16 de maio de 2011

Nossa pane e meu inferno astral

Blogspot sofreu pane, né? Coisa chata. Por enquanto, dei por falta apenas dos comentários do post "Água para Elefantes". Caso algum texto tenha sumido, só por Deus mesmo para eu não sair jogando cadeiras e blasfemando pelas praças. Pensei, na verdade ainda penso, em migrar para o Wordpress, mas vamos combinar que o bichinho é bem chato de mexer. O Blogspot é considerado um dos melhores serviços gratuitos, sobreviveu ao Weblogger até, mas pane? Isso é tão século passado, colega. Pane a essa altura do campeonato? Enfim. Fiquei preocupada mesmo com a coincidência disso. Sabe como é, aniversário chegando e cosmo todo pomposo no abre-alas sambando de mãos dadas com o inferno astral.

Nem vou pedir desculpas por não responder os comentários anteriores, blá blá blá, porque acho dispensável em uma situação caótica como essa. Na verdade, ando respondendo pouco e me falta tempo para tanta desculpa no fim das contas. A pane foi um grão de areia, amigos, um grão de areia. Procurei pesquisas e textos e trabalhos e o escambal para chegar aqui toda científica, mas quando li:
"O que a maioria das pessoas chama de inferno astral, na verdade, refere-se ao mês imediatamente anterior ao aniversário, quando estamos concluindo mais um ciclo de vida, e como é um fim, nossa energia está esgotada. Pense em um brinquedo com a bateria fraca, ou naquele joguinho de computador, onde se tem que ganhar uma nova vida para poder continuar jogando. Em razão dessa baixa de energia, também é comum que muitas pessoas, já debilitadas, venham a falecer nesse período."
- Fonte, Astro Brasil.
Resolvi deixar de lado a teoria do inferno astral e pular direto para a prática curta e grossa. O primeiro tópico do assunto não poderia ser diferente de: 1. Eu odeio meu aniversário. Sim, eu odeio. Não é uma tentativa tumblrística de chamar atenção para minha carência crônica, é a mais pura verdade. Desde criança meus aniversários foram marcados por lembranças desagradáveis e falta de harmonia. Veja só você, "falta de harmonia" é eufemismo, tenho que abusar dele para meu texto não se transformar em carnificina, para não mostrar o meu melhor de Silent Hill. Enquanto astrólogos e vovôs de lunetas tagarelam sobre estrelinhas, alinhamento de planetinhas e energias boas e ruins, eu vivo um ritual pagão provindo das ilhas mais obscuras da terra do pai da mentira. É de ajoelhar no milho e rezar o mês inteiro ou nem sair da cama. No começo do mês que antecede meu aniversário, cosmo chega trabalhado no penacho colorido trazendo sua trupe do barulho.

"É chegada nossa vez!", ele exclama todo realizado. Os monstros saem do armário e eu nem posso correr para o banheiro porque, misteriosamente, sempre tem alguém lá dentro. Passo um mês lutando contra mim mesma, contra emoções de vontade própria e pouco valiosas. Maio é o mês onde tudo acontece e os preparos para a chegada de 4 de junho são preparados com esmero. Eu fico triste, muito triste. Fico irritada, magoada, me sentindo curva de rio. É uma TPM prolongada. Coisas estranhas, como a pane no Blogspot, acontecem aos baldes e ninguém consegue explicar. Maio é o mês onde há congestionamento de pessoas a me olhar e dizer: "Mas isso só acontece com você, né". Pior que é. Gripes, resfriados, sinusites, desentendimentos, brigas, perdas de objetos para todo o sempre, torções musculares, unhas encravadas e cáries. Assim, resumindo.

O maior problema são todas essas coisas acontecendo fora & dentro de mim. Algo meio lobisomen se transformando só que com menos pêlos (enquanto a cera estiver quente, porque até ela não esquenta em maio). Minhas comemorações de menos um ano são regadas com pinga da pior espécie e caráter tão ruim quanto. Literalmente. A única lembrança que guardo é minha nota mental renovada a cada ano, mas destruída pelas espectativas viciantes: faça de conta que não é com você. O aniversário não é seu, a comemoração não é sua, ninguém sabe, ninguém viu. Às vezes dá certo, nem ligação recebo, mas a insistência alheia é a maioria. As pessoas querem me abraçar, beijar, parabenizar. Parabéns para que, cara pálida? Meu estado pós inferno astral é deplorável, gente, qualquer bom senso notaria isso menos meu circulo social.

Dizem os velhotes da ciência mística (sei lá) que inferno astral é a renovação das energias, o novo ciclo, o fim e recomeço, blá blá blá. Pois cá estou me preparando para mais um ano de dedadas no olho. Se o inferno astral representa tudo isso, meu signo é o Infinito.

11 de maio de 2011

Água para Elefantes

É lógico que eu tenho que comentar sobre o filme mais aguardado por mim. Quem conseguir assistir Água para Elefantes sem lembrar de minha pessoa, ganha um mastro central para armar a barraca.

Não, eu não sou contra adaptações de livros para o cinema. Tão pouco entendo o trauma das pessoas e a cara de dor que fazem ao descobrirem que tal livro irá virar filme. Sim, a história é picotada e às vezes até transformada, mas o que devemos esperar do resumo de, sei lá, 500 páginas para 2hrs ou no máximo 3hrs de filme? Quem aguenta ficar sentado por mais de 3hrs em uma sala escura lotada de gente mal educada fazendo barulho e comentários dispensáveis? Deitar em sua cama quentinha e confortável para ler como bem quiser um livro é o total oposto, concorda? Quando li a notícia de que Água para Elefantes iria parar nos cinemas, minha única e mais singela reação foi uma sensação de desmaio. Minha ansiedade atacou todo meu corpo impiedosamente, mal pude ler por completo a nota publicada na internet.

Entendam, desde pequena sofro com essa paixão avassaladora, mas desde nunca ela foi correspondida. No Brasil, pelo menos, não há um grão de areia sobre a história circense. O pouco que consegui é fruto de uma incansável pesquisa na internet e sebos ignorados que vivem em posição fetal no canto escuro literário. Em uma tarde dominical, estávamos meu namorado e eu passeando aleatoriamente na Fnac da Av. Paulista, quando sofri um golpe bem no meio da minha testa. Como assim, eu perguntei com o tom de voz mais alto do que manda a etiqueta, que livro é esse? Água para Elefantes brilhava sua capa circense no meio de outros livros, quase como um orfão velho demais. Eu o agarrei, devorei a sinopse, passei folha por folha e procurei por câmeras. Vai que era pegadinha. Passos apertados e cabelos ao vento me levaram ao caixa mais próximo, naquela tarde, naquele gesto de receber a nota fiscal e levar o livro comigo para casa, eu soube: o mundo circense, o meu mundo, estava ganhando seu lugar ao sol.

Sim, devorei a história. Sim, chorei. Não, o livro não era nenhuma obra de arte, mas abordar a arte que move minha vida era mais do que suficiente. Sara Gruen se tornou uma diva intocável que eternamente terá meu agradecimento. Dona Sara é a Björk circense do meu ombro (não curte The Rasmus? então, desculpae, mas você não vai captar a piadinha mediocre). Enfim, tenho que cuidar para não deixar esse texto enorme. Mania chata de tagarelar sobre assuntos que gosto. Vou me policiar para não soltar nenhum spoiler, sou ótima nisso, meu objetivo nem é comentar tecnicamente sobre fotografia, coadjuvantes, falhas entre livro vs. filme e ai de mim querer perder tempo reclamando da (sempre) péssima atuação de Robert Pattinson. Se houve química, não sei. Christoph Waltz roubou a cena? Sem dúvida alguma. Água para Elefantes não teve sequer a metade da magia circense, assim como o livro, mas ter assistido o meu mundo ganhando forma, vozes e até outros admiradores, não teve preço.

Há muitos detalhes técnicos correndo pelo filme que só uma trupe pode compreender, mas a intenção nunca foi um documentário, e sim o bom e velho romance envolvendo a atmosfera ilusionista do circo. Sou insosa, chatonilda, de mal com a vida e por isso não explico qual é a vibe de água e elefantes. Quem entendeu, ótimo, quem fez cara de estepe rolando no deserto, azar. Recomendo o filme? Claro, meu Deus! Mas o livro sempre vem em primeiro lugar, até porque você não vai querer fazer comentários infelizes. O mais importante é se despir desse insuportável "politicamente correto" e entender que nos anos 20/30 o circo era uma das poucas atrações para distrair a população. Os animais selvagens eram o zoológico da época, logo, uma pessoa enfiando o braço na boca de um leão só podia se tornar na coisa mais sensacional do planeta. É necessário ter extremo cuidado na observação. O uso de animais no circo jamais foi apoiado por mim, porém, usemos do bom senso. August, apesar dos pesares, apesar de ser um filho da puta, por vezes deixou claro a logística circense.

Chorei, tampei os ouvidos, achei tudo muito injusto, mas no final o circo nunca deixou de ser a representação teatral do mundo. Loucos, freaks, habilidades excêntricas, pessoas inescrupulosas, sorrisos falsos, hierarquias, diversão. Tudo coberto por uma tenda onde só quem estiver muito disposto entra para ver no que vai dar. Paga para ver, porque se não pagar, leva cano de ferro na cabeça e é convidado, sutilmente, a se retirar. Outros voam para fora do trem antes da hora, outros escolhem pular para dentro dele e viver o desconhecido. De qualquer forma, não há definição melhor do que a de August: é tudo uma ilusão.

Seja um bom caipira, levante-se e aplauda.

8 de maio de 2011

Eu mãe!?

Não muito tempo atrás, passei pelo susto mais diferente de minha vida até então: meu ciclo extremamente atrasado. Semanas, vá lá, mas quase dois meses? Assim que informei o atraso, a correria começou. Namorado vagando de um lado ao outro arrancando os cabelos, mas ao mesmo tempo prometendo todo o amor do mundo para a suposta criança. Mãe, sempre ela, com seus "calma, filha, para tudo dá-se um jeito". Eu? Não tive muito tempo para tempestades, corri para o médico pedir exame de sangue e corri para acudir o namorado. Quando fiquei sabendo da demora para sair o resultado, exclamei um "Porra! Até lá já tive o bebê", SUS é uma bosta mesmo. A solução, no fim das contas, foi gastar o dinheiro que eu não tenho no melhor exame caseiro oferecido pela mocinha da farmácia. Cheguei em casa, passei como um raio no meio de todo mundo e fui para o banheiro. Fiz o exame. Namorado no telefone parindo todos os cabelos brancos a que tem direito e eu lá, pacata.

Normalmente, em situações de tensão, procuro a sensatez. Essa porcaria é ausente em 99% da minha vida, mas não nega abrigo quando estou prestes a enfiar o pé na jaca. Sempre gostei de perguntar para minha mãe sobre a gravidez dela, sempre tentei entender o que faz uma mulher querer tanto um filho. Essa resposta eu nunca encontrei. Talvez nasci sem esse instinto, mas minha mãe e a calma dela me garantem que um dia vou entender. Me imaginei, então, sendo mãe. Bebê no colo e tudo. Fraldas, chupetas, modificações corporais, hormonais, matrimoniais e até modificações cristãs. Transformar esse marasmo em completa dedicação pareceu muito contraditório ao que costumo ser. Dizem que ser mãe é ser outra pessoa, talvez seja isso mesmo. Talvez, ser mãe seja ser todas as pessoas. Enquanto eu esperava, sentada sozinha em meu quarto com o telefone em mãos, pelo resultado negativo ou positivo, pensei que ser como minha mãe foi e é para mim só poderia me engrandecer como pessoa.

Fazer das tripas, coração. Dar uma de deusa hindu multiplicando os braços. Ser poeta todo dia. Lírica em canções de ninar. Sacrificar... não, se doar voluntariamente. Esquentar o feijão separado do jantar porque a filha não gosta do resultado do microondas. Fazer bolo de aniversário. Para um montão de crianças! Conferir a febre com a testa enrrugada. Dar beijinho nas bochechas, "hum, tá quente". Ter a testa lisinha pela última vez assim que se perceber mãe. Não dormir como anjinho nunca mais. Madrugar. Se emocionar com os passinhos indo pelo corredor e a mãozinha segurando a mão da professora. "Nem olhou para trás". Brigar e ter a paciência que só a intimidade de quem já carregou a pessoa do lado de dentro tem. Escolher o certo, mesmo que o certo seja errado, mas sempre será o melhor. Oferecer companhia. Oferecer um copo de suco. Oferecer a liberdade de escolha.

Quandos os minutos se passaram e havia uma única fitinha aparecendo para mim, eu já não sabia mais se estava feliz, aliviada ou decepcionada. Quando a médica abriu o exame e me disse com um sorriso, "negativo!", eu não compartilhei o sorriso. Foi um susto, sim. Um susto branco. O primeiro dos sustos de ser mãe. Então, compreendi o que muitas só compreendem quando dão netos aos pais, mãe não é palavra, pessoa, substantivo, matéria nem título familiar. Mãe é a minha mãe. O centro insubstituível do universo. A pessoa que muitas vezes encontro ao me olhar para o espelho. A razão. Por isso, se me pego boba com um bebê alheio, se me imagino com o meu, eu sorrio e sei: Sim, eu mãe.