27 de junho de 2011

É o que tem para hoje

Esses dias eu e minha mãe estávamos enrolando elástico na ponta de nossos narizes. A intenção era gangrenar para o SUS ser obrigado a realizar nossas cirurgias plásticas de graça. Nariz novo é o desejo de toda mulher. Para minha mãe e eu já virou questão de honra (uma história genética infeliz que não vem ao caso). Nessas horas que penso o quanto me divirto com coisas simples. Não tem nada a ver com a vibe Amelie Poulain, é uma coisa menos cult, menos modinha. É o que é. Eu me divirto com pouca merda e pronto. Merci beaucoup. Me divirto com plástico-bolha, fita crepe, canetas novas e coloridas, sou fera no jogo de Paciência. Meu melhor tempo é de 1:10, alguém bate? Pois é, você deve estar pensando: "a menina em seus plenos vinte e poucos anos jogando Paciência, que disperdício de humanidade", mas olha, nem todo mundo desce a Rua Augusta à 200km por hora toda vida, meu chantilly. Altos e baixos.

"É o que temos para hoje" se tornou meu mantra. Não é displicência, pelo contrário, é cuidado até demais para a pessoa não se decepcionar consigo mesma consecutivamente. Se conforme, eu me digo, antes que seja tarde demais. Por enquanto me contento com o que tenho, até porque não posso sair correndo atrás de algo melhor. Não, não são muletas nem qualquer resposta de humor negro, só o bom e velho emocional. Aquela auto-trollagem, o cosmo agindo, coisas corriqueiras do tipo. Então me divirto com a programação da TV Cultura, animais aleatórios no Tumblr. Adoro organizar tudo, vocês sabem (deveriam saber), coloco toda minha energia nisso. Eu poderia estar passeando, poderia estar assistindo filmes, poderia estar esquizofreniando no centro, mas não estou. Paulista não está podendo com essa regalia toda. Passagem custa R$3,00, acha o que? Ninguém aqui planta índio e colhe dinheiro. A plebe sofre. A plebe não revoluciona. A plebe não pode entrar nessa de ficar saindo de casa sem ser a maior emergência de todos os tempos.

Fiquemos em casa, então. Correndo atrás do cachorro, lavando o prato do cachorro, cozinhando para o cachorro. Trançando e destrançando o cabelo. Vamos escrever, faz bem. Só não vale falar sozinha, isso é o fundo do poço. Cair aos poucos tudo bem, é normal, mas se jogar assim não pode. Brasil não está podendo resgatar a plebe. Todos muito ocupados em aumentar a porra da tarifa do ônibus. Ando aleatória, percebe? Enfim. As coisas simples, sim. Plantei uma árvore para competir com a planta satânica de papai, mas esqueci o nome da dita cuja. Sei que deve ficar bonita quando crescer. Se crescer porque, né, Satã presente no jardim, o animal é invejoso, nunca se sabe. O importante é cultuar os pequenos momentos que a vida vai oferecendo de pouco em pouco. As doses vão aumentando conforme você for fazendo por merecer. Assim como cirurgias gratuitas, não custa tentar ir vivendo com o que se tem.

24 de junho de 2011

Tanto faz

Eu jorro centenas de finais de vidas diferentes e originais a cada segundo que me é dado de existência. Seja dom, seja criatividade, jorro para quem quiser escolher o modo mais simples ou honroso de se tornar pó. Para mim tanto faz como tanto fez viver de guerra ou paz, planos B ou de emergência. Dá na mesma. Um chute no estômago ou nas costelas, vice e versa, rasteira ou chave de braço não passam de singularidades. Expressão de violência é arte, de rua ou bueiro. A expressão de mim mesma navega nas águas de chuva correntes pelas galerias de uma cidade em escombros.

Jogo sujo ou lavado, tanto faz. Todas as cartas na mesa, duas na manga, outra ao chão. Dá na mesma. Eu vou perder. Só digo que não é questão de jogo, mas sobrevivência. Não há ganhador ou perdedor, somente filhos da mesma raça. Filhos que irão para o mesmo lugar após passarem pelas mesmas férias, os mesmos desgostos, as mesmas lamúrias. Entre deus e o diabo, rosa e espinhos e de mim a ti, são caminhos que procuro evitar. Me basta os tropeços naturais da blasfêmia. Me basta o feitiço sobre meus ombros que tenho que carregar.

Meu legado não são histórias, estórias ou mentiras de pescador, é apenas - e muito à penas - uns trocados que consegui guardar. Não lhe devo ensinamentos, memórias ou explicações, somente um sorriso amarelo ao pé da escada quando o vejo se empurrar para baixo. Só noto corpos sendo jogados e seus pesos caindo sob o que um dia fui eu, mas você não ligaria para isso. Porque ninguém liga, espera ser ligado. Na essência, tanto faz, já que meu estado de solvência lhe arranca os dedos para julgar. Julgo a mim mesma por estar assim, atenta, a um fim que não tarda a chegar e ultrapassa as falhas que preguei nas ruas desertas.

Tanto faz desde que eu seja encontrada. Perdida, assim, não posso mais ficar. Emaranhada em crenças invisíveis, não posso mais suportar. Teus pulsos, o pulsar dos problemas, meus pulsos. Tanto faz a quem cortar. Deixe estar. Dá na mesma.

20 de junho de 2011

Pacato cansaço

Esses dias me bateu cansaço de espírito. Conhece? É aquela canseira molenga de quem não quer levantar da cama para viver. Não é físico, não é emocional, não é... sei lá. É cansaço de tudo. Cansei de estar cansada até. Aquela voz chata de grilo reapareceu: você só reclama, mimimi, a mudança tem que começar por você, blá blá blá, mas quando pergunto: O que fazer quando o cansaço impede a mudança?, a voz fica quieta. Lógico, né? Essa resposta ninguém tem. Sentar e falar é muito fácil, o difícil é a pessoa que te dá sermão estar vivendo ao invés de ficar ali, sentada assistindo você morrendo a conta-gotas. Isso todo mundo finge que não está acontecendo. "Não é bem assim", as pessoas dizem, "estou tentando te ajudar". Sei. O inferno está cheio de altruístas, meu bem.

Mas fodam-se os outros, né? Estamos aqui para falar de mim.

Eu faço terapia. Vou toda semana religiosamente, também tomo os remédios bonitinho que é para não passar o resto dos anos no sanatório. Dessa possibilidade eu ainda corro. Só dessa, aliás. Aceito todas as outras. Me convida para vender bala no ônibus que eu vou. Ser voluntária em testes de comésticos, remédios ou qualquer outro na Área 51. Vou ser hippie, durmo na escadaria da Sé, vendo brincos de madeira. Trabalhamos com a diversidade, minha gente. Tirando o sanatório, pode até pedir fiado, viu? Então, eu vou na psicologa e a gente conversa por uma hora. Muitas coisas ela resolve, outras estou começando a descobrir que não. Por exemplo, o maldito desse cansaço. Não por falta de alguma coisa, ela só não resolve porque não depende dela. Quando você tem um problema desse tipo, meu amigo, é melhor começar a pensar na sua extrema unção.

Vou te contar, ser humano não nasceu para ter muita força de vontade, só um pouquinho. Uma quantidade segura. Porque, convenhamos, se todos fossem dotados de uma sensacional vontade para tudo, o mundo seria uma bosta seca. Os dois lados ganhariam a guerra, todos os países seriam a grande economia, todos os cientistas saberiam todas as respostas e, quando você nota, escola para que? Somos auto-sufientes, povo, 'bóra lá tomar um chopp no bar. Então, força de vontade é coisa pouca, ingrediente básico de sobrevivência, item emergencial. Por isso, quando você sente esse cansaço cujo único remédio é você mesmo, perdeu playboy. Conviva com isso. É o que estou tentando fazer, mas sucesso? Está em falta. Sucesso não comparece por essas bandas tem bons anos.

Sentar e escrever não resolve. Ah, não me venha com essa novidade. Alivia só, e isso muitas vezes basta para as pessoas. Alívio, sabe? Faz bem às vezes, para variar. Nem sempre olhar para o espelho e se acabar em desafetos resolve, as pessoas precisam se expor também.

Oi, eu sou assim, problema? Algo contra? Sou cheia de neuroses e paranoias, não sei lidar comigo e não me aguento mais. Perfeição mandou beijo e disse que se sente melhor estando entre pessoas iguais a ela, mas deixou a auto-piedade disponível para mandar recado de vez enquando. A vida é feita de erros? É. Tudo é feito de destino, acaso e um pouco de sorte? Sim. Qual o problema então? O destino, o acaso e a sorte se cansaram de mim.

9 de junho de 2011

Minha doce moça

Há gotículas de sangue em meu colo, amor. Ao lado, sobre a mesa, meu coração morimbundo recusa-se a bater dentro do jarro opaco. O tirei de meu peito. O traí. Lá fora, na garoa fina deitando-se à lama, meus acenos não murmuram mais adeus, não murmuram mais o amor esvaído. Não me sinto mais só, acompanha-me agora uma gentil e inquieta Melancolia. Como uma doce moça, que lembra-me o que já fui antes de tua partida. Ela aquece a casa e preenche as rachaduras do que me sobrou. Nós conversamos, mudamos de uma cadeira à outra, apagamos e acendemos a lareira. Dócil, sempre muito dócil, a Melancolia mantem as cortinas da janela abertas que é para não perdermos sequer um instante do que de nós restou.

Não foi muito, eu sei, quase nada. Restou um beijo que perde-se mais a cada dia no vácuo entre nós. O beijo emagrece, desnutre-se. O vácuo engrandece, torna-se vil. Contemplo também tuas pegadas de grandes passadas pela lama que embranquece. Neva, amor. Neva muito aqui deste lado de nós que mingua febril. Meus esforços já não demonstram cura, apenas tempo perdido. Não há o que se fazer, não há o que nutrir. Diante da janela embaçada de vidros trincados pelo choro vejo, sem esforço, tua silhueta a me namorar na distância incrédula de nosso romance que tende a desintegrar. Tudo acaba-se em Melancolia. Esta doce moça que apoia-me a cabeça em seu ombro, eu a soluçar. Acaba-se nela o pôr e nascer do sol como horizonte que tu deixou-me para amargurar.

Faz tanto tempo, amor. Tanto, tanto, tanto tempo que encontro-me sem coragem de contar. Sonho vez ou outra contigo. Ambos corremos campos de girassóis afora permitindo ao vento nos guiar. Mas é tão raro. É tão escassa a esperança nesta casa. É tão perdida a tênue linha que costuro nos lábios meus. Esta linha não sorri mais. O mundo perde-se em si mesmo, querido, girando atrás de mim à procura das estrelas que roube-lhe para me enfeitar. Não adiantou, se lhe interessa saber. No espelho não há sequer um desenho de minha presença sôfrega. Há somente minha Melancolia, ingênua moça, que insiste dia após dia em me desenhar. Quanto mais ela pressiona o batom avermelhado contra o espelho, mais eu sangro. Mais eu sinto-me, amor, e sentir-me tem sido doloroso. Sinto o que de mim ficou, sinto o que de mim levou. E esta falta faz-me mórbida.

O céu hoje pela manhã fechou-se ríspido e trovejou. Estremeci contra o medo. O medo estremeceu-se de volta para dentro de mim. Nevou tanto. Tanto, tanto, mas tanto, que temi não mais te enxergar. Hoje tirei meu coração e o guardei no jarro opaco que é para o vigiar. De perto, assim, não há como me enganar. Retorne para cá. Retorne de imediato, posto que a neve tranca-me dentro desta casa. Neva cada vez mais, tranco-me cada vez mais. A Melancolia, fatal moça, sufoca-me em desespero querendo que eu reaja, mas não irei reagir. O inverno é decidido eterno até tua volta. Há nevasca n'alma que dediquei a ti. Neva neve negra, amor.

6 de junho de 2011

À escritora, com carinho

Quando você nasceu, menina, não tinha destino algum. Era um barquinho solto à sorte no mar de ondas bravas. Ninguém, ninguém, ninguém sabia onde ou no quê você iria se chocar. Nem você. Ora essa, muito menos você. Pois bem, cá estamos. Posso lhe falar agora usando um tom mais severo, de gente grande, apesar de você entender melhor o uso da gentileza. Mas nunca é tarde, mulher, para aprender que a gentileza, na verdade, não existe. Você há de compreender que o que existe é a oportunidade. Digamos que a gentileza seja uma sensação a qual nem todos são fieis. Mas vamos ao que nos interessa...

Você acabou por se chocar na misericórdia que é ser um humano da ciência inexata. Uma ciência impiedosa que não nos ensina coisa alguma, pelo contrário, só faz nos jogar e acumular perguntas e mais perguntas. Então escreva, mulher. Escreva para, durante a vida, calar uma dúvida ou duas. Não, não lhe garanto mais do que isso. Se conseguir calar uma sequer, sentirá a satisfação dos deuses. Faça de seu destino uma armadura e combata seus medos de ser pessoa. Comum, sim, mas pessoa única. Não se esqueça disso, é importante o saber. Pessoa única que atracou no continente certo.

Não venha, depois, me dizer que tudo aconteceu errado, do jeito errado, no momento errado. Te digo agora que você escolheu a alma que lhe convinha, e zarpou de nossa terra sem olhar para trás. Você sabia. Pode não saber agora, mas um dia soube. Às vezes é necessário sentar, outras você deve correr e há vezes em que deverá simplesmente esperar. Escreva em todas as vezes, mesmo que seus manuscritos sejam queimados, afogados ou perdidos. Cada um deles, assim que terminado, tem destino traçado. Acredite.

Dia 4 foi meu aniversário. É, pois é. Eu queria deixar passar em branco, mas seria no mínimo estranho o blog não ter nada comentado sobre o aniversário da blogueira. Vá lá, um texto antigo. Datado da minha adolescência que permanece atual até hoje, mesmo aqui no alto dos meus 24 anos.