25 de fevereiro de 2012

A frescura do Não Fico

Eu sempre fui meio underground; simplesmente por ser do contra. Por mais que eu tente (e eu tento!), não consigo gostar das coisas e pessoas que todos gostam. Veja bem, essas coisas não são ruins só porque não gosto delas. Não é nada disso. A discussão sobre gostar ou não fica para outro texto. Só estou dizendo que as coisas e pessoas "pouco" conhecidas sempre me agradaram mais. Talvez porque não há milhões de seguidores enchendo o ego e fazendo com que tudo estrague. Porque olha, as pessoas são perecíveis. Se você não conserva do jeito certo, elas estragam. E quanto mais gente suspirando em cima, mais bactérias. Logo, mais insuportável a pessoa fica.

Isso piora quando certa celebridade tem uma fama de 5 pixels; aquela da internet. Um blog que oferece freebies, um tumblr que oferece freebies ou um vlog que oferece... freebies. Alguns dizem o que os outros querem ouvir. Alguns oferecem o que os outros não conseguem fazer (por mais simples que seja). Não importa o conteúdo ou a troca de favores, os famosos se valem à base de comentários, retweets e seguidores. Logo, o "ídolo" fica insuportável. Uma FAQ aparece, uma impaciência desponta e respostas curtas ou monossilábicas brotam, até que o seguido começa se achar bom demais para conversar com seus fãs. Tudo é motivo de Humpf! Já respondi isso! ou Humpf! Outro plágio! e também Humpf! Falta tempo para dar atenção à vocês! Mesmo que ele não tenha nada para fazer. Mesmo que seu tempo seja ocupado somente pelo ato de limpar a bunda após ir ao banheiro.

De repente, não mais que de repente, a sub-celebridade internética arranja o que fazer em sua vida offline. Ou melhor, fica de castigo sem computador, vai passar alguns dias na casa da vovó ou precisa terminar o importante TCC sobre a problemática do ponto e vírgula, que há muito foi extinto da língua portuguesa. Seja lá qual for o motivo (que até pode valer alguma coisa), tal dilema chega a parar a bolsa de valores e ninguém mais sabe o que fazer! A pessoa não publica mais nada, as perguntas se acumulam, os preguiçosos não conseguem mais montar um simples HTML e a internet, apodrecida, começa a despencar. Pedaços e mais pedaços caem, mas o Famoso está firme em sua decisão: Stol sem tempo rs bjos.

Então, a novela mexicana começa: de um lado, o Famoso dizendo que está ocupadíssimo ou que não pode suprir a falta de energia positiva alheia. Do outro lado, os seguidores e fãs e admiradores e sanguessugas choramingando que mas ti adoramus tanto s2 naum vai imbora! Quando você pensa que o cara (ou garota) está partindo dessa para a offline, heis que ressurge das cinzas mais uma mensagem de mesmo conteúdo e desculpa: Calma kkkkk tô sem tempo meixmu!

Eu, infelizmente, comecei a seguir um perfil no tumblr de um cara, até então, super bacana. Nada, nadica de nada em especial, mas bacana. Não sei que caralhada houve, mas por duas longas semanas e muitas páginas na dashboard esse cara ficou se despedindo de seus súditos. Eu disse duas semanas e muitas páginas. Ask atrás de ask com respostas e rasgação de seda. Claro que eu não deixei por menos (não que isso faça diferença na vida de alguém); mandei para ele e seus seguidores uma mensagem gentil: Se você quisesse mesmo ir embora, já teria ido! Pronto. Sou o tipo de pessoa que se sente mais leve após dar esporro em alguém. Não sei qual foi a resposta, desconfio que meu tumblr esteja crucificado no alto de um morro, mas de nada tenho certeza porque cliquei feliz e contente no Unfollow. Fazer o que se na internet não podemos bater o telefone na cara da pessoa?! Só restou dar um clique miserável no quadradinho...

A conclusão é simples: carência afetiva. Não bastasse os mais de 1000 imbecis puxando o saco, a sub-celebridade de 5 pixels ainda precisa de muito amor e companhia forjando assim, uma despedida cheia de lágrimas e pesares por semanas a fio, como se não houvesse o amanhã, como se fosse morrer ali e naquele instante. Cinco dias depois, tudo volta ao normal se como nada tivesse acontecido. Os súditos acham mesmo que conseguiram convencê-lo a ficar. O Famoso acha mesmo que essas pessoas só querem sua companhia e não percebe que seu fim chegará assim que outro ter algo melhor do que ele para oferecer. Usurpando assim, sua latrina dourada.

Só tava de brinks, pode dizer à todos que fico (otários!)

22 de fevereiro de 2012

O barulho da porta 15

O cara do 15. A única coisa que conheci desse cara foi o topo da cabeça começando a ficar careca quando o vi sair do prédio uma vez. Não, mentira, também conheci seu gosto musical. Todo sábado e domingo de manhã ele colocava Chico Buarque para tocar. As músicas eram repetidas várias e várias vezes. Eu, deitada na minha cama, ficava olhando para o teto e escutando. Virei fã de Chico Buarque por osmose, digamos assim. Também descobri que ele pedia pizza toda sexta-feira à noite. O motoboy subia ao nosso andar, tocava a campainha do 15 e sempre falava muito alto. "Sua pizza, senhor!". O andar ficava lotado com a voz do motoboy e com o cheiro da pizza. Só não sei o sabor; toda pizza tem cheiro de queijo quente, mesmo que seja de catupiry. Tirando esses detalhes, vejamos, acho que não sei mais nada sobre ele. Ah, sim! Os bilhetes.

Todo dia, ao acordar e ir para minha cozinha, eu encontrava um papel rosado na soleira da porta. Dobrado ao meio, o papel tinha cheiro de Bom Ar. No primeiro veio escrito "Bom dia!". É claro que eu não entendi de onde o recado vinha, quem havia escrito e qual era o motivo. Poderiam ser as crianças que moravam no mesmo andar que o meu, o porteiro sempre muito galanteador (apesar do bigodinho ridículo) ou engano. Minha autoestima, de prontidão, levantou a mãozinha e disse que era engano. Joguei fora. Mas a entrega do bilhete anônimo se repetiu na manhã seguinte e na outra. Reapareceu na soleira da minha porta frequentemente e quando vi, estava incluído na minha rotina. Quando dei por mim, levantava de manhã e corria para a porta de entrada do meu apartamento ansiosa para ler a mensagem do dia. Se quer saber, as entregas não falharam nem um dia sequer.

Sim, fiquei preocupada, curiosa, ressabiada. Queria descobrir e não queria ao mesmo tempo, porque se fosse realmente o porteiro... poxa vida, que tragédia. Caligrafia e mensagens tão doces não combinavam com aquele maldito bigode. Não que fosse algo extremamente poético, mas "você é linda, tenha um bom dia" e "se você sorriu agora, saiba que meu sol raiou" são frases mais lindas e sinceras do que qualquer rima. Não acha? Eu achei. Desvendar o mistério, então, não era simplesmente matar a curiosidade. Saber de tudo e todo era mudar minha vida. Era incluir alguém tão importante que se fez presente através de um pedaço de papel. O bichinho curió, porém, cutucou tão forte que um dia bem cedo acordei e fiquei de guarda na minha porta. Ela fechada, eu de braços cruzados sem saber exatamente o que estava fazendo.

Foi então que, em um domingo de inverno com o dia lá fora banhado em neblina, que assisti pela primeira vez o papel entrar pela soleira. Não, não abri a porta. A sensação gigantesca engoliu qualquer reação. Foi como ver meu coração entrar, se como alguém estivesse o devolvendo. Peguei o bilhete e ouvi os passos. Tênis. Ouvi a porta fechar e Chico Buarque tocar. Segui com o mesmo plano dias seguintes e não tive dúvida: sabe-se lá por que meu vizinho, o cara do 15, mandava em anônimo aqueles recados para mim. "Nas entrelinhas moramos você e eu" ele mandou uma vez, mas e explicação? Por que entrelinhas e não um parágrafo? "Do céu ao mar, teu olhar mergulha e voa em mim". O rosto! Eu tentei imaginar o rosto, e nada.

Tentei ver o rosto, e nada. Toquei, bati, chamei à porta do 15; o vizinho nunca estava e sempre fingiu não estar. Na portaria. De prontidão no corredor. Nada. Não me fiz de detetive para não me afundar no poço escuro da falta de respeito próprio. Não parei em frente ao prédio escondida. Ok, eu tentei, mas o porteiro veio puxar conversa e jogar seu olhar 42 e meio para cima de mim. Tática falha. Sim, claro que eu também mandei bilhetes por debaixo da porta dele! Uns ele respondia, outros não. "Por que não fala comigo?", eu escrevi. "Se a Humanidade te tocar é capaz de fugir, serena pombinha". Sempre assim, aéreo, perdido no mundo dele.

Em um dia de verão, quente, escaldante, havia um papel branco. Nele, nada além de "Devo ir. Levo você no bolso da camisa, do lado esquerdo. Ponto final". Fiquei pendurada na tênue linha do vou/não vou. Não fui. Esperei pelo dia seguinte. Nada de mensagem, e mais nada pelo resto da semana. Foi em uma tarde que o porteiro chegou e me pegou empurrando um bilhete por debaixo da porta 15. Ele perguntou, lógico, eu respondi (fazer o quê?). O porteiro retrucou "mas ele se mudou", e eu gelei. A felicidade fez as malas e foi embora. Fiquei sem entender. De todas as coisas que precisavam ser entendidas, não entendi nenhuma. O apartamento vazio, chave na minha mão. Procuravam um novo locador, e eu procurava tudo. Chico Buarque, caixas de pizza, uma mesa repleta de amor e pedaços de papel rosado. Um recipiente vazio de Bom Ar esquecido em qualquer espaço. Como sempre, nada. Um nada dentro do tudo que senti e sinto.

E não esqueço do barulho do papel deslizando para dentro do meu apartamento, o mísero 13. A canção. Dos barcos dele nos bilhetes, que sempre navegavam para "o bravo sorriso de menina corajosa". Muitas perguntas ficaram e machucam, é verdade, mas machuca - principalmente - o barulho que a porta 15 fez ao você sair da minha vida.

Texto grande, eu sei. Dá preguiça de ler tudo isso e, provavelmente, está bem chato. Não gosto de publicar histórias assim, mas essa achei valer a pena. Escrevo tão pouco dessa forma, não custa nada registrar no BC. Caro leitor, não tenha vergonha de dizer que não leu tudo, é melhor do que fazer um comentário genérico. A única coisa que exijo de quem comenta é a sinceridade. Pense nisso!

20 de fevereiro de 2012

A arte do Cordel


Comecei a me interessar este tipo de literatura após conhecer o blog A Voz do Cordel. Como cheguei a este blog continua um mistério, mas sei que gostei logo de cara! Então, aos poucos comecei a me interessar pelo gênero literário como um todo.
Remonta ao século XVI, quando o Renascimento popularizou a impressão de relatos orais, e mantém-se uma forma literária popular no Brasil. O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes em Portugal. No Nordeste do Brasil o nome foi herdado, mas a tradição do barbante não se perpetuou: o folheto brasileiro pode ou não estar exposto em barbantes.
Normalmente os folhetos são ilustrados com xilogravuras, que se tornaram outra paixonite minha por associação. Logo de cara encontrei o 100 anos de xilogravura e comecei uma pequena coleção com imagens encontradas no Google. Tornei-me fã de J. Borges, que até agora parece ser o melhor. Muitas vezes acabo me distraíndo com os desenhos e esqueço da leitura! O nordeste, infelizmente, é pouco explorado dentre a cultura brasileira, mas sempre me interessei muito pelas tradições, músicas, cozinha e tudo o mais. Acho que não custa nada compartilharmos mais sobre ele.

Meu primeiro cordel foi Amôr de Perdição, de João Martins Athayde, publicado em 1951. A história se passa em uma cidade de Portugal (chamada Viseu), e gira em torno do casal Simão e Thereza, sendo acrescentada ao decorrer do enredo a Mariana, que se apaixona por Simão formando um triângulo amoroso.
Aqueles dois corações
em pleno viço e frescor,
se enlaçaram fortemente
nos élos do puro amor
um pulsando outro pulsava
pois sentiam a mesma dor.
É uma delícia ler em rimas e notar a simplicidade das palavras. Por enquanto li folhetos com histórias de amor porque os cordelistas tem uma visão menos, digamos assim, enlatada. O Brasil parece importar romances americanos ao invés de criar suas próprias artes; com exceção de Lisbela e o Prisioneiro, O Alto da Compadecida e alguns outros que se destacam da montanha de puro lixo. Nos cordeis encontrei muitas brigas entre famílias, juras de morte, fugas e a mais casta vida nordestina!

Logo depois li Amor em Face do Destino, o melhor até então; cheio de piadinhas, ironia e um ótimo enredo estruturado. Foi este que me convenceu a escrever um texto aqui, no Bonjour Circus. Após terminá-lo, não restou dúvidas de que eu deveria dividir a Literatura de Cordel com os visitantes do blog! A leitura rimada pode ser desconfortável para muitos, mas grande parte dos folhetos são pequenos. Vale a pena ao menos tentar. Na Casa Rui Barbosa estão disponíveis todos os cordeis de poetas e cantadores tanto da 1ª quanto da 2ª geração. É um acervo de encher os olhos!

17 de fevereiro de 2012

O Cara

Toda mulher deseja namorar um cara extraordinário. Um super herói. Acho que, muito mais do que um príncipe encantado, mulheres buscam um homem que ofereça possibilidades enquanto elas esperam somente um conto de fadas. Aquela maçada: castelo, felizes para sempre e animais que cantam. Mas você nem sabe cantar! Você não sabe organizar suas gavetas, quanto mais um castelo! Felizes para sempre? Por que, se o gostoso é procurar pela felicidade e no caminho encontrar diversas outras sensações? Para que se limitar, se o cara certo pode oferecer o frio na barriga? O que é o "para sempre" quando o cara oferece um dia após o outro, todos completos e preenchidos pelo amor que você merece? Graças a esse cara, o "para sempre" se torna uma sensação ao alcance de suas mãos. Assim como a alegria e o sorriso espontâneo, essa sensação será a conquista de cada segundo.

Não estou falando de príncipes ou modelos que ilustram capas de revistas. Não. Estou falando da beleza radicada no brilho dos olhos do cara. Aquele brilho que te chama porque está nele o seu lugar. A beleza instintiva, que simplesmente existe, sem precisar ser explicada ou medida. Uma beleza sua, que você sabia existir muito antes de encontrá-lo. A beleza quebrada, que se completa com você. A beleza do Inexplicável, que não possue razões, mas faz todo sentido quando seus corpos se enlaçam.

Estou falando daquele cara que todas procuram e nunca encontram por medo do conhecido. Sim, isso mesmo. Por medo de saber que com ele a plenitude é certa, e tamanha é a oferta, que temem não saber o que fazer com tanta festa. Falo do cara que sabe o que fazer e dizer, não do modo como as mulheres esperam, mas entre as supresas de palavras sinceras. Nada de lirismos, somente um "eu te amo e amo, amo, amo... O cara poeta, criativo e corajoso, que fala de mulher como se fosse o Criador, que escreve poesia bruta e implora para que sua amada a lapide da forma como quiser.
Que faça da minha poesia, nossa prosa
Desfaça minhas rimas, se assim convier
E que me implore, suspirosa
"Faça de mim, tua mulher"
Ilustro um cara simples, de gestos firmes e mente ágil. O cara que constrói edifícios sem papel nem lápis. De caráter humilde, mas sorriso prepotente. Aquele cara que sabe, por mais que a mulher esconde. Por mais que o mundo duvide e por mais que a Ciência complique, ele simplesmente sabe que, para algo existir e ser, basta ele e sua mulher. Quando há os dois, há o Tudo do qual ele precisa para fazer da mulher a primeira e única cultura.

Mas nada muda. O cara continua com seus defeitos e contratempos. Ele ainda esquece e se desculpa. Ainda quebra e desarruma. Coloca ponto final onde antes havia vírgula, e você reclama "mas onde foi parar a lógica da minha rotina?" enquanto ele balança a cabeça e diz "agora, somente eu sou o vício da sua vida!" E os relógios caem das paredes. A cidade pára, depois recomeça cantando uma nova canção.

O cara, como todos os outros, anda de mãos dadas. Com a outra mão, porém, ele aponta as descobertas. "Você sabia que..." e a mulher finge não saber de nada! Só para gozar daquela curiosidade infantil e jocosa que ele supre, entre um piscar e outro dos olhos profundos e coloridos. Mas não pense que ele é perfeito. Pelo contrário, ele está muito longe da perfeição! O cara ainda troca sua mulher pelo futebol, joga coisas molhadas em cima da cama e prefere o feijão feito pela mãe. Ele não gosta das mesmas músicas, dos mesmos livros e nem sempre se interessa pelas mesmas coisas. Não gosta de falar sobre decoração nem cores de tons pastéis. Mas ele está lá, discordando e reclamando, fazendo com que a mulher se sinta cada vez mais feminina.

Ele tem o horror de cultuar a amada como uma deusa, mas preza o respeito humano e verdadeiro de quem quer compreender melhor sua companheira. Jamais sustenta por 24hrs o romance meloso, mas sim a espontaneidade revigorante dos tapinhas inesperados abaixo do quadril. Quando não sabe, assume isso ao invés de preencher as reticências com qualquer coisa, só para justificar o posto de ser O Cara. Não, ele nunca diz o que uma mulher deseja ouvir em determinada situação, já que apenas o silêncio dele casa com o silêncio dela. Há discussões, brigas e desintedimentos. Graças à Deus, cada um pensa de um jeito! E se alimentam assim, com visões diversas que se combinam. O cara pinta, escreve, compõe, inventa e acrescenta. Artista? Não, sonhador. Modula esculturas? Não, só o amor. Para o cara, o amor existe em infinitas dimensões, transborda as mais severas crenças e reinventa a mais amarga pessoa. O amor para esse cara, é extraordinário porque lhe foge das mãos. É indomável, assim como sua amada. "O amor, meu amor, é fulgor! Você dá uma piscadinha, e já o perdeu de vista!"

Não adianta querer que todos os caras sejam o cara. Isso, infelizmente, é para poucos homens. E a mulher que o encontrou sorri a mais absoluta certeza de que ele só pode ser dela, e de mais ninguém!

11 de fevereiro de 2012

Jane Austen me persuadiu

Estou participando de um clube da leitura no Facebook, e o primeiro livro votado por todos os membros foi o Persuasão, da senhora Jane Austen. Achei muito legal, muito chubiruba, porque queria mesmo ler alguma obra dela; a moça romântica e elegante que conquistou muitas mulheres com seus livros e - sem querer - com seus filmes também. Decidi recomeçar meu vício por leitura em 2012, o ano excêntrico, e nada mais perfeito do que uma escritora aclamada, que oferece promessas de suspiros profundos e muito cu doce amor. Por mais que eu repudie moças indefesas, que sofrem de paixonite crônica, não posso negar que tenho um lado cor de rosa cheio de querer mimos e desmaios fictícios. Não que eu esteja coligando a persona de Austen as mulheres com baixa imunidade a oxitocina. Não que eu não esteja.

Que seja.

A Del Santana indicou, via Twitter, que eu falasse sobre Dona Austen. Calma, gente! Eu também fiquei mei'assim quando descobri que haviam outras Del por aí no mundo. Ainda não descobri o plural de Del, mas minha convenção de especialistas da Marvel está trabalhando arduamente nisso. Aceitei a sugestão dela por dois motivos: 1) eu adoro quando leitores sugerem textos; e 2) Eu preciso começar a falar de livros (se como entendesse do assunto) para me sentir mais na moda. É tendência resenhar livros em blogs agora, né. Apesar do Bonjour Circus ser um blog démodé, necessito levar o leite para as crianças todos os dias. Resumindo: porque sim.

Comecei a ler Persuasão bem animada, incentivada e com boa vontade. Uau! Estou conhecendo Jane Austen! Bem aquela coisa de desavisados mesmo. Logo de cara percebi que a linguagem culta inglesa não condiz com minha falta de atenção no momento. É aquela velha máxima do Transtorno de Ansiedade roubando o resto de dignidade das pessoas. Mas continuei lendo e fui conquistada por algumas citações aqui e ali.
Metade da atração sentida por cada uma das partes teria bastado, pois ele não tinha nada que fazer, e ela não tinha praticamente ninguém para amar, mas a confluência de tão abundantes qualidades não podia falhar.
Isso foi para o meu livro de citações sem eu saber ao certo a razão. Mas foi. Depois disso, prestei ainda mais atenção na narrativa que engloba todos os pormenores de Anne. Gostei do fato d'ela não estar gozando de plena juventude, desmistificando o clichê de que só as jovens virgens de bom coração se apaixonam. A coisa começou a desandar, porém, quando ela se enrosca em um Bem me Quer, Mal me Quer com o chuchu Wentworth. Infelizmente sou da banda que assistiu Orgulho e Preconceito antes de conhecer as obras literárias, ou seja, estou obviamente condenada. Estou obviamente presa a imagem de Matthew Macfadyen para qualquer personagem masculino dela. Matthew não tem expressões, logo, Wentworth não conquistou meu desarranjo intestinal amoroso.

Tsc, ingleses...

É uma lástima, com certeza, estar castrada antes mesmo de saborear a supremacia Austen, mas acho que assim quis a Providência. Sei que li a obra com olhos modernos, e que isso simplesmente não funciona. Mesmo assim, foi inevitável não me irritar com o joguinho sútil entre o mal sucedido casal. O arrependimento de Anne, sua fraqueza diante dos fatos e claro, a persuasão rondando todo o enredo.

O segundo volume do livro fica um tanto melhor; com discussões mais proveitosas, que descrevem detalhadamente os pensamentos da época. Pude perceber melhor a ironia da autora e consegui me divertir com isso. É um grande diferencial para um escritor, ainda mais em sua época. Mas, com um cotidiano trivial, Persuasão não cativou minha atenção. Só terminei de ler o livro por causa do clube de leitura; se não fosse isso, eu teria o abandonado logo na metade do primeiro volume. É trágico, sei disso. Vocês ficariam surpresos se eu dissesse que estou curiosa para ler outras obras dela? Acho que não. Já devem saber que adoro dar murro em ponta de faca. Finalizo minha análise (ah tá!) com a citação que deveria ter encerrado a história, mas Jane foi teimosa e fez mais águas rolarem com o desenrolar da trama, até que o casal resol... ZZzzzzzZZzZzZz
Não diga que o homem esquece mais depressa que a mulher, que o amor dele morre mais cedo. Eu não amei ninguém, se não a ti. Posso ter sido injusto, posso ter sido fraco e rancoroso, mas nunca inconstante. Vim a Bath unicamente por sua causa. Os meus pensamentos e planos são todos para si.
Gostando ou não, isso é o que todo mulher quer ouvir. Ponto positivo, Menina Austen!

4 de fevereiro de 2012

Crise existencial

Sentei na janela do ônibus toda esbaforida porque tive que fazer aquela corridinha típica paulistana para alcançar o Seu Motorista, que estava doido para sair do corredor e ultrapassar os ônibus parados à sua frente. Mas pensei: Não será hoje que o senhor me deixará aqui, sozinha em meio a desértica cidade em férias! O cosmo não triunfará! Então, corri. Até onde consegui porque, como eu já disse no twitter, há uma teoria rondando Sampa. Se eu estivesse afim de perder tempo procuraria a frase, mas foi algo assim: "A calçada é como a vida: sempre haverá alguém na sua frente para te atrasar." Olha, tão verdade.

Do nada apareceu na minha frente uma moça de vestidinho, sandália e sem bolsa. Bem aquele estilo não sou paulistana. Ela desceu do ônibus na minha frente e lá ela ficou com todo o tempo do mundo nas mãos, sem saber ao certo que destino tomaria: se para trás ou para frente; a calçada não proporcionava as opções laterais. Eu, sempre muito elegante, dei uma cotovelada e rosnei "com licença". Empinei o beiço e fui catar o ônibus à unha. Estiquei meu braço dando aquela corridinha miserável, enquanto o motorista virava o volante se preparando para a fuga. Fiz cara de quem correria atrás dele até ser atropelada em plena Vereador José Diniz, e ele parou meio a contra-gosto; a porta se abriu e entrei.


Sentei e lamentei muito ter esquecido meu bom e velho MP3 em casa. O caminho para a terapia sem As Claves da Gaveta ou Hide From The Sun não é a mesma coisa. Enfim, pelo menos comemorei o fato do ônibus estar vazio (alegria da plebe). Minhas preocupações, porém, murcharam quando presenciei uma cena e tanto no cruzamento com a Bandeirantes. Preocupações, hunf!, agora sinto vergonha delas. Por entre os carros andava uma menina segurando uma boneca em uma das mãos. A menina tinha, se muito, quatro aninhos. A mão livre ela usava para pedir dinheiro aos motoristas. Logo depois, quando o farol abriu, mais duas crianças se juntaram a ela: um menino ainda menor e outra garota de, talvez, 10 anos. Eu sei que isso não é novidade na cidade, mas a menininha com a boneca realmente mexeu comigo.

Ela serviu de estopim para uma série de pensamentos que me levaram, quase inconscientemente, para a terapia. Quando cheguei e cumprimentei minha terapeuta, disse: Olha, estou sem vontade nenhuma de deitar nesse divã e reclamar das mesmas coisas de sempre. Nenhuma vontade. Não comentei sobre a menina do farol porque isso seria o cúmulo do egoísmo. É muito fácil sentar em um divã e falar da pobreza alheia. Não, eu me sentiria a pessoa mais suja do mundo se tivesse feito isso; usado do sofrimento da menina para ser ainda mais fraca e hipócrita. Pagando ainda por cima. Quando aquela menina terá a mesma soma de dinheiro que vale uma sessão de terapia? E o que ela faria com esse dinheiro (se nenhum adulto filho da puta tirasse antes das mãos dela)? Senti que um saco de lixo reciclável valeria muito mais do que eu naquele momento.

Mas como disse antes: a menina serviu de estopim para meus pensamentos. Após descer do ônibus e caminhar pela calçada, passei por uma moça com uniforme de hospital ou qualquer firma que o valha. Não notei. Ela andava com os ombros caídos para frente, os cabelos ao vento; metade presos, metade soltos pelo rosto. Os olhos apagados, de quem há muito tempo se esqueceu que um dia foi jovem. Um rosto sem expressão alguma, de quem já se esqueceu da última vez que riu até perder o ar. Fiquei bagunçada, por assim dizer. Fiquei realmente bagunçada com aquela moça. Olhei para trás e ela seguia como um robô, só Deus sabe para onde e por qual razão. Só espero que ela saiba o que está fazendo. De verdade.

As pessoas perderam suas personalidades. Perderam a sede das perguntas e vivem, simplesmente, porque são condicionadas a isso. Felicidade: às custas do quê? Olhando para aquela menininha no farol, suja e com uma boneca sem cabelos e desnuda nos braços: felicidade às custas de quem? Nos sobrepomos uns por cima dos outros tentando alcançar a cereja do topo, mas gente, à troco de quê? Não pude deixar de lembrar da música O Mérito e o Monstro. Para onde essas pessoas estão indo e o que, afinal de contas, estão fazendo com suas vidas? Chegamos ao ponto de barbarizar vidas que sequer são nossas. Chegamos ao ponto de nos escondermos por trás da resposta "Mas eu não pedi para nascer". Já não sei mais se as pessoas estão caminhando para algum lugar ou fugindo de alguma coisa.

Felicidade? Para quem?!