26 de abril de 2012

Os cinco filmes da minha vida

Encontrei em vários blogs, mas foi após ler o meme da Barbara que fiquei com vontade de participar! Sou profundamente influenciável por pessoas fodas, tipo ela. Então, cá estamos reunidos para uma coisa a qual ninguém quer saber, mas estou afim de falar sobre. É difícil escolher cinco filmes de todos que assisti e gostei até hoje, mas o que seria do Bonjour Circus sem desafios? O que seria de mim? O que seríamos, afinal?

Porra nenhuma! - vocês respondem em uníssono.

Muito bem. Nem todos os listados são os meus favoritos, mas sim aqueles que marcaram época ou algum momento/situação importante na minha vida. Assim fica mais fácil de lembrar e também de ser justa com a sétima arte.

#1 Titanic

Um clássico. Recordista de bilheteria. Não adianta você ser chato e dizer que não gosta. Ninguém vai acreditar. Titanic levou milhares de pessoas as lágrimas, e levará mais algumas nesse segundo lançamento em comemoração ao centenário do naufrágio. O fato por si já é uma grande história, mas ainda incluiram um romance dócil para piorar a situação. Eu era pequena quando fui ao cinema com meus pais, e lembro até hoje dos mínimos detalhes do filme, as músicas, diálogos e cenas que um e outro fez questão de esquecer (como a piadinha da porta, que além de passada, está errada). Leonardo DiCaprio novinho causou frisson, minha gente! Até eu, que era nova demais para compreender esse negócio de pegável, entrei na onda e colecionei revistas com reportagens dele. Veja você. Foi uma das melhores épocas do cinema; a única que vivi até então. Titanic merece ser lembrado para todo o sempre!

#2 Amadeus

Sempre gostei dele, mesmo antes de saber quem era o cara tocando músicas "sem letra, mas muito bonitas". Quando descobri de uma vez por todas o senhor Mozart, nunca mais larguei e ele me acompanha todos os dias nos momentos de inspiração. Somente muito tempo depois encontrei, por acaso, o filme "sobre ele". Assim, entre aspas, porque na verdade o filme é inspirado em uma peça de Shaffer. O que é uma pena, eu adoraria ter certeza de que realmente houve uma luta de egos entre ele e Salieri! Dividido em dois dvds, é uma peça de ouro para se guardar dentro do colchão. É raríssimo eu gostar de cada segundo de um filme, mas Amadeus conquistou cada um deles não me deixando nem respirar entre uma cena e outra. Sou completamente apaixonada e não nego! Pode ser um roteiro teatral, ficcional e qualquer coisa que vocês quiserem afirmar, mas eu continuo achando a obra que mais se aproximou da real personalidade do músico mais foda de todas as gerações - Wolfgang Amadeus Mozart!

#3 O Pianista

Antes de assistir este, eu acreditava que A Lista de Schindler era o melhor filme sobre a Segunda Guerra Mundial. Olha, não tiro o mérito dele, é realmente ótimo, mas O Pianista bateu qualquer ranking. Não sei se fui influenciada pelo fato da família de minha avó também ser polonesa, ou pela fotografia perfeita, pelo ator maravilhoso, o cenário impecável ou tudo isso junto. Sou suspeita para falar de filmes sobre guerra porque adoro todos, assisto todos, quero todos e sou viciada em cada um deles! Deve ser o sangue alemão gritando rudemente na minha memória de DNA. Eu era só uma adolescente quando assisti e chorei como uma própria sobrevivente da guerra revendo um passado cruel. Mas assim, eu soluçava de tanto chorar! Cheguei num momento que, ou eu segurava as lágrimas, ou não conseguiria ver mais nada por culpa dos olhos inundados. Nos créditos finais, a única coisa que eu conseguia fazer era afagar o coração com a mão lotada de lencinhos e dizer: "Que lindo, que lindo, que lindo..." Quando me lembro da cena, acho cômico e exagerado, mas assim que coloco alguma parte do filme para rodar começo a tremer o lábio inferior e sinto o coração diminuir.

#4 Die Unendliche Geschichte

Acho que em português o título é "A História sem Fim", mas sei lá, não lembro. É o filme da minha infância, simples assim. Acho que foi o primeiro a ser gravado na minha memória, pois não me lembro de nenhum antes dele. Eu ficava deitada na cama, de bruços e balançando os pés, enquanto assistia o "cachorro grandão" voar; eu tinha medo e ao mesmo tempo fascinação por ele. Bastian, o personagem principal, foi quem deu o primeiro (de todos os outros primeiros) nome do meu filho. "Quando eu crescer e tiver um filho, o nome vai ser Bastian", eu dizia para todo mundo. Lembro pouquíssimo da história, mas é engraçado como os personagens e a magia ficaram grudados na lembrança! Até hoje não li o livro que inspirou o filme e por incrível que pareça não tenho a menor vontade de fazê-lo. Tenho a impressão de que isso acabará tocando uma parte muito importante da minha infância levando tudo por água abaixo.

#5 Pearl Harbor

Assim, não é nenhuma Coca Cola. Um filme bem fraquinho, aliás. Tem sua emoção, não nego (é sobre a guerra, gente). Marcou o período dourado onde tive o privilégio da TV por assinatura. Ah, bons tempos! Porém, o motivo de estar na lista não é nem o filme, e sim sua trilha sonora. Uma das mais lindas - dando destaque para There You'll Be e Tennessee. Antigamente eu gostava de colecionar trilhas, mas depois a mania perdeu a graça, perdi o interesse, e acabei deletando a maioria das pastas. Permaneci com duas ou três e entre elas está o Pearl Harbor. Não tenho a menor vontade de rever o filme, mas não me desfaço tão cedo das músicas. Vai entender...

Eu queria escrever mais, posso? Eu quero conversar sobre mais filmes, todos aqueles que me marcaram de algum jeito, e não foram poucos. É horrível ter que separar coisas que gostamos tanto, mas minha lista não poderia ser diferente. São estes os filmes assistidos em momentos importantes, que deixaram marcas dignas de serem lembradas! Existem centenas de outros, mas aí está o resumo. Não vou indicar alguém porque, até onde vi, a maioria dos blogs conhecidos já participaram do meme. Mas se alguém se interessou e quer enfrentar o desafio, é só ir em frente!

23 de abril de 2012

Benjamin, o cachorro atrapalhão

Não consigo usar títulos normais para esse cachorro hiperativo.

Benjamin está dando trabalho para aprender que sou eu que o levo para passear, e não o contrário. O momento que deveria servir para relaxar e curtir o clima fora de casa se tornou num verdadeiro cabo de guerra. Eu de um lado da coleira. Por fora, uma moça equilibrada que não se deixa dominar pelo cachorro. Por dentro, uma esquimó sofrendo com a neve queimando sua pele, aos gritos chicoteando o cachorro e tentando controlá-lo para não virar o trenó. Benjamin do outro lado da coleira. Se esgoelando e esbugalhando os olhos para engolir o mundo inteiro de uma vez só. Porque tudo é maravilhoso demais para ficar esperando, ele tem que alcançar as coisas antes que elas fujam dele. Mesmo que essas coisas sejam muros de casas, cantos de rua ou árvores. Talvez ele seja assim porque minha casa não tem grama nem muito espaço para ele correr, se exercitar e cheirar à exaustão. Ou porque o veterinário recomendou que ele não saísse de casa até tomar todas as vacinas de proteção, o que o segurou aqui do lado de dentro até seus 11 meses. Imagine segurar um cão hiperativo e curioso por todos esse tempo! 

Tarefa difícil.

Depois do acidente de carro, minha mãe passou a guiá-lo porque eu sentia muitas dores na coluna e no tórax. Hoje, meses depois, ela continua o levando vez ou outra. Veja bem, minha mãe é uma senhora baixinha. O Benjamin a arrasta quando bem entende para o lugar que ele escolher. Já comigo, o malandro sabe que o buraco é mais embaixo. Quando sou eu o guiando, Benjamin pondera em engolir o mundo ao seu redor ou continuar com o pescoço no lugar, porque faço questão de puxar de um lado enquanto ele puxa do outro. Normalmente funciona, mas é só ele farejar algo extraordinário para se esquecer do acordo. Sei que esse não é o método, mas meu pai - como sempre - não colaborou com o treinamento que eu vinha dando ao cachorro. Meu pai é o tipo de pessoa que veio a passeio no mundo. Trágico. Ele acha mesmo que as coisas se "auto criam". Portanto, quando o velho sai com o cachorro, deixa o animal fazer o que quiser e como quiser.

Não demorou muito para eu cansar de bancar a palhaça, ensinar de um lado para depois meu pai cagar do outro, e abrir mão do treino. Isso só me irritava mais ainda e confundia a cabeça agitada do Benjamin. Resolvemos que ambos iríamos ignorar a brutalidade do encontro de forças e seguiríamos arrastando um ao outro para o horizonte dourado. Tem dado certo, por enquanto. Claro, quando o amiguinho de Benjamin (Beethoven, outro vira-lata) aparece na rua para saudá-lo tão efusivo quanto ele, tudo vai por água abaixo. Eles acham muito engraçado brincarem comigo pendurada na coleira de Benjamin. Sou o pingente decorativo do meu cachorro. Beijos para você que se acha uma merda. É esse o impasse: ou Benjamin fica paraplégico ou eu fico maneta.

11 de abril de 2012

A arte do tempo

Tudo começou quando encontrei três fios de cabelo brancos. Eu não disse um nem dois, eu disse três. A família por parte de mamãe sofre de uma maldição cigana, que começa a deixar os cabelos brancos aos vinte e poucos anos. Na verdade não é uma maldição cigana, mas a história fica bem mais circense desse jeito! Seja lá qual for a razão, motivo, causa ou circunstância, todas as minhas primas já estão tingindo suas jubas há bastante tempo. Estou a beira dos meus 25 anos e até o presente momento somente os três supracitados tiveram tal despudor em aparecer. Um trio de sem vergonhas, respeitável público!

Não sou dessas que dão piti com a idade. Ao menos me esforço bastante para não transparecer. Eu empino meu nariz, rebolo os quadris e sou a mulher mais segura de si a caminhar pela calçada. Por fora, destemida. Por dentro, uma moça sofrendo antecipadamente sua crise dos 30. Para ser sincera, sofro dessa crise desde os meus 19 anos. Para você ver... Comecei este parágrafo afirmando que não dou showzinho etático. Pra puta que pariu o que eu afirmo! Estou ficando velha, chata, ranzinza e não quero ser obrigada a tingir meu cabelo da cor "cereja pisada nos alpes da Cidade de Deus". Quero meu tom mel-achocolatado durante todos os anos que a ciência me deu por direito. Que mané herança genética!

Sou uma menina de quase 25 anos, hein. Voltem aqui quando eu soprar 60 velas. Será um grande desafio, a convivência, tenho plena certeza.

"Mas você veio até aqui só pra surtar, moça circense?" Calma e senta que lá vem história: Todas as minhas primas estão casadas, algumas primas até separadas, mas de um jeito ou de outro todas tem filhos. Nasci em uma época que provocou um grande vácuo na minha existência: não deu tempo de ser daminha de honra porque estava grande demais, e também não pude namorar/casar juntamente com os outros porque isso seria caso de pedofilia; eu era nova demais. Fiquei chupando o dedo. Restou-me curtir com a cara dos namorados e noivos que caiam de paraquedas nos almoços familiares - e mais tarde, restou curtir as barrigas que pipocaram em determinada fase. Os priminhos de segundo grau começaram a chegar. Foi divertido, já que eu não havia acompanhado a gravidez de ninguém antes. Era uma novidade para minhas primas e para mim também. Não senti nenhum bebê chutar, não aprendi a tricotar sapatinhos só para levá-los na maternidade nem fiz massagens nos pés, mas fui uma das primeiras a visitar o quartinho recém decorado, vi um ultrassom e outro, passei a mão na barriga (morrendo de medo de machucar porque sou cagona mesmo) e coisas do gênero.

Os priminhos nasceram. Peguei nos braços, achei fofinho, morri de amores - guti guti, bebezinho! - levei gorfada e outras coisas envolvidas pela plenitude maternal. Então, os pacotinhos com cheirinho gostoso da Johnson's Baby começaram a crescer ao redor da prima desengonçada, estranha e cujo nome ninguém na família sabe pronunciar até hoje. Eu fui vivendo minha vida e eles, a deles. Quando dei por mim - opa!, quem são essas crianças tão bem resolvidas? Com biquinhos nas fotos, me adicionando no Facebook, fazendo luzes no cabelo, usando batom rosa chiclete (eu nem sabia que existia essa cor). Informações demais que provocaram um chacoalhão espontâneo em mim. Em que mundo estou? Como eu caí aqui? Aliás, caí de madura?

Como assim madura?

Sim, querida. Madura. Na vida é assim, nós amadurecemos sem perceber. Os bebês crescem, aprendem a falar, caminham e se tornam gente grande bem devagar, que é para não assustar. Apesar de demonstrar o contrário, a vida não quer intimidar ninguém. Portanto, ela chega assim, de mansinho, sem bater na porta nem fazer alarde. Acordamos um belo dia e não queremos mais brincar de boneca nem de carrinho, queremos mesmo é namorar e ter uma casinha de verdade!

É assombroso observar uma nova geração florescer bem debaixo do nariz. São pequenas pessoas que nasceram bem depois de eu ter passado por alguns perrengues. Não viram o que eu vi, não viveram os problemas da minha década e irão experimentar coisas que serão inapropriadas para a idade que eu tiver no momento. Enquanto estou aqui me preocupando com os meus três fios brancos, eles estão se preparando para a escola, desejando os brinquedos da moda e planejando a festinha de aniversário. Não é perfeito? Somos uma ampulheta. Um montinho de areia que escapa. Estou vivendo experiências que eles são jovens demais para compreender, enquanto eles vivem delícias que sou velha demais para aproveitar. Somos grãos, sem sombra de dúvida, em um interminável desencontro. Só espero que no meio dessa correria desenfreada nada se perca. Que todas as chances sejam aproveitadas, todos os romances sofridos e todo o presente desenhado risco a risco. Espero que o futuro deles e o meu sempre arranje um jeito de se encontrar por aí.

Pois é, o futuro... A quem ele pertence?

9 de abril de 2012

A Columbina sempre amou o Pierrot

Ouvi um choro baixo, aquele vindo d'alma, que intercalava e calava a palavra paixão. "Minha paixão, minha paixão"... Assim, tão doloroso e solitário, que quase eu comecei a soluçar. Aproximei-me das folhagens ao canto da rua e vi, não um ser humano, mas um pedacinho tão amuado de gente, que restou-me rezar. Oh, coitada da moça! Tão deserta de si mesma, sentada à beira da vida e com ambas as mãos no que sobrou de rosto. Branca, feita de cisco de estrelas e porcelana, sequer me viu chegar. Cutuquei uma, duas vezes em seu ombro trêmulo e nada d'ela me olhar. Continuava ali, lamuriando o coração para fora e inspirando pouco ar.

— Pierrot foi embora, foi embora, foi embora...

O lencinho asfixiado entre os dedos pedia clemência. As lágrimas desbotavam os lábios opacos da pobre moça; arrancavam-me o pensamento aos suspiros, e eu não sabia o que falar. Pierrot! Onde está Pierrot? Por que abandonou esta trágica senhora? Pierrot, onde está? Deus, acode cá esta pena ao vento! Mas que desalento. Nunca vi uma flor assim despetalar. Sentei-me ao lado do fiapo de existência e calado fiquei. De sobressalto, a pequena amedrontada olhou-me de soslaio, levou o lencinho ao nariz e caiu novamente a tormenta. Paciente, ofereci meu próprio lenço e aconselhei que desabafasse.

— Posso não ser tão estranho assim - defendi-me ao ver que lhe causei espanto. - Afinal, todos somos passíveis de sofrimento.

Apreensiva, e sabemos, com nenhuma outra opção para se desfazer de tamanha tortura, seus olhos ganharam a calmaria do céu sem nuvens e sua boca dançou conforme as palpitações do coração. Heis que ela narrou:

— Pierrot, meu grande e único amor, foi embora para muito longe. Oh, senhor! Antes fosse a distância que aplicam as terras, mas sofro do afastamento de afeto. Uma separação com a qual não posso lutar, cuja eu dei por cavar. Aqui, veja - ela apontou para o coração aquietado em seu colo nervoso. - Bem aqui está meu fim, que eu mesma fiz questão de plantar. Oh, pobre homem! Nenhum compromisso tem com isto, meu bom ouvinte, mas não sabe quão bem me faz compartilhar meu desespero.

Como não dizia mais nada, fiz um gesto a encorajando novamente. Já estava dos pés a cabeça envolvido com a tristeza.

— Amei Pierrot mais do que a mim. Um sentimento tão avassalador, que da minh'alma nada restou. Sinto que arrancaram-na de mim sem a menor clemência e colocaram-na nos olhos de Pierrot, que foram junto com ele, para a desgraça de minha escuridão. Eu o amei, juro que o amei! - ela suplicou. - Por todos os continentes desta Terra e cada gota de nossos oceanos. Se eu pudesse ao menos gritar à todos os ventos, mas nem mesmo isto há em registro de minhas faculdades. Não estou machucada, entretanto, sou pura dor.

Éramos dois atrapalhados buscando pela razão. Encontramo-nos ao acaso e ambos ficamos assombrados com o reflexo um do outro nas pupilas, naquele dia, da cor do fogo. Paixão, paixão! Crua paixão presa eternamente pelo nó, que formava-se através de nossas vozes. O dia ensolarado, lembro-me bem, à beira do lago e mãos distanciadas pela incerteza do momento. O cheiro de meu Pierrot, o sinto em minha pele como tatuagem. Oh, bom senhor! O mais pleno amor apossou-se de mim por completa, tornei-me cega! Ah, o sorriso de Pierrot...

Mas no mesmo dia o sol se pôs, ferido e choroso, por detrás dos horizontes acinzentados. Pierrot sequer chorou. Eu disse a ele: "É com Arlequim que devo ficar!" O rosto do meu amado apedrejou cada parte minha. Rezei à todos os deuses que ele compreendesse minha decisão, mas nada assim findou. Sou fraca, mortiça, alienada! Como conseguiria eu enfrentar Arlequim? Dizer-lhe a verdade e preenchê-lo de mágoas?! Não, jamais. Eu não posso. Não pude. Perdi Pierrot. Ganhei de meu adorado as costas, gélidas e impiedosas. Nunca mais voltei a vê-lo...

— Mas corra atrás dele, sua tola!

— Eu respeito seu espaço, sua escolha. Sim, tola. Ingênua, atingi o fundo do poço e aqui estou morrendo de pouco em pouco. Morrendo, sim, às lágrimas! Todas elas, conto cada qual que cai salgando esta maldita boca, que jamais mereceu pronunciar: Pierrot! Meu estimado Pierrot! Foi embora, foi embora... Deixou-me a paixão, somente a paixão, a paixão...

O desaguar da melancolia interrompeu novamente o relato da abatida Columbina. Ora, que miserável mulher! Compreendi que a loucura roubou-lhe a luz dos olhos e a lucidez da mente. Ela estava no mais profundo escuro do ser, encolhida entre os ventos frios que sobraram do que antes fora sua vitalidade. Finito, esta moça não vive mais. O melhor que tem a fazer é chorar até o corpo finalmente absorver a letal falta de alma, e então expirar.

Acaso alguém leia este meu relato, por favor, faz-me um benefício; antes, faça-o à moça: diga lá ao senhor Pierrot que sua senhora está revogando a si mesma. Digam, meus senhores, que na Terra anda exânime uma leve e muito bonita pombinha de asas cortadas. Não faça isto a si mesmo, Pierrot, não carregue contigo o luto do seu único amor!

3 de abril de 2012

Brigando com a sombra

Vou te contar, os últimos dias (acumulando-se já em semanas) não tem sido fáceis para mim. Tudo bem que a vida no geral não tem dado trégua, mas comentemos apenas dos momentos recentes, que é para evitar a fadiga (ou depressão). Venho lutando contra mim mesma há um tempo considerável e o pior de tudo são os resultados lentos, que parecem nunca chegar. Eu fico esperando, enquanto eles se locomovem em slow motion de braços abertos a beira do mar. Parece que tudo funciona de acordo com uma energia negativa, que está empenhada em fuder com a minha vida. "Não, não vai ser feliz!" e pronto, cabô! Fim de papo. Dá um reset e vai embora ser feliz em uma caverna ou ao pé dos alpes, onde ninguém vai a não ser o Pé Grande. É a vontade que dá: sumir, desistir, dar de ombros. Mas como isso é coisa de pau no cu, cá estou insistindo no erro, dando murro em ponta de faca, chovendo no molhado e afins. Embora o peso nos meus ombros esteja incomodando em dobro, não tenho lá muita saída, concordam?

Há uma planta colocada ao lado do divã, no consultório da minha psicóloga. Não sei o nome da bichinha, mas padeço sua desgraça. A doutora afirmou que colocou a dita cuja no lugar certo porque planta tem essas coisas de lugar ideal, tipo humano, mas ninguém liga muito para o nosso lugar. Que seja. Mesmo assim, a coitada está seca, com algumas folhas murchas e manchas por todas as folhas. Está na cara que minha colega vegetal decorativa sofre com os pacientes. "Energia negativa", a psicóloga explica. "Desculpe", eu disse para a planta. O meu intuíto não é matar alguém, eu só quero salvar a minha própria vida (aí sim, com o psicológico em dia ter condições de mat... não). A vontade passa de assassinar, e isso é o suficiente para me manter longe dos tarjas pretas. Agora, antes de entrar no consultório, eu tento chacoalhar os exus pendurados no meu pescoço. Dou um sorrisinho para a planta, sento no divã e faço de tudo para que minha energia não contamine o ambiente. No meio da consulta, porém, eu já estou tão puta com a vida que me esqueço de fazer o bem sem olhar a quem, e mando todo mundo tomar no cu.

Porque eu não vou mais tomar no cu sozinha.
Ah, mas não vou mesmo!

Relatei minha semana complicada, finalmente conseguindo respirar direito; só tenho conseguido isso na terapia. Procuro não esquecer nem dos mínimos detalhes, pois eles fazem toda a diferença. São neles que minha psicóloga encontra o problema, ou melhor, a solução. Ou ainda, o espinho nessa minha pata manca. É na minúcia do meu cotidiano que se esconde essa porra toda. Na maioria das vezes eu sequer noto, e por isso a terapia é importante. Então, de conclusão pronta, ela fica indignada com as pessoas que me cercam; como quando minha mãe disse que desde o começo da terapia ando me sentindo especial demais e ninguém pode falar mais nada, que eu já fico putinha. "Sua inútil, imprestável e idiota" são considerados elogios aqui em casa, logo, se reclamo estou sendo fresca. A terapeuta ficou mei'puta: Quem dera se você estivesse se sentindo especial! Seria um sinal de que meu trabalho está adiantando! - ela disse.

E eu concordei. Há muito tempo não sei o que é me respeitar e acreditar em mim mesma. Como eu disse no divã: estou no automático; cresci ouvindo as pessoas, próximas ou não, dizendo que eram asneiras aquilo que eu queria, fazia ou pensava. Não davam valor para o meu trabalho, meu esforço, e fui criada a base do "não é o suficiente". Escreveu até o ponto de arrancar o tampão do dedo? Não é o suficiente, escreva até perder as unhas. Fez um trabalho escolar (na minha época, escrito à mão e tendo como fonte a Barsa, veja você) de cinco folhas com figuras e desenhos ilustrativos? Não é o suficiente, vá a raiz do problema, seja contratada pelo Museu Paulista ou no Instituto Butantã, entre para um grupo especializado de pesquisas científicas, viaje até a terra natal do tema estabelecido pela escola e só depois de nove anos entregue um trabalho decente de 300 páginas. Pode parecer absurdo, mas em sua escala natural, as coisas funcionaram assim. Sou uma filha da puta perfeccionista em busca da aprovação alheia e distante de aceitar a minha capacidade; covarde também, já que tenho 24 anos e ainda coloco a culpa nos outros. Hei de conviver com isso, algo me diz.

— Por que você briga tanto com sua sombra? - a psicóloga perguntou. - Existem dois lados no ser humano, que nós denominamos "luz" e "sombra", assim como no yin-yang . Não adianta você cobrar de sua sombra uma coisa que ela não tem. Aceite-a! Por que sou a única a enxergar seu potencial? Você é inteligente, sensitiva. Por que não respeita isso?

Eu fiquei sem respostas, como na maioria das vezes. Determinei uma regra para mim mesma, que pouco condiz com o que sou. Não acredito ser inteligente, tão pouco sensitiva e sofro, inconscientemente, com isso. Luto diariamente para me convencer de que sou uma pessoa comum e somente mais uma por aí porque, afinal de contas, assim deve ser mais fácil para mim. Por que eu não posso ser especial? O que há de tão errado comigo para me conformar com o pouco? Por que é ruim buscar um tratamento interpessoal mais digno, de acordo com meu nível? As pessoas que exigem mais estima são fracas? É feio acreditar ser bom em algo que saiba fazer? Estas perguntas, em um curto espaço de tempo, atormentaram minha atenção. Foram elas a base para minha educação, me tornando uma criança submissa e fechada. Mas agora todas caem da árvore, pobres e bichadas. É uma doutrina da qual não preciso mais.

O caminho para aprender isto de uma vez por todas é longo, doloroso e por vezes provoca impaciência. Entretanto, é bom estar disposta a assumir o risco de deixar pessoas "importantes" para trás, que infelizmente não querem ou acham que não precisam aprender mais. Os pais, ainda que a Igreja nos ensine o contrário, não sabem de tudo nem conhecem todas as respostas; e nos devem consideração assim como nós a eles. É uma troca, no fim das contas. Deveria ser. Não só entre essa relação, mas em todas as outras. Acreditar no potencial dos outros e deixar que eles sonhem é gratuito e indolor. Poupa um enorme trabalho futuro, quando a criança cresce e é obrigada a aprender desde o começo o que é se amar. Eu ainda não sei o que é isso, sendo sincera, não me imagino achando isso de mim daqui há algum tempo. Intimamente, me pergunto se serei capaz de admitir minhas virtudes um dia, e se cuidarei de mim como sempre quis que os outros cuidassem. Não pergunto isto para minha terapeuta porque sei que a resposta dela seria 100% otimista. E o grande problema da pessimista, que eu sou, é não querer acreditar.

1 de abril de 2012

Bonjour, sou Del. Romântica.

O que me fez assistir este filme foi Angélica, uma das personagens principais, e minha identificação com ela; a ansiedade, insegurança, uma moça atrapalhada, porém esforçada em se demonstrar simpática. O filme começa com uma entrevista de emprego, justo uma das coisas que mais detesto nessa vida. Além de não existir uma linha de raciocínio - e sequer lógica - nas perguntas, você sempre acaba sendo analisado por quem não entende porra nenhuma sobre pessoas. Para minha surpresa, o dono da fábrica (Jean-René) é um homem tão nervoso quanto Angélica, faz terapia e tudo! Quando o telefone tocou, interrompendo a entrevista de trabalho, e depois ele explicou ao psicólogo o que essa invenção dos infernos significa para ele - só pude dar risada.


Angélica é tão apaixonada pelo o que faz quanto eu, mas ao invés de chocolate, eu amo escrever. O contato social a deixa paralisada, o que acaba impedindo seu crescimento profissional assim como os relacionamentos interpessoais; ela chegou a vender chocolates anonimamente para não ter que lidar com os comentários e a inevitável comunicação com os clientes.

O filme trata, enfim, sobre as dificuldades que ambos sofrem ao enfrentarem as relações. Jean-René, na terapia, recebe um exercício onde deve convidar alguém para jantar, e claro que sua opção é Angélica. No restaurante, cada um mudo em seu desconforto, me pergunto por qual motivo não falaram de chocolate; mas compreendo perfeitamente a confusão que uma mente aflita provoca. Não é fácil conviver com as armadilhas do pânico somadas a falta de traquejo. Nosso corpo entra em estado de emergência, como se estivesse sendo bombardeado ou ao menos anunciando a sirene de alerta. Qualquer sinal de que o mundo nos cobrará uma atitude é o suficiente para paralisarmos. Falo disto assim, com tanta certeza, porque convivo com tal instabilidade emocional desde que me entendo por gente.

É um complexo, uma síndrome, problema ou doença - não importa como a ciência prefere denominar - muito triste, pois mutila nossa vida e abrevia a existência. Deixamos de viver muitos momentos, novas descobertas e experiências por puro medo. De quê? Tudo. A imagem que publiquei logo acima é uma frase que o pai de Jean-René costumava dizer, justo por sofrer deste medo difuso. Pensamos deste jeito: é melhor nada nos acontecer, ao invés de lidarmos com as consequências. Escondemos a paixão, o amor, a alegria e todos os sentimentos por detrás do pânico de saborear o ato de ser normal. Na reunião dos Românticos Anônimos é possível ouvir o relato dos participantes e impossível não se identificar. Somos medrosos ao ponto de dizer "Ufa!" ao término de coisas que seriam maravilhosas, caso acontecessem, só por não estarmos aptos a experimentar o desconhecido.


Com cenas inusitadas e um amor incomum, Românticos Anônimos me cativou desde o dia em que vi o trailer pela primeira vez. Em idioma francês, com a temática do chocolate e belos cenários, o filme conseguiu conquistar quatro estrelas - sou chata para caramba, eu sei. Foi a primeira comédia romântica europeia que assisti, e confesso que não é lá muito apropriado dar este estilo à obra porque remete ao besteirol americano (que deveria ser proibido conforme alguma lei do bom gosto). É sensível, engraçado, mas senti falta de alguns detalhes. Talvez eu tenha gostado tanto, que nem 2hrs de filme seriam o suficiente para me satisfazer (o tempo é de 1hr e pouquinho). O final, que eu não vou contar (calma!), não poderia ter sido mais adorável; do tipo que arranca um sorriso bobo no canto da boca! No mais, a mensagem é clara e direta: não tenha medo de se afogar, pelo contrário, mergulhe!