26 de setembro de 2011

Pânico do ataque de esferas

Fui com meu namorado curtir um domingo no Parque da Independência, e só não entramos no Museu Paulista porque nenhum de nós tinha dinheiro trocado para pagar a entrada. É bem o tipo de coisa que acontece com a gente mesmo. Então, sentamos em um banco perto do jardim e ficamos saboreando o sol de geladeira. Nossa trilha sonora foi o apito do guarda que não parava um minuto sequer, tirando todos os analfabetos da grama. É incrível a quantidade de visitantes analfabetos que visitam o museu. Apesar das centenas de avisos, eles continuam pisando na grama, tocando nas peças, tentando subir na varanda. Eu e meu namorado ficamos sentados contando quantas vezes um único cara levou apito no ouvido.

Às vezes observo os jardins e a subida do museu até o monumento. Falando sério, toda a má educação do brasileiro se acumula ali.
Trágico.

E falando na grande subidona larga que nos leva do museu ao monumento de cobre envelhecido, falemos também de seus transeuntes. Sempre rola algum esporte por lá. Carrinho de rolimã é o principal. Mas por incrível que pareça, rola futebol também. De uma maneira ou de outra, o pessoal consegue equilibrar um jogo básico no topo da subida. E é aqui que meu pânico começa.

Quando criança, levei uma bolada na cara. Daquelas de doer. Daquelas de fazerem os olhos lagrimejarem. Até hoje tenho um desvio no septo por conta disso. Também tenho a desconfiança - nunca confirmada - de ter sido puro bullying. Na minha época era cada um por si, não tinha essa de bullying mimimi. Enfim, desde então tenho pavor de me aproximar das pessoas que estão jogando bola. Seja vôlei, futebol ou o escambal. Porque, assim como tenho ímã para atrair merda, tenho ímã para atrair bolas. E sempre, sempre, acho que alguma desgraça enorme irá me acontecer caso eu descuide um minuto sequer do pular daquela esfera maldita. Por isso, é um tanto sofrido passar do Parque da Independência para o jardim do museu sem retrair meus músculos e tentar afastar a bola de mim com a força do pensamento. A todo instante, seja ele onde for, tenho plena certeza de que serei alvo do corpo esférico tomado pelo Pai da Mentira e, depois, motivo de chacota.

— HAHAHA, acertamos a bola nela!

E daí toda aquela fase de ensino fundamental assolaria minha pessoa sem deixar vestígios. Eu ganharia uma marca rouxa, meu nariz voltaria ao lugar ou seria arrancado por completo (terminando o trabalho sujo). Por mais que eu tente ser otimista, não há jeito. Toda vez que passo perto do aglomerado de pessoas ensandecidas que correm atrás da bola como quem corre atrás do jantar, meu mecanismo de defesa grita em câmera lenta. Pobre coitado. Ele levanta os braços, fecha os olhos e sofre por antecipação. Mozart até rege uma orquestra. Por fora, claro, sou uma muralha intransponível. Faço cara de "se acertar em mim...". Mas por dentro, com o mecanismo de defesa aos prantos, eu repito:

— Não me acerta, não me acerta. Por favor, não me ACERTAAAA!1

Todas as vezes me safei, mas a gente nunca sabe o dia de amanhã.
Mais vale a bola no chão, do que te acertando.

Muito obrigada a todos os comentários no post anterior! Fiquei muito feliz com o carinho de vocês, e ao saber também que novos leitores chegaram para ficar!

19 de setembro de 2011

O circo do sol e a circense

Varekai (pronunciado ver·ay·’kie) significa "onde quer que seja" na linguagem cigana, os eternos viajantes. Criado e dirigido por Dominic Champagne, esta produção presta homenagem à alma nômade, ao espírito e arte da tradição circense e a todos aqueles que desafiam com infinita paixão os longos caminhos que levam a Varekai.
Em 1984, Cirque du Soleil foi fundado. 18 anos depois, Varekai foi criado em homenagem à alma nômade. Domingo, dia 18 de setembro de 2011, eu o assisti. De frente para o palco, fomos eu, namorido, sogra, sogrão e cunhada, todos juntos, realizar um dos meus maiores sonhos. Conheci a compania circense em meados dos anos 90, com o espetáculo "Alegría". Eu ainda era uma criança, mas já sabia muito bem que meu lugar era no circo. Desde então, alimentei o sonho (caro) de presenciar ao menos uma apresentação na enorme tenda azul e amarela do maior e mais lindo circo. Claro que sou completamente apaixonada por Alegría (o espetáculo mais famoso), mas qualquer espetáculo intinerante me deixaria de boca aberta e com o coração na mão.

Quando meu namorado me deu a notícia de que um ingresso para Varekai me esperava, eu fiquei sem reação. Fiquei sem saber se chorava, tremia ou comemorava. No fim, fiz de tudo. Deixei a adrelina percorrer o corpo para ver até onde eu chegaria. O único problema era a espera. Havia um mês ou um pouco mais para a data do espetáculo. Como lidar? Fingi que não era comigo. Usei todas as técnicas teatrais (que eu não tenho) para fazer de conta que o Cirque nem estava na cidade. Não havia ingresso. E se nada daquilo existia, logo, não havia espectativa alguma. Deu certo por um bom tempo, mas quando setembro e seus primeiros dias dançaram no calendário, ninguém segurou minha ansiedade. Nem eu mesma.

Por fora, uma perfeita lady tomando chá com o dedinho levantado. Por dentro, uma descontrolada em chamas. Os vídeos no Youtube já não davam conta do recado. Acompanhar mensagens no Facebook e no Orkut só pioravam a situação caótica. Eu não tinha para onde ir! Minha terapeuta, coitada, fazia de conta que não era com ela. Mas bem que acabou comprando um ingresso também, de tanto eu encher seus ouvidos com Varekai. E por mais que eu tentasse expor minha alegria, ainda que de forma contida, ninguém enxergou a profundidade da emoção. Porque todo mundo sabe desse meu lado circense, mas às vezes tenho a impressão de que nem eu tenho completo conhecimento dessa ligação.

Você acredita em vidas passadas? Eu confesso que não. Mas acredite se quiser, o circo sempre faz com que eu morda minha língua.

Ao entrar no estacionamento e ver pela primeira vez as cores azul e amarelo, meu coração deu uma cambalhota. Esfreguei os olhos, apertei uma mão na outra sem parar, mas não acreditei que estava realmente de frente para o sonho que alimentei com tanto carinho desde criança. As bandeirinhas no topo da tenda balançavam perfeitamente com o vento. As luzes brilhavam do jeito certo. Eu, trêmula feito vara verde, achei que não conseguiria entrar. Olhei para os lados esperando que alguma coisa acontecesse, qualquer coisa que me impediria de entrar. Porque era bom demais. Era surreal! Mas entrei. Entrei e chorei.

Chorei como um filho que não sentia o aconchego do lar há muito, muito tempo. Meu namorado falava ao pé do ouvido que não havia motivos para chorar, era um momento de alegria, mas não era algo que eu pudesse controlar. O choro estava represado há tantos séculos, acumulado há tantas vidas, que não pude segurá-lo. Não nesse corpo que chamo de casa agora. Você pode não estar entendendo nada do que eu digo, e nem poderia, mas não ligo. De verdade.

Enquanto as pessoas se ocupavam com o espetáculo secundário lotado de camisetas e souvenirs, eu olhava para cima. Eu checava os mastros, as fendas da tenda, as instalações e tentava descobrir como tudo aquilo era transportado pelo mundo. Não demorou muito, eu já estava calculando tempo, gastos e imprevistos. 10 minutos depois, estava desenrolando a tenda e carregando rolos e mais rolos enormes e pesados. Pensei no preparo dos artistas, do palco e nas estruturas. Por pouco, muito pouco, não fui para os bastidores dizer que tinha mais caipira do que talento. E quando vi, eu estava mentalmente trabalhando na noite que deveria ser somente de diversão. Apesar de hoje ser tudo mais moderno e fácil, tive a coragem de me perguntar como raios aquilo se sustentava sem mastro central, e quem foram os cabeças de vento que levantaram aquilo no braço. Meu namorado nem me cutucava mais. Eu não estava mais ali.

Quando a moça desamarrou a tenda e permitiu nossa entrada, eu soube que não sairia a mesma dali. Sentei, me acomodei e assisti. Eu assisti ao Cirque du Soleil. Preciso repetir isso milhares de vezes para a ficha cair. A boa filha à casa retornou. E onde quer que seja, eu sempre voltarei. As lágrimas quase atrapalharam, mas aproveitei cada instante desse reecontro!

Varekai - Funambul