24 de outubro de 2011

E aí você entrou na minha vida

Minha vida precisava de um palhaço. Uma pessoa como eu, que adora e segue a arte circense, deveria estar cercada por pessoas envolvidas com o circo. Mas as pessoas que eu conhecia, deixei de conhecer. Quem nunca deixou de conhecer uma pessoa? A amizade é alimentada, as conexões estabelecidas e a dedicação regada, mas de repente tudo se desliga e, quem um dia foi amigo, se mistura na multidão. Acontece com todo mundo, a toda hora, sem precisar de alguém para querer isso. Simplesmente acontece. A vida leva embora do mesmo jeito que trouxe. São os ventos. Pois bem, devido ao mau tempo, desconheci as poucas pessoas que estavam ligadas ao circo e a mim ao mesmo tempo. Antes mesmo de aprender o truque mágico da caixa. Que lástima. É um tanto complicado manter contato com quem viaja muito, de canto à canto do país, ainda mais na época onde não existia Facebook (tão pouco Skype).

Anos atrás (não pergunte quantos, não sei) descobri um projeto independente chamado O Teatro Mágico. "Putz grila!", eu pensei, "Tem um cara de palhaço cantando! Tem menina no tecido! Tem violino! Tem letras bonitas! Tem circo nessa porra, playboy!" Baixei, então, o álbum chamado Entrada para Raros. Visitei a comunidade no Orkut, que dominava na época, e passei por alguns tópicos. Todo mundo se tratava por "raro" e eu, com minha melhor cara de whattafuck, visualizei fotos de pessoas no show com as caras pintadas de palhaço. Ideologia forte. Quem quer que fossem esses "raros", eles acreditavam mesmo no projeto. Só isso já havia me conquistado porque é difícil encontrar, hoje em dia, pessoas que realmente acreditam no que estão fazendo ou seguindo (e essas ganham minha simpatia instantânea). Então, restava ouvir as músicas que eu tinha baixado.

"Ah não!", eu choraminguei. Não rolou química. O cara vestido e pintado de palhaço, com uma trupe de verdade e uma boa vibe e autenticidade e o escambal não me conquistou pela música.

Que dó.

Deixei Teatro Mágico de lado, e continuei procurando por um palhaço em minha vida. Porque eu realmente precisava de um palhaço. Assim como leões de estimação e cavalgar em girafas como hobbie, conhecer engolidores de espada e viver um pouco do meu mundo no meu dia a dia cinzento. É extremamente desconfortável amar uma coisa e não poder vivê-la. Meu namorado é completamente aquem da minha paixão pelo circo, talvez ele nem saiba dessa minha fissura. Amigos, familiares, todos dão de ombros para a arte a qual me dedico. O Bonjour Circus já completou um ano e pouco e ainda não apareceu nem uma sombra de alguém que compartilhe as mesmas figurinhas. Um terror! Antes, posso confessar, em tempos de solteirice, eu jurava de pés juntos que eu iria casar com um palhaço, quiçá um malabarista. Nada deu certo. Namoro, e adoro, um advogado pragmático demais. Essas armadilhas do amor...

Lá pelo ano de dois mil e alguma coisa, não sei como, caiu em meus ouvidos uma música de violão com a voz do palhaço do Teatro. Menina, era o nome. Sei que me apaixonei à primeira ouvida e "Menina" estava presente em todos os cantos por onde eu passava. MP3, celular, notebook e até no computador dos meus pais. Tinha também direito a letra escrita nos cantos do livro no cursinho e notas no rodapé de poesias e crônicas que eu escrevia. Eu cantarolava, enchia o saco de todo mundo e, quando perguntada sobre Teatro Mágico: "Não, não gosto." E não gostava mesmo.

"Mas, nossa, você é tão a cara deles! Como assim?! Se você fosse uma banda, seria o Teatro Mágico. Você tem que assistir um show deles, é tão bonito, tão sua cara. Meu, mas eles são tão 'você'! Até seu jeito de escrever é parecido. Não pode ficar sem gostar deles, não!", eu ouvia complacente. Não xingava a pessoa porque ela tinha razão. Por que não gostar de Teatro Mágico? Logo eu!

Dias atrás, no Facebook, postei muito determinada que estava tentando gostar deles pela terceira vez. E quando eu coloco uma coisa na cabeça, perdeu playboy, sai da frente. Baixei, novamente, Entrada para Raros e Sociedade do Espetáculo, o novo trabalho. Assisti entrevistas. Assisti alguns shows. Li wikipédia, li site oficial, visitei o tumblr também. Quanto mais eu olhava para o palhaço e o escutava, mais eu me apaixonava por seu projeto que tem tudo a ver comigo. Coisa leve, coisa bonita, coisa verdadeira. Um teatro cheio de esperança e coisa boa para compartilhar. "Esse cara acredita no que faz", eu pensei enquanto assistia a mais uma entrevista. Anitelli acredita na arte circense, no espetáculo independente e nele mesmo. O ver lutar para conquistar um espaço com as próprias mãos iluminou um sorriso na minha cara. Porque é lindo. Porque eu finalmente compreendi que Anitelli é raro. Que pessoa bonita ele é. De atitude, de cara pintada. Assim como admiro quem sai de casa com penas de corvo na cabeça, admiro quem é autêntico o suficiente para acreditar no certo, no bom, no melhor.

Depois de me encontrar no palhaço trovador e em seu projeto, gostar das músicas foi fácil. Aí sim, eu compreendi o que ele tentava passar através das letras, e tudo fez sentido. Antes, bem tonta, eu procurava o que todo mundo espera encontrar. Aquela coisa sem nome. Qualquer coisa, menos eu. Esse foi meu maior erro: não me procurar no projeto O Teatro Mágico. Porque eu sempre estive bem ali, era só abrir os olhos. Procurar menos, sentir mais. Deixar se levar. O segredo é não ter segredo. É menos complicado do que você pensa, do que eu pensei que fosse. É muito mais lindo do que parece ser para você, que fica aí parado na porta, com vergonha de entrar. Finalmente tenho uma vida circense menos vazia. Se eu quiser, tenho toda uma trupe para conhecer, cheia de graça. Posso dizer, de peito aberto, que agora eu tenho um palhaço em minha vida!

É com todo carinho que te dedico, Fernando Anitelli, o meu raiar. Porque em mim, graças a você...

18 de outubro de 2011

Cinco bonitões que não te dão mole

Todas, sem excessão, se derretem ou ovulam quando assistem ou encontram com a foto de algum artista. É impossível não se render as carícias que a fisionomia desses machos dominantes nos provocam. Confesse, mocinha, que você sente o coração arder com pelo menos um deles! Que as borboletas em seu estômago fazem cócegas! Eu, claro, não fico de fora dessa alcateia desembestada de admiradoras da testosterona. Estou com meu pé enfiado na jaca, sim senhor. E se você é homem, lamento, mas hoje o BC está 100% feminista e pouco democrático. Um texto muito lindo, muito gostoso, patrocinado por:


O desfile será composto por rostos que, óbvio, recebem sempre muitos elogios de quem vos fala. Não importando a idade, o estado civil, tão pouco o estado de decomposição no cemitério. Me abstenho de qualquer detalhe sórdido. O que interessa mesmo é a aparência, até porque conteúdo não serve a mesa. Falo mesmo. Claro que vocês não irão concordar com todos os machos dominantes citados, mas pensem na diversão da coisa!

#1 Christian Bale
Além de imortalizar o Batman (Para mim! Não precisa nenhum DCnauta jogar pedra), Christian fez bonito em filmes como "O Vencedor" e "Psicopata Americano". Não é só um rosto bonito, o cara mostra como é que se brinca de cinema. Tudo bem que ele dá umas belas variadas em entregas de prêmios, mas, como eu disse no começo do post, me abstenho desses detalhes. O importante é manter a pose máscula e bem definida de quem te explode só com o olhar.








#2 Gael García Bernal
Tudo bem, ele pode ter cara de cachorro abandonado, mas ainda assim é bonito! O conheci na escola (acho que já falei disso #dejà vú), assistindo ao filme "O Crime do Padre Amaro". Depois assisti "Diários de Motocicleta", onde ele encena perfeitamente um ataque de asma, chega a dar agonia. Sim, eu ligo mais para a asma do que para o Che Guevara, perdeu playboy. "Babel" e "Cartas para Julieta" também entraram na lista dos assistidos só por culpa dele. Nesse último, aliás, ele sofreu uma impiedosa castração quanto ator, mas o filme é bonitinho. Gael, ótimo ator, e o cachorro abandonado que você quer na sua feira de doações.






#3 Jeff Buckley
Saindo do mundo hollywoodiano e entrando no showzinho camarada de um violão e muita poesia, Jeff Buckley foi um cantor cuja a voz faz par com o rosto. Morreu afogado no Wolf (Rio Mississipi) em 1997, mas deixou lindas obras e linda comissão de frente. Apesar de ter apenas um álbum lançado em estúdio, o Grace (1994), o cara é respeitado e admirado até hoje por artistas de todo genero e, claro, ainda conquista muitos fãs. Se você ainda não conhecia, diga muito prazer, e vai no Youtube curtir uma das músicas mais lindas dele.







#4 Lauri Ylönen
Oi? O que você disse? Achou que eu deixaria ele de fora?! Aham, senta lá, Claudia! Para ser sincera, havia muitos outros na frente dele em minha lista. Lauri Ylönen está fora do padrão. Tenho consciência disso, não precisa me avisar. A cabeça dele é grande, a testa maior ainda, ele não penteia o cabelo há, sei lá, talvez nunca tenha penteado. Ele não exala testosterona. Tem cara de criança. O que mais? Ah, sim! Mede somente 1,69. Infelizmente, gosta de Björk e tem uma tatuagem dela. Quem consegue gostar dessa mulher? E, hum, bom, ele usa penas de corvo na cabeça, né. Fora que é finlandês, e eles adoram saunas. Não confio em gente que gosta de sauna. "Então o que ele está fazendo aqui, moça circense?". Ele é o vocalista do The Rasmus, tem olhos verdes e só Deus mesmo para saber porque eu acho esse cara um lindo. Seria amor materno?



#5 Marlon Brando
Aí sim! O cara da moto que você sempre esperou, e ainda espera, ir te buscar e te tirar dessa vidinha de merda. Ele é mau. Ele corta cabeças de cavalos e as coloca na sua cama, mermão. Com Marlon o buraco é sempre mais embaixo. A sete palmos, melhor dizendo. Se quer saber, não fabricam mais homens como ele. Essa fábrica, minhas teteias, fechou! Sua época de ouro só pode ser vista em preto e branco. Vai lá assistir "O Selvagem" e "Uma Rua Chamada Pecado". É a solução para seus problemas de ovulação. Em "O Poderoso Chefão" não sei bem o que aconteceu com o queixo e a voz dele, mas não posso tirar uma da cara de Don Corleone. Eu o levo muito a sério, e minha saúde mais ainda. Mesmo com a voz fina. Todos os outros anteriormente citados se cagariam de medo dele.




Ainda faltaram muitos bonitões que iluminam minha lista, mas quem sabe faço uma segunda leva de testosterona. Se quiserem fazer desse texto um meme, à volonté. Lógico que vou adorar ver mais rostos bonitos pela blogosfera!

14 de outubro de 2011

Cadê meu dono? (Parte II)

Continuação do texto: Cadê meu dono?

Pois é, há muito o que explicar. O cachorrinho que me adotou no dia 05/10 gerou muitas especulações aqui em casa. Isso é normal já que ele "caiu do céu" bem no meu colo, sem lenço nem documento e sem placa de identificação. "De onde ele veio?", a gente pergunta. O que ele traz? Por que me escolheu? Como foi parar aqui, perto de onde moro? São perguntas desconfortáveis porque não tem resposta. Digo, respostas tem, mas só Deus sabe quando e SE irei descobrí-las! Logo eu, que já filosofo pelos cotovelos sem precisar de grandes mistérios. Logo eu, que odeio ficar sem respostas. Mas antes de começar a divagar de novo, tenho que atualizá-los.

Meu namorado resolveu passar um fim de semana aqui em casa e aproveitou para conhecer o novo membro da família. Antes, já havíamos conversado muito sobre o ocorrido e cada um formou sua própria opinião. Decidi que faria de tudo para divulgar que o cachorro estava comigo e meu namorado apoiou a causa. Divulguei o link do meu texto pelas redes sociais, como vocês devem ter percebido, e imprimi alguns panfletos para colocar em faculdades de medicina veterinária, casas de ração e pet shops. Não fiz nada além do que gostaria que fizessem por mim e garanti minhas noites de sono tranquilo, enquanto o cachorrinho dorme ao pé da minha cama. Se for melhor para ele voltar para seus donos, ele voltará porque estou fazendo o possível para isso, mas se for melhor para ele ficar comigo, todo mundo pode ter certeza de que será muito bem adotado!

Eu e minha mãe estamos fazendo de tudo para deixá-lo confortável durante sua estadia. Não que seja necessário muito esforço, porque o cachorrinho se sente em casa por si só. Parece que sempre foi nosso. Brinca todas as manhãs e começos de noite com o Benjamin, como se fossem irmãos. Come muito bem, tem um apetite que não condiz com seu porte pequeno. Ganhou a cama que era do Benjamin quando filhote (aquela mesma de quase R$100!) e o potinho de comida pequeno também. Minha mãe o chama de "pantufa" porque onde ela vai o baixinho vai atrás! E, recentemente, ele e o Benjamin ganharam, cada um, uma bola para se divertirem e destruirem a casa na brincadeira de pega-pega. A única coisa que faltava era um nome, mas não me sentia bem em escolher um nome para um cachorro que, bem, não é meu. Porém, mesmo assim, quando dei por mim tinha uma lista formada:
  1. José Cândido (né!)
  2. Cisco
  3. Algodão
  4. Quidam
  5. Madruguinha
  6. Pipoca
Quidam era meu favorito. Minha mãe até o chamava assim na maioria das vezes, porque é um nome que tem tudo a ver com ele. "Quidam", além de ser um espetáculo do Cirque du Soleil, é uma palavra em latim que significa um indivíduo sem rosto nem nome. Um solitário. Transeunte que permanece na esquina sem ser notado. Um Zé Ninguém, minha gente, e de Zé Ninguém o José Cândido entede bem. Quidam, o nome perfeito! Mas eu realmente não me senti bem o chamando assim porque, afinal de contas, não é o nome dele e por isso ele não nos atendia. Então, como eu dizia, meu namorado chegou em casa e enquanto conversava comigo, sem querer, descobriu o nome do pequeno notável!

Estávamos ali, dizendo nomes aleatórios e engraçados, quando meu namorado o chamou sem querer. Testamos. Muito! Em todas as vezes, "Tony" abanou o rabinho nos olhando. Qual a propabilidade disso acontecer? 1% em todos os casos de cachorros encontrados na rua? Pois é, Tony e seus mistérios. Prefiro acreditar que seu nome é baseado em Tony Stark, o grande, ao invés do Tony Ramos (obviamente).

Por fim, eu queria agradecer muito a todo mundo que divulgou os links e a Janaína que fez um widget muito bonito para divulgar a causa, a todos que estão o usando em seus blogs e a Thay, sempre muito querida, me apoiando em todos os projetos sempre. Obrigada de verdade!

Tony, o cachorro que escolheu seu nome, também agradece!

12 de outubro de 2011

A quimera de primavera

Sim, dois posts em um dia no BC de novo. Não gosto de fazer isso, mas a fila de textos está atrasada! Como eu não queria deixar de participar do meme do Dia das Crianças, aproveitei para publicá-lo e publico também sobre a primavera (para você ver que estou atrasada meeesmo). Espero que gostem, mas não é necessário comentar nos dois, basta ler e se divertir. Feliz Dia das Crianças para vocês! :D

23 de setembro de 2011. 266º dia do ano. O dia do sorvete e o equinócio da primavera. A mudança de clima marca a época onde depilamos as pernas, finalmente, após um longo inverno. Usamos sandálias, vestidos, saias e óculos escuros. Suamos. Ao contrário do inverno, na primavera temos algo para abrir mão de: o dia bonito. Todo mundo abre mão do dia bonito para ficar no computador ou trabalhando no escritório climatizado. No inverno, não. Enquanto é frio, ficamos no computador ou escondidos por falta de opção. Ficamos, todos, emaranhados um por cima do outro, baforando no cangote alheio e nos acumulando. Nossa, como a gente acumula durante o inverno! Gordura, resfriados, xixi preso na bexiga, camadas e mais camadas de roupas e lixo. Por isso, todo começo de primavera é ocupado por completo pela faxina.

Todo ano, religiosamente, eu e minha mãe arrumamos a casa no equinócio de primavera. Nada é marcado, planejado ou combinado. Quando percebemos, estamos com a casa virada do avesso coincidentemente no primeiro dia primaveril. Acho que é coisa de instinto. Com o calor, sentimos necessidade de chacoalhar as coisas e tirar a poeira que se acumulou durante o frio. Porque não há como escapar, a casa sempre está fechada e despreparada para o veraneio. Não só aqui no Brasil, mas na Europa também. No ano em que morei lá, aconteceu a maior faxina de primavera de todos os tempos! Na chegada do outono também, resolveram que o lar não seria mais doce se não jogassem quase todo o sótão no meio da rua, para o caminhão de lixo levar. Mesmo São Paulo infringindo a regra básica da Mãe Natureza, e só alternando entre muito quente e muito frio, é possível sentir a mudança de estação e perceber que tudo voltou a florescer.

Então, no dia 23/09 estávamos bancando as housewives prendadas da década de 50. Mais para Lucy do que para pin-ups. Entrei em meu quarto com o olhar de "isso irá doer mais em mim do que em você", munida de água e sabão. Eu estava decidida. E olha que "estar decidida" não é meu forte (em qualquer setor da vida). Tirei a poeira (pura poluição!) dos meus livros na estante, dos cds e dvds, revistas e também joguei minha mesa, praticamente inteira, em cima da minha cama. Esvaziei gavetas. Dissequei meu armário. Arrastei a cama e todos os outros móveis. Nessas horas a gente se assusta com o volume de pêlos e ácaros. Sei que 'pêlos' não tem mais acento, mas não consigo viver assim. Principalmente atrás das coisas, onde nunca ninguém chega, e na parte de baixo da cabeceira da cama. Levei um susto. Mais um pouco, e eu estaria cobrando aluguel do cortiço deles. Talvez até reclamando do funk.

O engraçado é o que encontramos no meio da limpeza. Jornais velhos, notas fiscais desbotadas, embalagens de balas ou bombons que não foram para o lixo por pura preguiça de minha parte, envelopes de correspondências misteriosas (nunca consigo descubrir o que havia dentro do envelope) e guardanapos do Mc Donald's ainda dentro do plástico. Encontrei, também, um boleto bancário vencido. Consta nos altos sempre quis dizer isso! que eu deveria ter pago minha inscrição em um concurso público. Eu em concurso público?! Desde quando? Para vocês terem ideia, havia até anotações minhas sobre a primavera ali, mofando na gaveta.
Capítulo I
Primavera! É assim que enxergo meus dias agora. Uma grande Primavera, deitada perpetuamente, coroada pela aurora.
Não pergunte o que isso significa, entendi menos do que você. Ao que tudo indica, enquanto os ursos hibernam, eu gozo de uma vida paralela a essa. Curto uma espécie de transe. As coisas encontradas todos os anos na preparação para receber Dona Primavera, não condizem comigo. São caixas de chocolate que não lembro ter comido, folhetos de rua que se materializaram nas gavetas, etiquetas de roupas que nunca usei, amostras grátis de produtos que eu jamais usaria e centenas de unicórnios, duendes e índios que não sei há quanto tempo estão morando no meu quarto. No fim, a sujeira fica em segundo plano. Sempre acabo me distraindo com os tesouros que topam no meu dedinho do pé. Demoro um dia inteiro para terminar a arrumação. O saldo fica no corredor cuja passagem é bloqueada por sacos e mais sacos de lixo lotados com quinquilharias que irão para a igreja ou para o lixão da cidade.

Mas uma pequena parte fica agregada, com carinho, em um cantinho reservado. Deixo ali só o que faço questão de tentar lembrar o lugar de procedência. As coisas ficam ali, paradas. Na primavera seguinte, não faço a menor ideia do motivo de estarem guardadas, e começo por elas a faxina do ano. Desmontando assim, pouco a pouco, aquele mundo secundário, construido durante o inverno. Do qual não gravei nada de minha estadia.

É uma pena nunca encontrar minha memória no meio da bagunça.

8 de outubro de 2011

Um dia como outro qualquer

Desânimo, é essa palavra que me define. Depressão? Não sei. Sempre achei essa palavra muito forte. Por mais que os médicos denominem assim um estado emocional, a palavra continua soando errada. Eu sou uma pessoa desanimada. Pronto. Não quero sair, me divertir, conversar nem assistir alguma coisa. O que eu quero? Nada. Nunca acreditei ser possível uma pessoa querer nada, mas hoje penso diferente. E essa é a vida, um abrir incansável de horizontes. Posso sofrer com a montanha russa de sentimentos ao longo do dia, mas o desânimo, esse sim, é fiel ao cliente. Cedo, tarde, de madrugada, meia noite, não importa. O desânimo está aí para melhor nos atender. Já me perguntei diversas vezes se isso é opcional. A terapia, andei aprendendo, por enquanto não vai me entregar a resposta de mão beijada. As coisas não são fáceis assim, por mais que a gente reze pelo contrário.

Passadas grandes. É esse meu segredo. Quando quero nada, dou um pulo gigante para o próximo nível. Quero nada, mas quero tentar querer alguma coisa. Então, eu me esforço. Como hoje, por exemplo. Estava aqui, querendo nada da vida e a vida querendo muito de mim. Essa exigente! Eu viro a cara, amarro meu burro e saio assoviando, mas a danada vem atrás. "Espere aí, mocinha! Onde você pensa que vai? Estou precisando de você!". Ah vida - eu retruco - vai catar coquinho na ladeira, minha senhora! Às vezes funciona, mas a sensação de queda vertiginosa fica por minha conta. Sempre há um troco, e essa é minha maior fé. Mas o que quero dizer mesmo, é que hoje saí e fui parar no shopping perto de casa. Tinha aqui, mofando na gaveta, um bilhete de troca da loja Renner. Não é maravilhoso você ter até quase um ano para efetuar a troca? Para preguiçosos como eu, é maré cheia.

Pois bem, fui trocar meu bilhete de R$39,90. Que, aliás, troquei por uma calça de R$69,90. Mas sobre isso não vamos debater, porque a metade que foi tragada pelo buraco negro de minha existência foi o troco que a vida sempre dá. O cosmo deve ter usado para comprar cremes a base de esperma. Chegando na loja, é claro que eu não encontraria nada interessante por esse preço. Tão pouco lingeries ou meias, que custam quase o preço total por unidade.

— Não vou trocar todo esse dinheiro por um único par de meias! - eu disse.

Continuei, então, garimpando nas araras cheias de estampas feias que ninguém quer comprar, vendidas por míseros R$19,90. Eu tenho fé que um dia ainda encontro uma peça linda nessas araras. Sabe aquele velho esquema feminino de esconder a peça entre outras roupas, araras e até seções? "Vou sair da loja rapidinho, mas depois volto para te comprar, sua linda!", esse esquema de sobrevivência. Saímos da loja não antes de esconder o tesouro, meu bem. Isso mesmo, um dia eu consigo e passo a perna na concorrência. U mad? Problem? Só que não foi o caso. Fiquei a ver navios na Renner mais sem sal que já conheci.

Esse é outro horizonte que a vida abriu ao longo da minha caminhada feminina: as lojas mudam suas roupas conforme a localização do shopping. É um pouco canalha, acha não?! Se bem que a moda que veste as mulheres do Jardins não pode vestir nós, do extremo sul de Sampa, a região esquecida por Deus. Primeiro porque os gostos devem ser diferentes, assim como as ideias. Depois o preço. A plebe não está podendo gastar o vale refeição mais o vale transporte em apenas um casaquinho. Enfim.

Estou transformando um simples texto, de finalidade analítica, em uma história sem fim. Fato é que fui com um bilhete de R$39,90, nenhuma animação e poucas opções de trocas. Voltei para casa com um par de sapatilhas, outro par de pantufas cor de rosa, um pijama e duas calcinhas. Além do Big Mac muito bem acomodado em meu estômago, juntamente com guaraná, batatas fritas e torta de maçã. Eu amo torta de maçã mais do que... eu ía dizer mais do que The Rasmus, mas eu e você sabemos que isso é mentira. Amo mais do que lasanha. Lógico que completei o saldo com meu cartão, que tenta me esfaquear cada vez que o tiro da carteira. "Poupança o caralho, né?", ele reclama. Mas é péssimo de mira, sempre acaba sendo esfregado na maquininha capitalista.

Voltei para casa mais pobre, sim. Com duas sacolas e passando mal de tanto comer. Mas eu estava voltando para casa, e não curtindo meu desânimo dentro dela. Ri, reclamei dos preços de sapatos, esbarrei em uma criança que corria solta pelo corredor (só pela diversão da coisa) e ainda comprei as pantufas mais confortáveis de todas as gerações preguiçosas do mundo. Vi gente, como minha mãe diz, e por mais que eu não goste de socializar, ver gente vivendo é sempre bom. Porque existe vida lá fora. E nenhum dia é como o outro. Todos tem sua particularidade. Hoje, por exemplo, eu descobri que a vida sem desânimo não dói, e que eu ainda sei viver assim. Por mais que eu queira me convencer do contrário.

5 de outubro de 2011

Cadê meu dono?

Hoje, dia 5 de outubro de 2011, fui adotada na rua! Pois é, enquanto voltava de um passeio na praça com Benjamin, um cachorrinho muito simpático começou a me seguir. Como não dei muita bola para ele, o baixinho começou a mordiscar minha perna, lamber minhas mãos, subir na minha perna e pedir colo. Por mais que eu tentasse afastá-lo de mim, ele continuava nos seguindo. No fim, a insistência foi tamanha, que não pude simplesmente ignorar. Peguei o pequeno no colo e saí perguntando de casa em casa se alguém era o dono ou se ao menos conhecia quem pudesse ter um cachorrinho daquele. O problema é que todo mundo disse não saber de onde o cachorrinho era, e tão pouco conheciam os donos. O que eu fiz? Deixei todo mundo da rua avisado que, se alguém perguntasse, o cachorro estaria na minha casa e o trouxe comigo. O que eu ia fazer? Não tive coragem de fazer de conta que não era comigo. Na verdade, mesmo se eu quisesse, o cachorro não iria sossegar!

Então, é isso! Estamos agora com um agregado em casa. José Cândido, gentilmente batizado por mim. É um macho, porte pequeno, pêlo branco e longo. Ele foi encontrado em um cruzamento com a R. Gregório de Queirós. Não sei qual possa ser a raça dele, acho que é misturado, mas lembra o West Highland White Terrier. Se você mora na região de Interlagos, perto da antiga Osec (hoje UNISA) ou nas proximidades da Av. Teotônio Vilela, pode ser que esse cachorro seja seu!


Se alguém se interessar em divulgar, por favor, eu agradeceria muito! O "Zé" está sendo muito bem tratado, já dei um banho nele e o Benjamin está cuidando da parte social. Vamos ajudá-lo a encontrar a família! Entrem em contato comigo pelo email: illcircus@googlemail.com