22 de julho de 2011

A Raiva e sua cortina de retalhos

Todo mundo aprende, desde pequeno, que raiva não é um sentimento nobre e não deve ser alimentada. Raiva nos leva a cometer delitos e desencadeia guerras. Está um passo atrás do Ódio, e esse sim, não devemos nem dizer em voz alta. Se em casa a gente não aprende, tudo bem, tem o cosmo ou a religião que não nos deixa escapar. Ira é pecado. Um dos sete capitais. Quer argumento maior que esse? Lógico que queremos ir para o céu depois de uma estadia cheia de armadilhas e funcionários públicos. Ninguém quer deslizar por descuido na raiva e depois passar a eternidade ouvindo discursos nazistas ou comendo camarão (porque eu sou alérgica). O que nos resta é absorver o ensinamento e balançar a cabeça como bom carneiro. Mas como eu sou bem contramão - por puro prazer - acabei cometendo um pequeno engano cristão: eu convidei a Raiva para entrar e ofereci suco de limão sem açúcar. E não é que ela gostou de ficar!?

Existem acontecimentos na vida que nos obrigam a rever nossos conceitos sobre certo e errado. Isso as professorinhas do jardim de infância não contam para a gente. Sobre semáforo, faixa de pedestre e o segredo de como escrever o danado do número 2 elas insistem em achar que é urgente, mas nos alertar sobre a desgraça da vida neguinho não quer. "Hoje, alunos, vamos aprender o jogo de cintura para sobrevivermos à sociedade canibal". Não, todo mundo se abstem. "Tsc, ah! Deixa que eles aprendem na prática". É como na selva, você tem que enfiar a mão na boca do crocodilo para ver se dói mesmo. A gente acaba descobrindo que o cipó é sempre mais frágil do que parece. Nessas experiências importantíssimas para nossa formação pessoal também descobrimos que, além de sermos atropelados ao atravessar a avenida em horário de pico com o farol verde, somos obrigados a abrir as portas de casa à visitas indesejadas. E não estou falando da sua tia que cheira à naftalina.

Como qualquer mortal, passei por testes de fé e paciência ao longo dos anos. Desde cedo me coloquei - me colocaram - à prova de fogo. Nem preciso dizer no que isso terminou, preciso? Em raiva, muita raiva. Aquela raiva afogada pelos "nãos" de quem teme a força maior. "Você não pode ter raiva dessa pessoa", sempre me disseram, "porque essa pessoa é seu pai". Para muitos gados desse mundo velho sem porteira, o título de "pai" é tudo o que importa para que limites sejam impostos à crianças. Só que, enquanto a gente cresce, aprendemos - veja só você - que nem todo provedor masculino é capaz de se tornar pai. Fazer o que? Coitado, #epicfail na paternidade, 'bóra tocar o bonde então. O bonde não vai. O bonde emperra. A criança tem que aceitar a hierarquia familiar antes que se torne uma pecadora de alma condenada. A criança, então, cresce de mãos dadas com a Raiva, mas essa coitada, fica sufocada em um canto que ninguém pode tocar. E é nesse canto que a pessoa alimenta e cuida da pobre Raiva. Com carinho, acredite, muito carinho.

Aí a Raiva se cansa, né. "Chega! Vou tomar um ar. Já estou cheirando à mofo.", e sai. A Raiva sai. Depois de muitos anos sendo tratada a pão-de-ló, é claro que ela não vai querer sair do conforto. Ela se instala a sua volta. Prende ao seu redor uma cortina muito bonita que não te deixa ver nada. Bem prendada, a Raiva pegou retalho por retalho da sua vida que foi despedaçada aos poucos e com eles costurou a sua janela coberta. "Não é bonita minha cortina?", a raiva pergunta. "É sim", a gente responde em transe. E do lado de dentro da cortina que nos tampa os olhos a gente não vê nem sente mais nada, só a raiva ali, admirando com você todos os retalhos maltrapilhos que um dia foram seus sonhos, crenças e esperanças. Todos ali costurados um junto ao outro, sujos, rasgados, desfigurados, irreconhecíveis.

A cortina da prendada raiva é linda, mas tão linda, que a gente se distrai.
E nem percebe a tragédia iminente se aproximar.

9 de julho de 2011

Matando cachorro a grito

As pessoas andam histéricas. Espaçosas e paranóicas também. Não sei se é obra de Força Maior ou karma ou simplesmente o cosmo, mas tenho topado com muitas pessoas se esgoelando nos celulares. Se esgoelando em conversas cotidianas com pessoas que estão bem pertinho. Se esgoelando com conhecidos transeuntes que passam do outro lado da rua. Se esgoelando com objetos inanimados. Eu não sei qual é a razão disso, desconheço o que leva as pessoas a acharem que o telefone e a educação ainda não foram inventados. Quando esse tipo de dúvida surge, levanto a cabeça e digo: Deus, tem que ver isso aí. Nunca obtenho resposta, o cosmo corta a ligação.

Estou me tornando o tipo de pessoa analisada que sempre tem um conselho do psicólogo para compartilhar. Isso é tão chato, mas é inevitável. Aliás, conselho de psicólogo é o único que você pode seguir sem medo de terminar atropelado pelo trem no fim do túnel. Vai por mim, aprendi à duras penas (eu sei, minha tataravó foi a última pessoa a usar essa expressão). Enfim, comentei com minha psicóloga o quanto as pessoas me deixam indignada e o quanto me atingem com seus egos espalhafatosos. Quando topo com aposentados e seus estereotipos, a única coisa que penso enquanto a pessoa grita com funcionários é que, em 70/80 anos, o mané não aprendeu porcaria nenhuma com a vida. Não aprendeu que filas demoram, que preguiçosos existem, que as pessoas erram, se desculpam, tentam de novo.

E é isso. Ninguém aprende. Quando um idoso chega perto o suficiente para seus remungos serem ouvidos até na China, você percebe que, putz! é mesmo, ninguém quer saber de aprender alguma coisa. Não, eu não generalizo, mas também não mordo a língua para dizer que esses são a maioria. Seja no meu círculo social, seja mundialmente. A psicóloga só meneou a cabeça concordando. Nem sempre ela tem uma resposta terapeutica padrão para me oferecer, assim como a vida. "É verdade", as pessoas dizem, e acabou. A verdade absoluta e inexplicável muitas vezes é o ponto final. Se alguém mata um cachorro, sequestra uma mulher gestante, afoga o colega de escritório ou atira em uma escola pública acertando várias crianças todo mundo balança a cabeça. "Isso não pode". Não pode, é isso que precisamos saber, que não pode. Prevenir ninguém está afim, mas todo mundo quer ser o primeiro a achar um absurdo e dizer "meu deus, isso não pode".

Isso não é sobre sair nas ruas com cara pintada e enfrentar cachorros raivosos ou militares escondidos atrás de proteções. É sobre nada. Um nada bem grande que não quer entender que, na verdade, é o tudo. É a gente.

As pessoas acreditam que os problemas só se resolvem com pancadaria, no 8 ou 80, na revolução bruta. É pegar um pedaço de pau e descer o cacete em todo mundo que atravessar o caminho, porque assim tudo fica bem, tudo volta ao lugar. Já reparou? Problemas, desgostos, desagrados, incômodos e qualquer desarranjo de barriga é motivo para gritar. "Você quer o que?", dizem, "Que eu saia por aí jogando pedras, lutando? Por que não vai você!?". É sempre assim. A gente sempre se esconde atrás dos nossos lobos intolerantes. Escondemos o medo e a sensação de impotência e inutilidade atrás de toda uma alcateia furiosa prontíssima para atacar qualquer um que tente cutucar o ego ferido. A gente se esgoela e briga um com o outro. O problema sentado lá no canto dele, lendo jornal, tomando café. A gente aqui escolhendo no uni-dune-tê quem vai para as ruas se jogar na frente de carros policiais.

Será o medo da morte?, eu perguntei. Da morte ou de tudo. Medo de errar, de deixar o erro alheio nos atingir. De qualquer forma, no fim eu dei de ombros. Disse que estava tudo perdido mesmo e daqui para frente é ladeira abaixo. Estou perdida em um mar agitado de pessoas enlouquecidas e nada posso fazer contra elas. Aí eu senti aquele aperto na mão. Dela mesma, a autopiedade. Essa moça volta e meia aparece nas consultas, sem ser chamada, e aperta minha mão. "Muito bem", ela diz, "é assim mesmo que você deve fazer, senão o lobo mau te engole". Eu digo para ela calar a boca, mas nem sempre ela está disposta a voltar para a casinha e catar piolho. Se a psicóloga a percebe ou não, isso não posso responder, mas antes do meu tempo terminar ela me deu a resposta que eu precisava muito ouvir.

De um jeito ou de outro, as pessoas são o que são porque sim. E ninguém vai mudar só porque eu preciso delas de um modo diferente. É verdade, eu respondi à ela, isso não pode.

5 de julho de 2011

Benjamin - A Saga Final


Depois de longa demora, aqui vai a atualização da saga mais querida do Brasil (ou não). Benjamin, para quem não acompanhou desde o início, foi adotado por mim meses após a morte da minha Laika, que viveu comigo por 16 anos. Eu queria um cachorro pequeno para ficar dentro de casa e em cima da cama junto comigo. Queria, principalmente, um cachorro que não me lembrasse muito da Laika, mas que preenchesse o vazio que ela deixou em mim. Benjamin, junto com seus irmãos, foi abandonado dentro de uma caixa em um terreno baldio. O tipo de coisa que só macacos mal evoluídos fazem. Lembro se como fosse ontem, o peguei nas mãos - das quais ele quase caía de tão pequeno - e ele mordia meu dedo. Era ele. É ela, ele pensou.

O bicho foi crescendo como se não houvesse o amanhã, foi ganhando peso, foi preenchendo meu vazio e a casa toda. Por pouco ele não preencheu o quintal. Postei aqui minhas desconfianças quanto a decendência do pequeno notável, já que a cada dia suas cores e formas se transformavam em um Rottweiler, provavelmente, feroz e sem estribeiras. Benjamin engordou quilos e mais quilos em semanas, mas hoje me encontro tranquila. O Caveirão (como é carinhosamente chamado pela sua habilidade de destruir tudo pelo caminho) parou de crescer e está em torno de 20 quilos e tanto. Marlon Brando (outro apelido carinhoso em menção a sua fofura e beleza viciantes) se tornou um Negão Paixão (eu que inventei esse para enfatizar esse amor todo) de patas longas e cabeça à 1000km por hora que nunca pára de confabular aventuras.

Resolvi atualizar a saga hoje porque Benjamin finalmente chegou no ápice de seu crescimento: ele levantou a perninha para fazer xixi. Meu filhote que caía de minhas mãos agora é um moço apresentável à sociedade canina. As almofadas da casa, onde antes ele dormia em cima por horas e horas, agora são suas namoradas. O sofá é seu mictório. Meu quarto é onde ocorre o concurso aquático, patrocinado pelas babadas de Benjamin após ele beber água. A cestinha onde antes ele dormia durante a noite, transformamos no lugar onde se guarda todos os brinquedinhos (que sobreviveram). A cama, aquela mesma de quase R$100, é um objeto obsoleto que permanece em cima do armário para não me deixar esquecer de como fui babaca um dia.

Agora Benjamin já passeia pelas ruas do bairro se como fosse o dono delas. Fareja tudo e pára em todos os portões querendo brincar com os cachorros que latem querendo o pegar pela garganta e mostrar quem manda. Claro que Benjamin, sempre otimista e faceiro, acha mesmo que os cachorros querem é brincar. Eu vou percebendo que estou adiando o dia de sua castração. Por medo? Não sei. Me corta o coração imaginá-lo deitadinho na maca, ainda zonzo por culpa da anestesia. Me corta o coração lembrar que Laika, meses atrás, estava na maca adormecida para todo o sempre. Não importava o quanto eu a beijava e dizia que ela era demais. A Laika não me ouvia mais. Esse é o próximo desafio pelo qual tenho que passar fazendo de conta que sou gente grande, e não mais a menininha que 16 anos atrás adotou seu primeiro cachorro. Não vai ser fácil encarar outro centro cirúrgico, assim, em tão pouco tempo. Mesmo sendo por causas extremamente opostas.

Enfim.

Benjamin me lembra muito o Porteiro. Quem leu Eu Sou o Mensageiro conhece essa figura. Benjamin anda viciado em café e fica deitado bem preguiçoso em frente à porta do meu quarto. Ele, aliás, anda cada vez mais tranquilão. Eu ando cada vez mais apaixonada pela personalidade excêntrica desse que nem de longe lembra um Rottweiler, mas tem a imensidão nos olhos. Olhos que me fazem sentir completa, mesmo aos pedaços.

PS.: A Marí deixou um comentário fofíssimo no post passado, mas não encontrei nenhum link onde eu pudesse devolver o carinho. Também não saí mandando email porque, né. É. Então fica assim: obrigada à Marí por ter saído do fog dos visitantes calados e ter deixado sua visita aqui marcada por um comentário super legal :)