para nada, o blog foi ficando, ficando, ficando... Cheguei no Brasil em 2010, mas logo em seguida sofri de Transtorno de Ansiedade, o que me prendeu por um tempo. Conforme minha terapia foi trazendo resultados, e eu me sentindo mais leve e melhor comigo mesma, decidi de uma vez por todas criar um canto meu, com os meus textos e só com as coisas pelas quais sou apaixonada. O blog me ajudou muito a assumir cada vez mais quem sou e a perder a timidez de publicar o que escrevo.

2. Origem do nome do blog?
Já expliquei algumas vezes, se não me engano. Olha, não tem um significado certo; é isso e pronto. A única coisa que fiz questão era a presença da arte circense de alguma forma. Pensei em colocar o meu nickname na internet, mas algo me disse que só me ajudaria a enjoar do nome com mais rapidez. Eu gosto do idioma francês, por isso o Bonjour, que tem uma ótima sonoridade. No fim das contas, meu blog não deixa de ser um "Bom dia!" ao circo!

3. Você tem outros blogs além desse?
The Rasmusologia, o melhor blog (ou não) sobre a melhor banda finlandesa (ou não). Participei de várias formas a respeito da banda; sites, grupos, fóruns... Mas cansada disso, dessa trabalheira toda, resolvi criar um blog pessoal, sem notícias nem novidades, onde eu pudesse escrever o que penso sobre o The Rasmus. É clean, leve e divertido.

4. Já pensou alguma vez em desistir do seu blog?
É cedo para isso, mas já pensei em parar de escrever por, sei lá, alguns dias. Nem sempre estou afim de compartilhar, publicar e contar. Acho que é normal. O problema é que o blog vai tomando grande espaço na nossa importância e chega uma hora em que não podemos mais nos ver sem ele! Eu nunca levei isso tão a sério, como nos outros blogs que tive. Além de gostar de escrever, para ter um blog você precisa também de maturidade. Pelo menos para mim está funcionando.

5. Mande uma mensagem para os seus seguidores.

"Let's conquer the world!"

Prefiro chamá-los de leitores. Alguns, até de amigos! É estranho mostrar tanto de mim na internet, um lugar tão aberto onde qualquer um pode ler o que escrevo. É lógico que existem pessoas as quais eu gostaria de manter longe daqui, mas me parece impossível. Por outro lado, encontrei blogueiros maravilhosos e estou adorando conversar com vocês! Se existem aqueles dos quais quero distância, existem também aqueles com os quais quero dividir coisas boas e ruins. Por mais que eu tente, não tem como essa resposta não soar clichê. Isso é chato. Eu adoraria poder expressar o que vocês são para mim com palavras novas e significados desconhecidos! Sendo impossível, escolho a palavra clichê mais bonita que eu conheço: Obrigada.

Bom, o meme ainda inclui algumas respostas rápidas, mas como não gosto muito disso resolvi resumi-lo e escolher as duas que me agradaram: Do que mais gosta no seu blog? Os leitores, mimimi. O layout, com certeza! Todo blog precisa de uma cara, e é essa a do Bonjour Circus. Quem te incentivou a escrever? Comecei sozinha, sempre gostei disso, mas me apaixonei de fato após os conselhos de amigas e os livros de Markus Zusak. A Taisi, uma amiga e tanto, acompanhou todas as minhas fanfics e opinou sobre cada uma delas. Tenho saudade do tempo em que eu entregava meus capítulos para ela, morrendo de vergonha, e depois recebia um feedback inspirador! Assim como outras amigas, algumas blogueiras como a Lusinha, que sempre me incentivaram a continuar blogando e não me deixaram na mão nem quando meus textos eram bebês que engatinhavam. Markus Zusak foi minha grande descoberta no mundo literário. É um cara sensaional, inovador, criativo e que me mostrou uma nova forma de se expressar. É graças a ele que continuo meu livro e ainda acredito que existe espaço para todo tipo de escritor!

Pronto, doeu? Agora eu quero a minha caneca!

3 de maio de 2012

Muito prazer!

Este é o prefácio do meu livro "Helena". Eu gostaria que vocês dessem suas opiniões sinceras! Estou estacionada em uma parte da história e por nada nesse mundo consigo prosseguir. Bom, espero que gostem :)

       Normalmente, o primeiro capítulo é um tipo de “minhas férias”; aquele parvo exercício do ensino fundamental. É um canto ainda perdido na história onde os escritores se esforçam para começarem uma longa jornada de dezenas de páginas. Assim que resolvi escrever sobre essa minha vidinha medíocre, me perguntei como eu começaria já tendo a certeza de como seria o final. Mas como chegar ao fim?
        Após pensar - e muito - decidi: Começarei pelo começo! Isso poderia ser no dia quente de dezembro em que nasci ou o início turbulento de minha adolescência, minha entrada na faculdade, o primeiro estágio, a primeira vez como pessoa independente. Mas não. Meu começo é no coração de Eduardo, ao menos tentando entrar. Eis que comecei e nada mais justo do que um primeiro capítulo sobre quem vos escreve.

        A verdade é que as pessoas nunca dizem o que realmente queremos saber. Todo mundo odeia inveja, ama chocolate e escuta Beatles. Eu não gosto de Beatles. Não gosto de Rolling Stones. Também não vou fingir que gosto das pessoas.
        O que você gostaria de saber sobre uma garota que olha pensativa pela janela do ônibus? E um cara? Aquele em pé, nesse mesmo ônibus, desajeitado segurando uma mochila. De onde essas pessoas são? Para onde vão? Qual a cor da roupa íntima delas? Qual o nome? O que tem dentro da mochila? E o que tanto a moça pensa? O cara está me olhando de soslaio? Ela me observa pelo reflexo do espelho?
        Eu nunca, em toda a minha vida, usei calcinha vermelha. Tenho diversos preconceitos. Sou apolítica com um pé esquerdo na direita. Não sou transparente nem acho que sou louca. Digo que falo tudo na cara, mas só falo mesmo o que me convém. Sim, tenho papas na língua. Quem não tem, não é o caçador, é a caça. Todo mundo é hipócrita, e eu também. Neste exato momento alguém está nascendo, outro está morrendo, e me importo com isso. Bem indiretamente. Tenho consciência do que acontece ao meu redor e não ligo para isso na maioria das vezes. Tomo leite direto da caixinha. Sinto incomodo com o que pensam sobre a masturbação. Detesto gente que fala da sua intimidade. Detesto quem acha isso imoral. Todos hipócritas. Amo granola! Ok, eu amo lasanha. Já pensei em dar meu gato, Rusky, para alguém, mas eu o amo! Penso maldades ao mesmo tempo em que encho meu coração de bondade e vontade de ajudar ao próximo. Tenho máscaras. Não uso nenhuma. Ou talvez sim. Na dúvida, não confie em mim; eu sou humana. A mania de listas é notável, outras nem tanto. Eu calço o pé direito primeiro. Depois do banho, seco primeiro a nuca. Abomino batom, e uso o mínimo de maquiagem por culpa do trabalho. Tenho medo de ficar surda na velhice por causa dos fones de ouvido, mas não me desprendo deles. No fundo, as pessoas não gostam do meu jeito. Este livro é mais para você do que para mim, e eu irei ganhar dinheiro. Você irá gastá-lo. Capitalismo é uma merda, mas sou cega, surda e muda sem ele. Você também. Eu acuso, eu julgo. Detesto quem faz o mesmo. Sou hipócrita.
        Só para resumir e começar meu livro.
        E você? Quem é você que me lê agora?

        Sou Helena e você está, neste instante, entrando em minha vida.
        O prazer é todo seu.

1 de maio de 2012

Amanhã é um novo dia

Assim como é o que tem para hoje, venho me convencendo de que amanhã é um novo dia. O Transtorno de Ansiedade me ensinou isso. A vida em si, digamos, acaba dando este mantra de presente para todos nós. Se não o aceitamos, se insistimos que tudo é duradouro e nada irá mudar, fazemos com que a vida dê errado de propósito. Apanhei bastante para aprender. A custo de muito suor eu percebi que a cada raiar do sol o mundo se transforma. Uma noite é o suficiente para ideias serem esquecidas, assim como pessoas importantes, e casais se separam enquanto outros traem. Durmo, e acordo envolta por novas sensações, sinto um vazio onde antes houvera profundas reflexões e minhas preocupações já não tem o mesmo valor; algumas nem existem mais ou foram renovadas por certos eventos. Os meus pensamentos amadureceram, abriram em flores, cairam do pé. O amanhã guarda mais coisas do que imaginamos.

Sou extremamente imediatista; todo adolescente, creio eu, desenvolve isso. Mas ao invés de crescer e constatar que nem tudo acontece quando e como queremos, eu aprendi a lidar de forma diferente com o meu "quero agora, para ontem, já!" Com certeza não é um jeito melhor e menos agressivo para o emocional. Continuo sofrendo com a espera. As pessoas me dizem que calma, uma hora vai dar certo, mas não entendem que para mim as coisas custam um preço altíssimo para funcionarem. Para mim, a expectativa da bolinha girando na roleta russa é quase sufocante. Eu sei que ela vai cair no número errado, mas alimento a esperança de ter um pingo de sorte entre um nanossegundo e outro. O resultado, normalmente, é um tombo que dói mais do que o necessário. E quem vive caindo acaba desenvolvendo um grande medo, pois não sabe quando será o próximo tropeço, qual sua intensidade e quão grave será o ferimento.

Criei um personagem no meu livro (Helena) cuja função é reger a sensatez. Por mais estranho que possa soar, estou absorvendo grande sabedoria dele - o avô de Helena. Na falta de alguém experiente e saudável mentalmente para conversar comigo, que apesar dos meus 24 anos sou uma simples criança, dei nome e vida para um pedaço que estava adormecido em mim: a alma. Esta sabe de tudo. Existe um estudo onde a ciência separa nossa memória em quatro grupos. Isso mesmo, eu - e mais algumas outras pessoas - não consigo sequer comandar uma memória, nada faz com que ela funcione direito, me esqueço das coisas mais banais, e agora descubro que existem outras três!

Pois bem, estou falando da Memórida de DNA. Independente de sua crença, religião, Deus ou qualquer coisa que o valha, essa memória grava as informações da sua vida, assim como de existências passadas. A minha se esforça muito para que eu acredite que a situação irá mudar e se resolver como melhor convir. Só que minha luta contra o otimismo é tão inflexível, que meu espírito se esgota. Adianta ir à terapia e se mostrar com vontade de vencer desse jeito? Não. Portanto, quando meu dia está difícil de ser vencido e sinto meus ombros cansados, eu mentalizo o dia seguinte. Ele virá. Trazendo não sei o que de surpresas, mesmices e rotina, mas ainda assim será tudo novidade. É um fenômeno que não posso adivinhar tão pouco prever. Talvez este seja um dos milagres que percorrem a Terra; o desconhecido.

Estou separada de inúmeras possibilidades por apenas algumas horas de sono, ou insônia. Não saber o que espera por mim, além do sol, é ao mesmo tempo reconfortante e maldoso. Um dia saberei lidar com ambos os lados. Enquanto isso, vou tentando derrubar barreiras que construi para ninguém chegar. Vou deixando as horas oferecerem, bem devagar, o futuro embrulhado e com um laço vermelho bem bonito e vistoso. A lua vai chegar e depois ir embora dando lugar ao sol, e tudo irá recomeçar como se nada tivesse acontecido antes. Vou respirar. Parar de levar tão a sério e fazer um pouco mais de conta. Tudo é de conta, mas nem tudo devemos pagar. Isto também serve para você, que anda de mãos dadas com a angústia, amargando o desânimo e maldizendo a nuvem negra sobre sua cabeça.

— Acredite em uma única coisa, Helena...
— No quê?
— No amanhã.
Helena.