30 de setembro de 2010

Benjamin - A Saga

Meus três "meninos" são adotados, vira-latas que alguém encontrou e perguntou se queríamos ou que adotamos em alguma feira. Não agradeçam pela graça alcançada, eu vou escrever sobre adoção versus compra qualquer hora dessas e vou me empolgar no assunto. O caçula da família é o Benjamin, que já postei foto aqui e encho meu Flickr de montagens fofinhas com ele. O adotamos em um estacionamento de uma loja há um mês atrás (ou quase isso). Tava indo tudo muito bem, eu tava feliz com meu filhote que me fazia esquecer um pouco da minha falecida Laika. Dias vão, dias vem e o meu pequeno Benjamin cresce rápido. De filhotinho pequeno e indefeso, ele vai se transformando em uma bela surpresa.


O mínimo que se espera de um cão adotado - além da eterna gratidão dele - é que o bichinho não tenha raça definida. Você não espera por um Beagle, muito menos por um Rottweiler!
Não é só especulação. Hoje mesmo fui a veterinária pra consulta rotineira (vacinas, blá blá blá) e nem precisei perguntar:
- Você tá sabendo que ele vai ficar grandão, né? - ela me perguntou um pouco surpresa pelo meu gosto pra cães.
Não sou o tipo de garota que escolhe um Rottweiler pra bichinho de estimação que dorme na mesma cama e guti guti. Acho que nenhuma garota é desse tipo, na verdade.
- Suspeitei desde o princípio por causa das patas dele. O Benjamin cresceu bem rápido mesmo.
Eu e minha Ansiedade não queríamos escutar uma certa verdade, seria perigoso pra minha saúde atualmente debilitada, mas eu abri a boca:
- A gente acha que ele tem um pouco de... Rottweiler...
A veterinária não me deu tempo de respirar e perceber que havia pronunciado o nome proibido:
- Ele tem bastante jeito de Rottweiler.
Poxa, eu pensei, precisava enfatizar com tanto afinco o "bastante"? E o jeito de dizer "Rottweiler"? Parecia algo como: que merda você fez, minha jovem! Então ela apontou todas as manchas semelhantes e comentou mais uma vez sobre as patas. As gigantescas e desengonçadas patas. Minhas mãos formigaram quando ela disse, assim como quem não quer nada, que um adestramento seria uma boa ideia. Aquela boa ideia que se tem, sei lá, quando alguém resolve usar o cinto de segurança no banco de trás. "Ah, é uma boa ideia não voar de cabeça no painel do carro".
Meu namorado, que já desconfiava da phina procedência do nosso Benjamin, decretou irredutível: Ele não vai morar com a gente no apartamento. Eu, mais irredutível ainda, e sempre com meu jeito "fodace, eu me amo", decretei que ele iria morar sozinho então. A história do Benjamin não é diferente dos outros vira-latas (super contraditório chamá-lo de vira-lata, mas vamos embora), ele foi abandonado com seus irmãos em uma caixa de papelão. Fácil assim. Ele mal tinha desmamado. Os dentinhos estavam crescendo ainda. A coisa funcionará de um jeito simples: ele vai com a gente, senão der certo, pelo menos tentamos, e mando ele pra casa dos meus pais onde sei que ele terá todo o carinho do mundo.

Mas falando sério, Rottweiler não é um cão naturalmente agressivo, não nasce com um instinto assassino, nem tem fome de criancinhas. Assim como qualquer animal, sua índole depende da índole do seu dono. O mundo tá ai pra agregar todo o tipo de gente, em sua maioria Idiotas Profissionais que criam Animais Idiotas Profissionais. Se você treinar seu cão pra rasgar qualquer coisa que se mova, é o que ele vai fazer, porque sua vida gira em torno do dono. A APRO (Associação Paulista do Rottweiler) existe pra quebrar tabus. Benjamin talvez seja o Rottweiler mais barato já visto. Talvez seja apenas um baixinho com cara de bravo. Ele continua sendo um mistério, ninguém sabe se ele cresce e se torna um Rottweiler que impõe respeito ou se será um baixinho invocado. De qualquer forma, ele é meu Rottweiler Vira Lata. É meu eterno bebê.

15 de setembro de 2010

Para Sempre

Tenho que escrever sobre a eternidade. Vamos nos sentar e filosofar sobre a receita do Para Sempre.

Eu aprendi que essa extensão de nossas vidas pertence ao mundo das fábulas. Aprendi que pode durar tanto por um segundo quanto por toda uma relação de anos. Aprendi também que o Para Sempre se esmigalha como farelos de pão, e se consolida como amor de mãe. Da semana que vem para outra década, depende do tamanho do passo que nós damos. É flexível, metafórico, abundante. Eu só não aprendi a morrer. Me falta entender ainda como lidar com o preço do Para Sempre: a perda.

Quando eu tinha seis (ou sete) anos de idade meus pais adotaram uma cadelinha, cria da cadelinha da minha meia-irmã. Eu era pequena, ela menor ainda. Tinha um mês. Seu nome seria Bolinha por causa do formato dela em minhas mãos, mas meu pai - em um surto raro de criatividade e bom gosto - escolheu um nome melhor. A minha infância, minha vida, e todas minhas experiências então ganharam um batismo.
Levamos a Laika para nossa casa.
Mais do que brincar, cair e levantar, nós duas dividimos uma irmandade. Ela cuidava de mim, eu cuidava dela.
Com dezesseis anos a Laika ficou doente, muito doente, e eu a ninei. A ninei lhe passando toda a segurança desse mundo, e minha Laika dormiu.
Ela dormiu, e sonha agora com um Para Sempre mais concreto, em uma estrela qualquer. Se me caem agora as lágrimas, é porque aprendi a diferença de "existir com" e "amar apesar de".

Viver Para Sempre requer coragem. É preciso força para encarar a rotina, precisamos nos acostumar com a vertigem da roleta russa, porque tudo roda. A vida é um ciclo. Querendo ou não, ela irá girar.
Amar Para Sempre requer compreensão. Ou você compreende que o Para Sempre é como areia ao vento, ou você ama superficialmente.

Eu aprendi que essa extensão de nossas vidas pertence à nossa crença. Aprendi que não depende de ser ou não feliz. Não depende da rotina, do medo, da insegurança de perder. Para Sempre é simplesmente o respeito à vida. Desejar o melhor. É a pura verdade, sem fábulas.
Para Sempre é amar em continuidade, é não deixar o sonho morrer, pois eterno é aquele que amou. Apesar de tudo.