20 de dezembro de 2010

Carta ao São Nicolau

Caro senhor santo,

Firmo aqui nesta carta minha presença adulto-juvenil, um tanto herege outro tanto desiquilibrada mentalmente, mas que seja, para fazer meu balanço anual e também entregar-lhe minha carga pessoal de pedidos fúteis e com extremos exageros. Eu sei que com essa primeira sentença já lhe chamei a atenção, portanto, merecendo vosso digno gesto de colocar os óculos e apertar as vistas para ler, continuo minha humilde carta destinada ao senhor. Deixemos os pedidos para depois, o que eu quero mesmo é abrir vossos olhos para o mundo real e lhe tornar atento ao que ronda vossa reputação. Não sei o que houve nem mesmo quando ocorreu, mas o senhor tem sido plageado por um camarada vestido com roupas vermelhas e que anda de trenó. É, ele anda de trenó, no Brasil até! Sem a menor preocupação com os direitos dos animais ele também escraviza um punhado de renas e as obriga a puxarem um trenó com bilhões de presentes mais ele, que está acima do peso, tudo isso há muitos pés do chão onde a temperatura é menor e os atropelamentos aereos assustam as pesquisas anuais, mas não, nenhuma casa ou apartamento foram atingidos por defuntos natalinos causando tragédias maiores.

Como se plágio fosse pouco, o camarada ainda se valeu da crença popular facilmente maleável e trocou vossa data de comemoração! De 6 de dezembro as pessoas passaram a te esperar (esperar ele) na noite de 24 para 25 de dezembro, provocando assim, uma vergonhosa e desleal concorrência com o menino Cristo. O senhor é capaz de se imaginar concorrendo contra Jesus? E olha que ele não anda sobre as águas. De qualquer forma, Jesus não entra por chaminés nas casas alheias, não é? Pois sim, o camarada se diz capaz de entrar por chaminés - que existem em mínimas quantidades no Brasil e dezenas de outros países - mesmo com uma barriga fora dos limites de qualquer calça que indica diabetes, chopp e falta de bons costumes alimentares. Não termina por ai, o camarada acima do peso, resolveu que seria de bom tom passar a rasteira no membro premium da família judaica-cristã (se é que isso existe): Deus. Sim, senhor Nicolau, Deus! Há milhares de gerações, entra guerra e sai guerra, crianças e toda a Humanidade o chamam de Papai, assim, com p maiusculo. Se quiser guilhotinar culpados, indico os franceses, pois em certas nações é acrescentado "Noel", sabe né, Natal em francês. Nada de romanos, nada de nazistas, franceses.

Imagino que o senhor deve estar ai, no além ou na locação particular de santos, lendo minha carta horrorizado, boquiaberto e com taquicardia, talvez. Não é para qualquer um descobrir tal atrocidade após... erm... mais de 1600 anos segundo meus cálculos. Lamento informá-lo, mas sou obrigada a lhe aplicar o golpe final: Big Daddy ou Papai Noel ou papis cometeu, além do pecado da gula, o pecado Capitalista. As crianças foram educadas segundo os ensinamentos de Big Daddy e não querem castanhas, frutas ou abraços, elas querem celulares e bonecas. As crianças não querem ser pobres, aliás, ser pobre não significa passar fome e frio, mas sim não ter brinquedos no dia do Natal.

Fazendo uma pequena análise caso o senhor já esteja perdido ou tenha desmaiado em trechos importantes: Nós, humanos, comemoramos vosso dia no mesmo dia do nascimento de Jesus Cristo que - me permita dizer - acaba sendo desfocado do centro da festa por mais que eu não queira isso (cof cof). Comemos pernil ou peru ou frango ou bacalhau, talvez porque Big Daddy ache isso uma homenagem à altura para as centenas de mortes de renas por ano ou nos quer tão gordos quanto ele. Bebemos Coca Cola para marcar a presença errónea deste capitalista cara de pau. Trocamos presentes alimentando uma economia a qual o senhor, eu sei, desaprova pois faz com que vendemos nossas almas à perdição. E, no fim das contas, passamos a vida sem ao menos sentir um gostinho da migalha de vossa santa existência na história real da Humanidade, um ser que pisou a terra que pisamos, apertou as mãos que apertamos e abraçou quem nunca nos importamos em abraçar.

É possível que o senhor tenha parado de ler minha carta já no meio das ocorrências mencionadas. É possível que os leitores arcaicos deste blog também tenham abandonado o texto já na terceira sentença, mas quer saber? Eu não me importo. De verdade. E antes que eu me esqueça de meus pedidos fúteis e exagerados, aqui os menciono:
1. Tenha fé na gente, se não por todos, por aqueles que tem fé entre nós.
2. Não coma muitas laranjas. Não é por nada, mas quando ainda visita algumas poucas crianças que acreditam no senhor, o hálito é um cartão de visita.
3. Sabe, eu o ajudei, dei umas dicas das tretas terrestres e tal... é complicado descolar um Sony Ericsson Xperia? Para lhe provar que tenho minha alma reservada da tentação, aceito um usado!

16 de dezembro de 2010

De férias? Forever alone...

Enquanto ainda estava na barriga de mamãe um anjo me cochichava aos ouvidos: "Do lado de cá existem muitas desgraças e tristezas, mas nada se compara as férias"; Eu não dei ouvidos a ele. Quando cheguei ao lado de cá e entrei na 1ª série do ensino fundamental, as férias foram a primeira amostra grátis que Deus me enviou como prévia da vida encarnada. Mesmo prevendo a tormenta iminente eu desejava o começo das férias com todo fervor que nenhum evangélico é capaz de ter. Acredite. Ao invés de aprender a ler a história da galinha Zaza e a escrever três linhas seguidas de C, eu queria férias, sem saber muito bem como funcionava isso, mas eu sabia que não tinha que acordar cedo para ir à escola.

Ah, a inocência...

Na primeira semana eu acordava de madrugada para por o pé na estrada para visitar os parentes gauchos por parte de pai (é, tenho um pai, por mais que eu queira ter nascido de chocadeira). Passavamos quatro dias, se não me engano, dormindo em hoteis duvidosos, meu pai achava uma viagem de carro muito mais proveitosa. Nem se eu quisesse muito poderia brincar de alguma forma indo do carro para o hotel e vice versa, para completar cobravam caro pelas barras de chocolate do quarto e eu não tomava banho de jeito nenhum nas espeluncas de beira de estrada. Já era cheia de "não-me-toque" desde pequena. Resumindo então, eu passava uma semana acordando de madrugada, sem banho e sem doces e sem vida saudável para uma criança. Tudo isso para chegar em um fim de mundo no RS onde não havia energia nem água quente, só um primo um tanto mais velho que eu que adorava brincar com armas de brinquedo e terra. Muita terra.

Eu presenciava ovelhas sendo abatidas e suas peles arrancadas, ovos pobres sendo estourados e minha tia perdendo a dentadura por conta das nauseas provocadas pelo cheiro. "Cagaram no mundo!", meu primo gritava pela fazenda. Minha mãe, sempre muito bem aventurada desde que conheceu meu pai, teve a sorte de encontrar uma cabeça de ovelha com os olhos esbugalhados na geladeira da casa de titia em plena madrugada. Não dormi naquela noite por causa da sede e vontade de fazer xixi. Minha mãe não pregou o olho pelo resto dos dias no cu do mundo, suas únicas palavras foram "São Paulo, quero ir". Dias depois, indo embora e com uma bagagem invejável de desgraças, eu brincava com meu primo e seus coleguinhas pseudoalemães quando, por força do Mal, topei meu dedo no degrau da casa e arranquei a unha do meu dedão do pé. Dali seriam mais quatro dias sem sono nem banho para chegar em casa e voltar a estudar.

Do final do ensino fundamental para o começo do ensino médio meus pais resolveram mudar a rota. Minha avó paterna (que não era um Chacal embora isso ainda seja questionável) havia falecido e meu pai perdera o interesse em visitar seus parentes gauchos. "Estou livre!", pensei. O cosmo deu uma risada sarcástica sabendo de algo que eu não havia percebido ainda. As férias começadas e eu ainda em casa com meus pais sem rota definida. "Amanhã a gente resolve", eles me disseram. Como de costume dos Lang (minha família, fazer o que?) o dia seguinte não havia despontado por completo no horizonte e minha mãe me cutucava na cama, eu estava acordando de madrugada para viajar. O apartamento virado do avesso com malas por cima de mim. minha mãe metade descabelada outra metade suicída, me dizia que estavamos indo para a praia. "Mas por que de madrugada?", eu perguntava sendo atingida por peças de roupa, "Porque é assim que tem que ser".

Acontece que na idade em que eu estava tudo era porque tinha que ser. Como meus braços finos demais, pernas longas demais, sem bunda nem peitos e virando um patinho feio para só depois me tornar um pato não tão feio assim. Eu não queria usar biquini. Eu não queria ficar exposta a luz do sol para que todos soubessem de minha existência, mas estávamos indo à praia. Era Natal e todos queriam ir à praia, entenda, SP tem milhões de habitantes. Todos esses milhões queriam passar de uma vez em uma única rodovia. Todos esses milhões iriam entupir a rodovia. Eu e mais todos esses milhões iriamos passar uma madrugada nublada inteira na estrada, dentro de nossos carros, ouvindo nossa música e, quem sabe, presenciando uma briga familiar. Isso nunca me deixou muito contente. Meu pai se achava muito esperto saindo de casa na madrugada achando burlar todo um sistema anarquista que mantém as férias um pesadelo. Ele e mais outro milhão de pais se achavam realmente muito espertos.

Chovia. Uma vez minha mãe apontou uma coisa estranha na areia e achou legal, eu não achei nada legal, mas ela insistiu que aquele brinquedo era meu e me obrigou a pegá-lo. "Não!", moças gritaram ao longe, "Isso é uma água-viva!", eu meio que sempre dependi de terceiros para sobreviver. Todas as vezes, sem uma única falha, peguei virose e mais uma semana de férias da escola porque estava vomitando a alma. O único momento digno de memória, mas que mesmo assim não me lembro, foi quando mamãe encontrou uma nota de 200 Cruzados rolando nas ondas do mar (sim, sou da époda do Cruzado mesmo, mas e você que é feio?) e com ela nos comprou picolés. De todas minhas férias escolares tenho somente uma recordação agradável e, digamos, duvidosa já que não me lembro e minha mãe talvez tenha inventado só para que eu não tenha mais um trauma.

O preço pelos meus desejos atendidos de férias foram míseros Cruzados que hoje não compram nem conselho de padre e a constatação de que o Inferno é aqui e agora.

NOTA:
Eu queria agradecer a equipe do Blorkutando pelo primeiro lugar com Afinal, o que querem os homens? e De férias? Forever alone..., é gratificante ter um texto reconhecido e bem aceito pelos leitores.

10 de dezembro de 2010

Morreu de Raio e Zé Trovão

Os vizinhos decidiram que seria de bom tom transformar o sobrado deles em um prediozinho de três andares, adicionando assim mais um andar na casa. Isso porque um dos filhos do casal vai juntar as escovas de dente com a namorada que mora fora de São Paulo. Hoje é moda "se casar" mas continuar morando na casa dos pais ou ir morar na casa dos sogros, seja em cima, no quintal dos fundos ou na casinha do cachorro. Lógico que com eles não seria diferente.

Reformas implicam muitos projetos, muitos cálculos e muita sujeira, mas levando em consideração que moro no suburbio posso dizer que não houve muitos projetos, provavelmente cálculo nenhum e com certeza mais sujeira que o previsto. As reclamações também chegaram, não da nossa parte por conta do barulho, da poeira, do cimento na água dos cachorros ou da irregularidade da coisa toda (porque decisões da subprefeitura é coisa pros fracos), mas sim deles porque, apesar de estarem construindo quase em cima do nosso quintal, eles não querem conviver com nossos cachorros que estão ali a) porque é o quintal deles e b) é o único lugar que existe para cagarem. Segundo a vizinha é um absurdo os cachorros cagarem no lugar que tem por direito já que ela resolveu abrigar seu filho desempregado mais "namorida" debaixo de suas asas por mais, não sei, mil anos e isso bem no nosso quintal. Para ela não é o suficiente o que já fazemos: limpar o quintal de duas a três vezes por dia (limpando tanto cocô quanto cimento e restos de obras). Não. Assim como para nós não é o suficiente perder nosso quintal, queremos mais, queremos um "Pesque e Pague" bem nas janelas de nossos quartos. Sim!

De qualquer forma, o que mais me chamou atenção nessa obra, acredite, foram os pedreiros. Como eles trabalham bem ao lado de uma das janelas do meu quarto volta e meia consigo ouvir uma conversa ou outra. Acordar de manhã com "CUIDADO, MULEQUE!" é um de meus desejos sendo realizado. Então, em um fim de tarde nublado, eu em casa, os pedreiros trabalhando no que costumava ser meu quintal - bem em frente à janela do banheiro porque desgraça pouca é bobagem - aconteceu, digamos assim, uma linha cruzada, um conflito de interesses. Eu queria fazer xixi, eles queriam ganhar o dinheirinho do mês, e a janela impedia ambos de seguirem com seus sonhos de uma vida mais digna. Você que reclama dos banheiros da cidade ou do seu trabalho ou, sei lá, da buatchi não sabe o que é dividir um banheiro com pedreiros desconhecidos.

Fechei a janela e ainda pendurei uma toalha para não restar dúvidas quanto a minha privacidade e a deles. E dai a gente senta e reza, meu filho. Foi nesse momento de pura compreensão humana e filosofia transcendental que eu ouvi mais um dialogo, o dialogo. Imagine um barulho corriqueiro de obras, cimento sendo remexido, pás, coisas caindo e alguns trovões avulsos para incorporar a situação (dispense o barulho de xixi):

Fulano 01: Acho que vai chover...
Fulano 02: Não gosto disso, não.
Fulano 01: E tu tem medo de raio, é!?
Fulano 02: 'Cê num ouviu sobre o cara que fez aquela obra lá em Santos!?

Olha, é meio delicado dizer isso, eles eram pessoas do norte ou nordeste do país. Complicado dizer porque as pessoas acham que é comum ou engraçado tirar sarro/ter preconceito dessas pessoas, mas não é para mim. Fato é que eles eram de outra região e, como todo mundo sabe, eles tem um sotaque bem enrolado, portanto nem sempre é possível entender tudo, apenas 50% da conversa. Só entendi que era em Santos, o resto deduzi ser um cara fazendo uma obra lá, não poderia ser algo muito diferente disso...

Fulano 01: Ele tinha medo de raio?
Fulano 02: Ele morreu de raio, cabra!
Fulano 01: E foi!?!
Fulano 02: Foi! 'Tava no telhado e o raio pegou ele.

Reticências pausaram a conversa. A janela estava fechada, mas consegui imaginar a cara do Fulano 02 olhando para o céu meio ressabiado, assim como quem quer sair correndo com as calças na mão. Dei descarga - é meio constrangedor dar descarga, não acha? - e sai do banheiro prontíssima para imortalizar o Morreu de Raio e Zé Trovão.